— Aqui estamos! – Bradou Sans fazendo um gesto com uma das mãos. – Bem-vindo à Snowdin. – Sorriu.

Red olhou ao redor, totalmente boquiaberto.

Era uma cópia exata de sua Snowdin, mas ao mesmo tempo não era. Aquela possuía uma aura pacífica e resplandecente. Lhe dava uma sensação muito agradável. Ele não sabia o que era, afinal, apenas ódio e cinismo impregnavam seu ser. Entretanto, naquela cidade coberta de neve e com aroma de biscoitos recém saídos do forno, podia sentir algo novo. Uma sensação boa em seu peito. Seria ternura? Não, algo assim. Então percebeu. Estava com sua guarda baixa e não se sentia mal com aquilo. Pelo contrário!

Se sentia protegido ali.

O esqueleto fitou um pequeno grupo de crianças correndo umas atrás das outras em alguma brincadeira de pega-pega. Um casal passeava de mãos dadas, com enormes sorrisos apaixonados. Um urso vestindo um casaco de tweed laranja dispunha alguns presentes coloridos embaixo de uma árvore de Natal. Uma coelha carregava seu filhote com cautela em seus braços felpudos e carinhosos.

A Snowdin que conhecera não chegava nem aos pés da que estava a admirar.

— Wow! – Exclamou Sans, fazendo com que Red saísse daquele torpor e o encarasse em confusão. – Foi um sorriso que eu vi em seu rosto? – Questionou com uma expressão divertida.

— Não enche. – Reclamou o outro, assumindo uma expressão ranzinza. Percebendo que ainda segurava a mão da contraparte, ele se afastou como se tivesse tocado em ácido.

— Esquece. – Murmurou o de casaco azul. – Acho que foi só impressão minha. – Ele enfiou as mãos no bolso e começou a caminhar na direção de um pequeno prédio.

A edificação possuía apenas um andar e era construída com tijolos marrons de várias tonalidades. O nome pelo qual o lugar atendia estava escrito em branco com uma bela letra cursiva na vitrine e fachada do prédio.

Sans entrou no lugar sem hesitar, mas Red pestanejou. Ele levantou os olhos até a fachada do edifício. Parecia tanto com o antigo que costumava frequentar em sua linha temporal.

— Boa tarde, Sans! – Gritou um monstro bêbado em uma mesa próxima. – Belo dia, não? – Questionou.

— Heh. Eu esperava mais neve, mas acho que está gelado o suficiente. Preciso arranjar mais um casaco, já estou branco de frio! – Disse, ajeitando a gola do dito cujo. Os outros monstros caíram na risada devido ao trocadilho, talvez porque fosse realmente hilário ou fosse apenas o álcool fazendo o mundo mais colorido.

— O que faz aqui? – Perguntou um monstro parecido com um pato que estava sentado ao balcão. – Você normalmente vem mais tarde. – Comentou, então pegou a garrafa que estava sobre o tampo lustrado e deu um trago.

— É, Sans. – Disse Doggo enquanto farejava o ar. – Quem é o monstro lá fora? É seu amigo?

— Lá fora? – Repetiu o esqueleto se virando. Pela vitrine ele pôde ver que Red não havia entrado. Parecia que nem havia se movido, para falar a verdade. Estava parado do lado de fora encarando o prédio com uma expressão vazia no rosto. – Eu já volto. – Avisou, saindo da lanchonete. Uma rajada de vento fria o fez se arrepiar, haveria uma nevasca em breve, a julgar pelo clima. – Red! – Exclamou, arrancando o outro esqueleto de seus devaneios. – Por que está aqui fora?

— Porque sim. – Retrucou cruzando os braços. – Eu não vou ficar te seguindo como um cachorrinho abandonado, sabia? – Sans suspirou, irritado.

— Está bem. Será que você pode entrar? – Pediu. – Estou congelando aqui fora.

— Peça com jeitinho. – Provocou com um sorriso sacana surgindo em seu rosto. O outro o encarou tentando descobrir se ele estava falando sério ou não. Aparentemente estava, pela expressão em sua face.

— Arght. Poderia, por obséquio, entrar neste estabelecimento comercial pois estou a tremer devido ao clima glacial? – Rosnou entredentes.

— Hum... – Red fez, pensativo. – Não está bom o suficiente para mim.

— Ah, vá à merda e congele até a morte, então! – Retorquiu Sans, batendo a porta com força ao entrar. – Idiota. – Rosnou.

— Nossa, assim você me magoa. – Reclamou falsamente. O esqueleto de roupas escuras estava sentado ao balcão e ostentava um grande sorriso de divertimento. Sans se amaldiçoou mentalmente, não podia acreditar que havia caído em um dos joguinhos da contraparte.

O esqueleto de pantufas sentou-se ao lado do outro.

— Grillby! – Chamou. O barman ergueu o olhar do copo que estava enxugando. – O de sempre, por favor! – Grillby assentiu e pegou uma bisnaga de ketchup embaixo do balcão, entregando a ele logo em seguida. – Obrigado, parceiro. – Sans abriu a bisnaga e bebericou um pouco de seu conteúdo. – Ah, que delícia! – Exclamou. – Grillby tem o melhor ketchup de todos! – Confidenciou a Red, que apenas deu de ombros. Ele estava distraído, encarando com desejo uma bisnaga de mostarda que estava do outro lado do balcão. Fazia tanto tempo que não bebia uma. Apenas imaginar o gosto apimentado do condimento fazia com que ficasse com água na boca.

— Podemos fazer os pedidos? – Perguntou para Sans. O esqueleto de pantufas reprimiu um sorriso devido a nota de submissão que havia percebido no discurso do outro, mas ficou em silêncio. – Estou morrendo de fome!

— Peça o que quiser. Acho que você sabe como fazer, certo? – Red lhe deu a língua, o que apenas fez o outro rir.

— Eu quero um hambúrguer com fritas. – Disse. Grillby se virou para entrar na cozinha, mas o esqueleto de roupas escuras o impediu ao chamá-lo novamente. – E uma bisnaga de mostarda, também. – O barman assentiu e desapareceu pela porta.

— Mostarda, é? – Provocou Sans tirando um pente do bolso de seu calção. O esqueleto de pantufas entreouviu um xingamento dirigido a sua pessoa provindo de Red, mas ignorou enquanto penteava seu crânio.

O alimento não tardou a chegar, e Red encarou a refeição com o estômago roncando. Finalmente iria comer de verdade.

Ele avançou, sedento, sobre a comida. Sans apenas sorriu, bebericando seu ketchup enquanto observava a contraparte se alimentar.

~X~

Red afastou o prato com um suspiro de contentamento. Ele limpou o que sobrou de mostarda de seu rosto com um guardanapo, sentindo-se muito bem.

— Satisfeito? – Perguntou Sans. O esqueleto de roupas escuras se voltou para a contraparte, havia esquecido que ele estava ali consigo.

— Estou. – Respondeu. – Obrigado.

— Espera? O que disse? Eu não ouvi direito. – Provocou com um sorriso sacana.

— Eu não vou repetir, se é o que está pensando. – Retorquiu se colocando de pé.

— Aonde você vai? – Questionou Sans sem sair de seu lugar.

— Vou voltar para Waterfall.

— E fazer o que lá? – Indagou o de pantufas casualmente.

Red ficou em silêncio e foi na direção da porta.

Sans suspirou, vencido.

— Okay, Grillby. – Disse se levantando. – Pode colocar na minha conta. – Avisou, espanando a roupa e seguindo o outro para fora da lanchonete.

— O que está fazendo? – Perguntou a contraparte notando que estava sendo seguido.

— Eu vou com você. – Retrucou colocando as mãos nos bolsos. Havia esfriado ainda mais no meio tempo que haviam ficado lá.

— Eu não preciso de escolta. – Retrucou de maneira ríspida.

— Não vou por causa de você. Só gosto de caminhar após uma refeição. – Disse, o outro esqueleto não acreditou muito nas palavras de Sans, mas deixou que este o seguisse.

Após algum tempo caminhando em total silêncio, o esqueleto de pantufas retomou o diálogo.

— Sabe. – Falou atraindo a atenção do outro. – Minha casa é logo ali na frente.

— E daí? – Retorquiu Red.

— Você não quer dormir em um lugar mais confortável do que o chão de uma caverna? – Sugeriu dando de ombros.

— Está querendo dormir comigo? – Provocou a contraparte. – Agora entendi o porquê de ter me levado para jantar. – Riu.

— Só estou fazendo um favor para os moradores de Waterfall e poupando eles de verem essa sua cara feia vinte e quatro horas por dia. – Rebateu Sans.

— Heh. – Foi a única resposta que recebeu de Red, pois logo ele ficou taciturno novamente.

Estavam parados na frente da casa que Sans dividia com Papyrus.

Red encarou a edificação com um sentimento de nostalgia lhe ferrroando a alma. Sentia tantas saudades de sua casa, de sua cama, de seu quarto bagunçado... Até da encheção de saco de seu irmão mais velho.

— Última chance. – Disse Sans. – É pegar ou largar! – Anunciou. Na verdade ele estava convencido que a contraparte iria aceitar. Apesar de Waterfall ser um local bonito, nenhum monstro não-aquático se dava muito bem como morador de lá. A umidade relativa do ar era exorbitante! Era extremamente incrível que Red não tivesse adoecido ainda.

O esqueleto de roupas escuras abriu a boca para responder quando, de repente, Papyrus irrompeu pela porta da frente aos gritos.

— SANS! – Bradou. Ele estava com um avental sujo por cima de sua “armadura”. – AONDE VOCÊ ESTAVA?! EU TE PROCUREI PELO SUBSOLO INTEIRO!!

— Ah, desculpe Papyrus. Eu estava no Grillby's. – Explanou.

— NAQUELE LUGAR GORDUROSO?! – Exclamou.

— Eu estava com um amigo. – Disse, e Papyrus finalmente pareceu notar Red, que estava congelado no mesmo lugar desde a aparição do caçula de Sans.

— ORA, POR QUE NÃO DISSE ANTES QUE TERÍAMOS VISITA?! – Bradou se aproximando da contraparte do irmão. – Nyeh hehe! Olá, amigo do Sans! Qual seu nome? – Perguntou com um sorriso enorme em seu rosto. Red recuou. – Ora, vamos! – Continuou Papyrus. – Não seja tímido! – O esqueleto de roupas escuras agarrou a lateral de seu corpo em agonia. Seu antigo ferimento estava formigando de uma maneira dolorosa. Seria por causa de Papyrus?

— Hum, Papyrus. – Disse Sans tentando desviar a atenção de seu irmão ao notar um cheiro peculiar no ar. – Tem algo queimando. – Suas palavras surtiram efeito quase que imediato sobre seu irmão, que arregalou as órbitas em desespero.

— MEU ESPAGUETE!! – E desapareceu dentro da casa.

— Heh. Perdoe meu irmão, ele é meio entusiasmado demais. – Confidenciou dando de ombros. Mas não recebeu nenhuma resposta do outro, nem mesmo uma piada ou uma risada sarcástica. – Red? – Ele se virou para o esqueleto de roupas escuras. Havia uma expressão estranha em seu rosto. Uma que ele nunca havia visto antes. – Você está bem? – Sans tentou colocar a mão sobre o ombro do outro esqueleto, mas este a afastou com um gesto brusco.

— Sim. – Disse, então deu as costas para o esqueleto de pantufas. – Vou voltar para Waterfall. – Disse enquanto ia embora.

— Espera! – Gritou Sans. – Você não vai querer ficar? Nem por uma noite?! – Exclamou. Red hesitou, pensando por um instante.

— Não... Apenas me deixe em paz. – Pediu. Sans desceu o olhar, o outro ainda mantinha a mão precionando a lateral de seu corpo.

— Você tem certeza? – Insistiu. Algo dentro de si não queria que Red fosse embora. Talvez pela maneira como ele estava. Havia algo incomodando Sans. Todavia, o esqueleto não sabia o que era.

— Absoluta... – Respondeu. Então Red se esvaiu no ar ao teleportar-se para a caverna, deixando o esqueleto de pantufas parado no meio da neve. Um forte vento soprou, e os flocos começaram a cair novamente, encobrindo as pegadas incompletas da contraparte.