Estrelas
2 O Suicídio
Os saltos do par de botas que Miranda usava faziam um barulho anormalmente rápido e ritmado pela calçada deserta que se estendia a sua frente. De momentos em momentos olhava para os lados, certificando-se de estar sendo cuidadosa; já era fim de tarde e nem um pouco seguro para uma mulher andar sozinha, mas isso não era novidade para Miranda Lancaster: já estava acostumada a estar sempre sozinha, sabia se cuidar. Desde que fora para a Universidade, não via mais seu pai; a única pessoa com quem permanecia tendo contato — a não ser sua mãe — era com seu irmão mais novo.
O ar estava gélido, o que a fazia enterrar seus punhos cada vez mais dentro dos bolsos de sua jaqueta cor vinho. O céu parecia prestes a derrubar uma grande quantidade de chuva, ao considerar os trovões que começavam a se fazer ouvir. Um relâmpago cortou as nuvens. Começou a sentir-se ansiosa e procurou respirar ao mesmo ritmo de suas passadas, que agora se tornavam mais rápidas.
— Com licença. — um homem praticamente surgiu do nada ao seu lado.
Miranda se sobressaltou, pulando vergonhosamente alguns centímetros no ar, e o encarou curiosamente. Tinha sua altura e usava um sobretudo preto, da mesma cor de seus olhos e cabelos. Era pálido e inexpressivo, quase como um vampiro. Começou a chuviscar, gotas geladas escorrendo por seu rosto.
— Desculpe, mas estou com muita pressa. — falou, voltando a andar. Não queria permanecer parada no escuro com um estranho.
— Preciso saber onde fica a rua 32, conhece? — ele a seguia pela rua.
— Não, lamento. — ela nem ao menos prestara atenção ao nome da rua, mas começava a se sentir desconfortável e apressou ainda mais os passos. A chuva ficou mais forte, então virou depressa a esquina deixando o homem de preto para trás.
Estava trêmula e agora quase corria, sentindo a chuva encharcar seus cabelos. Já estava quase chegando em seu apartamento, onde vivia sozinha, e procurou se acalmar com esse pensamento. Levantou o olhar para olhar o céu já escurecido, e viu uma silhueta feminina no alto de um prédio. Seu vestido esvoaçava-se ao vento assim como seus cabelos negros; sua expressão exalava desespero. Miranda parou.
A mulher se aproximou da sacada, lentamente, não olhou para baixo. Apertava as barras que a separava da queda livre. O que ela iria fazer? Sentiu-se tonta pelo nervosismo e fechou os olhos, contando até dez. Quando voltou a abri-los, a desconhecida já havia subido na barra e parecia prestes a pular; os cabelos negros sacudiam ao redor do rosto pálido e a chuva voltou a diminuir.
Miranda deu três passos para trás. Pensou em gritar algo, prometendo ajuda, qualquer coisa para que a mulher não saltasse, mas sentia a garganta trancada e o ar parecia rarefeito dentro de seus pulmões. Sentia-se sufocada.
Viu a mulher se lançar ao chão do alto do último andar e correu mecanicamente para longe, buscando não ser atingida pelo corpo. Sangue se espalhou pela calçada, antes imaculada, e ela virou o rosto levando a mão para a boca. Ainda conseguia ouvir o som da queda e seu estomago se embrulhava dolorosamente; a rua estava deserta e macabra. Havia sido a única a presenciar tal acontecimento.
A chuva cessava.
Pegou o celular com as mãos tremendo e com dificuldade discou o número da polícia, sendo atendida rapidamente. Gaguejou ao explicar o acontecimento e começou a chorar ao informar o endereço de onde estava. Aguardou as autoridades sentada no chão, incapaz de se mover.
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