Foi a viagem de elevador mais desconfortável do mundo para a doutora.

Alphys podia sentir a tensão no ar, ambos os esqueletos se encaravam como se fossem sair no soco caso ela não estivesse com eles. Ela se pegou desejando mentalmente para que Sans agisse de maneira mais madura. Se ele realmente queria compreender a aparição de Red para, assim, provar sua teoria, ele deveria parar de agir feito uma criança barraqueira.

Além que, a doutora poderia ter conhecido o esqueleto de jaqueta escura há poucas horas, todavia ela sentia que ele não queria realmente brigar, só reagia daquela maneira no intuito de se defender. Enquanto que Sans mais parecia um cão de rinha pronto para uma briga, Red lembrava muito um cachorrinho assustado que fora abandonado e que só estava buscando um jeito de encontrar seu rumo novamente.

Ping!

As portas se abriram, quebrando sua linha de raciocínio, e eles saíram. O esqueleto olhou ao redor, surpreso.

— Onde estamos? – Questionou Red, indo direto para o dakimakura que estava caído no chão. – Ah, vocês também tem esse programa aqui? – Perguntou, ajuntando o travesseiro com uma risada. Alphys sentiu Sans enrijecer ao seu lado, e captou a expressão que havia feito um pouco antes de ele conseguir disfarçar. Ela semicerrou os olhos, sabia exatamente qual pensamento havia cruzado sua mente.

— Eu moro aqui, esse é meu apartamento. – Respondeu a doutora. Ela tropeçou até o sofá, visto que ainda estava servindo de apoio para o esqueleto de jaqueta azul, e o ajudou a se sentar no móvel, percebendo a careta de dor que ele tentou reprimir. Preocupada, ela levou a mão na direção de seu ferimento, porém ele lhe segurou o pulso. Seu olhar era claro: “Não agora. Não na frente dele.”. Ela crispou a boca, desgostosa, mas respeitou sua decisão.

— Eu não sabia que existiam tantas temporadas. – Comentou Red, remexendo na coleção de DVD’s que estavam empilhadas sobre um rack embaixo da televisão. – Eu nunca vi esses especiais. Meu irmão... – Ele não chegou a terminar a frase, se encolheu com um resmungo de dor, derrubando uma pilha próxima.

— Você está bem? – Indagou a fêmea, aproximando-se no intuito de assisti-lo. O esqueleto, protegendo a cintura com os braços, recuou um passo, percebendo que havia deixado sua guarda baixa.

— Não me toque!

— Está bem, mas você precisa trocar essas bandagens ou seu ferimento vai infeccionar novamente!

— Alphys. – Sans havia se levantando com dificuldade. Ele colocou a mão em seu ombro. – Pegue o kit de primeiros socorros, eu lido com ele. – Ela chegou a abrir a boca para contestar, porém desistiu, e foi mexer em alguns armários a procura do kit.

— “Eu lido com ele”? – Troçou Red. – Quero ver você tentar.

— Seu corpo já está exaurido demais devido à lesão, assim que você usar sua magia, você vai desmaiar devido ao estresse excessivo que vai sujeitar a si mesmo. Podemos fazer da maneira fácil, ou da maneira difícil. – Red permaneceu com uma expressão de desafio ante as palavras da cópia, porém notou que Sans estava falando a verdade. Estava cansado demais para se defender. E, pela maneira como o outro lhe olhava, ele podia ver o que a contraparte estava tentando esconder: Sans também não estava em condições para outra disputinha boba.

— Aqui, Sans. – Disse a fêmea, retornando com uma maletinha branca que tinha um símbolo de adição vermelho desenhado na frente. O esqueleto pegou o objeto de suas mãos.

— Obrigado, Al. Você tinha mencionado comida antes, acho que nosso convidado pode estar interessado, não é, Red? – Questionou, o outro chegou a abrir a boca para falar, mas ele lhe cortou. – Ótimo! Agora, sente-se. – Demandou, fazendo-o.

A contraparte trocou olhares com Alphys, ambos parecendo desnorteados, mas o esqueleto de casaco escuro deu-se por vencido e obedeceu. A doutora foi fazer o que o outro havia sugerido, porém observava de longe, com ar desconfiado, provavelmente esperando ter que apartar alguma briga uma outra vez.

Sans levou a mão para puxar o zíper do casaco de Red, porém este lhe agarrou o braço.

— Você não perde a oportunidade para querer arrancar minhas roupas, né? – Provocou. O esqueleto de azul acabou rindo do comentário, mas afastou a mão e deixou que ele se despisse.

O ectobody rubro brilhou ao ser exposto. As bandagens estavam horríveis. Pela mancha sanguinolenta, Sans já sabia que alguns pontos deveriam ter arrebentado com toda aquela confusão.

Ele desviou o olhar ao perceber que estava encarando, e decidiu por abrir a maletinha que, para sua felicidade, estava completa. Alphys e seu lema de “melhor prevenir do que remediar”. Pegou um vidro com álcool-em-gel e higienizou as mãos.

Red esperava que ele fosse bruto, porém ficou surpreso com a delicadeza empregada pela contraparte. Com demasiado cuidado, ele havia desenrolado as bandagens, e estava removendo, lentamente, o esparadrapo que segurava a gaze sobre o ferimento.

Suas mãos se tingiram de vermelho ao remover o curativo, e o esqueleto de jaqueta azul fez uma careta de desgosto.

— Com nojinho? – Provocou Red com um sorriso irônico.

— Não, só vendo o quão idiota você foi ao erguer peso estando todo remendado. Vou precisar refazer algumas suturas. – Comunicou, pegando um recipiente plástico de dentro da maleta. – Agora vou passar água oxigenada para esterilizar o ferimento. Já vou avisando, vai doer. – Disse, girando a tampa para abrir.

O liquido entrou em contato com a lesão, causando uma onda de dor por seu corpo com a força de um soco. Red viu estrelas.

— Opa. – Exclamou Sans, conseguindo segurar o esqueleto quando este tombou para frente. – Red? Tudo bem aí?

— Uhuumm... – Conseguiu responder, entredentes. Suas orbitas cerradas estavam levemente úmidas devido as lágrimas de dor.

— Eu sei que está doendo, mas ainda preciso fazer as suturas. Você acha que aguenta? – Recebeu um aceno positivo como resposta. – Se doer, você pode apertar meu omb-- NÃO! Não, só o esquerdo! O ESQUERDO! – Brigou com uma careta dolorida quando Red lhe agarrou ambos os ombros. Uma risada escapou da contraparte por causa de sua reação, e Sans decidiu assumir aquilo como um bom sinal que ele não estava entrando em choque pela perda de sangue.

Refazer os pontos foi a parte mais fácil, de vez em quando um resmungo escapava do esqueleto, e ele apertava com força o ombro da cópia, porém ele não desmaiou assim como Sans esperava. Progresso!

Por fim, o esqueleto de jaqueta azul passou uma pomada sobre o ferimento e fez um curativo caprichado.

— O que é esse negócio? – Questionou Red. – Isso fede.

— É um remédio que vai estimular a cicatrização do seu machucado. Logo você vai estar novo em folha para sair me infernizando novamente. – Instigou, dando tapinhas na bochecha de seu paciente, puxando a mão a tempo de evitar uma mordida. Com uma risada genuína, ele se ergueu, ajudando Red a ficar de pé, e cambaleou com o outro esqueleto na direção do banheiro.

— Para onde está me levando? – Indagou. Ele achou que tinham levantado rápido demais, pois sua visão ficara um pouco embaçada.

— Você precisa de um banho.

— Olha só quem fala, você está fedendo a cachorro molhado. – Resmungou ele. – Além que eu consigo tomar banho sozinho.

— Se você molhar o curativo, terei que refazer tudo de novo. Você vai querer isso? – Retrucou, sentando-o na borda da banheira.

— Está bem, então eu não vou estragar o curativo.

— Red...

— Eu já disse que estou bem, qualquer coisa eu chamo.

Sans ficou lhe encarando, ele não queria que o outro ficasse sem supervisão por inúmeras razões. Ele lavou as mãos na pia, ponderando sua próxima decisão. Por fim, ele suspirou, cedendo.

— A porta vai ficar entreaberta. Se sentir que vai apagar, grite. Vou arranjar algumas roupas para você.

— Pode deixar, mamãe. – Troçou o esqueleto. A contraparte revirou os olhos e se ausentou, deixando a porta entreaberta assim como havia dito.

. . .

Havia uma sacola plástica, com roupas e um par de pantufas rosa, pendurada no trinco da porta quando Red a entreabriu. Rapidamente, ou na velocidade que conseguia sem que tudo doesse, ele se vestiu, e foi averiguar sua aparência no espelho embaçado preso á parede.

Por Asgore, Sans não tinha roupas mais patéticas para lhe dar?! A calça de pijama de flanela vermelha lhe caiu bem, porém a blusa de “As Duper Gatinhas” fora uma péssima escolha. Ele deveria tê-la escolhido por pura birra, como a contraparte sabia que ele odiava aquela personagem em específico?!

Red decidiu por esconder a blusa com sua jaqueta, porém lembrou que havia esquecido ela na sala. De qualquer forma, ele precisava voltar para lá mesmo, estava faminto, e o cheiro do macarrão invadia o banheiro de maneira tentadora.

Ele abriu a porta e estava prestes a sair quando ouviu alguma coisa. Aguçou sua audição e percebeu que Sans e Alphys estavam conversando.

— . . . atacá-lo com blasters?! – Dizia a doutora. Estaria ela ralhando com o outro esqueleto visto seu tom irritado? – Você não tem jeito!

— Ai! Isso doeu! – Reclamou ele.

Red espiou um pouco para fora do banheiro para obter mais contexto.

Sans estava, sem blusa ou jaqueta, sentado no sofá enquanto que a fêmea parecia estar examinando seu ombro machucado.

— Pare de se mexer, preciso colocar isso no lugar certo. Por que não me contou antes? Você sabe muito bem os perigos de uma fratura mal-cicatrizada! – Brigou, então ela puxou o braço dele com força fazendo com que gritasse, até Red se encolheu em simpatia pela dor, tendo em vista que até ele conseguiu ouvir o estalo nauseante que a articulação fez ao entrar nos eixos. – Prontinho. – Sans lhe fuzilou com o olhar, arqueado sobre o membro dolorido, levando em consideração que se abrisse a boca não sairia nada mais que um gemido de resignação. – De nada.

— Obrigado. – Conseguiu resmungar entredentes, a muito contragosto.

A doutora se ajoelhou para ficar no nível da caixa torácica dele. Ela pareceu correr os dedos sobre algum padrão em diagonal em suas costelas que Red não conseguia ver devido à distância, e a fêmea ajeitou seu óculos para enxergar melhor. Sans se remexeu, fazendo uma careta, incomodado.

— Está doendo, não é? – Supôs a fêmea.

— Está tão feia assim?

— Você está muito pálido, com a respiração descompassada, além que você não costuma usar aquela magia de capturar a alma de outro monstro a não ser que você não tenha mais forças para utilizar as outras. – Comentou a doutora. – Você havia extrapolado antes mesmo de encontrarmos com Red. Eu vi as manchas na sua blusa. Você atacou o amalgamado canino. – Acusou.

— Ele que me atacou!

— Você invadiu o território dele! O que estava fazendo tão fundo no laboratório?

— Me perdi.

— Nós dois sabemos que não é verdade. Você odeia aquele trecho! – Ela ficou em silêncio por um momento, pensativa. – Você ainda está tendo aqueles ataques de teleporte sonâmbulo? – Sans não lhe respondeu, muito menos sustentou seu olhar. – Está tudo bem, eu não vou te julgar. Até eu tenho pesadelos com aquele dia, às vezes. – Ela deu um sorriso triste, pegando uma tipóia e prendendo-a ao redor de seu ombro e braço lesionados. – Você sabe que podemos conversar sobre essas coisas, certo?

— Claro, mas, de preferência, sem aquele enxerido bisbilhotando a conversa alheia. – Disse, fazendo um gesto na direção de Red que estava espiando da porta do banheiro. – Meus olhos estão aqui. – Provocou. – Se quiser continuar olhando, eu vou precisar cobrar. – Ele abriu um sorriso sarcástico. – E, para seu governo, eu não sou barato.

— Como se alguém fosse estúpido o suficiente para pagar para ver isso. – Retrucou, aproximando-se deles e gesticulando de forma generalizada para o corpo de Sans, que lhe respondeu com um gesto obsceno com o braço sadio.

— Ah, Red, como você está se sentindo? – Questionou a doutora, voltando sua atenção para ele.

— Ainda dói, mas estou bem melhor... É macarrão instantâneo sabor bolonhesa? – Questionou, apontando para três tigelas sobre uma mesa próxima.

— Sim, o da tigela verde. Fique à vontade.

Red, ignorando qualquer cerimônia ou respeito à etiqueta, correu e caiu de boca em sua comida. Sans — após vestir seu benquisto seu casaco — e Alphys se juntaram a ele um pouco depois.

— Quando terminar de comer, você pode tomar isso. – Disse a doutora, deslizando um blister que continha umas 8 drágeas, brancas como papel, dentro

— O que são?

— Chumbinho. – Brincou Sans de sobre sua tigela, recebendo um pisão de Alphys — que se encontrava sentada a seu lado — em reprimenda, logo em seguida.

— São anti-inflamatórios, para sua lesão não incomodar tanto. Tome a cada 12 horas. Você não tem alergia a nenhum medicamento, tem?

— Não que eu saiba. – Respondeu, pegando o blister e guardando no bolso da calça. – Aquele negócio que você deu para ele é igual a esses analgésicos? – Questionou, desinteressado. Alphys parou o garfo a meio caminho de sua boca, e Sans apenas ergueu o olhar de maneira abrupta.

— Não te ensinaram que é feio falar de boca cheia? – Falou a contraparte, rispidamente. – Mesa não é lugar de conversa.

— Ele só está curioso, Sans. – Disse Alphys, tentando apaziguá-lo. – Respondendo sua pergun--

— Os seus são como uma volta no parque, os meus são como uma volta no inferno. – Interrompeu o esqueleto de jaqueta azul. – Dúvida sanada, agora volte a comer. – Resmungou, azedo, enfiando uma garfada de macarrão na boca.

— Mas se são remédios, eles não deveriam mais ajudar do que piorar?

— Na verdade, muitas medicações são conhecidas por seu efeitos adversos. Uma medicação para tratar uma infecção pode causar doenças renais crônicas, um remédio voltado para dor de cabeça pode causar um AVC, e por aí vai. – Esclareceu a doutora. – Sans tem os efeitos adversos mais leves, ao menos. – Comentou. – Náusea, enjôo, tontura... Às vezes dores no corpo e de cabeça quando ele abusa. – A frase final foi proferida com um olhar de reprovação para o esqueleto de Undertale, que tratou de ignorá-la.

— E quais são as mais sérias? – Questionou Red, curioso.

— Desestabilização dos núcleos atômicos, fissão nuclear que desencadeia ligações iônicas, podendo ocorrer perda da memória de longo prazo declarativa, perda cognitiva geral... Uma fixação anormal a milho transgênico saborizado artificialmente.

— O quê?! – Indagou, confuso. A doutora parecia estar se comunicando em outra língua falando daquela forma.

— Você vira um dos carinhas lá de baixo. – Atalhou Sans, invadindo a conversa, sem erguer o olhar de sua refeição. – Você vira um amalgamado.

— Espera! Aqueles bichos lá embaixo são monstros?!! Que nem a gente?! – Exclamou, surpreso. Recebeu um aceno positivo de Alphys. – E como você não virou um deles?

— A quantidade de determinação foi muito baixa, além que a minha alma estava entrando em estado crítico. – Ele fez um gesto vago com o garfo na direção de seu esterno, fingindo que segurava uma seringa ao invés do utensílio. – Foi como tomar uma vacina extremamente dolorosa para ficar novinho em folha.

— Mas Sans não está fora de perigo, obviamente. – Ajuntou a doutora.

— Alphys. – Advertiu Sans, ríspido.

— O corpo dele vai se acostumando com as doses, quanto mais ele usa seus poderes, mais rápido seu corpo necessita das pílulas...

— Alphys. – Repetiu, pousando o garfo sobre a mesa com certa brutalidade, o metal soltando um tinido pelo impacto. Ele a encarou de cara feia.

— Mas isso não deve fazer bem, né? – Disse Red, por mais que amasse colocar lenha na fogueira, ele não queria causar nenhuma discussão, apenas saciar sua curiosidade. – Eu não sou hipocondríaco, mas sei que medicamentos em excesso fazem mal.

— Não dê corda à ela. – Suplicou, voltando-se para ele.

— A alma dele entra num estado de morte suspenso toda vez que ele toma a pílula. Se ele não tomar a medicação, sua alma entra em colapso e...

— Ok, já que vocês querem discutir isso nesse exato momento; o negócio é o seguinte, Red! – Gritou, batendo com a mão sadia na mesa e levantando-se, cortando Alphys no processo. – Um dia as pílulas não farão mais efeito e, na melhor das hipóteses, eu vou me tornar um amalgamado.

— E qual é a pior? – Provocou, com um sorriso de escárnio, cruzando os braços e se reclinando em seu assento. – Vai melhorar essa sua cara feia? – Troçou.

— Em tese, sim, porque vou me desfazer em poeira e morrer. – Respondeu. O sorriso travesso de Red esmoreceu. O esqueleto olhou com assombro para Alphys, esperando que ela desmentisse, ou gritasse: "Brincadeirinha! Pegamos o bobo na casca do ovo!"; porém a doutora permanecia com seus olhos pesando sobre a tigela, enquanto que remexia seu macarrão com o garfo, sem demonstrar interesse em comê-lo.

— Mas isso não vai acontecer, né? – Indagou, voltando seu olhar para a contraparte.

— Obviamente que não. Você não vai se livrar de mim tão fácil. – Disse, não soando tão convicto, tornando a se sentar. – Agora volte a comer antes que esfrie.

Red ainda direcionou um olhar para Alphys esperando algum adendo, porém a única coisa que ela disse, em seguida, não era exatamente o que estava esperando:

— Depois do jantar, pode assistir os DVD’s, se quiser. – Murmurou mais para sua tigela do que para o esqueleto.

— Uh... Obrigado... ?

~ X ~

Era difícil manter o foco nas mocinhas vestidas de gato, que apareciam na tela, salvando o mundo dos humanos vestindo minissaias plissadas e camisetas baby-look apertadas. Principalmente porque estavam assistindo uma temporada que Red nunca havia visto na vida, então ficava complicado acompanhar a trama que se discorria. Não obstante, ele não conseguia parar de pensar no que Sans havia dito na hora do jantar.

O esqueleto de flanela vermelha achava inconcebível a ideia de que ele iria se tornar um dos seres deformados que povoavam os corredores sob seus pés. Todavia, a maneira como ele não queria que Alphys falasse tão abertamente daquilo, parecia bastante legítima. Red esperava que fosse uma pegadinha. Não que se importasse com a contraparte, longe disso, porém ele percebeu que, se não fosse pelo outro, ele estaria estrebuchando de fome e dor em alguma fissura de Waterfall naquele exato momento. Ou, muito provavelmente, algo pior. Apertou o tecido sobre seu ferimento, pensativo. Não haviam feito nada além de brigar desde que se conheceram, mas Sans também havia feito com que ele se sentisse melhor desde que havia fugido de seu lar, mesmo que negasse veementemente esse fato.

Ter alguém que compreendesse suas brincadeiras e provocações, e respondesse de igual nível, era difícil de se encontrar em qualquer esquina.

— Eu vou para a cama. – Anunciou Alphys, espreguiçando-se e erguendo-se do sofá. – Podem assistir quantos episódios aguentarem, só não aumentem o volume da TV. Não quero receber outra notificação de barulho. – Ciciou, um bocejo interrompendo-a brevemente, então subiu as escadas que davam para seu quarto, no mezanino.

Uns vinte minutos depois, o episódio acabou, e Red piscou, bocejando.

— Eu não estou entendendo nada. – Murmurou para Sans, que estava sentado a seu lado, e esperou algum comentário espertinho sobre seu intelecto. – Ué, sem piadinhas? – Provocou, voltando-se para ele, porém, não recebeu resposta. A razão? O esqueleto estava em sono profundo, quase tombando para cima da contraparte. – Sans? – Questionou, cutucando a lateral do crânio do dorminhoco, fazendo com que o corpo dele finalmente escorregasse e sua cabeça acabasse descansando bem sobre seu ombro esquerdo. – Ei, eu não sou travesseiro. – Reclamou. Red posicionou as mãos nas costelas de Sans para empurrá-lo para o outro lado, visto que não poderia tocar em seu braço lesionado, porém parou ao sentir o pulsar da alma da cópia sob sua palma. Ou o que seria, visto que não palpitava que nem a sua própria. Ela pulsava de uma maneira errônea e lenta, como se fosse parar a qualquer segundo. Além da respiração irregular dele, como se fosse um martírio continuar vivo.

O esqueleto correu os dedos sobre o tecido da blusa nova que ele vestia, sentindo o sulco bizarro que distorcia o contorno natural das costelas vertebrosternal, porém retirou a mão no momento que Sans mexeu a cabeça, ainda adormecido, aparentando desconforto. A contraparte bufou, cruzando os braços sobre sua caixa torácica, contrariado.

— Está bem... Você pode me usar de travesseiro até o final desse episódio em recompensa por tudo que têm feito até agora. – Resmungou, ajeitando-se em uma posição mais confortável para ambos, e voltando a assistir o anime . – Mas só até os créditos!

Por incrível que pareça, foi a primeira vez em 7 anos que Sans não teve pesadelos.