Está Tarde.
1 '' Muito Mesmo Tarde ''
Quisera eu,poder ter mais tempo. Gostaria eu,ter muito tempo. Ficaria menos tempo comigo Se tivesse mais tempo?
(...) — Ei coelho? Pra quê tanta pressa?- Perguntei, enquanto eu era praticamente arrastada para a imensidão da floresta,com os pés descalços, não que eu me importasse muito com isso.- Tem alguma surpresa pra mim por estar tão calado e não me responder?
O coelho tampouco pareceu interessado em responder, apenas ia em minha frente, me mostrando o caminho, mesmo que agora eu soubesse exatamente onde estávamos indo.
Em uma área mais aberta da floresta Lá estava eu, de frente para aquela mesma mesa,onde sentei na primeira que vez que vi esse maravilhoso mundo. De frente pro chapeleiro, só havia algo estranho, talvez uma piada que eu não sabia..
A comum mesa grande,não estava grande, estava pequena,uma mesa para dois, e o chapeleiro estava lá. Quando me dei conta o coelho já havia desaparecido,aquele coelho feio. Iria conversar com ele mais tarde!Com meu vestido azul, um pouco rasgado e meus pés. Um pouco sujos também, fui em passos rápidos, e grandes, tinha um delicioso chá e um bolo.
Aquilo me trazia boas recordações, recordações de quando eu cheguei. O Chapeleiro estava mudo, aquilo não combinava com ele,aquela loucura que tanto eu quanto ele tínhamos não estava presente ali...
Achei isso estranho,mas quando ele me indicou a cadeira, provavelmente aguardada por mim, e sorrindo com um dos sorriso dele, aceitei o gesto pelo meu amigo! Ficamos em silêncio durante alguns minutos. Ele me ofereceu um pouco de chá, estava com um gosto estranho, até me tencionei a perguntar o que tinha posto ali, mas vendo os olhos brilhando, notei que ele queria me agradar, ele próprio devia ter preparado o chá..Sorri para ele,que me retribuiu,resolvi tirar o gosto amargo do chá com o bolo..E como estava bom aquele bolo..
Enquanto eu comia e fazia o bolo sumir do pequeno prato, ele apenas se mantinha em silêncio, sorrindo abertamente com os dentes amarelados, um perfeito sorriso amarelo, mas algo estava estranho..Ele olhava constantemente para o relógio..Ele não faz isso,isso é o coelho, o coelho que é obcecado por horas, minutos, e segundos. Ele não é assim. Resolvi perguntar se estava tudo bem..
– Chapeleiro! Você não está me contando alguma coisa,o que houve? Porque está em silêncio? — Perguntei, não muito alto,porque estávamos de frente um para o outro. — E porque está olhando as horas?! Tem alguma coisa marcada?!Até eu mesma,fiquei surpresa comigo. Nunca falei assim com ninguém, nunca falei assim com o Chapeleiro,me senti mal no mesmo instante.
Pedi desculpas em um sussurro, ele ainda estava sorrindo, não tocando em nada na mesa, apenas se mexia para ver o relógio..Quanto mais eu perguntava o que acontecia, maior o sorriso dele se alargava...
Resolvi fazer uma última pergunta, depois de um tempo que eu não sabia direito que tinha passado.- Chapeleiro, você ainda é meu amigo? — Perguntei, sentindo minha voz fraca, pensava que ele estava bravo comigo, que eu tinha feito algo que não devia, eu queria saber...
Ele,curiosamente murchou o sorriso, o brilho nos olhos dele desapareceu,mas isso só aconteceu quando ele,dessa vez lentamente puxou a manga de sua blusa para trás,e mostrou o relógio para mim..
Marcava seis horas em ponto..A floresta estava começando a ficar mais escura, estava frio, eu senti isso, senti um arrepio subir por minha espinha, minha voz completamente desaparecida, por mais que eu tencionasse a ficar perguntando e perguntando o que houve, eu não conseguia nem falar direito...Ele, virou o relógio para ele, depois pra mim,os ponteiros se movendo um mais lentamente que o outro, indo e voltando,virando e virando. Acho que até fiquei enjoada com isso. Mas meu enjoo sumiu quando ele falou,até mesmo a voz dele estava estranha, mais grave, mais rouca...
– Seu tempo acabou,minha amiga Alice...- Ele me respondeu, o relógio marcava 6:10, eu não entendi aquilo, mas a resposta veio como um baque, minha barriga começou a doer, me senti tonta, o sorriso dele voltou, mais forte. Mas os dentes dele, os olhos dele, estavam diferentes,estava escuros. Eu senti medo dele, muito medo. Tanto medo que tentei me levantar e correr,mas apenas me levantei e me derrubei com a cadeira.
No chão da floresta, eu senti pela primeira vez algo diferente de excitação ou empolgação, senti medo. Senti um horror crescente no meu peito..Rastejando tanto para trás, nem me dei conta que eu estava com as costas firmes em uma árvore, não conseguia me mover para o lado. As raízes fortes da árvore,misteriosamente estavam me segurando,segurando meus braços rente ao chão, o que houve com aquela floresta? O que houve com meus amigos? O que houve com o chapeleiro? Ele,antes sentado comigo,agora estava na minha frente,com e relógio firme nas mãos, como se fosse uma cruz,e eu fosse um demônio, eu me senti assim.. Ele se ajoelhou,e se aproximou do meu rosto, senti um nojo de mim quando ele me lambeu, com aquela linguá áspera,parecida com a de um certo gato..Senti medo quando ele colocou o relógio em meu rosto, ameaçando me bater com ele, estava assustada, queria gritar por ajuda, mas nem isso eu conseguia..Ele em sussurros calmos,porém atormentadores falou no pé de meu ouvido..
– Sabe Alice...Eu queria mais tempo..- Ele disse,eu não havia entendido nada,mas ele continuou em segundos. -Queria eu ter mais tempo,queria você ter mais tempo, queria muito tempo mais. Mas o seu tempo acabou,e o meu está quase. Então tenho que ser rápido..Eu não tinha entendido o que ele queria dizer com isso, mas entendi completamente quando,ele apertou um botão do relógio,e de lá magicamente saltou uma ponta de um punhal, afiada a meu ver, muito afiada, aquilo me assustou. Mas eu estava prestando mais atenção no que ele queria me dizer..
–Quisera eu,poder ter mais tempo. Gostaria eu,ter muito tempo. Ficaria menos tempo comigo Se tivesse mais tempo?-
Ele ressaltou isso,em poesia. Mas eu entendi que ele queria que eu respondesse a pergunta da poesia,eu acenei freneticamente,eu ficaria com ele, mas eu meu íntimo eu mesma sabia que se escapasse nunca mais queria estar perto dele,eu sabia,ele sabia,porque ficou negando com o dedo indicador,e um sorriso sádico, muito bem feito plantou de seu rosto,me assustando ainda mais.. Com o punhal, ele rasgou meu vestido na região do peito, meus seios ficaram a mostra,ele ficou os encarando, enquanto eu morria de nojo por ele deliberadamente colocar a boca em cada um..Mas a parte pior veio quando ele,com uma mão colocou o punhal na região de meu coração.. Me lembro claramente do sorriso dele,e da falta de brilhos nos dois olhos dele,antes verdes,agora escuros..Ele certeiro, cravou o punhal de relógio no meu peito..Senti o fio transpassar as veias do meu coração, inundei minha boca de sangue,e cuspi no rosto dele,o sujei com meu sangue, ele pareceu gostar, porque levou um dos dedos da mão livre no sangue de seu nariz, e levou até sua boca..Sorrindo ainda mais, me assustando ainda mais..
Eu ouvi umas risadas..Risadas familiares para mim, era o gato.. O gato estava rindo..De mim..Ele estava flutuando ao meu lado, rindo de mim, apontando para mim e se virando para o chapeleiro, que se encontrava rindo, enquanto eu não me sentia mais viva. Não morri quando o Chapeleiro me cravou um punhal no peito, morri quando vi que perdi aqueles dois..Eu senti, ele largando o punhal dentro de meu peito,e tirando meu coração a força, sujando as raízes das árvores com meu sangue..A árvore ainda me segurando..
Minha última visão foi a de quê o Chapeleiro,ficou olhando pro meu coração e no fim jogou no ar, onde o gato voou e pegou com a boca, e começou a comer..Meu olho estava se fechando, provavelmente nunca mais ia abrir..O último gesto, de meu antigo amigo louco,foi um sussurro,que eu não tinha entendido, e um gesto de mão..Acenando pra mim...
Aquela poesia..
Seu tempo acabou..
Realmente,meu tempo acabou.
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