Estrelas
4 O Gato
— Eu compreendo o que está sentindo, srta. Miranda. — foram as primeiras palavras que o quase padre (Miranda passara a se referir mentalmente a ele deste modo) disse quando ela terminou sua narrativa — Ver uma pessoa suicidar-se de uma forma tão terrível é realmente um grande impacto.
— Não é só isso! — Miranda exclamou, sem o olhar — O homem de preto que encontrei minutos antes do acontecimento... Eu o vi aqui!
— Aqui? — Aidan se inclinou para frente, atento — Só havia a senhorita aqui.
— Ele estava aqui enquanto eu estava no túmulo de minha tia. — explicou — Sorriu para mim e deu a volta na árvore, mas quando cheguei ele havia desaparecido! Desaparecido como fumaça!
— Talvez tenha sido um resultado de seu estresse, Miranda. — a voz permanecia gentil como uma brisa — Você mesma me disse que estava passando por uma forte ansiedade.
— É possível. — Miranda concordou, lutando para acreditar no que Aidan O'Malley dissera; no fundo, sabia que não havia sido uma alucinação, e sim algo verdadeiro — Eu me sinto tão desesperada!
— Tem problemas com a família, não é? — o noviço a lançou um olhar reconfortante.
— Não quero falar sobre isso. — foi direta.
— Você não é obrigada a falar. — ele afirmou — Apenas desejo saber se está bem o suficiente para voltar com calma à sua casa.
— Eu estou bem melhor. — deu um sorriso fraco. E era verdade, ela estava bem melhor após contar para alguém o que havia acontecido, e o quase padre se provara um ótimo ouvinte e conselheiro. Sua calma a contagiava — Obrigada. Mesmo.
— Disponha, senhorita Miranda. Foi um prazer ajuda-la. — Aidan se ergueu, juntamente a ela — Caso precise de qualquer ajuda, ou apenas conversar, irá me encontrar na Catedral de Saint Dominic.
— Eu agradeço. — assentiu.
Não trocaram nenhuma palavra durante o caminho até a saída do cemitério, onde se despediram e tomaram direções opostas; ele para a catedral e ela para o ponto de ônibus, ansiosa para voltar a sua casa, de onde não deveria ter saído.
***
Ravendale era uma cidade relativamente pequena — se comparada a outras cidades ao redor do mundo — e também uma cidade relativamente pacata — se comparada a cidades como... Nova York, por exemplo. Não que ela houvesse estado em Nova York um dia, mas era de conhecimento geral que era uma cidade completamente agitada e cheia de gente. Mas Ravendale não era assim. Ali, cada um cuidava de sua vida, e não gostavam muito de gente de fora, a não ser que se provassem discretos e não fossem intrometidos.
Miranda gostava de viver ali, ninguém fazia perguntas e tudo era tranquilo. Em seu apartamento se sentia segura e conseguia relaxar, algo que não costumava sentir com muita frequência. Desde que sua mente decidira repassar a cada uma hora a cena do suicídio, ela não conseguia descansar.
Eram duas horas da manhã quando se levantou, cansada porém sem conseguir pregar os olhos, e foi até a cozinha preparar um bom chá de camomila torcendo para que a ajudasse a dormir. Sentada na pequena bancada, deixou que o vento frio da madrugada entrasse pela janela aberta sem se incomodar; o frio sempre a acalmava, e ela sentia seus ombros completamente tensos. Era terrível sentir-se assim. Sua cabeça latejava e seus olhos estavam cansados, mas recusavam-se a se fechar. Deveria estar no trabalho dali há seis horas.
Um barulho a fez se erguer do banco em um pulo, seguido por um miado. O som vinha de seu quarto e, apesar de ter imaginado realmente se tratar apenas de um gato — que poderia ter entrado por sua janela aberta — ainda assim pegou um facão e o segurou fortemente em sua mão direita.
De fato, se tratava apenas de um gatinho meio molhado e de pelos negros, que miava parecendo confuso. Após olhar a rua pela janela e a constatar vazia, encarou o animal.
— É, amiguinho... parece que vai ter que ficar comigo agora. — murmurou, encarando os olhos felinos e verdes. O gatinho miou, parecendo cansado. Miranda o pegou e o colocou sobre sua cama, entre os cobertores — Vou trazer leite morno.
O gato não respondeu. Miranda também não esperou resposta.
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