Notas iniciais
Possue um leve vocabulário ofencivo.

Estudo em Branco


Muitas pessoas contam histórias aterrorizantes sobre aquele colégio. Não se tem certeza alguma da veracidade de todas, mas algumas foram dadas como verdadeiras. Esta pode ser também umas dessas. Como aconteceu? Eu ainda não entendi bem. Não tenho uma memória integral dos fatos. Ás vezes nem posso acreditar que aconteceu, pois não tenho certeza. Nem éramos amigas. Conhecíamos apenas de vista, e nosso único ponto em comum eram as histórias que compartilhávamos.

- Bianca! Hoje você ficará até mais tarde para fazer alguns daqueles trabalhos? – perguntou ela aproximando-se.

- Ahh... Sim, ficarei... E você é...? – estávamos num dos corredores do 2º andar.

- Como? Eu?! Nós somos da mesma classe, não se lembra? – disse um pouco envergonhada.

- Aah... Desculpe-me. Não foi minha intenção. Como fui transferida há dois meses... Não sou boa em me enturmar.

- Tudo bem. Não se preocupe. Mas você devia tentar. Ficar fazendo tudo sozinha é muito chato!

- Mas por que está me perguntando se vou ficar até mais tarde? E por que achou que eu ia ficar até mais tarde.

- É que a professora pediu para apresentar amanhã o meu trabalho e eu nem comecei. E como eu sento atrás de você, ouvi dizer que ia ficar até mais tarde quando conversava consigo mesma...

- Ai, que vergonha! – a interrompi. Às vezes dou umas mancadas assim... E ainda por cima você senta atrás de mim... Nossa...! Desculpa... Quando estou concentrada em algo fico longo do mundo mesmo!

- Não tem problema. Já tinha percebido isso – com um largo sorriso no rosto, apresentando belos dentes brancos e simétricos. Eu posso me juntar a você?

- Mas não tem nenhum tema difícil. Não sei no que posso ajudar.

- É que... Se eu te contar, não fala pra ninguém?

- Ah, tudo bem. O que é?

- É que estou com medo de ficar aqui até mais tarde. Não vai demorar muito para escurecer, e os alunos e a maioria dos funcionários iram embora.

- Mas medo do quê? Esse colégio é super-seguro. Não tem com o que se preocupar.

- Como não?! A sala de estudos fica bem embaixo do laboratório de ciências, e que, aliás, fica perto do corredor que dá a torre. Esses não são bons motivos?! – pareceu-me levemente desesperada.

- Olha, eu já ouvi essas histórias todas de assombrações e tudo o mais sobre este lugar. Acredita mesmo no que dizem?

- Acredito sim, senhora! – corando. Eu, eu sei de muitos casos e, e...

- Tá, tá. Tudo Bem. Pode ficar comigo. Mas é melhor irmos andando. Quanto antes terminar-mos, mais cedo estaremos em casa.

- Obrigada. Você não sabe o quanto te agradeço! Sério!

- Não é para tanto assim. Mas se tem medo de ficar aqui, por que não vai fazer na sua casa mesmo? – já estávamos subindo as escadas para ir até a sala de estudos.

- Não dá. Tenho alguns problemas em casa. Desculpe-me, mas prefiro não comentar sobre eles...

- Compreendo. No meu caso, sinto-me mais concentrada aqui do que lá em casa. Muitas distrações.

- Rebeca!- disse repentinamente.

- Como?

- Meu nome é Rebeca. É que você não perguntou. E como você não sabe ‘quem sou eu’, achei melhor me apresentar.

- Ouh! Foi mal... Esqueci de perguntar. Apesar que deveria saber, não? – fiquei envergonhada de novo.

- Tudo bem – e me mostrou novamente aquelas pedras brancas junto a um sorriso.

- Nossa! Não tem ninguém aqui na sala de estudos. Bando de preguiçosos.

- Haha! Você é engraçada.

- Engraçada? Como?

- Então vamos começar?

A sala era larga e comprida, alta. Tinha grupos de cadeiras e mesas, nove no total, mais a mesa da supervisora de estudos que já havia ido embora.

O meu trabalho era de biologia, dividido em mutação gênica, cruzamento de vários genes e doenças subseqüentes. O dela matemática, probabilidade, PA e PG.

Já eram seis e cinqüenta e cinco, sol baixo, noite adentrando, quando ela...

- O que foi isso? – pulou do lugar.

- Isso o quê?

- Esse som...

- Som? Não escuto nada... – tum; no andar de cima um barulho pesado.

- Ouviu?! Foi isso! O que é isso?

- Pôh, tenha calma. Vai ver são os estagiários do laboratório.

- Não podem ser. Ouvi que semana passada todos terminaram o estágio.

- Então vai ver são professores ou o pessoal da limpeza.

- Não tem aula de noite, esqueceu? E na quinta não tem limpeza no colégio.

- Esquece vai. Estamos quase acabando. Concentre-se... – comecei a escrever, mas parei.

Então olhei para ela, e ela estava paralisada, olhando para a entrada envidraçada da sala. Eu estava sentada de frente para ela e de costas para a entrada. Virei-me e não vi nada.

- O que foi? Por que está assim Rebeca?

- A-alguém acabou de passar pela porta de vidro.

- E daí?

- Era só a-a ... cabeça.

- Puta merda. Vai começar de volta? E daí que viu só a cabeça? A porta não é toda de vidro. Vai ver era o zelador baixinho.

- M-mas olha a porta! Do chão até a parte de vidro são menos de um metro. Ela é quase toda de vidro.

- Você me desculpe, mas esta ficando paranóica demais com essas histórias que andam contando por ai. E além...

Comecei a escutar um zumbido estranho, fino e agudo, mas baixo, vindo do lado de fora. Rebeca já começara a se desesperar. Por mais que eu tentasse, não conseguia entender por que ela estava tão agitada.

Para dar um fim a esse medo todo dela, decidi leva-la para fora da sala, e andar um pouco para lhe mostrar que não precisava ter medo.

São três blocos de quatro andares no total, todos interligados por vários corredores. As escadas são do formato Caracol. Com o estilo gótico medievo, muitas janelas são de imagens religiosas. Na verdade não se trará mais de um prédio eclesiástico, mesmo assim suas formas não deixam de serem belas.

Não encontramos nenhum professor porque estavam em reunião os poucos que ainda estavam no colégio, e somente no andar térreo achamos alguns poucos funcionários. Rebeca não se conteve e perguntou se um deles havia estado no andar em que estávamos, e, para o alívio dela, um disse que sim, estava indo pegar um documento na sala de Exatas. Enquanto subimos, ela ainda me disse que esquecera de perguntar sobre o barulho no laboratório.

- Olha, vamos terminar logo com isso para podermos ir para casa – desejei nunca mais ter que falar com ela.

Quando chegamos ao corredor da sala, comecei a ouvir novamente aquele barulho fino e agudo, agora mais claro, vindo da direção das escadas que davam ao andar de cima. Não pensei duas vezes, peguei no braço dela e fui na direção das escadas.

- Pare! O que está fazendo?! – disse apresada, tentando se soltar.

- Vem, vou te mostrar que é tudo uma bela de uma bobagem.

- Não! Não quero – mas já estávamos nos primeiros degraus.

Parei de imediato ao concluir o que era o barulho.

- Isso são choros de bebês?

- Bebês?! Ah não – quase perdeu o equilíbrio das pernas. Eu sabia! Vamos embora.

- Calma. Se alguém deixou algum bebê no andar de cima, temos que pega-lo. O coitado deve estar com medo.

- EU ESTOU COM MEDO! – gritou ela. Vamos embora!

- Vamos fazer o seguinte. Espere-me aqui enquanto vou ver de onde vêm os choros – puxei ela até o andar de cima, deixando-a perto do corredor.

Caminhei seguindo os sons que escutava. Sim, agora eu podia ouvir perfeitamente sem erros. Eram mesmo choros de recém-nascidos, vindo pelo corredor, passando entre as colunas cilíndricas de base fina das paredes, pelas janelas que não abriam devido aos desenhos, chegando pelo chão cinzento, amarelado, até penetrar em meus ouvidos.

- Você está ouvindo isso, não é? – parei.

- Estou. Mas por favor Bianca, vamos embora. Eu não quero mais ficar aqui!

- Calma. Não é assombração nenhuma. Estas coisas nem existem. O que você ouve não é real? Então! As assombrações são ilusórias, não são tangíveis. Logo, isso não é um fantasma ou algo assim. Espere ai que já volto.

Continuei seguindo na direção que os sons me levavam. Cheguei frente à porta do laboratório. Não haviam duvidas, os bebês estavam lá dentro. Girei a maçaneta e empurrei a porta, mas ela estava trancada. Depois que percebi isso, também percebi que os choros cessaram. Perguntei se havia alguém ali, mas a única resposta que obtive foi à porta sendo destrancada por dentro. Girei a maçaneta mais uma vez e empurrei-a. Ela abriu sem problemas. Mas toda a sala se encontrava vazia e organizada, escura, sem sinais de que ali se encontravam pessoas. E quem abriu a porta para mim? Deve ter sido engano meu. A porta não devia estar trancada. Vai ver era só ter um ‘jeitinho’ para abri-la.

Acendi as luzes e fui até o centro do laboratório procurar algum bebê. Nenhum. Nada. Um frio subiu pela minha espinha, formigando, e senti que estava sendo observada. Olhei em todas as direções rapidamente, e só parei o olhar no armário de órgãos humanos, espécies animais empalhadas e exemplos do reino fungi. Aqueles olhos animais eram literalmente vidrados, mas pareciam me seguir com eles. Não, não foram esses olhos que senti, mas o quê?E em um outro armário de madeira, lá estavam mais órgãos, solitárias e vidros com formol e fetos humanos. A sensação vinha desses bebês. Sim, desses. Mas não podem ter sidos eles que choraram. Foram eles?

Nós já estávamos atrasadas com os trabalhos que já deveriam estar acabados. Passava das sete. Decidi por esquecer essa história e ir embora para casa.

- Você não vai acreditar. Não havia ninguém... Rebeca?! Cadê você? — ela nem me esperou. Hum, talvez tenha voltado para pegar as coisas dela.

Quando entrei na sala de estudos para falar com ela, também não tinha ninguém. Tudo estava do jeito que tínhamos deixado. Arrumei nossas coisas e desci para perguntar sobre ela aos professores ou quem encontrasse pelo caminho. Da portaria a secretária ninguém a viu desde que eu desci com ela da última vez. Não estava nos banheiros e nem poderia estar nas salas de aulas, já que todas estavam trancadas. Até que me perguntaram se queria ajuda, mas achei que se falasse que ela tinha fugido de medo das histórias iriam rir de nós duas. Prefiri ir sozinha.

Tive a paciência de andar com a mochila dela pelos três blocos, mas não encontrei nada. Voltei onde a havia deixado.

No ar senti um cheiro forte que começou a me dar náuseas. Para piorar, senti a maldita cólica chegando.

Notei que onde a deixei ficava a alguns passos das escadas para a torre, e esta era considerada como o quinto andar. Era o único lugar que eu não vira. Improvável, mas ela poderia estar lá.

Jogado no chão, encontrei um dosseus bottons que levava presa ao peito, isso entre onde eu estava parada e a escadaria do quinto andar. Entretanto aquilo estava ali antes?

Agora era apenas uma questão de lógica subir até lá.

Todo o colégio é bem iluminado, simplesmente excelente. Todavia, a torre parecia ser sem dúvida, a parte mais bem cuidada em todos os aspectos do prédio.

A escada de vinte e três degraus em caracol dava até uma porta robusta e tosca. Todos diziam que ela nunca foi aberta desde que aquele lugar fora transformado em colégio. Hoje a encontrei aberta.

Com um corredor largo, uma poltrona azul-escura, lâmpadas em várias posições e um lindo lustre de vidro no centro, aquilo parecia mais uma sala de espera. Concentrei-me no outro lado do corredor: Uma segunda entrada.

Duas grandes portas altas e pesadas, de marrom-preto, topo em arco, tampavam a entrada. Chamei por Rebeca, e novamente não ouvi retorno algum. Andei até a porta, encostei meu ouvido no lado esquerdo e tentei ouvir alguma coisa. Eu nem tinha reparado se ela estava aberta quando o seu lado direito foi empurrado para fora, deixando apenas uma fresta pequena. Dava para ver que continuava até outra entrada. Mas eu senti que estava sendo observada novamente e olhei para baixo. Que... Que porra era aquela? E-eu cambaleei para trás e dei meia volta, mas então senti novamente aquele cheiro, a dor no ventre. Cai no chão, sentindo uma grande vertigem. Abri meus olhos levemente e pude sentir alguma coisa de noventa centímetros me puxando pelo chão. Não senti mãos, nem cordas, parecia que estava sendo levada pelo vento, flutuando a poucos centímetros do chão. Minha visão escureceu.

Sonhei que vira uma cabeça humana de um homem que me lembrava muito uma imagem de Machado de Assis de perfil, com óculos sem pernas, de barba e bigodes grisalhos bem feitos e cuidados, um cabelo curto e igualmente grisalho, com uma expressão sem expressão no rosto. Abaixo da cabeça, se encontrava como corpo uma cor vermelha-pele, sem penas ou indícios disto, um feto de galinha deformado, magro, úmido e pegajoso, que suavemente arfava os pulmões, em pé de modo fisicamente impossível com pernas no formato de asas. E aquilo olhando para mim de trás de uma porta pesada, com atenção, como se eu tivesse invadido um lugar sagrado e não tirará os sapatos.

Acordei na enfermaria do colégio. Já era de manhã e minha cabeça latejava muito. Uma moça apareceu e mediu minha temperatura, viu minha pressão, anotou algumas coisas e disse para descansar. Do outro lado do meu leito estava Rebeca, dormindo em sono profundo. Levantei e fui até ela. Depois de um pouco de insistência acabou acordando.

- Oi. Como você está? Sabe por que estamos aqui?

No entanto não me respondeu. Apenas ficou fitando o teto com os olhos semi-cerrados.

- Bom dia garotas! Como estão? – entrou o direto.

- Bom sai senhor. O que aconteceu conosco?

- Foi exatamente para isso que vim aqui – calmamente puxou uma cadeira e se sentou.

Já eram oito e vocês não desciam da sala de estudos. Todos já prontos para irem embora só esperavam por vocês. Eu e mais duas professoras então fomos lhes buscar. Deram-nos um verdadeiro susto mocinhas. As duas estavam desmaiadas na mesa. Levamo-as para a enfermaria sem pensar duas vezes. Quando voltei junto a outros funcionários para pegar-mos seus pertences, sentimos um cheiro forte no corredor atrás de um vaso e encontramos um frasco quebrado com uma mistura química ali. Deu-nos muita tontura e constatamos que fora por isso que vocês desmaiaram. Já chamamos o faxineiro que estava limpando o andar ontem à noite para tirar-mos satisfações, não se preocupem, não era nada de mais. Agora esta tudo bem.

Só estava pensando...

- Filha?! — Gritou uma mulher na porta.

- Mãe? – me abraçando tão forte que minhas costas estralaram. Ai!!

- Querida, oh, minha queridinha! Está tudo bem?

- Estou sim. Olha o diretor aí. Está me envergonhando.

- Desculpa senhor. E que quando ligaram ontem à noite dizendo que ela iria passar a madrugada na ala de enfermagem, fiquei tão preocupada, nem consegui dormir. Queria vir ver ela na mesma hora, mas como no trabalho estava tudo indicando que iria entrar a noite nas papeladas e reuniões, e como disseram que ela estava bem, que não era necessário que eu viesse, acabei vindo mesmo agora.

- Não há porque se desculpar senhora. Entendo perfeitamente.

- Obrigada senhor diretor. Agora vamos para casa que você precisa descansar. Já marquei uma consulta médica para você está tarde.

- Mãe! Pare com isso. Mas e os pais dela diretor? Não vêm?

- Infelizmente parece que não possuem a mesma preocupação que sua mãe tem por você com a Rebeca. Mas não se preocupe. Logo mais alguém virá.

- Hum. Rebeca, a gente se vê. – mas ela não respondeu.

Quando cheguei em casa, a primeira coisa que fiz foi tomar uma ducha quente. Meu corpo estava formigando, me sentia suja, mas assim como a água quente, meus pensamentos escorriam pelo buraco. Enquanto secava minha coxa, percebi um risco longo e profundo feito perto da minha virilha, depois começou a arder, mas não me lembrava de ter me machucado. E o meu ventre começou a me incomodar também. Mais tarde tentaria falar com Rebeca.

Notas finais
E isso ai! Espero que alguém tenha lido e que tenha gostado.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!