Estrela da minha noite
26 Capítulo 26 - O lado sombrio
Charlie estava completamente descoberto na cama, completamente desprotegido e inocente, como eu nunca o tinha visto.
Não conhecia quem ele era de verdade. Tudo o que eu sabia sobre ele é que, ele tinha um passado sombrio e uma mágoa recente, ele perdeu quase tudo que amou na vida e agora ele me tinha. Ele não parecia se entregar a mim de verdade por inteiro, ele escondia alguma coisa, eu sentia.
Ethan tinha parado de chorar e eu o balançava lentamente pelo quarto. Ele quase não chorava, não reclamava. Era uma criança calma e muito amada.
Eu não queria acordar Charlie, ele parecia que dormia tão profundamente como eu quase não tinha presenciado nessas semanas que ele permaneceu em casa.
Desci as escadas, o pai do Charlie estava tomando café da manhã sozinho na cozinha, e eu desejei não ter descido. Mas quando dei por mim ele já estava me encarando, eu queria ter coragem de virar as costas e sair dali, mas isso não era educado. Então eu simplesmente sorri.
— Bom dia. _ Ele disse baixo.
— Como está? _ Caminhei devagar até a cozinha e coloquei Ethan no cercadinho e me sentei na mesa.
— Estou vivendo. _ Ele abaixou pegou uma das torradas e comeu.
Não sabia o que dizer, eu não o conhecia, não sabia quem ele era de verdade. Eu tinha pena dele, mas por algum motivo, muito mais do que pena, eu tinha medo. E era simplesmente inexplicável.
— Perdi a garota que eu amava, assim como o Charlie. _ O encarei.
— Como? _ Perguntei curiosa.
— Eu me apaixonei antes de começar a trabalhar pro país. E tiraram ela de mim, depois conheci outra pessoa e ela me deixou. Agora perdi minha casa e minhas duas únicas filhas.
— Você tem Charlie.
Ele levantou o rosto me encarando e levantou uma sobrancelha com um sorriso irônico no rosto.
— Você sabe que ele não é meu filho.
— É claro que é. _ Ele estava começando a me deixar com raiva.
— Charlie não é quem você pensa. Eu sei que ele ama o Ethan e tudo mais. Mas se fosse você já tinha se afastado dele.
— Eu não quero me afastar dele.
— Eu sei, escutei vocês ontem.
— Isso não... _ Simplesmente não soube o que dizer novamente.
— Charlie foi treinado para caçar e matar desde bebê. Ele é uma arma, e vai acabar ferindo você. Ele fere a todos que se aproxima. Se perdi minhas filhas a culpa foi dele.
— Como pode dizer isso? _ Falei mais alto do que esperado então tentei me controlar para não acordar ninguém naquela casa.
— Ele matou muita gente, matou a ex-namorada dele, matou as minhas filhas, e vai matar você se continuar perto. _ Meus olhos estavam queimando de ódio dele, eu já não gostava dele antes de ele dizer tudo isso.
— Charlie matou apenas bandidos, a vida fez com que ele perdesse pessoas importantes para ele e para você. Deveria ser menos babaca e pensar no que falar antes de cagar pela boca. Imbecil. _ Me levantei da cadeira rapidamente.
— Não Maria, ele tem razão. _ Era o voz do Charlie, me virei para trás e lá estava ele. A roupa amarrotado o cabelo grande completamente bagunçado e aquela cara de quem acabou de acordar.
— Ele não tem razão. _ Semi-cerrei os olhos e ele me olhava friamente.
— Bom dia meninos. _ Minha mãe entrou na cozinha atrás do Charlie.
Ela viu que tinha algo acontecendo e me encarou por alguns segundos e depois olhou para o Charlie e para o pai dele.
— O que houve?
— Nada _ Eu e Charlie dissemos juntos.
— Pode olhar o Ethan? Eu e a Maria vamos sair para tomar café da manhã. _ Charlie disse para minha mãe sem tirar os olhos de mim.
— Claro.
Charlie pegou minha mão e me puxou para fora da casa, parou apenas para pegar as chaves do carro que estavam em cima da mesinha da sala.
Eu o acompanhei sem dizer nada, eu sabia que ele queria me dizer algo.
Entrei no carro e permaneci calada no carro. Ele parou na porta de uma pequena padariazinha.
— Me espere aqui.
Ele desceu do carro e em menos de dois minutos estava entrando de novo no carro com algumas sacolas na mão.
E voltou a dirigir. Quando dei por mim estávamos na porta da sua antiga casa que estava em construção, e quase terminada.
— Vem.
Ele desceu do carro, com as sacolas na mão e entrou por trás da casa diretamente para a praia. Eu o segui.
A casa estava quase pronta, talvez alguns detalhes que eu nem conseguia ver por fora. Mas foi tão rápido.
Ele estava em pé, encarando o mar. Me sentei na areia, ele se virou me encarando e se sentou ao meu lado.
Abri a sacola e peguei algumas rosquinhas.
— Maria...
O encarei esperando que ele dissesse alguma coisa, mas nada saiu.
— Você não tem culpa de nada. Nem das suas irmãs, nem da Melissa. Nem de nada.
— Eu matei pessoas importantes, e eles mataram minha família. _ O olhar dele se desviou para o mar. _ Preciso me afastar de você e do Ethan, antes que eles machuquem vocês.
— Não. _ Meu coração saltou pela boca no momento que ele disse isso. Eu não tinha ninguém. Daniela me abandonou quando fiquei grávida, não tenho mais amigos na escola e nem em lugar nenhum e eu estava... eu acho que estava o amando.
— Vai ser melhor o Ethan crescer sem um pai, do que um pai que pode correr o risco de mata-lo.
— Charlie, você prometeu para mim que cuidaria dele, e de mim não importasse o que acontecesse.
— É isso que estou fazendo Maria. Vivi a minha vida inteira sem medo de morrer porque simplesmente não tinha um motivo para viver. E toda vez que eu encontrei um motivo eu o perdi. Toda vez que amei alguém. Eu perdi. Eu jamais me perdoaria se perdesse você e o Ethan.
— Não vai perder.
— Vou.
— Como pode ter tanta certeza?
— Descobri quem matou minhas irmãs. E ele não vai parar até me atingir. Até me destruir.
— Ele quer matar você?
— Não, ele quer matar quem eu amo. Assim como fiz com a família dele. Eu matei o irmão, e a filha dele. Você não entende. Eu nem deveria estar te contando isso. _ Ele respirou fundo, parecia que ele ia desabar em lágrimas a qualquer momento, mas ele não o fez.
— Não posso perder você Charlie. _ Meus olhos estavam cheios de lágrimas.
Porque? Ele cuidou de mim quando todo mundo me ignorou. Disse que me amava, me pediu em casamento, comprou uma casa para gente mesmo sem saber que eu o amava, prometeu ser o pai do Ethan, e o amou desde que viu o rostinho dele na tela do computador. E agora simplesmente ia embora porque achava que assim seria melhor para nos dois?
Não conversamos mais, eu não consegui nem se quer dar uma mordida na rosquinha na minha mão. Nenhum dos dois comeram ou conversaram. Voltamos para casa. Charlie me deixou na porta e saiu novamente. Eu nunca realmente quis saber onde ele ia, ou o que ele ia fazer quando saia e não me dizia nada. Mas isso estava começando a me preocupar. Algumas vezes ele até voltava bêbado ou suado, mas eu nunca sabia realmente onde ele estava.
Já passava das seis da tarde, Charlie ainda não tinha voltado. Passei duas mensagens para ele e liguei uma vez. Não queria ser invasiva, mas depois da manhã e da conversa que tivemos, me senti preocupada.
Já estava começando a anoitecer, Ethan dormia no quarto. Estava no corredor, quando vi o pai de Charlie sair do quarto com uma garrafa de wisky. Parei na ponta da escada quando percebi que ele estava me encarando e caminhando para o meu lado. Ele cambaleava, estava completamente bêbado.
— Está tentando se matar garota? _ Ele gritou.
— O que?
— Está tentando matar você, Ethan e Charlie juntos.
— babaca _ falei baixo, quase sussurrado.
— Esse filho não é do Charlie né? _ Meu coração por algum motivo se acelerou, era medo, a cada passo que ele dava em direção a mim ele se acelerava mais.
— Claro que é.
— Larga de mentir, sua vadiazinha. _ Ele chegou perto o suficiente e levou a mão até o meu rosto acariciando-o. Tentei descer as escadas e sair dali, mas ele me segurou,pelo braço e pelo pescoço. Ele mesmo bêbado era mais forte que eu. Ele me encarou nos olhos. _ Puta. _ Sua mão apertava ainda mais meu pescoço, eu estava começando a sentir dor e falta de ar. _ Quietinha Maria. _ Ele soltou meu braço e levou a outra mão no meu pescoço, o empurrei para tentar me soltar. Então senti suas mãos soltarem, ele deu dois passos para trás desequilibrado e caiu escada abaixo.
— Ai meu Deus. _ Ele rolou a escada. Desci as escadas correndo. Ele estava deitado no chão. Sua boca e seu nariz começaram a sangrar. _ Socorro, mãe, pai. _ Gritei o mais alto que pude.
Charlie abriu a porta e nos encarou.
— O que houve? _ Ele veio correndo, me levantei me afastando. Ele checou o pulso. _ Droga, chama uma ambulância Maria.
Saí correndo e peguei o telefone, liguei e tentei explicar o que tinha acontecido, apenas a parte que ele tinha bebido e caído da escada. Em poucos minutos eles estavam lá.
Charlie ficou sentado no chão onde o pai dele estava caído e ficou olhando eles levarem o corpo do pai dele.
— Charlie, você não vai pro hospital com ele? _ Ele levantou o olhar me encarando e voltou a encarar a porta. Respirou fundo e abaixou a cabeça passando as duas mãos no cabelo.
— Ele está morto, não tem necessidade.
Fale com o autor