Estrela Cadente
1 Único.
Notas iniciais
Ela estava arfando, mesmo que não fosse uma subida íngreme, ela já havia cansado.
"Vamos, falta pouco." eu acabo falando. Ela desvia os olhos do chão e me encara meio boquiaberta, totalmente avermelhada e com pequenas gotas de suor enquanto respirava atonitamente. Simplesmente assente com a cabeça e reparo um sorriso, quase uma risada.
Continuamos nossa subida por um tempo indeterminado, o capim que era alto estava começando a diminuir, dando espaço para grama e algumas flores, e a iluminação da cidade não nos alcançava.
"Por que está me trazendo aqui?" ela pergunta enquanto levantava a cabeça para ver as estrelas. (já estávamos no final.)
"E precisa de motivo? Só quero que veja." pus-me na frente dela e segurei ambas as suas mãos. Eram tão macias quanto pedaços de algodão. Ela tentou olhar atrás de mim, virando para o lado, inclinei-me e intervi repetidas as vezes em que ela tentou avistar o que havia atrás de mim.
Voltamos a andar na mesma posição em que estávamos, e eu não desviava os meus olhos dos dela, tão perdidos. Uma face boba se pregou em mim quando ela parou de súbito, e de modo infantil disse:
"Veja! uma estrela cadente!" rapidamente eu olho para o céu. Onde estava? Suas mãos se descolam das minhas e ela passa correndo do meu lado. Escuto risadas.
"Você me enganou!" exclamo. "Isso é injusto!" corri até ela e a observei com um ar de repreensão.
"Ganhei de você, e sim, é justo." ela somente sorriu e suspirou. Talvez estivesse lembrando de algo, mas resolvi não perguntar. Sentei-me na grama e em seguida deitei, respirando fundo. Ela repetiu o gesto, mas apoiando a cabeça sobre meu ombro.
Associei o céu a uma grande tela de pintura, talvez eu escreva um poema sobre em outro dia. Eu conseguia escutar a respiração abafada dela, que tentava se acalmar apenas olhando para a imensidão infinita e azul. Estava extremamente maravilhada com o que via. Perdemos um bom tempo apenas filosofando sozinhos e em nossos próprios pensamentos.
"Não sei como podem extistir tantas estrelas." eu resolvo quebrar o silêncio. "Parece-me uma tela azul com respingos brancos."
Ela nada responde, mas via-se seus lábios se movimentarem, como se estivesse contando quantas estrelas haviam no céu. Eu estava a ponto de falar novamente, quando ela indaga-me.
"Você vê aquela estrela?" e então apontou para algum lugar do céu.
"Como posso saber qual é? São milhares." respondi um tanto confuso.
"A menos brilhante, quase invisível, do lado direito da constelação de Câncer." só ela para complicar. Eu mal conhecia as constelações.
"O que há com ela?" procurei erroneamente a estrela, que após um bom tempo encontrei, justa pelo fato de eu ser leigo nessas questões.
Silêncio.
"Acho que ela é parecida com Jean Claude." percebi sua voz falhar um pouco. Senti um calafrio e ela aquietou-se, após se arrumar em meu ombro.
"O românce anônimo em que você é fissurada." ri. Ela leu essa história tantas vezes que já até perdi a conta. Provavelmente ela me olhou com reprovação por eu ter usado a palavra fissurada. Ela pigarreou e voltou ao rumo.
"Há uma parte que diz: "Hei eu de ficar preso nesse tempo incessante que continua parado, lendo livros e lendo os céus, enquanto estou esquecido pelo próprio Deus." e acho a estrela e Jean tão parecidos..." seu tom de voz foi diminuindo, enquanto rodava os olhos pelo céu, como se estivesse tentando fazer um mapeamento completo.
"Não consigo ligar os pontos entre Jean Claude e a estrela." admiti, observando a pequena estrela que antes estava despercebida.
"Em outro dia o conto." sussurrou. Fechou os olhos e adormeceu, talvez para sempre.
O silêncio predominou novamente. O que eu mais temia aconteceu. O peso de meu coração saiu, e um maior ainda entrou.
Silêncio, silêncio e seu eco. Era a única coisa que eu escutava.
O sol raiava, e vi uma estrela cadente. Talvez a que me enganara. Pena que ela não a viu. Nem uma única vez na vida desde que foi internada, e nem em seu último dia. Nunca saberei o porquê de Jean Claude ser parecido com uma estrela.
–
Fazia sol, mas mesmo assim todos estavam de preto. A chuva do dia anterior deixou a grama enlameada e macia. Um orador dizia coisas sobre a vida dela, e isso só me deixava mais melancólico.
"Abençoada seja essa mulher e o amor dela, que segurou o fio de sua vida apenas por felicidade. Sua existência foi tão brilhante quanto uma estrela cadente. Descanse em paz..."
Também esqueci de dizer que fui eu que escrevi a história de Jean Claude.
Fale com o autor