Eterna Discórdia
7 Desencontros
O almoço na Toca seguia seu curso natural. Hermione, já com uma bela e espalhada barriga de seis meses de gravidez, ajudava a sogra picando algumas vagens que seriam acrescentadas à salada.
Gina, com sua barriga de sete meses, também ajudava na tarefa. As pernas inchadas de ambas impediam que elas ficassem em pé por tempo demais.Conversavam animadas, fazendo planos para a festa de batizado, enquanto os homens da casa armavam a mesa no jardim para aproveitarem o agradável clima de primavera. – O enxoval do Sev está quase pronto, mamãe – informou Gina que já se habituara ao apelido sugerido por Hermione. – Faltam apenas algumas fraldas, mas isso o Harry ficou de comprar amanhã.– Ótimo, Gina! – exclamou a Srª. Weasley, que naquele momento cortava algumas fatias de bacon para incrementar o purê de batatas. – E você, Hermione? Já terminou o enxoval da minha neta?– Ah, ainda não – respondeu meio desanimada. – Eu pensei em escolher o nome primeiro, para poder bordar nas roupinhas.– Ai, a difícil decisão do nome – comentou o Sr. Weasley que entrava na cozinha naquele momento. – Não se preocupe, querida. Quando você menos esperar, um ótimo nome vai surgir em sua mente.– Hunf! Por que o Harry não esperou esse momento antes de escolher o nome pro nosso? – brincou Gina se fingindo zangada.O pai de Rony depositou o álbum de leões que Hermione levara para mostrar aos sogros sobre o balcão da cozinha e foi terminar de levar os pratos e talheres para fora.Quando o relógio soou uma da tarde, o almoço foi servido entre conversas animadas e planos divertidos para as crianças. Fred revelava aos poucos ter a mesma personalidade do tio, de quem ganhara o nome, e fazia diversas travessuras, arrancando gargalhadas dos avós e um comentário típico do pai coruja:– Quando éramos pequenos, Fred e eu, mamãe nunca ria das nossas brincadeiras.– Relaxa, amor – pedia Angelina. – Isso é porque eles eram seus pais, e não seus avós.A família ria muito entre um prato e outro, evitando mencionar a chegada de Rony, que todos sabiam que aconteceria por aqueles dias.Na hora de tirar os pratos, todos resolveram ajudar e só quando a família inteira chegou na apertada cozinha é que a Srª. Weasley reparou que Hermione não estava entre eles. Chegou até a janela para ver se a nora estava brincando com uma das crianças, mas a morena não havia se levantado da mesa e apertava a barriga com uma expressão de dor e angústia.– Arthur! – chamou Molly. – Corra, Hermione não está bem!O Sr. Weasley correu pelos degraus que davam para o jardim e alcançou a nora, perguntando como ela se sentia. Hermione apenas o olhou, o choro correndo solto pelo rosto. Gui chegou logo atrás e ergueu a cunhada nos braços, aparatando com ela no St. Mungus. George, Harry e os outros seguiram atrás dela e apenas a Srª. Weasley e Gina ficaram na Toca, junto das crianças.Na sala de estar da casa, um Rony coberto de fuligem aparecia tenso e saudoso do aroma da comida de sua mãe. Entrou pelos cômodos e só encontrou movimento na cozinha. A expressão preocupada no semblante da mãe e da irmã o fizeram estancar antes que conseguisse sequer cumprimentá-las.– Rony! – exclamou a matriarca, quando o viu, com um tom de voz entre o emocionado e o triste.Gina também abraçou o irmão do jeito que pôde e deu-lhe um sorriso cansado.– Nossa, você está incrível! – disse olhando a barriga da irmã. – O que é?– Menino – respondeu com um nó na garganta.A ruiva pensava em Hermione no hospital naquele momento. A amiga já foi vítima de um princípio de aborto no começo da gravidez. Seria possível que o destino iria ser tão cruel a ponto de fazê-la perder o bebê quando o marido voltava e eles poderiam enfim se acertar?– Onde estão todos? – perguntou curioso e preocupado.As duas mulheres se entreolharam indecisas. Não sabiam o que contar para o rapaz, que já havia sentado e se servia de purê de batatas com molho de ervilhas.Elas se sentaram de frente para ele, escolhendo as palavras para dar a notícia. Gina pensou numa alternativa e pegou o álbum sobre o balcão, empurrando-o na direção do irmão. Ele o abriu curioso e parou ao ver a foto de Hermione na primeira página.– O que tem isso? – perguntou sentindo o peito apertar e a respiração ficar difícil.– Estão todos no St. Mungus, Rony, querido – disse a Srª. Weasley tocando a mão do filho com as pontas dos dedos.– Mas quem... – ele viu o olhar de Gina descer em direção ao álbum. – A Mione está... Digo... Ela está bem, não está?– Ainda não sabemos! Faz poucos minutos que eles a levaram para lá – informou a matriarca.Ele levantou, largando a comida em cima da mesa, e andou pela cozinha tentando colocar as idéias em ordens. Não sabia se deveria ir até lá ou não. E se sua presença só piorasse as coisas, causando constrangimento?– Por que você não vai até lá, Rony? – sugeriu Gina pondo fim as dúvidas do irmão. – Tenho certeza que ela vai se sentir melhor com você por perto.
– Sim eu vou – disse decidido, mas antes de aparatar perguntou: – Mas o Erick, ele não vai estar lá?– Claro que vai – respondeu Gina sem entender como Rony poderia saber o nome do obstetra se ele desconhecia a gravidez de Hermione. – Afinal ele é quem tem cuidado dela esse tempo todo.A indecisão tornou a brilhar nos olhos dele. Respirando o fundo e passando as mãos pelos cabelos, ele tornou a se sentar.– Então... então eu... – começou a falar sem saber exatamente o quê.– Então vai ficar tudo bem, Rony – completou a Srª. Weasley impaciente. Ela não sabia de todos os problemas que o casal estava enfrentando pelo mal entendido no jantar há quase quatro meses. – Você está em condições de aparatar?Ele apenas balançou a cabeça afirmativamente. – Perfeito. Agora se levante, pegue esse álbum e aparate lá no St. Mungus. – e vendo o filho dar o primeiro impulso para fazer o que ela ordenava, concluiu. – Você vai ver que o Dr. Erick é um ótimo obstetra. Sua mulher e sua filha estão em boas mãos.O estalo seco de aparatação ficou pela metade. As palavras da Srª. Weasley deixaram Rony tão perturbado que ele aparatou no St. Mungus sem uma perna. A outra parte ficou na Toca.A dor que ele sentiu foi enorme, mas só teve noção do que havia acontecido quando um grupo de pacientes olhou espantado para ele. Por um instante pensou estar mal-vestido, mas logo desequilibrou e gemeu de dor.Os enfermeiros correram a socorrê-lo, mas ele brigava que precisava ver onde a esposa estava. A muito custo eles conseguiram levá-lo para a emergência e logo um grupo de medibruxos especializados foram até sua casa para recuperar a parte da perna que havia ficado para trás. A mãe do rapaz acompanhou a equipe de volta ao hospital para lhe fazer companhia.– O senhor vai ter que fazer repouso até amanhã de manhã – informou o medibruxo que o atendeu.– Não, eu não posso, o senhor não entende! A minha esposa está aqui e ela está grávida e... – ele parou de falar. Era a primeira vez que dizia aquilo e nada no mundo lhe pareceu mais maravilhoso do que o som daquelas palavras. Respirou fundo, com uma careta estranha produzida pela dor que ainda sentia e pela alegria de saber que seria pai e repetiu a frase, saboreando cada letra. – Minha esposa está grávida! Eu preciso saber como ela está...– Sinto muito, senhor, mas o seu caso foi muito grave. Precisa ficar de repouso até amanhã. Vou lhe receitar uma poção que irá fazê-lo se acalmar. Se tudo estiver bem até o fim da tarde, eu prometo que permito uma visita à ala de sua esposa, está bem?Ele não teve outra coisa a fazer a não ser concordar, ainda contrariado. Mas a alternativa do médico era melhor do que ter que esperar o dia seguinte para ver como Hermione estava. Ficou imaginando o quanto ele foi bobo de pensar que ela o estava traindo. Erick era apenas o obstetra.No fim das contas, o tal Erick Crosser tem uma noiva no ministério que não tem nada a ver com a SUA esposa.Abriu o álbum e começou a ler cada página, emocionando-se com as fotos, as receitas... Chorou muito quando leu sobre a ameaça de aborto e agradeceu pelo fato de não ter passado de um simples ameaça.Quando o remédio fez efeito ele adormeceu, com o álbum aberto sobre o colo. Acordou quando a noite já havia caído e, pela excelente recuperação, o médico permitiu que fosse transportado até o quarto que Hermione ocupava.A Srª Granger fazia companhia para a filha, e todos os Weasley e Harry já haviam voltado para casa. Quando viu o genro chegando, lançou-lhe um olhar ofendido, mas mesmo assim permitiu que ele se aproximasse de Hermione.A moça dormia um sono tranqüilo, induzido por poções, e sua respiração empurrava a barriga redonda para o alto.– Ela vai ficar bem? – perguntou em voz baixa.– Vai sim – respondeu secamente a mãe da moça. – Foi apenas um alarme falso. É comum nas mulheres da minha família. No meu mundo chamamos isso de Braxtons-Hicks.– Então, a neném... elas estão... tudo bem?– Sim, tudo perfeito.Ele se aproximou mais de Hermione e acariciou a barriga que abrigava sua filha. A moça suspirou na cama e abriu os olhos com dificuldade. A claridade das luzes que pendiam do teto do quarto era muito forte.Mas mesmo sem enxergar direito, ela soube quem a havia tocado e sorriu. Levantou a mão até segurar a dele e ambos ficaram ali, sem falar nada, apenas aproveitando a sensação de ter uma família unida, pela primeira vez.Depois do que pareceu uma eternidade de paz, Rony finalmente disse:– Eu não tenho muito tempo aqui. Logo preciso voltar para meu quarto e...– O que lhe aconteceu? – perguntou Hermione tensa, querendo se levantar e recebendo um olhar zangado da mãe e do marido.– Não foi nada. Fique tranqüila, por favor! – pediu em voz baixa e carinhosa. – Foi só um acidente de aparatação. Amanhã vai estar tudo nos seus devidos lugares e eu venho aqui para buscar vocês duas, está bem?Hermione não respondeu. Olhou constrangida para a mãe, que entendeu o que a filha queria e saiu do quarto, com uma desculpa qualquer. A jovem voltou a olhar para o marido e respondeu, um tanto sem graça:– Eu não quero voltar para casa, Rony – e antes que ele protestasse, completou. – Não quero voltar AINDA. – Mas por quê? Você passou isso tudo aqui sozinha e eu não acompanhei nada. E agora que você mais precisa de mim, não vou poder ficar do seu lado?O olhar do ruivo era puro desespero. Se ele soubesse que Hermione estava grávida, jamais teria ido à França. Teria mais paciência com ela quando assumiu o novo emprego. E acima de tudo, não teria deixado Julia lhe beijar.– Isso não é verdade. Eu não passei por nada sozinha, sua família e meus pais estiveram comigo o tempo todo. E não é agora que eu mais preciso de você, porque eu sempre vou precisar. E você vai poder ficar ao meu lado, sim. Pode ir me ver na casa da minha mãe. Eu só acho que a gente precisa de um tempo para poder conversar e colocar os pingos nos is. – Você tem certeza disso? – perguntou escondendo a frustração.– Tenho. Vai ser melhor para todo mundo.Ele ainda ficou ali, por um tempo, apreciando a barriga da esposa. Quando a enfermeira veio buscá-lo, despediu-se de Hermione com um beijo apaixonado e saudoso, que fez a morena suspirar.Estava quase na porta quando disse para a enfermeira, que empurrava sua cadeira de rodas:– Esqueci uma coisa!Eles voltaram até a cama e Rony, contrariando todas as ordens médicas de não fazer esforço com as pernas, se levantou da cadeira e deu um beijo na barriga de Hermione, enquanto murmurava baixinho, como se quisesse que apenas a bebê o ouvisse:– Até mais, minha florzinha!Sentou-se novamente e só então aceitou voltar para seu quarto, deixando para trás uma Hermione completamente emotiva e uma Srª. Granger novamente de bem com o genro.
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