Me levantei da areia e abanei meu vestido.

Respirei fundo e fechei os olhos deixando o vento levar meus cabelos.

E então senti um cheiro de fritura, peixe frito, e meu estômago se revirou e o vômito subiu pela minha garganta. Me virei de costas para o Charlie porque percebi que não ia conseguir entrar na casa e achar um banheiro a tempo. E vomitei, toda a batata frita com bacon que eu havia acabado de comer.

Senti Charlie ajoelhar atrás de mim, e segurar meu cabelo para trás, senti seus joelhos perto da minha cintura.

— Está tudo bem, respira. _ Ele sussurrou, mas eu mal pude entender o que ele falava porque não conseguia parar de vomitar.

E depois de alguns minutos vomitando, respirei fundo e limpei minha boca com as costas da mão. Me levantei desajeitada do chão e senti Charlie soltando meu cabelo e se levantando também.

— Eu estou bem. _ Ele colocou a mão no bolso, com a cara feia, os olhos me desaprovando.

— Você não está. E se não contar para alguém o que está acontecendo eu irei contar.

— Charlie você não pode. É a minha vida. _ Me virei de costas para ele e sai andando em direção a casa. Eu só queria ir embora, não queria dar satisfação para ele do que eu achava que poderia estar acontecendo.

— Maria, você sabe o que está acontecendo?

Respirei fundo e me virei de frente para ele e percebi que ele estava andando atrás de mim, mas parou de repente quando parei. Eu estava com tanta raiva e tão chateada. Meus olhos esquentaram no momento que olhei para ele pra dizer alguma coisa e lágrimas desceram do meu rosto involuntariamente.

— Eu não... Não sei o que houve. _ Eu queria parar de chorar mais não conseguia.

— Maria porque está chorando?

— Brian me traiu, e eu o amava.

— O que? _ Ele franziu a testa e deu dois passos para frente.

— Eu acho que estou gravida. _ Charlie arregalou os olhos involutariamente.

— É... Como?

— Aí Deus _ Percebi o que eu tinha acabado de falar em voz alta e devo ter ficado pálida naquela instante porque consegui sentir meu coração gelando.

— Do Brian? — Ele disse mais alto do que eu gostaria de ter ouvido

— Não. _ Me virei de costas e continuei andando em direção a casa.

— Espera, onde vai?

— Preciso... Ir em uma farmácia. _ Eu disse entre soluços, e só então percebi que eu estava chorando muito.

— Eu levo você.

— Charlie não. _ Subi os degraus de madeira e parei em frente a porta de vidro da cozinha. Abri. Charlie estava bem atrás de mim, me acompanhando, passei pela cozinha. Me virei de frente pra ele, não sabia para onde ir. _ Onde eu saio daqui?

— Eu vou te levar embora, a gente passa na fármacia e você me fala o que aconteceu, e eu vou te ajudar. Maria. _ Ele chegou perto de mim e colocou as duas mãos em meu rosto, me olhando nos olhos. _ Eu prometo que te ajudo, somos amigos agora. Respirei fundo buscando ar, suas mãos eram quentes, me acolhiam. Aproximei meu corpo do dele e o abracei. Seu corpo também era quente como suas mãos, me confortavam.

Escutei um barulho no corredor que dava entrada para cozinha.

— Charlie, eu... _ Me soltei do abraço do Charlie em um pulo e olhei para trás, era o pai dele. _ Tudo bem? _ Ele perguntou se aproximando de nos com o olhar preocupado. Limpei meus olhos o dedo e tentei me recompor, mas eu sabia que era em vão.

— Está pai.

— Maria?

— Tudo bem.

— Vou levar Maria para casa agora. Conversamos depois. _ Ele pegou na minha mão e saiu me arrastando da cozinha, mas antes de sair ele se virou para o pai dele. _ Não diz nada do que viu aqui para ninguém, conversamos depois. _ O pai dele consentiu com a cabeça. E saimos ali da cozinha.

Passamos pela sala do piano até uma porta grande e branca, saímos pela porta e só então vi a entrada da casa e o Jeep do Charlie estacionado em uma garagem aberto ao lado de outros 5 carros de luxo. Atravessamos a entrada da casa até a garagem. Charlie sem dizer nenhuma palavra, abriu a porta do carro para mim, eu entrei, me sentei, e ele entrou do lado do motorista e logo estávamos na estrada de novo.

Já havia uns 5 minutos que ele dirigia pela estrada sem dizer nenhuma palavra, sem demonstrar nenhuma ação.

— Eu peguei Brian na cama com a Kimberly.

— Disso eu já sei _ Ele disse baixo.

— Eu sai pra beber depois. _ Ele me olhou por alguns segundos e depois voltou a olhar para a estrada. E eu não soube como continuar a história para ele.

— E? _ Ele perguntou quando viu que eu não ia conseguir responder.

— Eu bebi muito.

Escutei ele respirar fundo.

— Eu transei com alguém.

E ele suspirou mais fundo ainda, apertando a mão no volante.

— Com quem?

— Eu não sei

— Que? _ Ele me olhou de novo, estava com uma cara brava, parecia meu pai quando me reprovava quando fazia alguma coisa errada.

— Eu não lembro, eu estava desacordada.

Ele franziu a sobrancelhas.

— Você foi estuprada

Arregalei os olhos, a palavra me fez assustar. Eu não tinha nem se quer pensado nessa hipótese durante aqueles quase três meses. Mas sim, eu estava inconsciente, desacordada, bêbada.

— Eu acho que não.

— Você lembra o que daquela noite?

— A bebida de maça verde, eu dançando na pista com alguns garotos do colégio...

Fiquei estatica por alguns segundos, quando me lembrei do homem, do quarto, das tatuagens, o cabelo preto bagunçado e a dor.

— O que mais Maria? _ Charlie disse quase gritado.

— Só me lembro do quarto, e um homem tatuado. Não sei quem era, não lembro do rosto. Mas lembro de ter dito não. Várias vezes.

— Droga... _ Ele bateu no volante do carro, o que fez a buzina tocar.

Ele estava visivelmente nervoso, virou a esquina tão rápido que meu corpo foi jogado contra a porta.

Então ele bruscamente parou o carro fazendo meu corpo ir para frente. Olhei em volta para onde estávamos. Estávamos na porta de uma das poucas farmácias da cidade.

— Fique aqui, eu já volto. _ Ele desceu do carro e foi até a fármacia, a cada segundo que ele demorava eu estava ficando mais e mais nervosa, até que ele apontou para fora da farmacia com algumas sacolas na mão.

Entrou dentro do carro e colocou as sacolas no meu colo.

— O que é tudo isso?

— Teste de gravidez. Três pra ser exato, um rémedio para vomito e um cereal calórico pra você comer. Pra gravidas. _ Ele quase engasgou quando disse "gravidas".

— Como eu faço isso? _ Olhei para ele sem graça.

— Amanhã quando acordar, na caixa tem as instruções. _ Ele estava com a cara fechada, mal olhava para mim. Chegamos em casa com poucos minutos, ele não disse nenhuma palavra se quer.

Desci do carro, peguei minha bolsa, coloquei as sacolas dentro da bolsa para ninguém notar o que eu carregava. Ia sair andando até que Charlie me chamou, virei para trás o encarando.

— Me da seu celular. _ Abri a bolsa e peguei meu celular e entreguei para ele. Ele digitou alguma coisa e me entregou. _ Me manda noticias por favor.

Balancei a cabeça positivamente. Ele acelerou o Jeep e saiu, e eu entrei para casa. A casa estava quieta. Já anoitecia. Parecia que não tinha ninguém. Passei na cozinha, peguei uma pera e fui para meu quarto.

Me sentei na cama, tirei a barra de cereal de dentro da sacola e comi, e logo depois a pera. Entrei para o banheiro, fiz minha higiene, tomei um banho demorado pra tirar o excesso de areia, suor e choro do meu corpo. Mal podia acreditar que isso estava acontecendo comigo. Sai do banheiro já de pijama, me deitei na cama em baixo das cobertas e dormi.

Notas finais
O que estão achando do Charlie?