Estrela dos desejos
1 Capítulo Um
Quando se ama alguém você se torna responsável por essa pessoa ao mesmo tempo em que se torna vulnerável. Talvez ela quebre seu coração ou você o dela e, de uma forma ou de outra, vocês nunca mais serão capazes de olharem para si mesmos da mesma maneira. Você abre o seu coração para uma infinidade de sentimentos: sofrimento, angústia e a incerteza estão entre eles. Esses são os riscos. Assim como asas eles têm um peso, um fardo, mas essas asas são as mesmas que nos erguem, são as mesmas que nos permitem voar.
Anita é artista plástica e fotografa já viajou o mundo com suas exposições e tem apenas 26 anos, mora em um pequeno apartamento no centro da cidade de Maryland, frequenta cafés, livrarias e gosta de escrever poesia. Possui uma vida simples sem muito luxo, apesar de ser uma mulher bem sucedida.
Alberto é um brilhante astrônomo dono do planetário que costumava ser o mais famoso da cidade do qual é a sua casa, 30 anos de idade á três trabalha em um dos maiores e mais conceituados institutos de astrofísica e astronomia do país. Vive entre viagens e pesquisas, mal tem tempo para si mesmo, mas uma tragédia há alguns anos atrás mudou sua maneira de ver o mundo e a si próprio.
Anita e Alberto pertencem a mundos diferentes, mas seus caminhos estão prestes a se cruzar e esse encontro transformará a vida de cada um.
***
— Você tem certeza disso Roger? — perguntou Anita desconfiada.
— Claro Ani. — Disse Roger, seu empresário e melhor amigo, tentando lhe passar confiança enquanto tomava um gole de café.
— Não sei, não. Ser patrocinada pelo Instituto de Astrofísica... — Uma expressão de dúvida apareceu no rosto da menina.
— Ani, você é uma artista conhecida e bem... O instituto precisa de uma pequena ajuda publicitária. — Retrucou Roger.
— Roger, o Instituto Mileto de Astrofísica e Astronomia é um ícone! Todos o conhecem ele não precisa de publicidade. — Anita fitou Roger por alguns segundos — Eu te conheço, fale o que você e o instituto realmente querem de mim?
Roger coçou a cabeça e mostrou um pequeno sorriso.
— Ok. — Ele levantou as mãos em sinal de rendição — O diretor do instituto veio me procurar a uns dois dias atrás e me pediu ajuda, já que nós somos velhos amigos. Ele precisa de uma fotógrafa que registre durante alguns meses todas as pesquisas e participe das viagens, essas coisas... E também alguém que desenhe nos mapas a localização de cada estrela, planeta, asteróide e tudo mais... É um novo projeto que ele criou. Alguma coisa em relação ao olhar humano sabe, não são muitas pessoas interessadas no universo e ele quer mudar isso, eu acho. — Ele deu de ombros e olhou para Anita.
— Tudo isso parece muito interessante Roger, mas não faz o menor sentido eu sou uma artista não uma repórter.
— Eles te darão carta branca Ani, você terá um parceiro que te mostrará o instituto e lhe explicara tudo o que precisar saber. Você só precisa fotografar e anotar tudo o que ele fizer e desenhar o que ele pedir. — Explicou Roger — Encare isso como um curso de férias. Por favor, Ani, e você pode usar isso como inspiração para o seu próximo trabalho. — Ele sugeriu sorrindo. — É um trabalho temporário, Ani, no máximo um ano.
Anita não parecia muito à vontade com a ideia de Roger, mas a aceitou mesmo assim. Ela adorava se aventurar em novas áreas e criar novas perspectivas, apesar disso assustá-la um pouco.
Naquele mesmo instante no instituto Mileto de Astrofísica e Astronomia, um jovem de cabelos castanhos desgrenhados altamente concentrado em seu trabalho não aceitaria muito bem essa ideia.
— Dr. Fittz! — alguém gritou no corredor — Dr. Fittz! — a voz se aproximava da porta do escritório de Alberto, mas ele estava concentrado em seu trabalho que não percebeu até baterem repetidamente em sua porta.
— Entre — Ele disse com os olhos no microscópio — O que foi Sr. Alyson? — perguntou Alberto seriamente ao rapaz de cabelos negros e óculos de grau que entrou discretamente em sua sala. O rapaz parecia nervoso. — Espero que seja coisa séria.
Alberto continuava olhando fixamente em seu microscópio e fazendo frequentes anotações.
— Desculpe incomodá-lo Dr. Fittz, mas o Dr. Davis gostaria de falar com o senhor. — Disse o menino.
— Ele disse sobre o que se trata? — Disse Alberto sem tirar os olhos do microscópio.
— Ele disse alguma coisa sobre uma artista, fotografa que virá trabalhar aqui, algo assim. — Disse o rapaz com a mão no queixo.
Alberto levantou a cabeça do microscópio e pensou por alguns minutos, retirou suas luvas de plástico e saiu pela porta deixando o rapaz sozinho em sua sala. Ele caminhou rapidamente até o elevador desviando das pessoas e dos equipamentos que estavam em seu caminho e apertou o botão do 10° andar.
— Não acredito que você seguiu em frente com aquele projeto maluco de colocar uma artista qualquer aqui dentro do Instituto. — disse Alberto com o tom de voz alterado quando entrou pela porta do escritório do diretor do Instituto, o Dr. John Davis.
— Em primeiro lugar, controle o seu tom de voz Dr. Fittz, você pode ser um dos melhores astrônomos que temos, mas ainda assim trabalha para mim, portanto, o senhor não tem nenhuma autoridade em relação a esse projeto. Nós precisamos expandir os horizontes do Instituto Mileto e uma artista é uma ótima ajuda para isso.
— Mas senhor...
— Sem reclamações Dr. Fittz. Agora me de licença que tenho uma reunião.
John deixou Alberto parado em sua sala, mas o rapaz continuava nervoso com a situação. Alberto jogou as mãos para o alto revelando sua frustração e foi em direção a saída mais próxima. Precisava respirar. Ao abrir a porta uma pequena brisa começou a soprar enquanto ele estava do lado de fora do Instituto nas passarelas do 10° andar olhando o horizonte.
— Sabia que ia encontrar você aqui fora! — disse Felipe parado atrás dele. — Fui até o laboratório e seu estagiário disse que você foi falar com o Dr. Davis.
— Preciso de um tempo Felipe.
— Então já sabe da novidade? Novas pessoas vindo para o Instituto! — Felipe parecia animado com a ideia.
— Você acha isso bom? Esse lugar ficará uma loucura! Artistas trabalhando com astrônomos, astrofísicos, engenheiros, geólogos... Não vai dar certo.
— Você e seu pessimismo.
— Não é isso. Só não me parece certo. Não é lógico.
— Você realmente mudou Beto. Onde está aquele cara que via o lado positivo das coisas? Eu me dei muito bem aqui.
— Eu deixei de ver o lado bom das coisas há muito tempo. E você é diferente deles, Felipe. — Os olhos de Alberto mostravam melancolia.
— Beto...
— Preciso entrar. Preciso trabalhar.
— Prefere viver em um mundo cheio de lógica e fatos do que abrir o coração. Aquilo mudou mesmo você, meu amigo. — Murmurou Felipe enquanto Alberto caminhava em direção ao prédio do Instituto.
***
Anita estava em seu apartamento arrumando suas coisas para começar a trabalhar no Instituto Mileto quando seu celular tocou.
— Mansell! — ela disse ao atender — Ah, olá Roger! Sim, já estou descendo!
Anita pegou sua bolsa rodopiou por um momento em busca de suas chaves, que estavam em cima de um criado mudo perto da porta, as pegou e deixou seu apartamento indo ao encontro de Roger na portaria do prédio. Ele estava a sua espera apoiado em seu carro.
— Motorista particular? — Comentou Anita — Eu poderia me acostumar com isso!
Ambos sorriram.
— Isso é do tipo de coisa que só acontece uma vez na vida! — Disse Roger abrindo a porta do carona para Anita. — E bem, eu não deixaria você ir ao seu primeiro dia no Instituto sozinha!
— Obrigada, Roger.
Roger deu uma piscadela com um dos olhos e deu a volta no carro para entrar no banco do motorista.
— Para o Instituto Mileto Sr. Roger! — disse Anita deformando sua voz, sorrindo.
— Não abusa pequena! Não abusa! — Reclamou o mais velho
Anita caiu na gargalhada e Roger não conseguiu conter um sorriso.
***
— Ainda não acredito que você me convenceu a aceitar esse emprego! — Disse a menina descendo do carro.
— Vai ser divertido, Ani! — Argumentou Roger — Se você não gostar peça demissão, mas pelo que eu lhe conheço você não fará isso, não sem tentar!
— Vou encarar isso como um incentivo!
Roger abriu a porta do Instituto para Anita que permaneceu por alguns segundo encarando o interior do local com o olhar preocupado.
—Vai dar tudo certo, Ani. Eu estarei com você.
Anita olhou para Roger tomou fôlego e entrou no Instituto de cabeça erguida seguida por seu amigo, afinal, o que de ruim poderia acontecer em um lugar desses?
***
Alberto estava impaciente. Olhava para seu relógio de pulso a todo o momento. Andava de um lado para o outro dentro de seu escritório até alguém bater em sua porta.
— Dr. Fittz está ai?
Alberto arrumou seu jaleco olhou-se no espelho e então abriu a porta.
— Bom dia Dr. Davis, em que posso ajudá-lo? — Disse o rapaz tentando mostrar segurança.
— Bem, gostaria de informá-lo que a artista que trabalhará aqui chegará a qualquer momento e quero o senhor pronto, pois será o parceiro dela. — A expressão no rosto de Alberto ficou séria — Você será responsável por ela, cuidará do que for necessário para ela se ajustar bem aqui e ela lhe acompanhará em todas as suas pesquisas e projetos extracurriculares.
— Dr. Davis, eu não sei se sou capacitado para isso.
— Você se sairá bem Dr. Fittz, e mesmo assim isso não é um pedido. Espero que o senhor esteja no laboratório principal para recebê-la, você e o seu estagiário.
— Claro, como quiser.
— Tenha um bom dia Dr. Fittz!
Alberto encostou-se na porta e tomou fôlego. Ele não gostava de mudança, não gostava quando as coisas fugiam de seu controle, pegou suas pastas e papéis e foi para o laboratório principal trabalhar.
***
— Você deve ser a Srta. Mansell! — disse Dr. Davis ao se aproximar de Anita no Hall de entrada do Instituto.
— A própria. — Respondeu ela estendendo a mão, John retribuiu — E você é Dr. John Davis, eu suponho.
— Exatamente, minha cara! Oh! Roger, meu amigo — O homem barbado estendeu a mão para o jovem de barba rala — Como está? E Valter?
— Tudo ótimo, Dr. Davis! — Roger retribuiu o comprimento — Meu pai está mais resmungão do que de costume. — John gargalhou com o comentário do rapaz sobre o pai.
— Vejo que conseguiu convencê-la a participar desse projeto. — Ele olhou para Anita — Obrigada por isso.
— Não foi fácil— respondeu o rapaz colocando o braço por cima dos ombros de Anita — Essa menina é teimosa, mas não resiste a um desafio! — Ele deu um leve beijo na cabeça da jovem — Bem Ani, eu lhe deixo agora nas mãos do Dr. Davis. Volto para lhe buscar no final do dia!
Anita abraçou Roger com força e o viu deixar o prédio do Instituto abanando freneticamente para ela e John, que abanava de volta para o rapaz de uma maneira mais casual. Anita não pode deixar de sorrir com o contraste da situação e perceber a sensação de alegria que Roger transmitia para as pessoas.
O rapaz de cabelos loiros acinzentados é formado em relações públicas e sempre está tomando conta dos negócios e projetos de Anita. É seu guarda-costas, como gosta de dizer, apesar de ter se tornando bem mais que isso na vida dela. Para Anita ele era seu apoio, sua força, seu melhor amigo.
A menina sorriu ao se lembrar disso.
— Podemos ir Srta. Mansell? — Perguntou o Dr. Davis desligando Anita de seus pensamentos.
— Claro! — disse ela com um friozinho na barriga e segurando forte a alça de sua bolsa. Ela respirou fundo, mais uma vez, e acompanhou John até o laboratório principal.
Alberto já estava no laboratório principal acompanhado de seu estagiário, o Sr. Joseph Alyson. O astrônomo estava concentrado em seu computador analisando gráficos sobre elementos estelares com Joseph ao seu lado observando e de momento em momento olhava para trás esperando a chegada de Dr. Davis com a tal artista. Quando os avistou corrigiu sua postura, arrumou seu jaleco e com o cotovelo deu um pequeno empurrãozinho em Alberto que pareceu não se importar.
— Este aqui é o laboratório principal! — disse Dr. Davis ao longe, Alberto mal conseguia escutá-lo — usamos aqui o há de mais sofisticado em tecnologia espacial.
— Estou me sentindo NASA! — Disse Anita caminhando logo atrás dele.
— Ela é linda! —sussurrou o estagiário de Alberto ao seu lado.
— Ela deve ser como todas as outras. — Retrucou Alberto que estava de costas ainda concentrado em seu computador.
— Me desculpe Dr. Fittz, mas você está totalmente errado dessa vez. Não há como essa mulher ser igual às outras. — Disse o estagiário.
Alberto então se virou e quando seus olhos encontraram Anita pela primeira vez ele foi tomado por todas as suas lembranças, as boas e as ruins. Lembranças de um tempo em que lógica e fatos não tinham grande importância em sua vida: lembrou-se da praia, do som das gaivotas e das conchinhas formando um caminho até a cabana. Alberto balançou a cabeça e mandou seus pensamentos para longe. Não podia tê-los, não aqueles. Prometeu a si mesmo nunca teria tais pensamentos novamente, seria traição.
— Dr. Fittz! — disse John chamando à atenção de Alberto, quando obteve contato visual continuou — Essa é Anita Mansell, a artista que lhe falei. — Dr. Davis olhou para Anita — Este é o Dr. Alberto Fittz ele cuidará de você enquanto estiver trabalhando conosco!
— Muito prazer, Dr. Fittz — Falou a jovem estendendo a mão para Alberto — estou ansiosa para começar a trabalhar com o senhor.
Alberto hesitou, olhou para Anita e depois para sua mão. Respirou fundo, mas apertou a mão da jovem. Precisava ser educado, pelo menos.
— Eu digo o mesmo Srta. Mansell! — ele disse em um único fôlego.
— Muito bem! — disse o Dr. Davis parecendo empolgado — Sr. Alyson?
— Estou aqui Dr. Davis! — disse o estagiário de Alberto, logo atrás dele.
— Leve a Srta. Mansell até a sala que preparamos para ela.
— Sim, Senhor! A Srta. poderia me acompanhar?
— Claro! — disse Anita — Você primeiro. Vejo vocês depois, cavalheiros!
— É melhor você cuidar bem dela. — disse Dr. Davis em um tom de voz baixo para Alberto — ela não é só a artista responsável por esse projeto ela é a protegida do filho de um grande amigo e eu ficaria muito aborrecido se alguma coisa ruim acontecesse. Estamos entendidos Dr. Fittz?
— Claro, Dr. Davis — Disse Alberto, ele ainda estava olhando para a direção que Anita havia tomado: ao lado de Joseph esperando o elevador.
***
— Ele parece ser uma pessoa legal. — comentou Anita no elevador.
— Quem? — indagou Joseph
— O Dr. Fittz!
— Ah! Sim ele é depois que você o conhece. — disse o Joseph um pouco tímido.
A porta se abriu quando chegou ao 12° andar. O andar em que estavam era o andar Astronômico. Telescópios enormes ultrapassavam o teto, computadores altamente tecnológicos ligados a máquinas de análises estavam espalhados pelo local. Anita observou tudo com atenção. Estava encantada.
— Se você subir aquelas escadas — disse Joseph apontando para a esquerda — chegará ao observatório. Não é muito diferente daqui. — ele sorriu. — Por isso ocupamos o último andar do prédio. Para podermos observar melhor o céu. O instituto foi construído perto da costa e acima do nível do mar por isso também, melhor visibilidade.
Anita apenas concordou com a cabeça. Ainda estava encantada. Joseph continuou dando pequenas explicações para Anita até chegarem ao canto direito do andar. Eles entraram em um pequeno corredor.
— Bem Srta. Mansell...
— Pode me chamar de Ani — interrompeu Anita.
— Bem Ani — continuou Joseph um pouco constrangido — essa é sua sala, ela foi feita especialmente para você. — ele abriu a primeira porta a direita do corredor e Anita ficou maravilhada! A sala era enorme, a parede da direta era um enorme espelho refletindo a outra parede, onde, uma enorme janela mostrava boa parte da cidade de Maryland, não havia muitos moveis apenas uma mesa acompanhada de uma cadeira e alguns aparelhos eletrônicos em uma estante — Dr. Davis não a mobilhou deixou isso por sua conta para você ficar mais a vontade! Aquela porta ali no canto é um quarto escuro para você poder revelar suas fotos aqui mesmo. Tudo ao modo tradicional como Roger pediu.
— Nossa isso é incrível! — Ela deu alguns passos em direção ao centro da sala — Muito obrigada! — a menina agradeceu Roger mentalmente por conhecê-la tão bem.
— Não me agradeça sou apenas um estagiário! — Joseph sorriu — Ah! A sala do Dr. Fittz fica logo aqui à frente.
— Ok! — disse Anita
— Bem, vou deixar você à vontade agora! Até mais, Ani.
— Até mais Sr. Alyson!
— Pode me chamar de Joe.
— Até mais Joe. — Anita sorriu e acenou. Joseph sorriu de cabeça baixa e fechou a porta. Anita percebeu, então, que a porta era de vidro coberto por uma cortina feita de estrelas prateadas.
Um sorriso der encanto surgiu nos lábios da jovem. “Obrigada, Roger.” Ela sussurrou.
***
Alberto continuava impaciente. Não conseguia entender como uma artista, fotografa ou sei lá o que poderia trabalhar em um Instituto de Astrofísica e Astronomia. “Ela vai querer mudar tudo por aqui”, pensou. Ele foi até a lanchonete do Instituto Mileto e pediu um expresso duplo, pegou seu celular e digitou o número de Felipe.
— Felipe! Onde você está? — Perguntou Alberto perplexo.
— Eu estou viajando Beto! — respondeu ele — Estou em Chicago em uma conferência de neurociência, sou palestrante. Eu falei com você sobre isso — Ouve uma pausa em ambos os lados da linha — Você se esqueceu, não foi?
— Apenas por um momento. — Respondeu Alberto, tomando um grande gole de café. — Eu ando com a cabeça cheia.
— É eu tenho reparado nisso faz tempo.
— Por favor, Felipe, não por telefone!
— Está bem. Eu volto amanhã e você me pega no aeroporto, então vamos conversar queria você ou não. — Alberto não respondeu — Até mais Beto! — Felipe desligou o telefone e Alberto o ficou encarando por algum tempo, mas sua concentração logo foi quebrada pela voz de Anita que havia parado ao seu lado.
— Posso me sentar com o senhor Dr. Fittz? — Disse ela sorrindo.
Alberto parecia confuso, mas concordou com a cabeça.
— Obrigada! — Anita respondeu.
Um silêncio tomou conta da mesa deles. Alberto mexia freneticamente em seu telefone e Anita o analisava. O silêncio foi só interrompido com a chegada da garçonete trazendo uma pequena xícara de chá para Anita. A jovem sorriu para a garçonete como forma de agradecimento.
Alberto estava se sentindo incomodado com a situação. Anita tomava seu chá tranqüilamente o que deixou Alberto mais frustrado. Ele respirou fundo.
— Então Srta. Mansell, gostando do Instituto? — disse, finalmente, em um único fôlego.
— Esse lugar é incrível! Um belíssimo lugar! E você pode me chamar de Ani. —Anita respondeu.
Alberto apenas se mexeu na cadeira e Anita deu de ombros.
— Posso lhe chamar de Fittz? — perguntou Anita levando sua xícara a boca.
— Apenas Fittz? — Alberto perguntou e Anita concordou com a cabeça — Ninguém nunca me chamou assim antes. — ele disse com o tom de voz baixo.
— Bem, eu gosto de criar apelidos para as pessoas. Isso me faz ficar mais próxima delas e elas a mim me chamando de Ani.
— Entendo. — disse Alberto de cabeça baixa — mais proximidade com as pessoas — o coração de Alberto começou a bater mais forte.
Anita o encarou por um momento com sua xícara na mão. Seus olhos de um azul profundo deixaram Alberto incomodado.
— Aproveite seu chá — Ele disse nervoso — Eu preciso ir trabalhar! Quando eu precisar de você eu lhe chamo. — Ele levantou-se desajeitadamente da cadeira e seguiu apressado para a saída deixando Anita sozinha na lanchonete. A menina deu de ombros e continuou a tomar seu chá.
O dia estava ocorrendo normalmente: pesquisas, análises, programações, saídas a campo, elaborações e execuções de projetos e até mesmo construções estavam ocorrendo por todo o Instituto Mileto. A primeira tarefa de Anita foi sugerir idéias para atualizar e modernizar o site e facilitar a interação do público com o Instituto. Era a primeira vez que o Instituto tinha uma artista como uma de seus empregados então ele iriam aproveitar ao máximo as habilidades artísticas de Anita.
— Pode entrar! — Ela disse quando alguém bateu a porta.
— Olá Ani! — disse Joseph por uma fresta na porta, deixando apenas seu rosto e seu lado direito visíveis pra Anita já que a cortina estava topando a porta de vidro. A menina retribuiu a saudação — Dr. Fittz precisa de você ele está lhe esperando no laboratório principal. Ele irá sair a campo e precisa que você documente tudo.
— Está certo. Já vou descer, obrigada Joe! — ela respondeu.
Joseph sorriu e saiu. Anita cruzou as mãos na frente do rosto e respirou fundo estava tudo acontecendo como esperado era a sua primeira saída a campo com Alberto e ela não queria decepcioná-lo, nem ele nem ao Instituto, ela pegou sua bolsa, seu material de fotografia e desenho e foi ao laboratório principal ao encontro de Alberto.
Quando Anita avistou Alberto no laboratório principal ele estava vestindo um macacão cinza claro com o emblema do Instituto Mileto ao lado direito do peito, logo abaixo estava escrito seu nome e a sua função no Instituto: Alberto Fittz, Astronomo-chefe.
Anita fotografou Alberto e sua equipe discretamente sem ser notada.
— Eu não vou ter que usar isso, vou? — Perguntou Anita olhando Alberto da cabeça aos pés.
— Só se trabalhar aqui definitivamente, seguir o protocolo a risca, mostrar que faz parte do instituto, querer assustar as crianças na rua... — Respondeu Joseph entregando uma maleta para Alberto.
— É um belíssimo traje! — Protestou Alberto — é confortável, mantém a temperatura corporal normal e protege contra possíveis radiações...
— Faz você parecer um astronauta, isso sim! — Disse Anita interrompendo e pegando sua máquina. Ela fotografou Alberto de surpresa que tentou esconder o rosto com as mãos.
— Pare com isso Anita, nós temos muito trabalho a fazer! — resmungou Alberto que se virou e foi em direção a saída.
—Claro, claro. O senhor é quem manda chefe! — Disse Anita indo logo atrás dele.
Alberto revirou os olhos e Anita correu para alcançá-lo.
— Isso vai ser interessante. — disse Joseph para si mesmo, que olhava Anita e Alberto cruzarem a porta do Instituto Mileto.
— O que será interessante Sr. Alyson? — disse o Dr. Davis logo atrás dele.
— Nada não, Dr. Davis, estava apenas pensando alto.
Dr. Davis balançou a cabeça, embora não estivesse entendo nada. Joseph seguiu para o laboratório, Anita e Alberto estavam do lado de fora do Instituto ela fotografou Alberto mais uma vez antes de ele entrar no carro com a sua roupa cinza espacial.
***
— Então, você pode me dizer para aonde vamos? — perguntou Anita após alguns minutos de viagem.
— Um meteorito caiu aqui perto e eu vou recolher algumas amostras para pesquisa. — respondeu o rapaz — e antes que você me pergunte você está indo junto para documentar tudo.
— Claro, documentar. — Disse Anita desligando sua câmera, ajeitou-se no acento do carro e ficou olhando a paisagem pela janela durante o restante da viagem. Aberto olhou para ela por um instante, mas preferiu prestar a atenção na estrada para evitar acidentes.
Após 1h de viagem Alberto estava dirigindo por uma estrada de terra que fazia o carro todo tremer a poeira jogada pela terra impedia Anita de ver a vista o que a deixou um tanto inquieta. Ela ajeitou-se no banco do carro colocou os fones de ouvidos e fechou os olhos, mas a tranquilidade dela não durou muito. Alguns minutos depois Alberto parou o carro e ambos desceram.
O local onde o meteorito havia caído era um tanto inóspito. Típico terreno árido, sem muitas coisas para se observar a única coisa que chamava a atenção naquele lugar era uma imensa cratera que havia se formado com a queda do meteorito.
Uma figura estranha e um pouco roliça surgiu através da nuvem de poeira causada pelo carro de Alberto.
— Você deve ser o Dr. Fittz do Instituto Mileto! — disse a figura que estendeu a mão direita para Alberto enquanto segurava alguns papéis com a outra. — Me chamo George, George Mefil.
— Muito prazer Sr. Mefil. — respondeu Alberto educadamente. — Essa é a Srta. Mansell.
Anita sorriu e George concordou com a cabeça, como um gesto afetivo.
George seguiu ao local onde estava o meteorito seguido de Alberto e Anita. Anita preparou sua câmera fotográfica durante a caminhada. Enquanto Alberto entrava na cratera ela estava tirando fotos do local caso precisasse.
— Srta. Mansell! — chamou Alberto, mas Anita não respondeu. Ela estava concentrada em suas fotografias. — Srta. Mansell! — ele tentou novamente — Anita! — gritou finalmente.
Anita virou-se para Alberto que já estava dentro da cratera perto do meteorito. Vendo-o ali com seu macacão prata ela teve a ligeira impressão de que ele estava na lua. Sorriu sozinha por um momento.
— Anita do que você está rindo? — perguntou Alberto — Você está aqui para trabalhar não para se divertir!
— Eu posso fazer as duas coisas, Fittz! — retrucou ela.
Enquanto Alberto retirava pequenas amostras do meteorito Anita o fotografava. Entre algumas fotos “sérias” que seriam usadas para o trabalho havia aquelas para a coleção pessoal de Anita, onde, tudo estava “mais leve”. Anita também anotava tudo o que Alberto falava sobre o meteorito: peso, altura, leitura de gases e radiação, cor e rastros de metais que estavam presentes que podiam ser vistos a olho nu.
— Bem! — disse Alberto após dar uma última olhada no meteorito — acho que terminamos por aqui! Peça para que uma equipe venha examinar a cratera e o meteorito com os equipamentos e depois o prepararem para levá-lo ao Instituto.
— Claro, Claro! —disse Anita sem desviar o olhar de suas anotações — Vou falar com o Sr. Mefil e encontro você no carro.
— Obrigada, Anita.
Alberto observou Anita por um breve momento. Ela estava em pé imóvel ao lado da cratera com sua máquina fotográfica pendurada em seu pescoço e terminava suas anotações sobre o meteorito em seu caderno vermelho. Seus tênis e jeans estavam sujos de poeira contrastando com o branco de sua blusa, seus cabelos ruivos estavam presos em um rabo de cavalo e enquanto fazia suas anotações passava os dedos repetidamente por sua franja.
De volta para o instituto Mileto Anita passou para a versão digital tudo o que havia anota na saída com Alberto. Enviaria suas anotações para Joseph compará-las e analisá-las junto com as informações coletadas pela segunda equipe. Logo após, resolveu preparar o quarto escuro para revelar suas fotografias do dia. Anita colocou os fones de ouvido e começou a trabalhar em suas fotos.
Alberto estava em sua sala, que era um mini laboratório, quando o telefone tocou.
— Alô? — ele disse — Ah, olá Felipe.
— E aí, cara, como é o pessoal novo? — perguntou Felipe curioso.
— Só conheci uma garota. A que está trabalhando comigo o resto não fiz questão de conhecer.
Felipe suspirou do outro lado da linha. Seria uma conversa curta.
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