Estrela da Babilônia
6 Capítulo 6 - Luz
Notas iniciais
Passando pelo portão acabamos dentro da cidadela murada que separava as portas da deusa vermelha da cidade em si. É difícil me lembrar quantos rostos de fato estavam olhando para nós ou para os guerreiros, pois reparei mais na massa de tecidos coloridos usados pelas pessoas, carregados por comerciantes e nos adereços dourados em seus cabelos, testas, orelhas e braços do que todo o resto. Admito que nem mesmo o palácio em Ur conhecia tanto luxo quanto aquelas pessoas simples. Ao entrar na cidade, descemos pela larga rua que depois eu descobri ser o caminho de procissões de uma época onde os meus deuses eram cultuados naquele lugar e tive uma ligeira visão do palácio real à minha direita. Descrever tudo como vi naquela época é um pouco distante da realidade de hoje e sinto enormes dificuldades de me recordar de tudo. Não muito distante do palácio existia um templo que imaginei ser de um deus meu e quanto mais andávamos em linha reta mais nos aproximávamos do centro da cidade murada, um lugar cheio de casas, desde as mais simples e pequenas, muito similares às casas de Ur, até outras com uns três andares e com mais requinte em suas fachadas. Um enorme zigurate estava no centro da cidade, incrivelmente maior do que o palácio, tanto em espaço quanto em altura cuja sombra era enorme até mesmo naquela hora de sol íngreme e seu topo era quase impossível de se ver.
A frota foi se separando aos poucos pelas vielas, até que só sobrou eu e Shahin. Não sei com precisão que caminho tomamos, se cruzamos o rio Eufrates que cortava a cidade no meio, ou se paramos em tendas para conversar ou trocar algo, pois como já disse eu estava enfeitiçado pelas cores das vestes das pessoas, assim como depois fiquei tonto pela visão daquele imenso zigurate. No fim, sei que fomos parar em um bairro não muito adorável chamado Tintir. Era um bairro consideravelmente pequeno pelo que me lembro, coisa de um punhadinho de casinhas lúgubres, porém confesso que pouco o visitei durante toda minha vida e por esse motivo não posso dar nenhum detalhe sobre ele.
Sinceramente? Não me arrependo!
Foi em uma ferraria no Tintir que ficou decidido que eu jamais sairia daquela cidade infernal com nome de “porta dos deuses”. (Porta dos deuses para nós, pois conheci um hebreu que dizia outra coisa sobre o nome “Babel”, mas isso é outra história que ainda irei contar em seu devido momento se minha morte não chegar antes, então adianto que muitos povos diziam muitas coisas diferentes do que nós dizíamos, tão diferentes que mal me lembro de todas as palavras que eu costumava usar em meu passado para designar lugares e coisas.)
Shahin conversou com o ferreiro, um homem de muita idade que mexia em diversas peças de ouro e bronze de aspecto pouco agradável. Uma em especial possuía uma águia de asas e pernas bem abertas, quase como se o desenho de seu corpo formasse uma estrela deformada de seis pontas. Um longo cabo estava preso nessa águia e por esse cabo metálico o ferreiro segurou para colocar a águia na boca de um forno e ali deixá-la até que se tingisse de vermelho. Virando-se para mim o ferreiro perguntou em um calmo e acolhedor tom de voz:
— Onde você quer ser marcado?
Eu olhei para Shahin que, diferente de seu comportamento divertido e brincalhão que mostrou ter antes de passarmos pelo portão da cidadela, me devolveu o olhar de forma extremamente séria enquanto acenava levemente com a cabeça, afirmando que eu seria marcado com ferro e que não existia meios de ficar sem aquela marca. Que melhor coisa para impedir crianças bárbaras de fugir quando essas parecem ter bravura ou burrice o suficiente para desbravarem o deserto sozinhas? Não há. A vida de uma criança de baixa classe persa não é fácil, e ser uma dessas sem ser nascida entre os persas é ainda mais complicado, então não me admira o fato de muitos terem tentado fugir.
E para impedir minha fuga eu seria marcado como qualquer outra antes de mim. Parece estupidez e brutalidade desnecessária, mas se um dia você socorrer uma criança marcada no deserto, recomendo devolvê-la para seu dono a menos que queira envolver seu pescoço em uma situação muito perigosa.
– Onde eu possa esconder facilmente. – Respondi em acadiano, afinal, não existia meios de eu dizer aquilo na outra língua dos persas que eu conhecia. – Pode ser na coxa.
Shahin traduziu minhas palavras e acrescentou algumas observações ao ferreiro que logo veio com dizeres que só muito mais tarde eu fui entender que eram “pelo menos não pediu na bunda” e “ele faz idéia quanto dói?”
— Garoto. – Shahin disse ao pousar sua mão em meu ombro para que eu lhe desse atenção. – Não quer colocar nas costas?
— Essa cidade é quente. – Revidei. – Se eu quiser tirar as roupas vai ficar muito exposto.
Ambos os homens riram de minha observação. Na verdade eles gargalharam e levei semanas para perceber que todos se cobriam como se estivessem sempre com frio.
Quando a haste de ferro com a águia começou a chiar o ferreiro me deu uma grande quantidade de uma mistura leitosa para beber. Era algo um pouco amarronzado, morno, fedorento e muito amargo que quase me induziu em sono direto. Lembro-me de ter de engolir aquilo bem rapidamente por conta de seu gosto horrível e depois perdi boa parte da noção do que me cercava. Lembro-me apenas que Shahin me segurou de costas para o ferreiro após alguns instantes enquanto meu corpo lentamente amolecia e que fui marcado entre minha nádega direita e o fim de minhas costas, exatamente onde uma calça ou uma saia poderiam cobrir parcialmente a marca que era do tamanho de uma laranja. Apesar de eu estar extremamente tonto e sonolento a dor foi insuportável, coisa de fazer até a mais dura das pessoas gritar. Se chorei? Chorei bastante. Pelo menos até o ponto em que apaguei de vez.
Naquele instante tive certeza que minha dor foi pior que a castração de Tammuz. Hoje minha certeza é que eu era uma criança egocêntrica e imediatista além do suportável.
Quando acordei eu estava em uma cama de almofadas espalhadas sobre um tapete. O sol ainda estava alto e deixava pouca luz direta entrar por uma janela que estava na direção do meu olhar, unindo esse fato ao ardor nos meus olhos e garganta, deduzi que não dormi por muito tempo. Quando resolvi me sentar uma forte dor no fim das minhas costas me lembrou de minha condição como bicho marcado. Hoje acho graça ao me lembrar que eu disse para mim mesmo enquanto me punha sentado que jamais na minha vida iria sentir dor pior.
A casa em que eu me encontrava era estreita, alta, colorida e um tanto quanto cheia de coisas e mais coisas: almofadas, lamparinas e principalmente pilhas e mais pilhas de tábuas de argila. Praguejando minha má-sorte enquanto me punha sentado, ouvi o som de passos leves subindo uma pequena escada que dava para a “casa” em si na rua da procissão. Os passos eram macios contra o solo áspero, macios também eram os olhos da pessoa que emitia o som.
Olhos de um negro profundo como seus cabelos amarrados em diversas grossas tranças que se fundiam em uma outra que caía sobre seu ombro esquerdo. Sobre sua cabeça tinha uma touca alta que me lembrava um bolo pequeno e dela pendia um lenço de seda branca. Era uma mulher núbia (perfeitamente linda em minha opinião) com tantas camadas de roupas coloridas de vermelho e amarelo que na época estranhei a grande quantidade de panos. Seus olhos piscaram docemente para mim revelando sua tintura de ocre quando gesticulou para que eu permanecesse deitado. Posso garantir que seria melhor eu ter conseguido me colocar totalmente sentado e depois me deitado do que ter parado no meio do caminho e depois me deixar cair deitado novamente.
Ela começou a falar comigo em um idioma que até hoje para mim é desconhecido, volta e meia hesitando ao erguer sua voz, meia e volta hesitando me olhar nos olhos. Esse tipo de comportamento inicial da parte dela eu nunca fui capaz de entender. Não sei de onde ela tirou um unguento fedido como peixes podres que passou em mim, assim como não sei como consegui me entender com ela no começo. Apontei para mim mesmo e disse meu nome e ela me respondeu apontando para si mesma:
— Aberash. – E depois colocou o indicador nos próprios lábios para que eu me calasse sobre seu nome. Em seguida respondeu com palavras que entendi muito bem no melhor acadiano que qualquer pessoa pode ouvir na vida: – Você não será mais Hilmushen.
Imaginem eu naquele instante que não sabia se me surpreendia pelo fato que meu nome seria mudado ou pela repentina declaração de uma mulher que achei que não falava nenhum idioma entendível.
— Nuru! – Uma voz masculina e rouca falou de um patamar abaixo do aposento que eu me encontrava. – Desça já!
A mulher que me tratava simplesmente se ergueu e se dirigiu para a escada por onde viera mais rápido que um avestruz raivoso, coisa que me deixou um pouco mais confuso, mesmo que eu estivesse no ponto de ver um abutre comendo carniça e oferecer-lhe biscoitos enquanto o chamo de papagaio. Sei que acabei ficando um longo período de tempo ali deitado antes de mais passos subirem a escada, os mesmos macios e outros ruidosos que faziam parecer que seu dono se arrastava pelo chão.
Diante de mim apareceram a mesma mulher que dissera se chamar Aberash e um homem com as feições amigáveis e fortes de Shahin, só que bem mais velho e com mãos nodosas. O homem tossiu falsamente e entendi que ele desejava minha atenção total e logo que a obteve iniciou uma pequena conversa de um modo bastante comum:
— Fala acadiano?
— Sim. – Usualmente eu teria gesticulado para dizer o quanto sabia dessa língua, mas dolorido e molenga como eu estava? De forma alguma! – Um pouco.
— Excelente. – Sua voz era monótona, apesar de suas feições indicarem alegria. – Sabe escrever?
— Sou o melhor de minha cidade.
A julgar pelo girar de olhos da mulher e do homem a certeza de que eu estava mentindo era clara. Óbvio que o que eu disse não era totalmente verdade, mas não era mentira, já que eu desconhecia qualquer outra pessoa letrada e que fosse escriba ou aprendiz dessa mesma profissão que não fosse eu! (Tirando o vizir do meu Patesi e o aprendiz dele, mas nunca vi suas caligrafias para ver se eram melhores que a minha, então...) Considerando que minha antiga tutora exercia unicamente a função de ser minha babá. O homem apontou para a janela e me fez uma pergunta que achei totalmente sem sentido, porém hoje sou capaz de entendê-la:
— Como se chama o rio que passa na cidade?
— Buranuna. – Disse orgulhoso. – D’buranuna.
— Como se chama o rio que passa na cidade de verdade?
Essa nova pergunta me pegou de surpresa. Eu falava a língua do primeiro povo, não dos que vieram depois para designar lugares e isso nunca foi bom. Admito que agora já esqueci meu idioma inicial, mesmo que eu seja capaz de me lembrar de momentos cruciais que o usei e que palavras usei.
— Mestre. – A mulher interrompeu-nos e tal título me fez ter certeza que ela era sua escrava e não simplesmente uma trabalhadora independente que estava recebendo uns bons trocados para me aplicar uma pomada. – O garoto tem um nome que não é de Elam, fala enrolando as palavras, grudando todas elas, tem cabelo e pele parecidos com os Badu, olhos grandes e de cor simples, cortados na impossível forma de tâmara. – Nunca me senti ofendido por essas palavras e ainda hoje me pergunto como uma mulher conseguia ter uma língua tão afiada, enfeitada e bem treinada. Sim, apesar de estar sendo tratado como um animal imprestável e indigno de compra, eu estava completamente abobado pela moça e por isso não me importei com sua rudeza. – Veja como as pernas são: corre bastante, as solas são gastas, as unhas são um desastre e ainda assim consegue ter pele de alguém que se banha em óleos todos os dias. É o tipo que é mimado além da conta sem ser nada, não o leve tão a sério.
O homem me olhou da cabeça aos pés mais uma vez e depois me deixou sozinho com a mulher porque provavelmente se irritara com meu comportamento nada amigável unido à constatação sobre minha inutilidade e burrice feita pela núbia. Aberash não se abaixou para continuar tratando de minha ferida, somente me empurrou com os pés calçados para um canto mais afastado da cama de almofadas e se sentou exatamente onde eu estava antes. Meu encanto inicial por ela acabou aí e quase a chamei de puta miserável.
— Pivete. – Aparentemente meu comportamento também tinha irritado-a. Acredite, segundo eu mesmo, fui amigável com eles, mas eles não interpretaram dessa forma. – Você tem trinta segundos para se levantar, vestir-se descentemente e pedir desculpas por sua arrogância ao Mestre e pela mentira que falou.
— Não menti.
— Disse que falava acadiano e não sabe o nome das coisas, então não fala acadiano.
— E o que eu estou fazendo agora?
Aberash soltou um longo suspiro, imagino que pela minha insistência sobre eu saber falar acadiano e pelos meus trinta segundos já terem esgotado quando ela resolveu pacientemente me explicar. Pacientemente do jeito dela:
— Sabe falar em acadiano, não aprendeu da forma correta. Não sabe escrever em acadiano, isso eu noto. Se sim, saberia que deveria responder Purattu. Agora o Mestre está irritado porque vai ter que te ensinar do zero e porque você é arrogante e mentiroso sendo que ele pagou por um menino que sabia escrever e ser humilde.
— Pagou?
— O Mestre o comprou porque queria um aprendiz homem e muitos meninos só querem saber de virarem soldados ou não tem tempo para aprender, ocupados com trabalho pesado. O Mestre provavelmente vai querer vender um pirralho metido para os trabalhadores rurais se não pedir desculpas por ser arrogante, então se vista e desça já!
Em minha cabeça uma única saia era suficientemente decente, achava até que o fato de ainda estar com as calças de minha viagem me cobria por demais, do mesmo jeito que em minha mente estava entranhada a ideia que mulher nenhuma poderia me dar ordens, exceto minhas antigas tutoras. Meu encanto por Aberash tinha acabado e suas palavras levemente irritadas foram me irritando pouco a pouco e isso me fez ter um acesso de burrice e orgulho: Me ergui com extrema má vontade e disse-lhe no melhor acadiano que eu conseguia empregar na época:
— Mulheres, especialmente as que estão sob o teto de um homem que não é seu pai, deveriam se referir a outros homens por seu nome antecedido de “senhor” independente de sua idade. Se não entendeu, refira-se à mim por “senhor Hilmushen”.
Hoje eu me arrependo de ter dito essas palavras à Aberash, considerando que elas vão contra minha atual moral e agridem uma das mais admiráveis mulheres que conheci em toda minha vida. No momento em que disse essas palavras também fui atingido pelo arrependimento junto de um punho forte que marcou minhas bochechas com o relevo de dedos e anéis. E acredite, a dor foi muito maior no orgulho que no rosto.
— Peça desculpas! – Aberash disse ao se levantar da cama de almofadas. – Peça ou eu mesma te faço descer até o Mestre pela janela!
— Quero ver você tentar!
Outra vez eu fui burro. Nem deu tempo e aquela mulher me levantou do chão como se eu fosse um pedaço insignificante de caniço de trigo e me colocou para fora da janela, somente me impedindo de cair porque ainda me segurava pelos joelhos. Minha primeira visão aérea da rua da procissão foi muito desagradável e não recomendo à ninguém se pendurar de cabeça para baixo na janela do terceiro andar de uma casa!
— Peça. Desculpas. Agora.
E o modo pausado que fingia controle emocional vindo da núbia só me dava a certeza que ela iria me matar!
— Por favor, não me solte!
— Peça desculpas!
— Juro que não faço mais, me coloca pra dentro!
— Desculpas primeiro!
Isso se repetiu por tempo o suficiente para juntar uma multidão de pessoas que começaram a gargalhar de meu choro e só acabou quando ela resolveu dizer para todo mundo:
— Meus braços estão começando a doer! Acho que vou te soltar, pivete!
Para o meu terror, todos ali embaixo riram e começaram a fazer um coro de “solta, solta!” e nessas alturas eu já estava rezando para tudo que é deus, sempre começando com “eu não tenho nada para oferecer agora, mas é uma situação de vida ou morte e ainda sou uma criança que jamais cometeu mal algum ou os blasfemou” e etc, etc e tal. Sabe só quando essa brincadeira acabou? Quando o senhor que me comprara, o mestre de Aberash, apareceu abaixo de minha cabeça e gritou em alto e bom som enquanto espantava a multidão como se fossem moscas:
— Vocês não têm coisa melhor para fazer?! Vão gastar seu tempo longe daqui! Sumam! Nuru! – Ele se virou para o alto quando disse aquele nome. – Sua tola! O que pensa que está fazendo?!
— Ensinando boas maneiras, Mestre!
— Ensine boas maneiras depois que o soltar! Solta ele logo!
Todos os cabelos de meu corpo se arrepiaram.
— Com todo prazer, Mestre!
Aberash cedeu um pouco da força que me segurava e tive a sensação de um quarto de segundo que podia voar! Por muita sorte, aquela vagabunda só quis me dar um susto antes de colocar para dentro. Quando senti o solo do quarto o berreiro começou:
— Desculpa, desculpa, desculpa! Não faço mais, juro que não faço mais! Juro mesmo!
A núbia girou os olhos e tentou interromper meu discurso que saía de minha boca na velocidade dos cavalos de guerra.
— Tá...
— Por favor, por favor, por favor, por favor!
— ... Desculpado...
— Não me joga mais pela janela! Eu faço o que você quiser, mas não me joga, por favor!
— Tá desculpado, pivete.
— Me desculpa, me desculpa!
Esse diálogo durou pouco tempo, coisa que só deve ter se repetido duas vezes antes de ela se irritar comigo e soltar um alto “chega” que me calou no mesmo instante. Foi naquele momento que entendi a piada em que o general vê os inimigos e grita “tragam minha calça marrom”. Para mim que ainda era só uma criança que tinha acabado de acordar em um mundo novo aquele grito vindo de Aberash me assustou mais do que ser pendurado de cabeça para baixo ou a ideia de virar eunuco antes de virar homem.
— Quer que eu te pendure outra vez?! – Ela disse apontando para a janela. – Se eu tiver que te colocar para fora da janela de novo, você vai beijar o chão!
Não dei mais uma única resposta e disparei na direção das escadas em quase vôo, coisa de passar por cinco degraus cada pulo, sem parar até atingir o térreo onde estava o “mestre”, outros dois homens e um menino. Aquele cômodo era quase como o quarto em que eu estava antes pela quantidade de tábuas com listas de aprendizados, pois do resto era o oposto: potes aos montes, uma larga mesa de preparar argila, bastonetes de se bater em crianças e uma ausência imensa de tecidos pendurados ou almofadas. Os homens eram fortes, um bastante queimado pelo sol e outro de cabelos curtos, já o menino era um tipo parrudo que parecia ser capaz de me quebrar em dois só de olhar. Os três conversavam com o mestre sobre ensino, escola e dinheiro. Pelo que me lembro da vaga conversa, o mestre lhes devia dinheiro. Muito dinheiro mesmo. Independente disso, quando desci até eles a conversa cessou junto de meus passos pelo susto.
Imagine-se em minha situação: só naquele dia tinha perdido o contato com a única criança que conhecia, minha liberdade e ainda ganhado um banho de palavras nada encorajadoras. Não me perguntem a razão de eu não ter ofendido meus deuses e ter gritado que aquilo era uma imensa sacanagem comigo, seria embaraçoso explicar.
Os quatro olhavam para mim como abutres olham um animal quase morto ou como serpentes em modo defensivo e naqueles longos segundos somente minha respiração retumbou nos meus ouvidos. Se o mestre não tivesse quebrado aquele silêncio eu teria enlouquecido! Não há nada que eu odeie mais do que o silêncio absoluto!
— Como podem ver, meus caros amigos, ele é um tantinho magricela, mas em um mês talvez fique tão forte quanto Sargon.
Não vou ficar detalhando todos os devaneios que se passaram na minha cabeça com essa “apresentação” que recebi, pois os mesmos são muitos e nenhum deles leva à conclusão que mal o mestre me vira e já estava querendo se desfazer de mim. Vou focar o quanto o menino parrudo, o tal Sargon, pareceu incomodado com essa frase. Até mais que eu, em minha humilde opinião.
O homem de cabelo curto riu tanto da apresentação quanto de mim.
— E por que quer jogar ele para o exército ou lavoura, Dilshad? Vai ser muito se ele aguentar um dia debaixo do sol!
— Meu caro amigo. – Dilshad, o mestre, começou a responder: – O garoto pode ser fraco, mas é orgulhoso. Um dia debaixo do sol e já vai ficar querendo provar que é o tal, nem vai perceber que está cansado.
— Orgulhoso é? – O homem mais queimado do sol indagou. – O que o pivete fez para você chamar ele de orgulhoso depois de só tê-lo ganho há menos de uma hora?
— Falou que sabia o que é óbvio que não sabe. Quando fui lá em cima tive certeza. Ô pivete. – Minha atenção se voltou unicamente ao mestre. – Fala para eles o nome do rio que corta a cidade.
— Purattu. – Respondi um pouco hesitante. Pela reação dos homens eu acho que não deveria ter dito aquela palavra. Teria eu dito uma ofensa? – Mas... Aprendi como sendo D’buranuna... Quando estava em Ur.
Se acaso se perguntam pela reação dos presentes, a do mestre Dilshad foi um ar de surpresa com um rastro de raiva, acredito que é pelo fato que o fiz se passar por mentiroso. Os dois homens ficaram levemente atônitos e pararam até de sorrir, enquanto o menino continuou com aquela expressão de quem ainda estava ofendido pela possibilidade de que eu um dia pudesse ser um trabalhador melhor que ele.
— Ele aprende rápido, mestre. – A voz doce de Aberash falou por trás de mim. – É meio cabeça dura, também meio cabeça oca, mas vai se adaptar muito bem aqui.
Eu vi os olhos de Dilshad irem de mim para um ponto logo atrás, onde creio que Aberash estava, depois diretamente para os homens e o menino Sargon. Coçando o queixo, o mestre deu seu veredicto:
— Passem aqui amanhã cedo. Se queremos que ele seja um bom trabalhador, temos que usar um dia inteiro, não só a metade.
Os homens se retiraram junto do menino, deixando somente eu, o mestre e Aberash ali. Dilshad não pensou duas vezes antes de sair na busca de uma tábua. Uma que pelo visto era pouco usada, considerando o fato de estar debaixo de muitas outras e ainda estar com poucas marcas de desgasto nas bordas. Ele a estendeu para mim e disse apenas uma coisa:
— Leia.
Minha cabeça gritou para que eu desse uma resposta mal criada, começasse a perguntar o que raios tinha acabado de acontecer ali, mas talvez um deus colocou a mão sobre minha cabeça e disse para agir humildemente:
— Aprendi a falar um pouco porque muitas pessoas em Ur falam acadiano, mas não sei ler essa língua. É muito diferente.
Ouvi Aberash soltar uma risadinha.
— Nuru. – O mestre disse: – Você terá uma noite muito longa com esse garoto.
Me virei para Aberash e me arrependi rapidamente, o rosto dela não estava mais tão amigável quanto antes. Se ela conseguia me pendurar de cabeça para baixo dando risada, imagine o que ela não era capaz de fazer com a feição irritada. Me forçando a sentar na mesa ela começou a ensinar a ler cada sinal. A leitura não era difícil, só um tanto complicada, pois diversas palavras que vi ali escritas se escreviam como outras que conhecia. A palavra “deus” e “céu” estava escrita de forma diferente, nem mesmo a reconheci, ainda por cima não existia “dingir” nas listas como eu estava acostumado a escrever. Saí da “estrela” para a “cruz” que para piorar também queria dizer “no lugar” e “para alguém” ou “para algo”. Ler as entrelinhas do contexto nunca foi uma tarefa tão difícil e chata.
Eu vi o sol se por em meio a festa que tocava a perfeita marcha de minha mão batendo em minha testa, o tamborilar dos dedos de Aberash e volta e meia o estalo de uma vara em meu ombro. Dilshad já tinha nos abandonado ainda no começo para resolver algo fora dali, coisa que nunca quis saber com detalhes. Sei apenas que ele voltou para casa quando o céu estava escuro, com uma bolsa de dinheiro na mão e descalço. Só de observá-lo tive a ligeira certeza que era um homem viciado em jogos, pois nem mesmo os sapatos do Xá poderiam custar o preço aparente de três minas em prata, quem dirá os panos velhos do mestre.
Quando precisamos da ajuda do fogo para ter alguma luz naquela porcaria de ambiente ficou fácil se distrair com o barulho da música vindo do palácio. Eu ainda me surpreendo como as pessoas conseguem festejar tão alto quando estão felizes. Foi mais ou menos nessa hora que desviei minha fala para outra coisa além das lições:
— Aberash, hoje é...
— Não fique me chamando de Aberash o tempo todo. – Ela me interrompeu. – Quando estivermos sozinhos não há problema, do contrário o nome é Nuru. Agora, comece com a tábua dos produtos da terra.
— ... Está bem... Lima, grão, pão... Hoje é um dia especial?
— Por que essa pergunta, Hilmushen?
— A música está alta. Pimenta, trigo, alfazema, lírio...
— É assim quase todas as noites, é melhor se acostumar.
— Não querendo me desviar mais da lição... Mas, quem é o... “Djá”?
— É “Xá”. É Artaxerxes. O terceiro. Não me pergunte que nome ele tinha antes de assumir o trono porque eu não sei.
— Esse aí... Vagem... Gosta de uma festa, não é?
— Não sei, mas a corte ama uma festa. Mas, festas são boas.
— Laranja, é mesmo?
Mal perguntei isto e ouvi um chamado na porta gritando “Nuru” em um tom meio enrolado e agudo de mulher, chamado que fez Aberash se levantar e ver quem era. Pelas roupas da mulher na porta, certamente era alguém importante: muita seda azul, muitos adereços em ouro e um cabelo muito bem arrumado em fitas sob um véu branco. Ela trazia nas mãos um jarro grande cheio de cerveja vermelha e um enorme sorriso no rosto, assim como um grande contorno preto nos olhos. Elas conversaram em parsa animadamente e consegui ouvir que o nome dessa mulher era Aziza. Essa mulher, Aziza, pareceu ter me visto por cima dos ombros de Aberash e logo veio entrando para enterrar aquelas mãos cheias de anéis em minhas bochechas, dando o famoso tratamento de uma tia em um sobrinho bonitinho. Não sei o que ela ficou falando para mim enquanto apertava meu rosto, só sei que fui salvo pela voz de Aberash:
— Ele não entende o que você diz. O garoto não é daqui.
— Por que não me disse antes? – Aziza tinha um acadiano bem pobre, mas entendível. – Tá sempre atrasada em me dizer as coisas! É só por isso que você não está no palácio!
— Eu não estou no palácio porque sou kushita.
— Bobagens! Quando é que vai jogar fora esse seu orgulho?
— O Xá não aprecia a beleza estrangeira e os da corte que fazem isso só querem um pedacinho de tempero exótico.
— Que seja! Olha que coisinha mais bonitinha que é esse menino! É menino, né? – Em que parte eu parecia uma menina?! Eu poderia ter batido naquela mulher por isso. – Qual o nome dele? Não é da Bactria, é?
— “Ba” o quê?
— Bactria, garoto. – Aberash voltou para a conversa. – É bem no leste. Bem no leste mesmo.
— De onde você vem, garotinho? – Aziza continuava a apertar minhas bochechas e, sinceramente, acredito que é por culpa desse hábito dela que fiquei com as maçãs do rosto tão destacadas em minha adolescência, mas isso é outra história. – Conta tudo pra Aziza.
— Ur. – Eu disse. – Fica perto do mar.
— Qual deles?
Na época eu não sabia que existiam mais mares. Para mim o mar era um só e pronto, assim como a maioria das crianças da minha idade acreditavam. Por esse motivo não respondi, assim Aberash assumiu a responsabilidade de explicar tudo para Aziza.
— Ele vem de perto das terras de Elam, aparentemente é muito raro encontrar alguém que fale e escreva em acadiano nesse lugarzinho que ele nasceu. Fala meio enrolado, o garoto, mas dá pra entender.
— Enrolado? – Aziza pareceu diminuir sua aura alegre e soltar minhas bochechas que já estavam doloridas. – Isso me lembra que chegou um menino no palácio hoje. Não abre a boca para nada e quando fala algo, berra um monte de coisas enroladas. Ninguém entende nada do que ele diz.
— ... Aziza? – Comecei a querer puxar assunto, ainda um pouco inseguro se o nome dela era esse mesmo. – Esse menino... Por acaso tem um cabelo cheio de aneizinhos?
— E uma voz bastante irritante, se quer saber. Não parava de repetir “silima he...” e “muzu” alguma coisa.
Meu sangue gelou. Eu sabia de quem ela estava falando.
— “Silimma hemeen”, não é?
— Isso mesmo.
Acertei na mosca! Ela estava falando do Tammuz! Fiquei um tempo calado só pensando. Apenas pensando... Pensando tanto que percebi que as duas voltaram a conversar em outro idioma e depois de um tempo Aziza se virou para ir embora. Antes que ela fosse, disse alto:
— Diz pro menino “mungu Aziza am”! Se ele fizer qualquer pergunta, responda “Hilmushen”!
Depois disso, Aziza foi embora e naquele jarrão não sobrou uma gotinha para molhar minha boca. Beberam tudo, as duas. Aberash olhava para mim com olhos julgadores, nem mesmo sei dizer ao certo se eram julgadores de fato ou só estreitados pelo cansaço.
— Só por curiosidade... – A núbia se aproximou para retirar a tábua da mesa. – ... Veio outro pivete com você?
— Veio sim.
— É seu amigo?
Fiquei pensando por um longo instante. Longo o bastante para ela guardar todas as tábuas que usamos, apagar o fogo e pegar minha mão para me levar para cima. Provavelmente ela iria me por para dormir. Quando chegamos ao terceiro andar, aquele em que eu estivera mais cedo, eu respondi:
— Tammuz é... Era meu mestre. Nunca gostei dele, ele é mais forte e sempre me batia. Agora eu tenho medo do que vão fazer com ele. Ele ficou... E eu não o defendi. Era para eu...
— Tá, chega. Sentimentalismo agora não. Você precisa é de um descanso, estou certa que amanhã você vai conhecer melhor o Sargon.
— Quem?
— Sargon, o menino que veio aqui hoje.
— Acho que... Não quero conhecer o Sargon.
— Ah, deixa de drama, garoto. Sargon é um menino bonzinho! Só não pode pisar no calo dele.
Ouvi uns barulhos de metal no chão e o amassar de roupas antes de sentir a mão de Aberash, agora sem anéis, puxar meu ombro para o tapete com almofadas. Senti que ela colocou um tipo de camisa sobre mim, uma aberta e bem comprida, depois me puxou para o chão entre as almofadas. Até aí tudo bem, eu só não esperava que ela iria me abraçar para que eu dormisse.
— Não vá se acostumar. Só estou fazendo isso porque sei como o primeiro dia é sempre o mais difícil.
Se Aberash me dissesse isso hoje... Não sei se a chamaria de mentirosa ou se sorriria.
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