Estrelas Cadentes
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Ele
Já é quase dezembro e eu ainda não me acostumei com a ideia de não vê-la. Essa época sempre foi a sua preferida, não é mesmo? Os dias frios, as tardes com chocolate quente, a neve que caía sempre sem avisar, e seu sorriso radiante. Sempre o mesmo sorriso fosse aos quatro anos ou aos quinze.
Aqui não neva, e não é nem um pouco frio, mas mesmo com o sol e o calor eu ainda posso pedir um chocolate quente, fechar os olhos e fazer com que flocos de neve pousem lentamente sobre meus cabelos. O gosto faz com que a saudade diminua, assim como faz com que as lembranças me inundem por dentro, e por fora. Porque todos que me olham vão saber que estou pensando em você. Mesmo que não te conheçam.
Em uma noite qualquer em que me afastei de todos meus colegas pude olhar para o céu. Sem conversas paralelas, sem perguntas, apenas o vento e as cigarras (existem muitas delas por aqui). Encarei a lua; é bom pensar que talvez você também a encare. Que olhar para a lua seja o nosso comunicar em silêncio. Como se a lua fosse seu olhar e mais uma vez ele se encontrasse com o meu e eu não precisasse falar nada.
Uma estrela cadente cruzou o céu e pensei em você. Daquela conversa que tivemos quando tínhamos nove anos. De como você adorou a ideia de uma estrela realizar desejos. Estávamos deitados no telhado da sua casa e como agora uma estrela resolveu cortar o céu.
— Minha mãe disse que os trouxas chamam isso de estrela cadente. – falei ainda olhando para o céu.
— Estrela cadente?
— Ela contou que, quando os trouxas veem uma dessas, eles fecham os olhos e fazem um pedido.
— Que tipo de pedido? – Você quis saber.
— Um pedido do coração.
— E ele se realiza? – Sua voz sempre foi tão empolgada.
— Só quem o pediu pode dizer isso. Eu nunca pedi nada.
Nesse momento você já não mais me escutava. Seus olhos estavam fechados, e suas mãos juntas ao coração. Seus lábios se mexiam sem emitir som. Aquele era seu primeiro pedido a uma estrela cadente.
Me diga, ele se realizou?
Ela
Já é quase ano novo. Dizem que os fogos de artifícios aqui são lindos, mas eu não consigo acreditar. Se lembra do quanto gostávamos de vê-los juntos? De como enchíamos nossas mochilas de doces e subíamos as escadas tortas da casa da vovó? Lembra o quanto gostávamos de sentar em frente à janela do último quarto, de onde quase podíamos tocar os fogos? Eu me lembro de ficar horas em silêncio apenas escutando a respiração acelerada um do outro.
Será que você ainda gosta disso? Será que vai assistir os fogos do alto? Ou do chão? Será que se lembrará de mim?
Eu adoro os bancos à beira dos canais daqui. Sento-me neles e converso com o vento, leio livros, e sempre escuto músicas. Um dia desses cantei uma canção de ninar para as águas. Era a sua preferida, uma que a maioria dos bruxos não conhecia. Você se gabava de ser uma das vantagens de ter parentes trouxas. Se você estivesse aqui, talvez eu cantasse para ti. Me lembro o quanto me pedia para cantar. Sempre que estava triste, ou sempre que brigávamos. Como se minha voz desafinada pudesse resolver tudo. Ou como se seus hábitos trouxas fossem uma fuga de todos os problemas.
Nós fugíamos de nós mesmos, ou é apenas uma impressão minha?
— Toque para mim. – eu pedia com as mãos unidas.
— Você sabe que não toco bem, é só brincadeira.
— Toque mesmo assim, por favor!
— Você canta?
Eu cantaria se você estivesse aqui, mas você está do outro lado do mundo.
Ele
Já é quase julho e parece que o frio resolveu chegar por aqui. Não é a mesma coisa. Eu vejo o sol se por todos os dias. E percebo como a linha do horizonte divide o mundo em dois. Você alguma vez reparou como o céu fica diferente ao entardecer? Ele nunca é de uma cor só. Não é só azul, assim como o sol não é apenas amarelo. É o único momento em que podemos olhar diretamente para o sol sem que os olhos ardam, sem que precisemos fechá-los. O único momento em que podemos encarar o sol, e deixá-lo nos encarar. O céu é rosa, é azul e é laranja. Ele é você, eu, e nós.
Eu gosto do horizonte, mas ele me lembra que estou milhas distantes de poder te ver. Eu trocaria todos os pôr do sol perfeitos, por você.
Eu posso ver as estrelas da América. Eu me pergunto: será que você as vê também?
Dessa vez eu faço o pedido.
Tomara que possamos realizá-lo.
Ela
Já é quase setembro. Sempre esperamos por esse mês. Lembra quando completamos 11 anos? Eu lembro de você entrando pelo meu quarto sem avisar, com sua carta em mãos. Como se fosse possível um de nós não recebê-la. Depois de tanta história com as nossas famílias, impossível não irmos para Hogwarts em grande estilo.
Todos os dias tento lembrar de algum tempo sozinhos. Não consigo encontrar nenhum momento em que eu estivesse sem você. Sempre foi assim? Sempre fomos nós? Não apenas eu. Não apenas você. Nós, apenas nós.
Me agarro a tudo que possamos dividir mesmo tão distantes. O vento que bagunça meu cabelo é o mesmo que toca seu rosto? A chuva que molha a minha roupa é a mesma que te impede de sair? O sol que aquece minha alma é o mesmo que te encara ao fim do dia? O céu que me observa caminhar é o mesmo que te guia? Eu espero que sim.
Então, abra seus olhos e veja nossos horizontes se encontrando.
Eu acredito que todas as luzes irão te guiar pela noite.
Ao meu lado.
Então faça seu pedido, eu aceito realizá-lo.
Ele
Já é quase meia-noite e eu ainda continuo acordado. Meus pensamentos me levam até você. Talvez me sinta. Eu me aproximo lentamente, e beijo sua testa e tiro seus cabelos dos olhos. Estamos tão longe; será que ainda se lembra do meu perfume? Eu me lembro do seu.
Toda noite dou ao céu uma imensidão de pedidos. Qualquer hora dessas eu sei que ele irá sangrar. São tantas palavras que o vento leva. Não apenas as minhas, não somente as suas, mas as de todos aqueles que mesmo de longe acreditam que pedidos podem se realizar. E nossos corações acreditam que todas as estrelas irão nos guiar para casa.
Você também traça caminhos? Também sente uma vontade avassaladora de aparatar? Também quase se entrega ao impulso de se deixar levar? Eu tantas vezes fiquei no quase. Quase esqueci das regras. Quase esqueci das promessas. Quase esqueci de todas as coisas. Porque eu nunca deixo de pensar.
Penso no seu olhar.
Penso no nosso abraço de despedida.
Penso em todas as palavras não ditas.
Penso no retorno.
E mais um pedido. Quando vamos voltar?
Ela
Já são quase três horas. Como a madrugada pode ser tão longa? Quase a sinto se arrastar pela minha pela. Sua voz é doce e ela me fala seu nome a cada segundo que se passa. Quando ela se cala eu posso ouvir seu coração. Normalmente é nesse momento que ligo o rádio.
Nem mesmo todos os barulhos do mundo poderiam abafar o som do pulsar das veias. Do ritmo lento e rápido. Já disse que posso ouvir seu coração pelo rádio? Ele bate. Tum. Tum. Tum. E eles tocaram “Chasing Cars”, a única música trouxa que deixaram tocar no baile de inverno. A única que dançamos de braços dados. Ela não é o tipo certo para dançar daquela maneira, mas nós dançamos. E quando o rádio voltar a tocar, eu sempre pensarei em nós.
Como é difícil deixar essa palavra. Nós.
Será que seríamos os mesmo sem ela? Será que você seria como é? Será que eu seria exatamente assim? Como saber se sem nós, as coisas seriam iguais?
Eu faço um pedido às estrelas.
Nós poderemos realizá-lo?
Ele
Já são quase oito horas. Estou de volta ao tempo em que você se deitava ao meu lado. Quantas vezes acordamos assim? Um ao lado do outro? Durante todos esses anos certamente são várias vezes. Mas me lembro de quando eu olhei para o lado e me apaixonei.
Naquele momento eu acreditei no tal “amor a primeira vista”. Claro que tínhamos nos olhado diversas vezes. Nós sempre fomos nós. Mas naquela manhã eu realmente te vi. Não foi o sol que iluminava seus cabelos, nem o cheiro do seu perfume que estava em toda parte do quarto. Foi o olhar.
Meu olhar viu algo que nunca tinha visto antes. Um amor à primeira vista que aconteceu na milionésima olhada. Um primeiro amor, que provavelmente já era amar antes de ser amor.
Então eu peguei a sua mão, e eu soube.
Tudo me levaria de volta a você. Sempre.
Naquela manhã eu percebi que sempre era uma promessa difícil de cumprir, mas que fazia todo sentido. Se existe nós, existe o sempre.
Você também pensa assim?
O sempre é meu pedido sendo realizado.
Qual é o seu?
Ela
O sol já se pôs aqui. Tem dias que é tão difícil enxergar a luz. O céu é apenas escuridão. Não gosto de dias assim. As estrelas são meu porto seguro, são a certeza de que ainda estamos unidos.
Você pode ver as estrelas de Amsterdã? E ouvir a canção que bate no meu coração? Porque eu posso te ouvir, mesmo no silêncio. E me lembro das noites no telhado de casa. Me lembro de quando tínhamos nove anos e você me contou sobre as estrelas cadentes. Me contou em como os trouxas acreditam que elas transformam desejos em realidades.
Naquele dia eu juntei minhas mãos e pedi.
— Por favor, que eu sempre tenha o Hugo perto de mim.
Depois de todos esses anos eu acho que a estrela fez seu trabalho. Ela realizou meu pedido. E enquanto estamos longe são elas, as estrelas, que me dão a certeza de que você sempre está perto de mim.
E o seu desejo? É o mesmo que o meu?
Então abra seus olhos e veja os nossos horizontes se encontrando.
Todas as luzes irão te guiar pela noite. Sempre ao meu lado.
Ele
Já está amanhecendo. E o céu está sendo tingindo de amarelo. Ele já sangrou de saudade, junto comigo. É tão difícil enfrentar os dias pensando em quanto tempo estou perdendo longe de você. Mas os nossos corações acreditam que todas as estrelas irão nos guiar para casa.
E agora falta pouco.
Eu me lembro de fechar os olhos depois de você. Lembro de tentar descobrir o que pedia à sua primeira estrela cadente.
Não sabia o quanto algumas lendas podem ser verdadeiras.
Então pedi.
— Que todos os pedidos de Lily se realizem.
E eu ainda peço o mesmo.
Que seus pedidos se tornem reais.
Porque eu acredito no sempre. No nós. No impossível.
Eu acredito nas estrelas cadentes.
Eu posso ver as estrelas da América.
E todas elas me dizem.
Lily.
Ela
Eu posso ver as estrelas de Amsterdã.
E todas elas me dizem.
Hugo.
Notas finais
N/A: Obrigada Beta Diva. Obrigada leitores. Beijinhos e espero que tenham gostado...
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