Estrutura

3 2. Consolação, São Paulo.


Tive vinte e oito anos para saber o que é estar em pânico. Passei por alguns momentos que, até então, de um ponto de vista limitado, podiam ser considerados extremistas, angustiantes, chocantes, assustadores de verdade, mas nada como isso. Não como o medo genuíno de ser percebida, entendida e vista não muito melhor que uma aberração. Um perigo.

Nunca precisei correr de ninguém, não estou nem mesmo sendo perseguida, mas meu cérebro envia uma mensagem clara de alerta. Não parem, ele diz às pernas. Elas obedecem e não resta outra opção além de concordar. Meus pulmões doem, a garganta queima pelo esforço imposto nos últimos trinta quilômetros. Nem ouso pensar uma segunda vez em meus pés pois o medo de cair na tentação e ver o estrago causado pelos sapatos inadequados é demais. Lembro que o apartamento está próximo, quase lá. Ignoro mais dos inúmeros olhares tortos que vim recebendo o caminho inteiro e foco no objetivo: chegar em casa, me manter segura.

O suor desce em cascata pela testa, ensopa as sobrancelhas. Passo uma mão já encharcada para impedir que caia nos olhos. Retomo a respiração pelo nariz quando sinto o aperto interno diminuir e acabo com o caminho restante até a calcada que me separa do familiar complexo de prédios. Meu consciente, subconsciente ou o que quer que seja mais irrefreável, relaxa consideravelmente. Puxo as chaves do sutiã e dou a identificação de moradora ao guarda de acesso desta madrugada. Há uma preocupação instantânea em sua cara. Ele olha por cima de minha cabeça em busca de algum perseguidor. Faço o mesmo. Nós dois, aparentemente, concluímos que ninguém está me caçando com uma tocha. Sou liberada depois de um "boa noite" morno e, graças a Deus, nenhuma pergunta.

Atravesso o vestíbulo. Os elevadores estão todos abertos, sem uso pelo horário pouco movimentado. Sem uso exceto por mim, a esquisita que sai de casa acompanhada, sorridente e animada, porém volta sozinha, tarde da noite, aparentando ter sido vítima de não apenas um, mas vários assaltantes. As portas se fecham e o solavanco da subida, geralmente tão incômodo, não é suficiente para provocar meus nervos já descompassados. Leva uma eternidade, então finalmente sou deixada no corredor, de frente para o número mais reconfortante do mundo. De luz acessa e porta trancada, escorrego na primeira parede que encontro.

Espero pelo que julgo ser a inevitável sensação de exagero, a sensação de que interpretei mal a gravidade da situação e agi feito uma maluca. Acontece com frequência. A falta de confiança em minhas atitudes e decisões, de forma geral, criam o monstro da incerteza, às vezes do arrependimento. Mas nada, não é o caso.

Procuro algum apoio no chão, me seguro sem a necessidade de estabilidade física e sim mental, emocional.

Sem tremores aqui, sem tremores aqui.

Não digo em voz alta. Permitir que as palavras saiam da minha boca é assumir o problema. Não estou pronta para isso.

Tomo meu tempo, ergo meus escudos. Não sei se é rápido ou se demora, mas só levanto quando minha bunda protesta em forma de dormência. Dormência que seria bem-vinda no corpo inteiro. Na gaveta da sala, procuro entre os poucos remédios e encontro a cartela cheia de comprimidos nunca antes utilizados. Ler a bula é um luxo que não faço questão de me dar, sequer um copo d'água para facilitar a descida, engulo duas doses amargas do sonífero. O efeito não é imediato, não desabo como A Bela Adormecida ou coisa parecida e, sinceramente, estou decepcionada. Ligo a TV, ando em círculos intermináveis, sento no sofá, deito, levanto, finjo prestar atenção no documentário animal de meu pacote absurdo de canais. Sem me dar conta do momento exato, apago.

Boca seca é a primeira sensação que registro. Minha língua, infeliz e grudada pela falta de líquido, reclamaria se tivesse vontade própria. Percebo que estou em posse de um bafo mortal, uma verdadeira arma de destruição. Os sabores rolando em meu paladar, então, estão longe de algo tragável. Tento me mexer para resolver qualquer um dos itens listados acima, mas minha coluna mostra uma opinião bem diferente quando espalha pontadas agudas por toda parte. Escuto um estalo seco no ombro e prefiro não tentar nenhuma interação com o pescoço. O sofá debocha quando, muito lentamente, lentamente mesmo, mudo de posição. Ele não cede, não se ajusta, não colabora. Deve ter sido assim a noite toda se o corpo moído for uma indicação. Me espreguiço aos poucos, estico cada articulação dura. Mesmo sem estar preparada, levanto e encaro as fisgadas nas panturrilhas e coxas.

Uma reportagem sobre a vida das focas dentro dos circos enche a tv de cores e sons demais para alguém que mal acordou. Seguro a cabeça quando a labirintite resolve dar um oi. A tontura é breve e fraca, mas fecho os olhos por precaução. Respiro fundo. Tudo bem, tudo certo. Olho para as roupas amassadas. Como se tivesse escolhido aquele exato momento, o cheiro azedo de suor velho sobe.

Ah, merda.

Me livro da parte de cima das peças, então as de baixo logo depois das sapatilhas. Meus pés, como eu imaginava, estão uma porcaria, vermelhos e cheios de bolhas feias. Ótimo. Faço um bolo com as roupas e as levo comigo para o banheiro. Um cesto vazio as recebe e me lembra que estou em dia com minhas obrigações de casa, pelo menos. Tomo um banho demorado, do tipo que exige que o cabelo seja lavado independente do fato de estar limpo e cheiroso. Mais tarde, com a toalha firme sob os braços, olho as mensagens no celular. Não sei se pela ressaca moral ou pelo receio, vejo as notificações sem realmente abrir nenhuma conversa. Todos cobram respostas que ainda não elaborei. Melhor adiar.

O reflexo no espelho da pia diz que estou péssima. As marcas de expressão do meu rosto estão acentuadas pelas horas de sono ruim, além dos inchaços e amassados típicos. Sou eu, mas numa versão muito pior, uma que não gostaria de ser fotografada e exibida no Instagram. Nem em lugar algum, na verdade.

Prendo a toalha com um nó e começo meu ritual que quase foi esquecido. Abro as cortinas da sala, a enorme porta-janela da varanda, as menores da cozinha e do quarto. Reabasteço o aromatizador de ambiente, coloco os poucos objetos fora do lugar de volta e troco a capa fedorenta do sofá. Está ensolarado lá fora, por isso é fácil sentir o espaço ser preenchido de calor, consolo. Engulo a súbita vontade de chorar e procuro me manter ocupada. Troco o canal fechado da tv por um aplicativo onde minha playlist mais alegrinha começa a tocar. Aumento o volume sem culpa quando verifico que já passei, há muito tempo, do horário de silêncio do prédio. Separo um pano de limpeza e vou até o outro quarto que só serve para guardar meus acúmulos. Tiro livro por livro das estantes organizadas, espanando um pó inexistente. Reforço o perfumador no interior das prateleiras e o óleo extra brilho no exterior. Invento uma nova ordem de arrumação e vou enfileirando por cor de capa e autor. Já na mesa do computador, as teclas meio que exigem minha atenção. Passo o pano entre as letras, entre os números, depois no monitor e mouse. Mudo de lado os itens de papelaria, as coleções de figuras e tudo mais que compõe a obsoleta mesa de estudos.

Vou descendo por gavetas, pilhas de documentos que deveriam estar no lixo de tão antigos, cabos inúteis e algumas outras tralhas que se salvaram na última limpeza. Elas não têm tanta sorte dessa vez, não com esse meu humor indefinido. Abro uma das enormes sacolas pretas e vou despejando lá dentro grande parte do que encontro. Sigo nessa varredura ao redor de todo o quarto e decreto o fim apenas quando a sacola abarrota.

Coloco as mãos na cintura ao tempo que avalio o resultado. Ficou ok, nada impressionante. Talvez mudando a cor de uma das paredes…

Acomodo a bunda na cadeira giratória e ligo o computador. Pesquiso por uma tabela de cores hexagonais. Passo através de uma infinidade de tons até encontrar os lilases, violetas, bordôs e derivados. É isso. Abro uma guia de comparação de preços, procuro por tintas foscas e, no site mais acessível, vou atrás da minha cor queridinha. Ela acaba não sendo barata, mas não importa. Adiciono pincéis e rolos ao carrinho, então compro sem pensar demais a respeito. A transição é aprovada. Satisfeita comigo mesma, estico os braços numa espreguiçada merecida.

Pulo com o toque do interfone. Cacete.

Corro até a sala.

─ Alô?

A resposta não é imediata. Com entonação estranha, uma voz masculina diz:

─ Boa tarde, um jovem chamado… ─ pausa, uma conversa ao fundo ─ Kaleo ─ outra pausa, uma correção ─ Kaleu. ─ alguém limpa a garganta ─ O jovem está aqui pedindo liberação.

Que porra de nome é Kaleu?

─ Ah… ─ as palavras não saem de primeira, porém levo só um segundo para organizar a frase ─ Eu não conheço ninguém com esse nome. Aliás, o Bruno não está de serviço hoje?

─ Não, senhora. Devo dispensar o rapaz?

Boa pergunta, amigo. Não é como se fosse a melhor ideia receber um desconhecido, mas eu não posso dar um fora sem saber de quem ou o que se tratava, posso? Se quisesse morrer de curiosidade, preocupação e paranoia, talvez.

─ Você pode perguntar do que se trata?

O substituto de Bruno reproduz a pergunta. Ouço novamente a segunda voz. Não chego nem perto de reconhecer o dono, sequer entendo claramente.

─ Ele diz que é sobre a noite de ontem.

Meu coração gela, sinto a onda de mal estar no estômago e acho que estou perto de cair dura nesse chão que sequer tive oportunidade de limpar. Não é possível que essa merda esteja acontecendo.

Uso a parte do meu cérebro que ainda funciona para responder:

─ Olha, eu estou indisposta agora, é possível que seja caso de hospital. Tudo bem anotar o número do rapaz? Ou passar o meu, também serve.

O substituto de Bruno faz um barulho alto com a língua. Deus, eu odeio isso instantaneamente, mas guardo o sentimento em silêncio. As coisas não podem ser pelo menos um pouco mais fáceis no pior dia da minha vida? Não, claro que Bruno precisa colocar um substituto indisposto em seu lugar. Hoje, exatamente hoje.

─ Você pode deixar seu número? ─ finalmente pergunta ─ Ela está doente ─ ele se dá ao trabalho de explicar.

Ok, o carrasco não é tão ruim, julgamento precipitado.

Não escuto resposta, não escuto nada por uma eternidade. Então:

─ Você consegue anotar? ─ uma voz nova.

Meu coração, já calejado, sofre outro tranco.

─ Um minuto ─ digo e corro. Pego o celular de onde havia simplesmente largado antes da faxina. Desbloqueio com mãos trêmulas e demoro muito mais que o necessário para entrar na função certa. ─ Tudo bem, pode falar.

Ele discorre a sequência de números. Mesmo travada, acompanho e repito em voz alta no fim. Ele confirma.

─ Vou esperar seu contato ─ diz.

Tento entender o tom ou algum significado oculto na curta frase, mas essa merda pode ser interpretada de mil formas. Decido não responder e respiro meio aliviada quando um substituto entediado chama minha atenção.

─ Senhora?

─ Obrigado por isso… Qual é seu nome?

─ Alexandre

─ Obrigado, Alexandre, boa tarde! ─ bato o interfone.

O nome do desconhecido me fuzila direto da tela de seis polegadas. A área de contato mostra que ele tem um aplicativo de mensagens registrado em seu número. Isso facilita, pelo menos. Não posso mais reclamar que tudo está uma merda completa.

Precisando sentar, me arrasto até o sofá e busco uma posição confortável para drenar a paralisia momentânea do meu raciocínio lógico, meu pensamento crítico.

Como o homem sabia onde me encontrar? E se tinha conhecimento de uma informação tão pessoal quanto um endereço, por que não o número de telefone? Ele veio me matar, assim, sem mais nem menos? Nem uma conversa antes? Nossa.

Piadas com o assunto começam a surgir e descarto-as rapidamente. Essa vertente do medo não é nada útil.

O que pessoas normais fariam sentindo que estão sendo caçadas? Não tenho a mínima ideia, estou longe de ser um poço de normalidade, inteligência e estratégia. E não é como se pudesse fazer as malas e fugir para o outro lado do mundo, se essa fosse a resposta correta.

Ele também não pode me matar com uma mensagem, pode?

Desligo a tv. O silêncio é imediato e desagradável.

Prendo o cabelo no elástico que venho mantendo no pulso.

Clico na opção “conversar com Kaleu”. O aplicativo abre, exibindo o avatar cinza padrão dos antissociais e companhia. Por essa e outras, me nego a oferecer qualquer saudação. Minha boa educação quase chora, mas mantenho o queixo erguido quando envio duas palavras objetivas:

“Pode falar.”

A mensagem é visualizada logo em seguida.

Apoio o braço no encosto do sofá e tamborilo com as pontas dos dedos. Ele digita numa rapidez sem igual. Meu estômago se revira novamente. Estou com fome e consigo pensar em comida mesmo nessa hora crítica.

“Sei o que aconteceu ontem. Vamos pular a parte que você tenta me desacreditar e eu, muito cavalheiro, vou direto ao ponto.”

Oi, nervosismo.

“Vá em frente”, instigo e rezo para que, por algum milagre, esse cara não esteja falando da mesma coisa que estou pensando.

“O tremor”, declara, breve e direto.

Não sofrer de problemas respiratórios não ajuda em nada quando prendo o ar de forma voluntária. Não sei quais são os sintomas de um ataque cardíaco, mas, se a dor em meu peito for uma indicação, devo estar quase lá.

Isso não está acontecendo.

“Tem certeza que está falando com a pessoa certa?”, jogo o verde. A essa altura, nem me envergonho por correr o risco de bancar a idiota.

“Quer mesmo fazer isso?”

Não, infeliz! Quero que arranque seus próprios olhos.

“O que você quer?”, arrisco.

“Conversar, apenas.”

“Ah, claro”, debocho.

Sei que não devo, mas a incerteza não só fala mais alto, ela grita. Desligo o celular e me acovardo na proteção insignificante dessas paredes. Ninguém disse que preciso ser corajosa. Independente, sim. Livre, forte, confiante… Corajosa, não.

É domingo. Sei que não posso mais me esconder. Minha família, meus colegas abandonados de sexta-feira à noite, meu pseudo-namorado… Quanto tempo até qualquer um deles bater na porta ou chamar a polícia? Visita não é algo que eu quero, tampouco um boletim de ocorrência. Só resta uma alternativa.

Não é fácil. Estou com medo e não consigo esconder. Pensar em sair provoca o pior tipo de arrepio na pele.

Assustada ou não, tenho uma vida. Repito isso até começar a sentir que é verdade.

Talvez fosse melhor encarar primeiro o celular, mas aproveito o instante de coragem antes de perdê-lo. Checo o espelho uma última vez e pego o emaranhado de chaves. Na porta, respiro fundo antes de sair.

Enquanto abraço uma, tento lembrar de onde conheço a próxima pessoa da fila. É um almoço em família, mas parece aquelas festas de um amigo do seu colega onde é impossível achar alguém conhecido. Sorrio e faço o possível para driblar os nomes que, aparentemente, eu deveria saber. Meu ânimo por si só está uma droga e fica mais difícil sustentar a aparência agradável quando, sem nem terminar os cumprimentos, ouço comentários desnecessários. Minhas roupas e outras coisas relacionadas estão em cheque na língua de completos desconhecidos. Alguns dos rostos que identifico pela semelhança com meu pai, cochicham em nítida desaprovação de meu decote.

Sou resgatada por minha mãe anunciando o parabéns.

Toda a multidão que compõe nosso sobrenome se reúne ao redor da mesa. Não canso de me surpreender com o número de gente. Nunca imaginei que éramos capazes de reproduzir assim, tão rápido. Estou quase cedendo à vontade de deixar o queixo cair quando vejo uma pessoa muito, muito familiar. Wes troca um aperto de mãos com meu irmão mais velho, fala intimamente com outros homens e até rouba um beijo da bochecha de minha mãe que está na ponta isolada da mesa do bolo. Ele me vê e corta caminho. Ao meu lado no sofá, umas primas adolescentes se ouriçam.

─ Achei você ─ ele brinca quando me alcança.

A escolha de palavras é desoladora, me empurra para um buraco de realidade que venho me esforçando para não cair completamente.

Inclino a cabeça para receber o beijo que ele dá, sorrio a contragosto.

─ Você me achou ─ confirmo e morro um pouco por dentro.

Ele olha para as meninas, dispensa um “oi” simpático retribuído na mesma hora.

─ Quando isso aconteceu? ─ pergunto sem cerimônia.

Faço um gesto com a cabeça que engloba todo o ambiente ao nosso redor. Como o homem inteligente que é, ele entende sem necessidade de outra insinuação.

─ Sua mãe pediu um favor. Vim entregar o bolo hoje de manhã e acabei ficando um tempo. Conheci a família, aconteceu ─ um aperto carinhoso em meu queixo finaliza a história.

O fato de meus namoros nunca terem passado dos dois meses fez com que minha lista de apresentações masculinas à família fosse nula, zero. Eu e Wes nos conhecemos desde o início da faculdade, mas esse lance, seja lá o que for, só vem acontecendo há uma mísera semana. Aqui e agora, entretanto, ele parece estar bem confortável com a situação e as complicações implícitas nela.

Aperto os olhos numa desconfiança fingida.

─ Ela te pediu um favor? Como?

Seu sorriso descontraído quebra muito do gelo que vem se instalando em meu sistema.

─ Ela tinha meu número, não sei como ─ afirma. Com um gesto de mão, pede que eu fique de pé. Se a gritaria da mesa do bolo for um sinal, então já está na hora, de qualquer forma. Me equilibro nos saltos, os pés doloridos protestam de imediato. Wes passa um braço ao meu redor e, mesmo que não seja essa sua intenção, sustenta parte do meu peso. É um alívio que recebo com alegria. ─ Senti sua falta ─ ele declara.

Inalo seu cheiro nessa proximidade e quase posso dizer que também senti a dele, porém não pelos motivos certos. Ao invés de dar uma resposta direta, ajeito uma mecha de seu cabelo, desvio:

─ Foi a Ana ─ toco sua nuca e aproximo nossas bocas antes de concluir. ─ Ana passou seu número para o covil.

Ele sorri novamente, me beija.

─ Vou lembrar de agradecer a ela por isso.

As mesmas pirralhas que suspiraram por Wes há dois segundos passam por nós sem perder a chance de demonstrar o nojo que o romance provoca.

Bem vindo à família.

Desvencilho nosso abraço e nos mantenho unidos pelas mãos até encontrar um lugar no aglomerado, longe o bastante da maioria dos parentes desconhecidos e próximo dos rostos empolgados do meu núcleo mais íntimo, o de casa. Alguém inicia a cantoria e nós seguimos. Ao fim, quando a parte do bolo chega, abraço e parabenizo a aniversariante, uma sobrinha distante, pronta para sair correndo. Me despeço de minha mãe com a desculpa mais ridícula e não penso duas vezes antes de reproduzir uma fuga idêntica a da boate. É possível que Wes não desculpe fácil essa segunda escapada, mas tal possibilidade não me impede. Do lado de fora, ainda ao som do burburinho de vozes, ligo o celular que serviu de peso no bolso do vestido a noite toda. Checo mensagens, ligações e e-mail no auge da ansiedade. Nada. A falta de ameaças, imposições ou chantagens não tira o peso de minhas costas. Na verdade, tenho um flash de raiva, uma vontade louca de socar paredes.

Tudo bem, sem raiva. Sem raiva, sem medo, sem sofrimento por antecipação.

Troco o celular pelas chaves do carro e tento aspirar algo bom em que me sustentar. O incômodo nos pés faz lembrar dos sapatos confortáveis que uso para dirigir. Não que isso vá salvar minha vida, mas é um começo para torná-la menos dolorosa. E renova minha confiança, incrivelmente. Decido me convencer de que existe uma saída, não importando a gravidade do problema. Fecho os olhos, expulso a tensão do corpo, da mente. Sei que estou pronta quando confio que não vou causar nenhum acidente idiota, nenhum atropelamento de poste ou pessoa.

Destravo as portas e…

─ De novo?

Pulo sem sair do lugar. O susto rende batimentos cardíacos erráticos e mal reuno coragem antes de olhar para trás. Wes não está com uma arma apontada, mas também não há sorriso à mostra.

─ Eu não devia ter vindo ─ me apresso em dizer. ─ Acho que exagerei no treino, estou com dor nas pernas.

É verdade, em parte. Não estava exatamente treinando quando ganhei as lesões, mas ainda assim.

Ele cruza os braços. Olha para o chão, olha para o céu escuro, olha para qualquer lugar, menos meus olhos. Após uma brecha constrangedora de silêncio que não contribuo para preencher, pergunta:

─ Tem algum problema? Eu fiz alguma coisa?

Merda.

─ Não! Pelo amor de Deus, não.

Quais são minhas opções aqui? A verdade, não. Posso dizer que existem muitas adversidades na minha vida agora, sem explicar quais, e dar um fora que vai extinguir as chances de retomar a amizade. Posso soltar o infame “não é você, sou eu” e aceitar nosso fim certo. Posso não dizer nada, enrolar até que ele desista e esperar ser tachada de imbecil, irresponsável sentimentalmente.

─ Eu não quis passar essa impressão ─ emendo. ─ Você não fez nada.

Não sei qual mensagem meu rosto transmite, mas Wes sai da postura defensiva e chega perto. Depois de um tempo, concorda com um aceno.

─ Você pode me dizer qualquer coisa ─ ele sustenta meu olhar. ─ Achei que soubesse disso, achei que nós dois sabíamos.

─ Eu sei! ─ confirmo com intensidade desmedida ─ É sério. Entre nós ─ indico no espaço que nos separa. ─ está tudo bem.

Ele se dá por vencido. Quando suspira e balança a cabeça, sei que contornei suas dúvidas. Guardo meu discurso improvisado de defesa para outra ocasião e, sem querer, concluo que homens são fáceis. Ou Wallace, pelo menos.

─ Quer voltar comigo? ─ ofereço.

É a coisa mais covarde que sai da minha boca. É egoísta, é imoral, mas não tenho a decência de me arrepender. Ainda não.

Ele procura alguma coisa em meu rosto antes de responder:

─ Preciso me despedir e pegar o carro, você espera?

─ Claro ─ imitando sua pose anterior, cruzo os braços sobre o peito ─ Não vou sair daqui.

O sorriso que reconheço como mais próximo de uma risada é aberto. Ele joga a cabeça para trás por um instante e a pouca luz aprofunda suas covinhas.

─ É, não vai sair daqui ─ repete numa descrença óbvia.

Sua boca toma a minha com eficiência. Ele me beija e não é nada comparado ao selo morno de mais cedo. Sua língua me encontra, exige uma resposta. Eu o agarro pelo pescoço só para senti-lo em novos lugares quando retribuo.

No fim, estou quente pelo contato físico e com um gosto para repetição. Isso faz com que me arrependa de ter passado duas noites mal dormidas, sozinha, louca.

Ganho um beijo carinhoso na testa.

─ Volto rápido ─ promete.

Concordo e o libero de meu aperto. Entro no carro assim que suas costas somem na entrada principal depois do portão. Tiro os sapatos de salto e calço o par confortável com uma adoração quase religiosa. Flexiono a sola dos pés, mexo os dedos na intenção de aumentar a circulação de sangue e, quem sabe, fazer o latejamento diminuir mais rápido. Ligo o som, coloco o cinto. Duas músicas depois, o CR-V de Wes desponta da garagem escura na extrema esquerda da casa. Com o motor já aquecido, manobro para sair. Ele pisca os faróis e entendo que está pronto, sendo assim, piso no acelerador e não me interesso em ir devagar.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.