Estrela da minha noite

27 Capítulo 27 - Assassina


Não podia ser verdade, eu não podia ter matado alguém. Mesmo que por acidente.

— Não Charlie, ele não está. Levanta da droga desse chão. _ Não podia ser verdade, ele não podia estar morto.

Charlie levantou o rosto me encarando, ele estava frio. Não parecia o Charlie que chorou ajoelhado pela morte das irmãs. Parecia um Charlie que não estava nem aí com a morte do pai.

— O que aconteceu aqui Maria? _ Fiquei apreensiva, eu poderia contar a ele e ele me culpar por alguma coisa que eu nem tinha certeza que teria acontecido.

— Nada. _ Ele semicerrou os olhos me encarando.

— Por favor. _ A ambulância já havia saído. _ Não minta para mim.

— Nada Charlie, não aconteceu nada. _ Me virei de costas para ele indo até a janela.

Charlie e eu fomos para o hospital, depois de alguns minutos tentando ligar para minha mãe para ela ficar com Ethan.

Chegamos no hospital, Charlie estava tenso. Ele parecia que ia fugir dali a qualquer momento. Sentamos no banco da recepção do hospital para esperar notícias do pai dele, que Charlie por algum motivo tinha certeza que estava morto.

— Charlie Pasculi? _ Um médico vestido de azul aproximou de nós.

— Sim? _ Charlie levantou do banco o encarando.

— Seu pai teve fratura em quatro lugares diferentes da caluna, traumatismo craniano, quebrou o ombro, o braço e o pé.

Charlie respirou fundo e voltou a se sentar.

— A escada nem era tão alta assim. _ Fiquei pensando na escada, em cada degrau dela. Eu já tinha caído ali e nunca tinha quebrado nada. Então lembrei que eu o empurrei para afastar ele de mim. Meu ar sumiu por alguns segundos.

— Ele está em estado de risco. Charlie, eu não vou mentir pra você. Ele está vivo. Mas acho que ele não passa dessa noite. Eu sinto muito.

Charlie respirou fundo e balançou a cabeça positivamente.

— Com licença. _ Ele se virou e saiu.

Eu tinha matado o pai dele, ele ia morrer por minha causa. Que tipo de pessoa eu era?

— Maria? _ Levantei o olhar tentando achar de onde vinha essa voz. Ed estava parado quase do meu lado, então forcei um sorriso que devia ter saído muito falso. Charlie o encarou e depois me olhou.

— Licença. _ Charlie se levantou e passou pelo Ed sem nem o olhar.

— O que houve com ele? Parece que morreu alguém. _ Ele riu baixo, o que me fez querer rir até me lembrar de novo que rir seria mórbido de mais. Então eu só respirei fundo sem dizer nada. _ Meu Deus, desculpa a piada sem hora.

— Tudo bem. _ Ele firmou na muleta e se aproximou de mim e sentou do meu lado.

— Quem morreu? _ Ele colocou a perna em cima do banco se virando de frente para mim, só aí percebi que estava enfaixada.

— Ninguém, mas o pai dele caiu da escada e os médicos acham que ele não vai resistir. _ Apertei minha mão contra a outra e o encarei, eu estava com medo.

— Caiu? O Charlie não perdeu as irmãs esses dias? _ Ele levantou uma sobrancelha me encarando.

— Sim. _ Ele semicerrou os olhos e arrumou a jaqueta jeans que ele vestia.

— Isso é tão estranho.

— O que?

— Ele perde a ex namorada, irmãs, pai, o que o Charlie é?

— Como sabe que ele perdeu a ex-namorada? _ Disse rapidamente, antes mesmo de conseguir assimilar o que ele tinha dito.

— Ah... Todo mundo sabe. _ Ele se ajeitou no banco, parecia nervoso. _ Você parece mais preocupada do que o normal Maria.

Respirei fundo, meu coração estava quase saindo pela boca desde o momento que ele caiu no chão daquela escada. Eu não era o tipo de pessoa que mentia para todo mundo.

— Ed, eu acho que matei o pai dele. _ Quando eu vi, já tinha dito. Ed arregalou os olhos e riu.

— Você o empurrou escada a baixo? _ Ele ria baixo me encarando.

— Sim. _ Ele ficou sério de repente.

— Está falando sério?

— Sim.

— Ah... _ Ele não sabia o que dizer, apenas olhou para os lados e voltou a me encarar. _ O que ele fez Maria?

Eu queria contar tudo pra ele.

— Ele me pegou pelo pescoço e me segurou e começou a me chamar de vadia. Eu tentei me defender. _ Senti uma lágrima descendo pelo meu rosto.

— Calma Maria, você não matou ninguém. _ Ele desceu a perna e se aproximou ainda mais de mim, levou a mão no meu rosto e enxugou minha lágrima com a ponta do dedo.

— Eu o empurrei. _ Respirei fundo.

— Foi um acidente. Você não queria mata-lo. _ Ele olhou para o lado e eu acompanhei o olhar dele. Charlie estava na porta do hospital conversando com a aquela enfermeira "amiga" dele.

Ele voltou a me olhar novamente.

— Vai lá. _ Ele segurou a muleta que estava apoiada no banco e se levantou.

— Ed, o que houve com sua perna? _ Ele se virou me encarando e sorriu.

— Cai da escada. _ Levantei uma das sobrancelhas.

— Isso é mais uma piada sem graça sua? _ Ele riu e sem dizer mais nada, se virou e saiu.

O pai do Charlie veio a falecer naquela madrugada, ele teve falência múltipla dos órgãos. Charlie não falou comigo naquele dia. Eu estava me sentindo culpada por toda aquela desgraça na vida dele. Mesmo o pai dele sendo um monstro disfarçado de bom médico. Ele havia cuidado do Charlie e Charlie o amava. Enterramos o pai dele um dia depois. Charlie estava mais conformado quando perdeu as irmãs.

Uma semana se passou desde a morte dele.

— Maria? _ Charlie desceu as escadas com a chave do carro na mão.

— Sim? _ Ethan estava no meu colo quase dormindo.

— Eu vou voltar para casa hoje. _ Ele sentou no banco do balcão, me olhando.

Eu não queria que ele fosse embora, era parte da minha vida agora. Ele ia enlouquecer naquela casa enorme sozinho, queria dizer tudo isso para ele, mas tudo que saiu foi um?

— Tudo bem. _ Me virei de costas para ele e voltei a balançar lentamente o Ethan nos meus braços.

— Vem comigo. _ Me virei de frente para ele, ele se levantou do banco e se aproximou de mim e me abraçou com o Ethan entre nós.

— Você disse que... _ Ele levantou meu rosto e me beijou.

— Que eu te amo? _ Ele me olhou nos olhos e sorriu.

— Que ia se afastar

— Eu não consigo. _ Senti a mão dele deslizar das minhas costas até minha cintura.