Estrela e Noite
1 estrela e noite
Notas iniciais
Quem eu estou enganando? Eu só estou escrevendo isso porque é uma desculpa para escrever uma ou duas cenas bonitas.
Então só para deixar claro, é um AU no universo da trilogia Grisha, que se passa ali entre o meio e o fim de 'Sol e Tormenta'. Pra quem não leu, eu tentei dar uma explicada no básico durante a história, mas qualquer coisa... wikipédia é amiga -q
De vez em quando, Tom tentava se lembrar de como era a vida antes de ir para na Tsibeya. Conseguia lembrar dos campos verde-amarelados e do mar à oeste, mas não tinha muitas lembranças de como fora parar em Ravka. Na verdade, lembrava-se apenas de como viveu por meses se escondendo em roupas pesadas e escuras, sempre com capuzes, tentando se acostumar com o frio daquele país enquanto ele e a família se esgueiravam para aqueles cantos.
Mas não era como se isso fosse um problema, não se lembrar de como fora parar ali, pois aquelas terras geladas já haviam se tornado um lar para eles fazia muito tempo. Mesmo agora, depois da morte dos pais, as paisagens desoladas e solitárias dos campos e florestas de bétulas continuavam lhe oferecendo conforto. Era tranquilo e silencioso, ótimo para passar os dias pintando. E era isso que Tom fazia: seu trabalho era pintar ícones religiosos; santos e mais santos envoltos em dourado adornavam as placas de madeira que pintava. Era interessante como, mesmo na Tsibeya, as pessoas guardavam as suas economias para comprar ícones e implementar os seus altares.
Nos últimos tempos, o que mais pintava era a imagem de uma garota de olhos cansados e cujas mãos emitiam a luz do sol, parecendo acender ainda mais o ícone quando colocada junto com o halo dourado em volta de sua cabeça. Sankta Alina, Sol Koroleva… Ele havia ouvido falar sobre ela, quando os viajantes apareciam trazendo notícias: uma Grisha (“Bruxos” era como ele se referia aos Grishas, mas nunca fazia isso na frente de oficiais) que podia conjurar a luz do Sol, a esperança de acabarem com as sombras que isolavam Ravka Leste do mar… A menina que morrera dentro das sombras e voltara a vida. Tom se perguntava até que ponto isso tudo era verdade, mas ele continuava pintando os ícones, pois era isso que mantinha o arenque e o pão na sua mesa.
Era estranho pensar que bruxos podiam se tornar santos ali. Seus pais contavam histórias de como praticantes de magia eram caçados em outros países, mas ali eles eram alistados no exército e eram tratados como príncipes e princesas. Alguns — Tom ainda não sabia dizer se estes eram afortunados ou não — ainda conseguiam a proeza de serem santificados.
“É por isso que camponeses não saem da onde estão,” uma vez uma Grisha de kefta azul lhe disse. Ela e outros companheiros estavam de passagem pelo seu vilarejo e o ouviram conversando com alguns conhecidos. “Cheios de superstições e histórias. Bruxos…” Ela dissera com desprezo.
Mas Tom nunca conseguira os ver de forma diferente. Para ele, chamar aqueles poderes de Pequena Ciência era apenas uma forma de tentar tornar importante algo que era tão comum. A magia era disseminada por toda Ravka: homens carregavam saquinhos com ervas e ossinhos para protegê-los em viagens, mulheres deixavam mel e frutas para pequenos duendes que protegiam as suas casas, crianças brincavam em volta de fogueiras para fazer oferendas aos seus antepassados quando o inverno se aproximava… Nem tudo era tão explicito quanto a capacidade de um Aeros conjurar uma rajada de vento ou a habilidade de um Sangrador de matar alguém em um piscar de olhos, mas era tudo magia, simples e sutil. Mas aqueles que serviam ao Rei e a Rainha não podiam ser associados com algo simples e sutil, eles tinham que usar roubas de seda e veludo com bordados em ouro e prata, tinham que jantar com nobres e ler livros proibidos para o resto do povo. Eles não podiam ser iguais aos camponeses com roupas de lã áspera que usavam ossinhos de pássaros para prever o futuro ou ficavam com as mãos sujas de terra depois de colherem ervas para usarem em purificações.
De qualquer forma, era raro um Grisha passar por ali. Dessa forma, os camponeses podiam ficar sossegados e continuar com suas magias cotidianas sem serem interrompidos pela Pequena Ciência.
Pelo menos era assim até aquela mulher aparecer na sua porta, no meio de uma tempestade de neve, perguntando quanto tempo teria que caminhar até chegar à estalagem mais próxima.
“Um dia,” ele falou, vendo a boca pálida, única parte visível por debaixo do capuz, se contorcer. “Mas, se quiser, pode esperar aqui até a tempestade passar.”
Ela pareceu hesitar e o próprio Tom se questionou se havia feito a coisa certa. Não sabia quem era aquela mulher… Ela podia muito bem ser uma das seguidoras do tal Darkling, o bruxo que conjurava as sombras e que havia cometido o massacre em Novokribirsk. Mas as palavras saíram automaticamente de sua boca e agora só podia esperar a resposta da outra, que, depois de alguns segundos, foi positiva.
***
O nome dela era Rowena Ravenclaw e ela tinha os cabelos tão escuros quanto as asas dos corvos que lhe davam o seu sobrenome, além de olhos tão curiosos e perigosos que Tom não sabia se ficava fascinado ou aterrorizado. E ela vinha de longe, muito longe, além do mar e de Novyi Zem.
“Alba,” ela lhe disse, sem entrar em muitos detalhes, enquanto comia a sua sopa de cogumelos e creme.
“E o que está fazendo por aqui?” ele perguntou, se arrependendo de o ter feito assim que viu a sobrancelha arqueada dela.
“Explorando,” a mulher falou, bebericando o caldo da sopa da colher, e então o olhando novamente. “E você? O que faz por aqui?”
“Moro aqui.”
“Mas não morou aqui sempre.”
“Como é?”
“Você não parece ravkano. Nem fjerdano e nem shu. Além disso,” ela falou, apontando para o pescoço dele, para a tira de couro na qual ele carregava uma pequena pedra com um furo no meio. “Como chama isso?”
“Pedra-de-bruxa,” o homem falou automaticamente. Era assim que sua mãe chamava, apesar de já ter ouvido algumas pessoas as chamando de ‘kurinyi bog’. “Serve para proteção… E ajuda contra sonhos ruins.”
“E fadas?”
“Algumas pessoas dizem que você poderia ver fadas se olhasse através do buraco,” ele falou, rindo, enquanto levantava a pedra e espiava Rowena pela fenda.
“Mas isso não é o que o povo daqui acredita,” Ravenclaw falou, sorrindo de lado. “Aqui eles acreditam que essas pedras servem para proteger galinheiros. O que você me contou é o que acreditam lá em Alba…”
Tom ficou em silêncio, observando a mulher por um longo momento.
“Seu nome não é Fomá Zagadkov,” a mulher falou e continuou a comer. “Como posso confiar que não irá me machucar enquanto fico aqui se nem o seu nome verdadeiro o senhor me dá?”
O homem sentiu o rosto esquentar. Ele levara anos para aprender a não deixar seu nome escapar da boca sem querer. Tom Riddle era muito ocidental… Fomá Zagadkov era o mesmo nome, apenas traduzido para ravkano. Seus pais acharam que seria melhor dessa forma, seria mais fácil começar uma vida nova caso tivessem um nome mais parecido com os de seus novos vizinhos, seriam menos estrangeiros.
“O que você quer?” ele perguntou, colocando as mãos para trás do corpo e entrelaçando os dedos.
“Só queria conhecer você.” A mulher sorriu de forma inocente, antes de suspirar. “Já se sentiu atraído por algo que não sabia exatamente o que era? Algo que parecia lhe chamar incansavelmente e que não descansa até você levantar a bunda da cadeira e ir atrás dele?”
Sim, ele queria responder. Aquele sentimento não lhe era estranho, como se houvesse pequenas linhas de lã que o puxassem para longe daquela casa, para longe das bétulas, para longe de Ravka. Mas ele nunca atendera àquele chamado, sempre dizia a si mesmo que aquilo não passava de saudades por um lugar do qual ele pouco se lembrava.
Quando voltou a olhar Rowena, ela havia empurrado o prato de sopa para longe e agora tinha o queixo apoiado nas mãos.
“Se eu disser que segui algo assim e acabei batendo na sua porta, iria me achar louca?”
Tom teria respondido que sim caso não tivesse sido interrompido por uma sombra.
***
Não era bem uma sombra, era uma coisa preta em forma de gente que simplesmente pulara para dentro da casa, quebrando uma janela enquanto guinchava.
Rowena pulou da mesa, fazendo surgir uma adaga em sua mão, a qual ela jogou e acertou a criatura em cheio. A sombra guinchou mais alto, mas não pareceu se importar com a lâmina fincada em seu corpo. Tom apenas se jogou para trás, colando as costas contra a parede de madeira enquanto observava a coisa se debater no chão.
“Vamos!” A mulher correu até ele, agarrando-lhe pelo pulso e o puxando para fora da casa. A tempestade continuava forte e tudo era escuridão a não ser pelos flocos de neve que dançavam pelo ar.
Eles correram. E correram. E correram. Até se encontrarem no meio de um bosque de bétulas, longe o suficiente para não ouvirem mais os gritos da criatura fazia alguns minutos. Não havia som algum a não ser o uivo do vento e o estalo dos galhos. E o frio era terrível… Parecia cortar a carne e congelar o sangue.
“O que foi aquilo!?”
“Não sei,” disse Ravenclaw, puxando mais para si a bolsa que carregava consigo. “Só sei que não é algo bom.”
“Pareciam os volcras… Como são descritos nos livros,” ele falou, lembrando-se do que já havia lido sobre as criaturas que moravam dentro do Não Mar. “Mas eles não ficam na luz.”
“Nós temos que voltar,” a mulher falou, abraçando a si mesma. Ela, assim como Tom, deixara o seu casaco na cabana. Ambos estavam usando apenas as roupas mais leves de suas vestimentas e aquilo logo os mataria no meio daquela nevasca.
“Não podemos… Não agora,” ele falou, mordendo o lábio inferior. “É melhor esperar até amanhecer.”
“Até lá já vamos estar congelados embaixo de alguns palmos de neve, senhor.”
Ele a olhou por um momento, antes de suspirar e esticar um braço para segurar a mão dela. A mulher pareceu querer se afastar, mas logo ficou parada. A pele de ambos estava gelada e não havia dúvida de que eles congelariam logo, por isso tinha que ser rápido.
Tom olhou para cima, tentando achar algum sinal das estrelas, mas foi em vão. Tudo era galhos de bétulas e neve e escuridão. Mas ele sabia que elas estavam lá, acima das nuvens, brilhando como sempre… Elas deviam estar brilhando de forma parecida com como os olhos de Ravenclaw pareceram brilhar quando ela começara a questioná-lo. As estrelas sempre estavam lá, mesmo quando não podia vê-las, aquilo era um tipo de consolo que dava à si mesmo quando se sentia muito sozinho.
E, pensando no brilho frio e distante no meio da noite, o homem respirou fundo e, poucos segundos depois, o que pareciam ser pequenos fios de luz começaram a escorregar para fora de seus dedos, subindo pelo braço da mulher como uma teia de aranha brilhante e quente. Tentou se concentrar mais um pouco… Independente do que fossem aquelas criaturas, ele preferia não ser encontrado por elas: queria apenas o calor da luz, não o brilho. Logo os fios brilhantes se apagaram, mas o calor pareceu continuar vazando pelos seus dedos, subindo também pelo seu braço e o aquecendo.
Quando ergueu os olhos e viu a expressão surpresa da mulher, Tom apenas suspirou.
“Por favor, não conte isso à ninguém.”
***
Eles esperaram até que o céu clareasse para voltarem à cabana e essas horas de espera foram incrivelmente silenciosas.
A cabana de madeira continuava lá, silenciosa e, agora, vazia e cheia de cacos de vidro e objetos derrubados e quebrados. Mas não havia sinal da criatura negra que entrara pela janela, nem mesmo as pegadas desta, já que a nevasca fizera o favor de cobri-las.
“Foi por isso que você veio para Ravka?” perguntou Rowena, apoiando-se na parede enquanto observava o outro pegar os potes de ervas que haviam sido derrubados. “Mas então por que não está no Segundo Exército?”
“Não tenho a menor vocação para isso,” ele falou.
“Mas todos os… Como eles chamam aqui?”
“Grishas.”
“Todos os Grishas vão para o Exército.” Ela franziu o cenho. “Você veio para fugir de perseguição e mesmo assim continuou se escondendo? Qual a lógica disso?”
“Já viu o que atravessa Ravka? As pessoas chamam de Não Mar, um mar de sombras infestado de criaturas ávidas por carne humana,” o homem falou, sentindo o rosto esquentar. “Se eu posso conjurar luz, então o que vão pensar?”
“Que você pode ir contra as sombras.”
“Esse é o ponto: eu não posso,” ele falou. “Quem consegue fazer coisas assim são os Grishas treinados, que acreditam que a magia deles é a única razão para viver… Eu não quero que minha vida gire em torno disso.”
“Então deixa a sua vida girar em torno de pintar santos tristes,” disse Rowena, apontando para uma das pinturas da Sankta Alina.
“Melhor do que ser jogado no meio do Não Mar,” o homem murmurou. “Além disso, você chegou faz pouco tempo aqui, não viu a loucura que tomou conta de todo mundo por causa de outra pessoa com esse mesmo… Dom.”
“Ouvi algumas pessoas cultuando uma tal Santa do Sol.” Ela encolheu os ombros. “Também não tem vocação para santo?”
“Nem pensar.” A mulher riu fraco.
“E o que pretende fazer agora?”
“Continuar a minha vida? Continuar pintando e cuidando do meu jardim,” Tom explicou, finalmente virando-se para olhar a mulher. Ela parecia um tanto descrente. “O que quer que eu faça? Vá atrás da Sol Koroleva e proponha ser o Korol’ Sol dela?”
“Tem vocação para rei?”
“Nem um pouco.”
“Então não parece um bom plano.” Ravenclaw respirou fundo. “Sabe que aquelas coisas irão voltar, não?”
“Por que voltariam? Não tem nada aqui.”
“Tem você.”
“Grande coisa…”
“Eu cheguei faz pouco tempo, mas sei de algumas coisas que estão acontecendo,” disse Rowena, se desencostando da parede e se aproximando com calma. “Ouvi falar sobre o massacre em Novokribirsk e sobre o tal do Darkling. Havia rumores, ao longo do caminho, sobre as coisas que esse homem pode fazer.”
“Ele conjura sombras.”
“Alguns viajantes disseram que ele começou a dar vida às sombras.” O homem arregalou os olhos. “Talvez… Talvez aquelas coisas ontem eram isso? As sombras vivas?”
“E por que diabos elas estariam aqui?”
“Porque você é um Conjurador do Sol e estava aqui,” ela falou, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. “Esse Darkling está atrás da tal Santa do Sol, mas talvez ele tenha ordenado aquelas criaturas apenas a… Procurar um Conjurador do Sol, afinal, não deveria existir mais de um desses.”
“Nós nem sabemos como aquelas coisas funcionam…”
“Bom…”
Rowena respirou fundo, juntando as mãos em frente ao corpo e parecendo se concentrar. O homem franziu o cenho, mas logo arregalou os olhos ao perceber as sombras dentro da cabana parecerem tremular por alguns segundos, antes de ela abrir as mãos e lhe mostrar o que parecia ser… Um corvo. Um corvo pequenino e negro, feito de sombras, mas que parecia ter massa, parecia pesar na mão dela.
“Como!?”
Ela sacudiu a mão e fazendo o corvo voar, circundando Tom até pousar em sua cabeça. O animal tinha peso e ele podia sentir as garrinhas arranhando o seu couro cabeludo.
“Conjurar sombras não significa apenas criar demônios, senhor.”
***
Rowena Ravenclaw vivia escondida em Alba desde que seus pais haviam sido mortos sob a acusação de bruxaria. Ela descobrira ainda pequena que era capaz de conjurar sombras e, aos poucos, foi aperfeiçoando esse dom, além de dominar outras áreas da magia (a magia dos camponeses, os amuletos, as proteções, as adivinhações…). Mas havia alguns meses que ela se sentia tentada a simplesmente abandonar Alba e atravessar o continente até que aquela vontade esquisita em seu peito desaparecesse. E ela desapareceu quando chegou na porta de Tom.
“Isso é loucura,” ele falou, depois de ouvir toda a história dela. “Não faz o menor sentido. Nunca a vi na vida.”
“Eu sei, nunca disse que era algo muito lógico.”
Eles haviam abandonado a cabana. Pegaram algumas coisas que poderiam lhe ser útil (principalmente casacos e chapéus e botas) e partiram. Se aqueles bichos voltassem, pelo menos não seriam pegos novamente. E agora estavam vagando pela Tsibeya, atravessando florestas de bétulas e lagos congelados, sem saber realmente para onde ir.
“Vamos para Alba,” disse Rowena, certa vez.
“Para ser queimado vivo?”
“Para ficar longe de um louco que manda criaturas de sombras atrás de você e de um culto fanático que iria te despedaçar para fazer relíquias caso o descobrissem,” ela falou.
O pior era que fazia sentido. Em Fjerda, bruxos também eram queimados e ainda era muito perto de Ravka. Shu Han prendia Grishas e os dissecava para tentar entender de onde vinham os seus poderes. Novyi Zem e as Colônias do Sul também pareciam perto demais de toda aquela confusão… Ele não conhecia Alba, mas algo lhe dizia que aquele lugar lhe era familiar, além de ser um lugar sem Grishas e sem Segundo Exército.
Talvez Alba fosse uma boa opção.
***
Eles haviam encontrado uma igreja abandonada perto de Ryevost e por ali ficaram para passar a noite. Já estavam cheios de acampar em meio às árvores, tentando se esconder e passando frio. Não que ali fosse muito mais quente que no meio da floresta, mas pelo menos havia um teto acima de suas cabeças impedindo a chuva ou a neve de os pegarem de surpresa.
“Por que tantos santos?” perguntou Rowena enquanto arrumava os seus cobertores no chão, olhando para o altar atrás do qual diversos ícones mofados estavam pendurados.
“É mais fácil pedir algo à um santo do que diretamente para Deus, eu acho,” Tom explicou. “Eles são mais próximos de nós.”
“Eles não parecem mais próximos. Parecem todos tristes e distantes.”
“Sim, mas algumas pessoas não pensam assim,” ele falou, deitando-se e observando o teto de madeira, sentindo o cheiro úmido do local.
“Como você pensa?”
“Penso que seja lá o que existe acima de nossas cabeças, é mais fácil encontrá-lo no meio das bétulas ou no céu estrelado do que em um altar laqueado a ouro de uma igreja,” o homem falou, encolhendo os ombros.
“Você pinta ícones folhados a ouro…”
“E qualquer poder divino está mais presente no brilho que a folha-de-ouro reflete do que no rosto do santo.”
“Você é estranho.” Ravenclaw riu fraco.
“Foi você quem atravessou o continente por nada.”
A mulher riu mais alto, finalmente se deitando e respirando fundo enquanto também observava o teto. Tudo estava silencioso, nem mesmo o vento estava assobiando naquela noite, e a única coisa ruim de dormir sob a proteção de um teto era o fato de que não podiam olhar as estrelas, como haviam feito durante todas as outras noites de viagem. Tom riu ao ver alguns arabescos negros se desenrolarem na frente de seus olhos e, ao virar o rosto, viu Ravenclaw acenando com os dedos no ar, tecendo os desenhos de sombra que continuavam até quase o teto da igreja, arabescos e mais arabescos.
“Por que quando ouvimos sobre os feitos do Darkling tudo parece horrível?” ele perguntou. “Mas quando você usa as sombras, é belo?”
“São os seus olhos, rapaz,” ela falou, rindo enquanto deixava alguns arabescos acariciarem o rosto dele.
“Meus olhos estão muito bem, obrigado, moça.” Ele riu junto, erguendo a mão e tocando um dos fiapos negros. Logo um fio de luz pareceu manchá-lo, acompanhando-o e, em alguns segundos, pintando todos os outros arabescos. Agora aquilo tudo parecia uma rede negra com veias brilhantes, uma teia fascinante que preenchia a igreja.
“Ora,” murmurou Ravenclaw enquanto um sorriso repuxava os seus lábios. Ela o olhou novamente e sacudiu a mão, fazendo a forma de um pássaro surgir de uma das sombras. O animal não parecia ter massa como o corvo que ela criara certa vez, parecia ser apenas uma sombra… Grande, exuberante, com longas penas na cauda.
“Um pássaro de fogo?” Tom perguntou, esticando a mão e tocando a cauda do bicho quando este voou perto deles. As penas se tingiram com o brilho e logo o pássaro não era completamente negro, mas repleto de veias e arabescos brilhantes.
“Estava pensando em uma fênix.”
Ele observou o pássaro voar por mais alguns minutos, antes que ele explodisse em uma chuva de sombras e brilho. Os outros arabescos também estavam se desfazendo lentamente.
“Pode fazer um teto de sombras?” o homem pediu assim que uma idéia surgiu em sua mente.
Rowena não questionou, apenas ergueu a mão e, com um aceno, o teto de madeira gasta sumira e tudo acima deles era negro. Não demorou muito para que as margens daquela escuridão se esticasse até alcançar o chão e, quando viram, estavam envoltos por sombras. Tom virou-se para olhá-la e sorriu ao vê-la arquear uma sobrancelha, mas seus olhos não perdiam aquele brilho curioso. ‘Como estrelas,’ ele pensou. Os olhos dela pareciam ser repletos de estrelinhas que nunca deixavam de brilhar.
“O que está planejando, rapaz?” ela perguntou.
“Só uma brincadeira.”
Tom ergueu a mão, flexionando e esticando os dedos até que pequenos pontos luminosos aparecessem por toda a escuridão que Ravenclaw havia criado: alguns mais brilhantes do que outros, alguns formando um aglomerado de salpicados, alguns de cores diferentes.
“Acho que entendo a razão de ter fugido do Segundo Exército,” Rowena murmurou, o sorriso ainda em seu rosto e os olhos brilhando ainda mais. “Nunca deixariam um Grisha usar os seus poderes apenas para fazer coisas bonitas.”
“Uma sala de estrelas não é muito útil na guerra,” ele falou.
“Mais gente deveria apreciar uma sala de estrelas.”
***
O plano era chegar o mais perto possível das margens do Não Mar, onde a travessia era menor, e simplesmente… Atravessar. O plano parecia loucura, mas para eles, ainda era a coisa mais rápida. Nos últimos dias, todos os olhos estavam focados em Os Alta, desde o ataque do Darkling ao Grande e Pequeno Palácio. Em pouco tempo, a atenção voltaria para o Não Mar, mas por enquanto, eles tinham a passagem livre.
Seriam aproximadamente três quilômetros de caminhada através das sombras e tudo o que eles podiam fazer era ter esperanças de que aquilo funcionaria, que a luz invocada por Tom iria aguentar e que nenhum volcra iria decidir atacá-los. Eles nem tinham armas para se defenderem… Enquanto o exército e os Grishas atravessavam aquele lugar com rifles, eles estavam iniciando a caminhada com adagas escondidas nos bolsos.
“Não vai dar certo,” Tom murmurou, quando os dois finalmente conseguiram chegar no início da Dobra. Não havia lua naquela noite, mas as estrelas brilhavam acima deles, formando um tapete de pontos luminosos no céu. “Eu não vou conseguir me manter aceso o tempo todo.”
“Vai dar certo,” disse Rowena, esticando a mão para segurar a dele e a apertando de forma confortável. “Nós vamos conseguir.”
“Eu nunca treinei isso, Row,” ele falou, sentindo o coração acelerar. “Eu só criava luz para… Iluminar a minha casa de noite ou para fazer aqueles truques bobos.”
“Não são bobos.” A mulher suspirou, antes de virar-se para ele e o abraçar. “Vai dar tudo certo. Nós vamos atravessar, a sua luz vai nos proteger e em alguns dias estaremos em Alba. E ai vai poder criar quantos céus estrelados quiser… Exijo um na minha casa.”
O homem riu fraco, abraçando-a de volta e respirando fundo.
“Desde que começamos a viajar, fico pensando que você é quem devia conseguir fazer isso,” ele murmurou. “Você é quem carrega as estrelas.”
“Deixe de ser bobo. Eu gosto é de brincar com as sombras,” ela falou, fingindo uma expressão séria, antes de rir. “Se vamos escolher um de nós dois para simbolizar as estrelas, esse alguém é você.”
“É,” Tom sussurrou, finalmente afastando do abraço, mas deixando-se segurar a mão dela. “Mas estrelas precisam da escuridão para conseguirem brilhar.”
***
A primeira coisa que pensou ao pisar dentro do Não Mar foi que o mundo havia acabado. Não apenas a luz, mas tudo… O ar, os sons, a vida. Era negro para todos os lados e a única coisa que restava do mundo era a mão gelada de Rowena na sua. Tom tentou pensar nas estrelas lá fora, no sol escondido no horizonte, nas lanternas e fogueiras nas cidades, mas ali dentro parecia que nem mesmo o conceito de luz conseguia se infiltrar.
Mas talvez, pior que o silêncio que inundou os seus ouvidos ao adentrar a Dobra, foi o som distante de asas. Era como quando algum morcego entrava em sua casa e passava a noite batendo as suas asinhas negras, fazendo um barulho irritante, mas ali os morcegos pareciam maiores e muito, muito numerosos. E Tom sabia que aqueles morcegos da dobra tinham dentes afiadíssimos e garras capazes de arrancar a sua cabeça fora. Nada disso ajudava na hora de tentar puxar a luz para si.
“Não dá…” ele murmurou, sentindo a voz falhar e os olhos arderem. Eles iriam morrer ali dentro porque ele não conseguia conjurar luz.
“Tom.” A voz de Rowena também soava amedrontada, apesar de ainda bem mais forte que a sua. E a mão dela… Os dedos da mulher apertavam os seus e ele podia sentir as sombras dela se enroscarem em seu pulso. Desde o primeiro contato, Tom percebera que sempre que as sombras de Ravenclaw o tocavam, não era frio que sentia, nem arrepios, mas sim um calor confortável. Era como se elas o acariciassem, o confortassem. Era quase como… Como se o toque dela puxasse a luz para fora.
E foi pensando nisso, no calor que os dedos de Rowena espalhavam pela sua mão e nos brilhos de estrelas dos olhos dela, que o homem conseguiu fazer o que deveria: uma bola de luz se acendeu em volta deles bem a tempo de pegar de surpresa um volcra que estava a menos de um metro deles. A criatura guinchou e bateu as asas com mais força, saindo do alcance da luz. Quando olhou para a mulher, esta tinha os olhos claros arregalados e a boca semiaberta.
“Deu certo,” ela sussurrou, apertando mais os seus dedos. “Vamos!”
***
Apesar de estarem protegidos pela luz, a travessia pelo Não Mar ainda era aterrorizante. Além dos limites do brilho que emitiam, não havia mais nada a não ser escuridão e, de vez em quando, podiam ver as feições contorcidas e assustadoras de um volcra ou outro. O som das asas das criaturas também não ajudava no medo.
Mas depois de horas de caminhada, com os pés doídos e as costas cansadas, esperando a qualquer momento algo dar errado, eles emergiram do outro lado das sombras. Foi como respirar de novo: o ar era fresco e o céu, estrelado. Podiam ver o porto destruído de Novokribirsk e aquela visão foi o suficiente para fazer o homem se desfazer em lágrimas. Haviam atravessado a Dobra e estavam vivos e bem.
Rowena o abraçou com força e, antes de pudesse perceber, os lábios da mulher estavam sobre os seus. O calor que ela emitia com as sombras pareceu voltar e, quando se afastaram, ouviu-a rir enquanto erguia uma mão para tocar-lhe o rosto.
“Está tão emocionada que não consegue segurar as suas sombras, moça?” ele perguntou, vendo os fiapos escuros escapando dos dedos dela e formando arabescos.
“Eu estou emocionada? E você? Está brilhando, rapaz!” ela riu.
“Oh.” O homem olhou para a própria mão que agora emitia um brilho pálido e constante da mesma forma que as mãos de Rowena pareciam imersas em sombras, além de estar parecerem escapar até mesmo dos cabelos dela.
“Não se preocupe.” Ravenclaw sorriu, antes de inclinar-se e roubar-lhe um beijo. “É isso que estrelas fazem, não?”
***
A teoria mais plausível que Rowena conseguiu inventar foi a de que ambos eram amplificadores. Por mais estranho que parecesse, agora que parava para pensar, Tom conseguia perceber que desde que a mulher aparecera, conjurar a luz havia ficado mais fácil. Antes, era mais simples esconder, mandar o brilho para o fundo de si e deixá-lo lá. Mas com Ravenclaw, ele passara a fazer coisas simples de maneira tão ordinária que nem havia percebido a diferença… Não tentava mais esconder e, sempre que o primeiro impulso aparecia, conjurava um fiapo de luz ou criava pequenas estrelas apenas para se entreter.
Além disso, ele conseguira atravessar toda a Dobra sem deixar a luz falhar.
Quanto a Rowena, ela dissera que sentia a mesma coisa: era mais fácil conjurar e controlar as sombras, gastava menos energia para criar aquelas criaturas de sombras. Sem contar que ela havia viajado até Raika por conta daquele sentimento que ela lhe descrevera certa vez.
“Acho que eu morava perto do mar, antes de vir para Ravka,” disse Tom, apoiando-se na beirada do navio enquanto observava as ondas.
“Por quê?”
“Ele me é familiar.” O homem encolheu os ombros, antes de olhar em volta, vendo o convés vazio. Durante a madrugada, aquele silencioso e solitário.
As últimas notícias que tiveram de Ravka, pouco depois de deixarem Os Kervo, fora o de mais um ataque do Darkling utilizando a Dobra. Foi por pouco que eles não foram pegos no meio da confusão toda e agora, quase alcançando Novyi Zem, eles só podiam agradecer por ter deixado aquele país para trás.
“Como é Alba?” ele perguntou, esfregando o polegar no indicador e vendo um brilho pálido surgir ali.
“Frio, mas não tão frio quanto Ravka,” Ravenclaw explicou. “Tem muito verde, muito musgo… Grandes lagos de águas escuras, muitas montanhas. Imagine um lugar habitado por fadas e você imaginara Alba.”
“Parece bonito,” o homem falou, sorrindo suavemente enquanto erguia a mão e colocava o brilho nos cabelos escuros da outra. Repetiu o processo mais algumas vezes até os cachos negros de Rowena estarem cheios de pequenos brilhos.
“O que pensa que está fazendo, rapaz?” ela perguntou, rindo enquanto puxava uma mecha do cabelo e via um foco brilhante ali.
“Colocando estrelas nos seus cabelos.”
Ravenclaw o encarou por um longo momento, antes de rir baixinho e inclinar-se para beijá-lo. Ao afastar-se, sacudiu a cabeça e riu.
“Você vai ter que aprender a não brilhar sempre que o beijo.”
"Da, moya Koroleva Zviôzd."
Notas finais
2) Fomá Zagadkov: Fomá (pronunciado Fa-MÁ) é a tradução de Thomas e Zagadka é "enigma";
3) Sol Korol': tentando seguir a lógica do ravkano que a Leigh Bardugo colocou nos livros, 'Rei do Sol'. É engraçado porque em russo 'koroleva/korol' realmente é rainha/rei, mas Sol em russo é "Solntse"... Eu não sei como ela selecionava quais palavras iriam ficar iguais ao russo e quais ela mudava, mas isso quebra meu coração na hora de escrever, porque fico com vontade de escrever tudo no jeito russo mesmo;
4) Da, moya Koroleva Zviôzd: "sim, minha rainha das estrelas"... Tom é tão bobão, socorro (de novo, usei o russo porque não sei como iria transformar isso pra ravkano).
5) Alba: o nome antigo da Escócia.
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