Parte 5

Draco acordou sentindo a cabeça pesar e a boca seca, além de tentar juntar recortes da noite anterior. Conversa com a Granger, irritação constante com um Weasley, Blaise chamando Hermione para dançar, o comichão em seu corpo de ver Hermione com um Weasley. Depois com Blaise. Apesar da cabeça ainda doer, sentiu uma inesperada leveza ao lembrar das danças que compartilhou com a grifinória.

Afinal, onde estava?

- Bom dia, Malfoy — a voz dela fez com que se sentasse rapidamente. A dor voltou com tudo. Merda de ressaca.

- Onde estou? Seu quarto de monitoria?

- Acho que precisa de um desses — ele pegou o copo, sem nem perguntar o que era e sorveu o líquido azulado de uma vez. Instantes depois sentiu o efeito começar a percorrer seu corpo.

- Trazendo loiros inocentes para seu quarto? Esperava mais da monitora-chefe, senhorita Granger.

- Muito engraçado, Malfoy. Da próxima vez deixo você vagando embriagado pelos corredores de Hogwarts. Tenho certeza que uma noite com Filch seria muito agradável — ficaram em silêncio. Enquanto o loiro desembaralhava as últimas imagens de sua mente, Hermione ainda sentia o toque delicado dele em seu rosto “Você é linda”.

- Posso usar o banheiro? — ela apenas apontou em direção a uma das portas e o rapaz seguiu em silêncio, enquanto ficava imersa em suas próprias lembranças da noite anterior. Instantes depois o sonserino reapareceu, calçou os sapatos. Ainda em silêncio. Draco bagunçou os cabelos enquanto Hermione tentava resistir e não olhar em direção a ele. Impossível.

- Segunda nos encontramos para continuar os estudos sobre os transportes trouxas? — ela perguntou e ele demorou um pouco a responder, encarando o chão.

- Claro — ele levantou-se — Na minha sala de monitoria desta vez. Espero você às 19h — foi em direção à porta e Hermione o acompanhou. Que porcaria era aquela em que Hermione encontrava-se como poucas vezes acontecia: sem saber o que falar. As palavras antes que ele dormisse ainda martelando em sua cabeça.

- Até segunda, Malfoy. Espero que — começou ao abrir a porta e vê-lo passar, parando no batente — Espero que tenha gostado da festa.

Draco jogou os fios claros e extremamente finos para trás em um movimento que Hermione se pegou admirando. Olharam-se. E, apesar de saber grande parte do que ela vivera na guerra, sabia pouco. Mesmo esse pouco tornava a jovem tão corajosa quanto sua mãe. Talvez mais. Por que ela agora parecia, então, tão frágil?

- Foi interessante, Granger — virou-se para ir embora, mas voltou-se rapidamente, inclinando-se próximo à orelha dela — Não esqueci a última coisa que te falei. — afastou-se novamente — Tenha um ótimo final de semana.

Ela ficou lá. Parada. Sentindo a perna bamba. Sentindo a respiração dele e as palavras brincando em sua pele.

Batera na porta apenas uma vez e, instantes depois, Draco já estava abrindo. Notou que ele era organizado assim que entrou.

- Deve estar acostumada com seus amigos que deixam roupas e livros espalhados, não é, Granger? — falou, debochado. Hermione sorriu.

- Ron deixava tudo espalhado pela tenda que compartilhamos, diferente de Harry — o loiro não sabia detalhes sobre a caça às horcruxes, porém sentiu-se incomodado ao saber que ela já havia compartilhado um espaço com dois garotos. Dois - Que foi?

- Nada. Quero dizer — ele fechou a porta, ficou em dúvida de como continuar, do que dizer. Do que perguntar. Sabia que aquela era uma linha de conversa que terminaria com Granger em sua casa sendo torturada, enquanto ele estava lá. Impassível por fora, quebrado por dentro.

- Então vamos começar — olhou a mesa do sonserino — Sua mãe mandou os livros. Conseguiu ler algum?

- Dei prioridade para o livro sobre a história dos transportes trouxas e seus inventores. O que me causa muito estranheza mesmo é esse tal de avião. Não entra na minha cabeça como algo deste tamanho — ele abriu um livro e apontou a imagem — Pode voar.

- Tenho esse material pronto sobre transporte aéreo e deixarei para você ler e fazer as alterações necessárias. Pensei que podíamos priorizar os transportes terrestres, afinal o professor Cross deve começar por eles. Pensando na nossa excursão que será este sábado — eles ficaram em silêncio e Hermione não sustentou o olhar de Draco sobre si. Desviou os olhos sem notar o sorriso de lado que surgiu no rapaz. Ele folheou o material que lhe foi entregue, apesar de não ler tudo estava óbvio o motivo dela ser a melhor aluna: letra caprichada, excelente vocabulário, dados da pesquisa, além de escrever de forma autoral.

- Concordo com você. Sente-se — convidou, puxando uma das cadeiras para ela que voltou a olhá-lo, levantando uma sobrancelha intrigada por aquela gentileza. Ele riu — Incrível como os Malfoy podem menosprezar alguém apenas pelo sangue, mas, ao mesmo tempo, serem tão gentis, não é mesmo, Granger?

Ela riu, concordando em silêncio. Puxou o resto do material e continuaram seus estudos e registros.

- Sorte sua que vai sair um pouco deste castelo — Gina falou, jogando-se na cama de Hermione — Quisera eu dar uma escapada para Londres trouxa.

- Largo Grimmauld, para ser mais específica? -as duas riram, enquanto Gina jogava o travesseiro na amiga que estava sentada em uma poltrona com um livro sobre o colo — Agora, me fala como estão sendo os encontros com o Malfoy.

- Não são encontros, Gina — respondeu, ajeitando-se — São estudos. Apenas isso — a ruiva apenas meneou levemente a cabeça.

- Apenas estudos? Vocês não se desgrudaram um segundo na festa!

- O álcool ajudou um pouquinho — Hermione fez o gesto clássico entre indicador e polegar.

- O álcool combinado com um loiro lindo, alto e que sabe dançar. Duvido que álcool teria feito você passar a noite dançando com Flint. — Hermione devolveu o travesseiro jogado por sua amiga, rindo — Sério agora: não está sentindo nada, nada mesmo por Draco Malfoy?

Hermione não respondeu na hora, mexendo-se novamente na poltrona. Colocou o livro sobre uma mesa que havia ao seu lado e levantou-se, indo até a janela.

- Não sei, Gi. Ele está diferente, só que ao mesmo tempo foram muitos anos de humilhação, de xingamento, de preconceito. Malfoy permitiu que os Comensais entrassem no castelo. Seu irmão foi ferido e tantos outros…

Gina esperou quieta por alguns segundos, até se levantar e caminhar até a amiga, colocando sua mão sobre o ombro da morena.

- Voltarei para meu quarto agora, pois te conheço o suficiente para saber que precisa ficar sozinha. Só uma pergunta: ele não merece uma chance?

Não muito longe dali…

- Então? Resolveu reconhecer que eu tinha razão?

- Razão sobre o que, Blaise? — Draco falou, tirando a gravata e guardando-a no armário. Depois encostou na porta, de braços cruzados.

- Sobre a beleza da Granger. — Blaise estava jogado sobre a cama do amigo — Saiba que está me devendo uma. Aliás, mais de uma, pois estamos falando de Hermione Granger, afinal de contas.

- Não sei do que está falando, Zabini — dizendo isso, desencostou-se da porta e foi até um pequeno gabinete, tirando de lá duas garrafas de cerveja amanteigada. Draco só usava o sobrenome do amigo quando estava levemente irritado e fugindo de algum assunto. Entregou a garrafa aberta e sorveu um longo gole.

- Sabe muito bem do que estou falando. Sobre a festa na torre da Grifinória. Vi como não tirou os olhos da Granger. Então… Acabei me aproximando da corvinal. Mesmo minha primeira escolha sendo outra — sentou-se na beirada e observou o amigo andando de um lado para o outro — Draco — olharam-se — Para que catzo você mudou de lado no final das contas?

- Você está certo, Blaise. Granger é bonita. Na festa fiquei próximo dela por causa dessa nova matéria que preciso fazer de Estudo dos trouxas — viu seu colega apenas levantar ambas a sobrancelhas e mexer uma das mãos, convidando-o a continuar a falar — E… — Draco bagunçou os cabelos, bebeu um gole da cerveja, voltou a andar, parou, bebeu mais gole — Porra, Blaise. Ela é interessante, inteligente, claro — bebeu outro gole, sentindo o pescoço ficar levemente corado diante das palavras e do desabafo sobre seus sentimentos sobre a grifinória. Draco não fora ensinado a falar sobre sentimentos.

- Viu, meu amigo? Falou o que verdadeiramente pensa e está tudo bem. Seu segredo está salvo comigo. Agora,... — levantou-se, aproximou-se do loiro — Não demore muito para demonstrar o que sente. Eu sou seu amigo e recuei, mas nem todos serão tão amigáveis — ele bebeu o resto do conteúdo — Boa noite.

Nas estufas…

- A professora Sprout foi muito gentil em nos ceder as estufas — Pansy disse, colocando suas luvas — Juro que não consigo entender nada sobre o cultivo de plantas. Mas preciso delas se quero conseguir meus NIEMs.

- E quer minha ajuda?

- A professora falou que você é o melhor em Herbologia — Pansy argumentou, porém Neville encarou-a — Ok, ok! Tão bom quanto Hermione!

- Ela é sua amiga. Poderia ter pedido ajuda dela — Neville disse mais uma vez, estranhando o pedido de Pansy Parkinson.

- Longbottom! Que saco! — exasperou-se — Pode me ajudar ou não? Hermione já está me ensinando Transfiguração e Draco,Estudo dos Trouxas — deu dois passos na direção dele e olhou um pouco mais para cima, para encará-lo — Além disso, gostaria de passar um tempinho a sós com você — sorriu ao vê-lo corar.

- Ok, Parkinson. Precisa ajuda no que exatamente?

- Primeiro, meu nome é Pansy. Quero ser chamada assim, por favor. Afinal, quando você tiver a coragem de me chamar para sair, me beijar, nada de ficar me chamando pelo sobrenome do meu pai. Então vá se acostumando: Pansy. Entendeu, Neville? — a garota era mais baixa que ele e mantinha o mesmo corte chanel do primeiro ano. Ela falava de forma rápida e autoconfiante. Neville não pôde conter um sorriso de lado e concordar com a cabeça.

- Vamos aos estudos, Pansy — Neville falou, andando com ela até alguns vasos, onde começou a ensiná-la sobre herbologia básica. Pensava que não ia demorar muito para chamá-la para Hogsmead, apesar da ideia parecer tão assustadora quanto enfrentar uma horcrux de Voldemort.

No interior do castelo, duas pessoas estavam deitadas em suas camas. Seus pensamentos dirigindo-se, sem saber, uma para outra. De um lado, um sonserino, até pouco tempo esnobe e preconceituoso. De outra, uma obstinada, mas teimosa grifinória.

Na segunda-feira seguinte, Hermione chegou à sala 454 alguns minutos antes do início da aula. Não por ansiedade, obviamente. Apenas porque era a monitora-chefe, estava acostumada a chegar antes e gostava de sentar-se com calma, organizar seus materiais e revisar rapidamente as anotações. Era isso. Não tinha nenhuma relação com a possibilidade de Draco Malfoy entrar pela porta e sentar-se ao seu lado.

Nenhuma.

A sala ainda estava vazia quando ela colocou o caderno sobre a mesa. As canetas trouxas estavam alinhadas por cor, os papéis separados por assunto e alguns livros sobre transportes empilhados à direita. Havia também um mapa de Londres dobrado cuidadosamente, que o professor Cross havia deixado para consulta na aula anterior.

Hermione passou os dedos pela dobra do mapa e respirou fundo. Desde a festa, desde o quarto de monitoria, desde o modo como Draco havia se inclinado perto de sua orelha e dito que não esquecera o que lhe falara antes de dormir, tudo parecia mais difícil de organizar.

E Hermione Granger odiava coisas difíceis de organizar.

A porta se abriu. Ela levantou os olhos no mesmo instante. Draco entrou sozinho. Vestia o uniforme de maneira impecável, como sempre, mas havia algo diferente em sua postura. Não parecia debochado. Também não parecia confortável. Carregava o caderno trouxa que Hermione lhe dera nas primeiras aulas e uma caneta entre os dedos. Ao notar que ela olhava para o objeto, ele fechou a mão rapidamente, como se tivesse sido pego fazendo algo proibido. Guardou-a no bolso das vestes.

- Bom dia, Granger.

- Bom dia, Malfoy.

Frio. Educado. Quase formal.

Hermione voltou a olhar para seus materiais. Draco puxou a cadeira ao lado dela e sentou-se sem fazer comentários. Nenhum dos dois disse mais nada por alguns instantes. Era estranho. Nas aulas anteriores, mesmo com provocações, havia barulho entre os dois. Perguntas atravessadas, respostas impacientes, ironias desnecessárias. Agora havia apenas um silêncio pesado, como se ambos soubessem que falar qualquer coisa poderia lembrar demais a festa.

Draco abriu o caderno. Hermione percebeu que ele havia feito anotações. Anotações reais. Não comentários rabiscados apenas para fingir interesse. Havia títulos, pequenos esquemas, algumas palavras sublinhadas e até uma tentativa de tabela. Ela não conseguiu evitar olhar por mais tempo do que deveria.

- Está olhando minhas anotações, Granger?

- Estou observando que você finalmente descobriu a função de um caderno.

- Não se empolgue. Ainda considero uma invenção inferior ao pergaminho — ele falou, discordando mentalmente.

- Mas está usando — ela não escondeu um toque de provocação.

- Estou sendo academicamente flexível. — Draco argumentou, sem tom de voz superior. Hermione quase sorriu. Quase. Draco percebeu. Também quase sorriu.

O quase ficou entre os dois.

A sala começou a encher aos poucos. Alguns estudantes da Corvinal entraram conversando sobre a pesquisa. Dois alunos da Lufa-Lufa sentaram-se próximos à janela.

O professor Cross entrou alguns minutos depois, carregando uma pilha de papéis, um mapa grande de Londres e uma expressão animada demais para uma manhã de segunda-feira.

- Bom dia, turma! Espero que todos estejam descansados, alimentados e emocionalmente preparados para lidar com a maior invenção trouxa depois da roda: os diferentes transportes que estão pesquisando!

Draco cruzou os braços, irritado.

- Como vocês já sabem, nossa excursão para Londres acontecerá neste fim de semana. Porém, houve uma alteração importante na programação. A visita será dividida em dois momentos.

Alguns alunos se remexeram nas cadeiras. Hermione pegou a caneta imediatamente. Draco demorou um segundo, mas fez o mesmo.

- No primeiro dia, faremos uma observação geral da Londres trouxa. Isso significa caminhar por alguns espaços públicos, observar lojas, ruas, sinalizações, formas de pagamento, alimentação, convivência social e, claro, alguns hábitos que para nós podem parecer curiosos, mas que fazem perfeito sentido dentro da lógica desse mundo.

- Duvido — Draco murmurou, baixo o suficiente para apenas Hermione ouvir. Ela não olhou para ele, mas respondeu:

- Conheça antes de criticar — ele não falou o xingamento que veio, apenas soltou o ar com força.

O professor continuou:

- No segundo dia, faremos uma imersão nos transportes trouxas que não são usados por nós — A turma murmurou animada. Alguns alunos fizeram perguntas ao mesmo tempo. Hermione sentiu um brilho familiar de interesse crescer dentro de si. Era uma coisa estudar aquilo nos livros; outra, completamente diferente, era observar Draco Malfoy tentando compreender uma catraca, um bilhete de metrô ou um ônibus de dois andares. E mais: aviões!

A imagem quase a fez sorrir.

- Senhor Malfoy — o professor Cross chamou. Draco ergueu os olhos, desconfiado.

- Sim, professor?

- Como você entrou na disciplina com algumas aulas de atraso, espero uma atenção especial ao registro dessa excursão. A senhorita Granger será sua dupla de observação nos dois dias.

O silêncio de Hermione foi imediato. O de Draco também.

- Professor — Hermione começou, escolhendo muito bem as palavras -, talvez fosse interessante alternamos as duplas para que todos pudessem ter experiências diferentes de observação.

Draco virou o rosto lentamente para ela. Hermione não olhou de volta, apesar de ter notado o movimento. O professor Cross ajeitou os óculos.

- Uma sugestão bastante democrática, senhorita Granger. No entanto, neste caso, a orientação da diretora permanece. Além disso, vocês dois têm produzido registros consistentes. A diferença de repertório entre vocês é justamente o que torna a dupla interessante.

- Fascinante — Draco murmurou.

- Algum problema, senhor Malfoy?

- Nenhum, professor. Seguirei as suas orientações e da diretora. — o deboche era perceptível para qualquer um.

Hermione sentiu o olhar de Draco sobre ela por alguns segundos, mas manteve a atenção no quadro. Não queria parecer irritada. Não estava irritada. Ou talvez estivesse. Não por fazer dupla com ele. Isso já não era o problema. O problema era não saber o que fazer com a maneira como o ar parecia mudar quando ele estava perto.

O professor distribuiu uma ficha com orientações para a excursão. Hermione leu rapidamente: horário de saída de Hogsmeade, chegada prevista a Londres, observação geral no primeiro dia, pernoite em hotel trouxa com proteções mágicas discretas, imersão nos transportes no segundo dia e retorno por King's Cross.

- Hotel trouxa? — Draco perguntou, esquecendo-se por um instante de manter a expressão fria. Hermione olhou para ele.

- Sim, é claro, Malfoy. O que esperava?

- Sem magia? — ele perguntou de volta, ignorando o tom dela.

- Em tese. O professor acabou de falar sobre algumas proteções, Malfoy.

- E as portas abrem como? — ignorou novamente o tom agressivo, pois estava mais curioso.

- Com chaves. Ou cartões — ela respondeu, fazendo algumas anotações. Draco encarou-a por alguns segundos.

- Cartões?

Ele ficou sem resposta, quando o professor Cross pigarreou alto, claramente olhando para ambos.

- Quero que prestem atenção a algo muito importante: observação não é julgamento. Não iremos a Londres para rir dos trouxas, tampouco para comparar tudo com o nosso modo de viver como se estivéssemos em uma competição. Iremos compreender. Um mundo sem magia não é um mundo sem inteligência. É apenas um mundo que precisou encontrar outros caminhos.

A frase caiu sobre a sala de forma mais séria do que as anteriores.

Hermione sentiu Draco ficar imóvel ao seu lado. Não precisou olhar para saber. Conhecia aquele tipo de silêncio. Não era deboche. Era desconforto. Talvez culpa. Talvez algo que ele ainda não soubesse nomear.

- Por isso — continuou o professor -, as anotações de vocês deverão incluir três aspectos: o que observaram, o que compreenderam e o que ainda não compreenderam. A terceira parte é a mais importante. Reconhecer que não se compreende algo é o primeiro passo para aprender sem arrogância.

Draco abaixou os olhos para o caderno. Hermione também.

Por alguns minutos, a turma trabalhou em silêncio, preenchendo uma primeira tabela de expectativas. Hermione escreveu rapidamente. Draco demorou mais. Ela tentou não olhar, mas acabou vendo algumas palavras no caderno dele:

“transportes terrestres”

“sinalização”

“sem magia”

“não julgar antes de entender”

Hermione sentiu alguma coisa amolecer dentro de si.

- Escreveu algo útil — ela disse, sem conseguir evitar. Draco não levantou os olhos.

- Interessada em meus registros? — silêncio — Mudanças são possíveis.

- Não brinque com isso.

Ele olhou para ela. O tom dela não era duro, mas havia um limite ali.

- Não estava zombando. Estou nesta aula, não estou?

Hermione sustentou o olhar por alguns segundos e assentiu. Era estranho como aquela pequena resposta parecia importar. Não era exatamente um pedido de desculpas, mas era um recuo. Uma escolha. Um recomeço.

A excursão ainda nem havia começado, mas Hermione tinha a sensação de que aquele fim de semana mudaria a relação entre eles muito mais do que o trabalho de Estudos dos Trouxas.