Parte 2

Draco tomou um longo banho e deitou no sofá de sua sala de monitor. Abriu um livro qualquer e, apesar de seus olhos passarem pelas palavras, não absorvia nada do que lia. Apertou os olhos com o polegar e o indicador. Ouviu um leve bater na janela e reconheceu a coruja de sua mãe.

Merda.

Não havia mandado a coruja pedindo seus materiais trouxas, mas agora não teria como adiar. Abriu a correspondência.

Draco, meu filho.

Tudo bem?

Eu estou bem e usando meu tempo livre para redecorar nossa mansão. Quando vier para casa no Natal, acredito que gostará das mudanças. Pense algo para seu quarto. Mesmo que não o use com frequência, será importante ficar do modo que mais seja agradável para você.

Recebi uma notícia curiosa hoje cedo. Soube pela diretora que você vai cursar Estudos Trouxas. Vou confessar que era uma disciplina que sempre fiquei curiosa em cursar, mas sendo nascida Black era impossível. McGonnagal me mandou a lista e encaminhei para minha irmã, Andrômeda. Amanhã sairemos juntas para realizar as compras e envio tudo.

Como você está?

Sinto sua falta.

Aproveite o seu ano. Viva aquilo que não pôde viver até agora.

Te amo,

Narcisa.

Levantou e guardou a carta com as outras correspondências de sua mãe. Não sabia o que escrever como resposta. Aquelas diversas emoções debatendo-se dentro dele. Mudar de lado na guerra, voltar para Hogwarts e, agora, estudar tão próximo daquela que passou anos odiando.

Ouviu uma batida na porta e foi até lá.

- Blaise. Tudo bem? Não vai acompanhar a Granger até o quarto dela? — falou, a ironia palpável, dando passagem para seu amigo.

O outro sonserino riu, entrando no quarto.

- Até que é uma proposta interessante essa a sua, mas não. Ainda não. Mas… — Blaise continuou assim que Draco fechou a porta e cruzou os braços. — Quer rever sua declaração sobre não considerar Hermione uma garota bonita?

- De que porra está falando, Blaise? — ele indagou, trocando o apoio dos pés algumas vezes, ainda de braços cruzados.

- Sobre a forma que olhava para ela quando entrei na sala de Estudos Trouxas. Eu demorei um pouco até me fazer presente e notei a forma que olhava para Hermione.

- Não acho a Granger bonita. Apenas uma bruxa nascida trouxa.

O silêncio caiu entre os dois. Blaise respirou fundo e passou a mão pelo rosto.

- Vai mesmo mentir para mim? Conheço essa sua bunda branca desde que nasceu, Draco. — aquilo fez Draco descruzar os braços e arregalar os olhos — Vai cair sua língua assumir que a Granger é bonita?

- Você veio fazer o que aqui mesmo? — disse, querendo desviar o assunto.

- Apenas ver se realmente vai continuar com o pensamento babaca que causou a merda da guerra que sobrevivemos. — fez uma breve pausa — Vejo que sim — dizendo isso, passou pelo amigo e saiu do quarto, batendo a porta de forma estrondosa.

Draco fechou as mãos com força, sentindo a raiva percorrer seu corpo. Puxou o ar lentamente, algumas vezes até sentir que estava se acalmando.

- Não me xinguem — Hermione começou assim que sentou com seus colegas para o café-da-manhã — Estou pensando em chamar Pansy para nossa festa.

- A ideia não era você se reaproximar dos grifinórios, seus amados colegas de casa, Mione? — Gina começou, levemente debochada.

- Acho que não tem nada de errado em chamar a Parkinson — Neville falou, sentindo o rosto corar, principalmente ao ouvir as risadas de Dino e Simas.

- Gina, concordo em partes. Acho importante dar o exemplo. Aliás, ela deu o exemplo antes ao me convidar para uma festa na casa da Sonserina. A guerra acabou e uma forma de colocarmos isso em prática é não ter muros entre as casas. Que a competição fique restrita ao Quadribol e Taça das casas.

Gina rolou os olhos, mas sua amiga tinha razão — como sempre. Ao longe, viu Draco passar para juntar-se à mesa da Sonserina, seus olhos repousando rapidamente em Hermione — o que não passou despercebido pela ruiva.

- Tudo bem, concordo, mas com uma condição.

- Condição? — foi Dino quem perguntou.

- Se a ideia é a união de casas, fim da guerra, vamos fazer uma festa reunindo todas as casas. E você precisa convidar Draco Malfoy.

- O quê?! — Dino, Simas e Neville exclamaram juntos. Hermione apenas buscou a mesa da Sonserina e o loiro. Seus olhos se encontraram brevemente.

- Concordo — Hermione terminou de comer sua torrada e tomar seu chá e levantou-se — Mas você explica isso para o Harry e seu irmão quando eles chegarem aqui na sexta-feira — dizendo isso, virou-se em direção às masmorras, deixando sua amiga com as bochechas mais vermelhas que seu cabelo.

Encontrou um lugar e esperou que os outros alunos chegassem. Ofereceu um lugar para Pansy, que notou o olhar irritado.

- Se continuar me olhando assim, sento com Draco. Ele, pelo menos, sei como lidar…

- Até imagino como, Pansy.

- Que mente suja, senhorita monitora. Eu não tenho nada com Draco há anos. Digamos que há outro bruxo chamando minha atenção no momento — Pansy ajeitou-se na cadeira observando os outros alunos se acomodarem — E ele não é da Sonserina — piscou para a amiga e apontou a cabeça para Neville.

- Não acredito! — Hermione murmurou e sorriu de lado. Ela abriu a boca para convidá-la para a festa, só que mudou de ideia. Pediria para seu amigo fazer o convite. A aula começou com Slughorn falando, como sempre, de forma entusiasmada. As duas fizeram anotações, empenharam-se em suas poções, com Hermione auxiliando ocasionalmente a colega. Assim que a aula acabou, começaram a falar de trivialidades com Hermione enrolando propositalmente, esperando que Neville passasse por elas.

- Oi, Nev! Tudo bem? — exclamou assim que o amigo estava próximo.

- Oi, Mione — os olhos dele dirigiram-se para a sonserina — Parkinson — o grifinório ainda tinha um ar distraído, mas, sem dúvida, a guerra tinha feito com que sua auto-estima melhorasse ao longo do tempo: matou Nagini e suportou uma excruciante tortura infinda por Voldemort.

- Estou super atrasada para um compromisso. Faz um favor? Acompanhe Pansy e bem — disse passando por ele e falando em voz baixa, mas mesmo assim audível — Lembre-se do que conversamos de manhã.

- E o que conversaram de manhã, Longbottom? — Pansy perguntou assim que Hermione se afastou. O grifinório olhou ao redor e viu que estavam sozinhos na sala. Corou brevemente, sabendo que Hermione tinha feito aquilo de propósito. A bruxa ainda mantinha os cabelos curtos, estilo chanel. Usava maquiagem escura nos olhos, destacando as íris escuras.

- Sobre uma festa na nossa torre. Gostaria de ir? — saiba que as palavras tinham saído um tanto confusas e atropeladas. Pansy sorriu e passou um dos braços ao redor do braço dele.

- Vamos lá, matador de cobras gigantes. Conte mais sobre essa festa proibida na torre dos bravos e corajosos grifinórios.

No final do dia, Hermione já tinha sua sala pronta para receber Draco e começar seus estudos sobre os transportes trouxas. Mas o que fazia seu nervosismo ficar à flor da pele era saber que precisava convidá-lo para a festa na Grifinória.

Relaxa, sua tonta. Ele jamais aceitaria.

Ouviu uma leve batida na porta e notou que ainda faltavam alguns minutos para o horário marcado, mas quem estava lá contrastava totalmente com a fisionomia pálida de Malfoy.

- Zabini. O que faz por aqui? — perguntou, encostando-se no batente.

- Saber o que fará neste final de semana. Gostaria de ir até Hogsmeade comigo? — aquele foi um convite inusitado e ela demonstrou sua surpresa ao arregalar os olhos — Ora, ora… O que faz aqui, Draco? — não deu chance para o amigo responder — Então? Aceita meu convite?

- Estudar. O que mais me traria aqui?

- Eu consigo pensar em alguns motivos extraclasse, meu amigo.

- Zabini! — Hermione exclamou, envergonhada — Na verdade, — olhou de um para outro nervosa. Como dizem os trouxas: dois coelhos com uma tacada só — Não posso aceitar seu convite, mas faço outro. Faremos uma festa na Grifinória este final de semana. Os dois estão convidados.

- Perfeito! — Blaise respondeu — Levo algumas garrafas de uísque, só que ainda fica me devendo uma ida para Hogsmeade, Hermione. Juízo nesses estudos.

Hermione deu passagem para que Draco entrasse. Apesar do seu quarto ser bastante similar, gostava de passar parte do tempo livre na companhia dos amigos.

- Você pesquisou alguma coisa sobre nosso projeto, Malfoy?

- Não tenho material. Minha mãe foi comprar o que preciso com a irmã dela — ela apenas rolou os olhos.

- Temos biblioteca aqui, sabia?

- Sabia. Além do mais, o projeto foi dado ontem, mas tenho certeza que você deve ter feito um acervo de pesquisa maior que a biblioteca de Hogwarts — zombou claramente da grifinória. Hermione rolou os olhos.

- Não fiz nenhuma pesquisa, afinal, você que precisa conhecer sobre os transportes trouxas. Eu conheço suficientemente bem — ela cruzou os braços, irritada. Draco aproximou-se.

- Até onde eu saiba, a diretora pediu que você me ajudasse, afinal comecei a disciplina com um mês de atraso e não tenho ideia de que merda acontece num mundo sem magia.

Hermione deu outro passo.

- Até onde eu saiba, nem eu nem outro bruxo nascido trouxa teve qualquer privilégio ao ingressar em Hogwarts. Precisamos lidar com poções, feitiços, animais que não existem no nosso mundo sem nenhum apoio.

Ela estava próxima, tão próxima, que Draco sentiu o indicador dela pressionando seu peito. Sentiu o cheiro que ela exalava de tinta e cereja. Notou as duas sobrancelhas franzidas. Havia também poucas sardas no nariz. O rosto levemente vermelho pela discussão. Alguns cachos caíam ao redor do rosto, enquanto o resto estava preso em um coque desajeitado.

Granger, sua nascida trouxa infernal, você é linda.

Deu um passo para trás. Hermione fez o mesmo e soltou o ar com força.

- Nós temos alguns transportes parecidos, Malfoy. Como ônibus, mas os nossos não andam por entre os carros, apesar de às vezes, parecer que sim.

- Há os trens. King´s Cross é um exemplo, não é? — ela assentiu. Draco não esperou o convite para sentar e começar a fazer seus registros.

- Lembre-se de usar materiais trouxas — Hermione avisou. Draco havia achado bem interessante aquela tal de caneta, mas não falaria para ninguém, pois achara muito mais prática do que ficar toda hora molhando a pena na tinta. A tinta já estava lá.

- Nada de vassouras que voam, presumo?

- Não. Apenas para limpeza. Mas um brasileiro inventou o avião — Draco olhou sem entender. Hermione pegou um livro e mostrou as imagens para ele — As pessoas entram aqui e voam. Tem um piloto, copiloto. Hoje em dia há aviões com capacidade de quase 300 passageiros.

- De que merda está falando, Granger? Está me dizendo que 300 pessoas entram nessa coisa e — fez um gesto com a mão de voar — E pronto?

- Algo assim — a grifinória não conseguiu suprimir um sorriso — É o meio de transporte mais rápido que temos. No mundo bruxo vamos de um ponto até outro em segundos. O mesmo não acontece no mundo trouxa.

- Por que não diz que não acontece no seu mundo?

- Porque por mais que sua cabeça preconceituosa não aceite, eu sou bruxa. Quando escolhi viver neste mundo, escolhi tudo que vem com ele. Nada mais me prende lá, Malfoy, especialmente depois do assassinato dos meus pais.

Draco calou-se. Sabia que Dolohov fora responsável pela morte dos Granger e pagava por isso e outros crimes em Azkaban.

- Há outro jeito de voar? — ele indagou, voltando ao assunto que os fizera estudar juntos.

- Helicóptero, balão... Também há outras invenções para esportes radicais, que não é voar exatamente, como paraquedismo. Mas é assunto para outro momento — Hermione sentou-se ao lado e começaram a estudar. Draco não revelaria, mas estava impressionado com a variedade de canetas, de cores, adesivos. Hermione compartilhava não apenas sobre os transportes, mas seus registros e aquilo, sem dúvida, tornava os estudos muito mais práticos.

Draco afrouxou a gravata, olhou para o relógio. Não tinha visto o tempo passar. Já era quase meia-noite.

- Preciso ir, Granger. Hoje fiquei mais tempo na companhia de uma nascida trouxa que a minha vida inteira.

- Nem por isso caiu morto — ela brincou.

- Mas não sabemos se estou contaminado — respondeu, friamente. Aquilo era uma defesa, ele sabia. Ela não.

Hermione balançou a cabeça negativamente. Foi até a porta, abrindo-a.

- Se continua com esse pensamento, deveria ter ficado ao lado de Voldemort, Malfoy — o sonserino ficou em silêncio, concordando com aquelas palavras. Afinal, ele mudou de lado, não mudou? Mas salvar a própria vida e da mãe é mais fácil que mudar aquilo que foi educado por quase 18 anos para ser.

- Não continuo com esse pensamento, Granger — estavam próximos novamente, Hermione olhando para cima, sem perder a compostura apesar da pose autoritária do garoto à sua frente.

- Prove.

- Encontre-me no Salão Principal para me levar até essa sua festinha — disse a última palavra inclinando-se sobre ela, notando o olhar desafiador ser devolvido.