Estranhos
1 Estranhos
Simas e Pedro estavam brincando com uma bola de futebol americano enquanto o resto da equipe de web design esperava pela chefe, se distraindo no Twitter ou Instagram. A bola passou perigosamente perto da cabeça de Ana, que entrava na sala com um copo de café fervendo da máquina do corredor. Ela enviou um olhar enraivecido a Simas, que deu um sorrisinho sem graça e parou a bola para ela passar.
— Cuidado, galera. Vocês vão acabar acertando alguém, ou um dos computadores. —Leonardo disse, entrando logo em seguida, voltando da sua pausa para fumar.
— Quer jogar, Léo? — Simas perguntou, lançando a bola para Pedro mais uma vez.
— Ninguém me chama assim desde o ensino médio. — Ele respondeu, com uma risada. Mas não, tenho que terminar esse código.
— Você quem sabe. A Patrícia nem chegou ainda. Será que é o trânsito?
— A gente mora em São Paulo. É obvio que é o trânsito. — Ana disse, com um tom impaciente. Leonardo e Simas trocaram um olhar divertido e o primeiro voltou a prestar atenção ao seu trabalho.
— Prepara pra essa, Pedro. Bola com efeito! — Simas lançou a bola oval na direção do rapaz com muita força, e ela zuniu pelo ar. Pedro se acovardou e desviou da bola ao invés de agarrá-la, e ela acertou em cheio a cabeça de Leonardo, que viu seu mundo apagar lentamente, e as vozes urgentes dos amigos que vinham para ajudar ficando mais distantes. Até que tudo ficou escuro.
Quando acordou, tentou abrir os olhos, mas eles doeram com a claridade. Ele demorou a se acostumar, mas enfim conseguiu se sentar e abrir um olho. O que ele viu diante de si o deixou confuso. Era apenas um rapaz, não mais que quinze anos de idade. Pálido, com a pele cheia de acne, e os cabelos longos e ensebados. Usava uma camiseta de uma banda que Leonardo costumava amar, calças jeans largas e All Stars pretos, sujos e gastos. Mas o que mais intrigava Leonardo era a familiaridade que ele possuía com aquele rosto. Com certeza era muito diferente do rosto de barba farta que ele tinha agora, do cabelo com um corte moderno. As roupas hoje eram mais coloridas, as calças mais justas. Mas ele tinha certeza. Aquele era ele. Ou um dia havia sido.
— Eu morri? — Leonardo perguntou, e seu eu mais novo sorriu, deixando à mostra o aparelho fixo. Ele olhou ao redor para o grande vazio branco que os cercava.
— Eu espero que não. Eu não quero morrer.
O jovem aproximou-se e estendeu a mão, para ajudá-lo a se levantar. Leonardo aceitou e, de mãos dadas, eles se estudaram por alguns momentos.
— Então você... Sou eu? — o mais novo perguntou.
— Eu sou o Leonardo.
— Leonardo? Só a minha avó me chama assim. — ele riu. — Prefiro Léo.
Eles soltaram as mãos e se encararam por mais um tempo. Era estanho como Leonardo conseguia distinguir seus próprios traços e maneirismos, naquela versão mais nova dele mesmo. Era estranho, mas fascinante. "Léo", como preferia ser chamado, parecia mais cheio de vida que ele mesmo, ainda que fosse uma ilusão de sua cabeça.
— Qual é a sua idade? — Léo perguntou.
— 25. E você?
— 15. Então, como é o futuro? Nossos pais ainda estão... Sabe... Vivos?
Leonardo riu.
— Sim, eles ainda estão vivos. Mas não moro mais com eles. Eles foram para o interior.
— E a Vó?
Leonardo desviou os olhos por um momento.
— Não, a Vó não.
Leo espelhou a ação e assentiu com a cabeça.
— Foi melhor. Ela estava com muita dor.
Leonardo balançou a cabeça positivamente. Logo, a curiosidade voltou aos olhos de Léo:
— E a tia Jane? Continua sem sorrir nas fotos?
— Continua. Às vezes eu acho que aquela mulher odeia cada membro dessa família.
— Eu tenho certeza! E o Bocão? A gente ainda é amigo dele?
— Sim, mas ele se mudou pro Canadá, casou com uma canadense e já tem um filho de alguns meses. E hoje em dia ele prefere ser chamado de Lucas.
— Um filho?! — As sobrancelhas de Leo se arquearam na surpresa. Leonardo pensou em como, naquela idade, a ideia de ter filhos era fora da realidade. Para ele, na verdade, esse pensamento ainda era algo para um futuro distante.
— E a Liz? — A pergunta arrancou Leonardo de seu devaneio, e ele sentiu um frio crescendo em seu interior. Leo olhava para ele com uma expressão curiosa e sorridente, e ele engoliu em seco antes de responder:
— Nós terminamos há alguns anos atrás.
O sorriso de Leo desvaneceu lentamente enquanto a ficha caía.
— O que aconteceu?
Leonardo escondeu as mãos nos bolsos e evitou o olhar de sua contraparte.
— A vida aconteceu, eu acho. As pessoas mudam e... Foi como se de repente nós fôssemos completamente estranhos um para o outro.
Ambos ficaram de pé ali, em meio a um vazio preenchido apenas pelas duas versões de um homem. Pensativos, ambos ficaram em silêncio por algum tempo. Léo foi o primeiro a recomeçar a conversa.
— Você mora com alguém?
— Não. — Leonardo respondeu, grato pelo fim do silêncio embaraçoso.
— Então... Nossos pais se mudaram, a Vó morreu. O Bocão se mudou e a Liz... Foi embora. O futuro deve ser solitário.
Não demorou muito para que ele desejasse que o silêncio embaraçoso tivesse continuado. O silêncio era melhor que ouvir seu eu de 15 anos te dizendo que você é solitário. Leonardo não conseguiu disfarçar a ofensa, e Léo deu de ombros.
— Não vem com essa cara. É a verdade. Todo mundo que a gente ama ou morreu ou está longe demais.
Leonardo suspirou. Era assim tão difícil mentir pra si mesmo? Refletindo agora, ele via que Léo não estava errado. Ele havia criado uma barreira entre si e o mundo, e dentro dessa barreira nada poderia machucá-lo. Alguém poderia culpá-lo por isso? O mundo é um lugar horrível, e as pessoas são ainda piores. A solidão era confortável, segura.
— Você se lembra de quando nós nos apaixonamos pela Liz? — Léo quebrou o gelo, mais uma vez. Leonardo parou pra pensar, mas franziu o cenho.
— Não sei se me lembro... Nós tínhamos amigos em comum. Todos nós conversávamos sempre durante os intervalos e entre as aulas. Ela sempre foi simpática, mas...
Ele parou pra pensar e sua mente vagou por aquele passado. O branco vazio sumiu e grandes imagens de suas lembranças passavam rapidamente ao redor dos dois. Sempre que ela aparecia, a imagem ficava mais lenta, e Léo e Leonardo se puseram a observar cada detalhe do rosto dela.
— Agora, olhando pra trás, parecia que ela sempre esteve ali, até que um dia eu comecei a notar como seu sorriso era bonito, ou como seu cabelo castanho brilhava meio avermelhado no sol. Ainda me lembro de como suas covinhas apareciam quando ela me pegava olhando.
— É, parece que ela notou a gente também. — Léo disse, quando uma imagem de Liz lançava um olhar por sobre o ombro, e em seguida sorria.
Os dois rapazes sorriram de volta. Leonardo suspirou e abaixou os olhos, e Léo o olhou com curiosidade.
— O que aconteceu depois, você se lembra? — perguntou.
— Em uma festa de aniversário, nós nos beijamos durante um jogo de verdade ou desafio. Foi um pouco constrangedor e nenhum de nós sabia direito o que estava fazendo. Mas foi bom.
As imagens do telão correspondiam às memórias acessadas por Leonardo, simplesmente por se lembrar delas. Leo sorriu com a memória.
— E depois? – ele perguntou, ansioso pelo futuro.
Leonardo olhou para seu eu mais jovem e viu em seus olhos uma animação que ele mesmo não via no espelho há algum tempo. Léo era cheio de vida, ganhava força com cada vislumbre do futuro. Ele parecia, aos olhos de Leonardo, alguém que verdadeiramente apreciava a vida. Alguém que sentia esperança em cada oportunidade apresentada. Claramente alguém completamente diferente dele.
— Um bom tempo depois, perdemos a virgindade juntos.
Léo arregalou os olhos e o sangue subiu às bochechas. Ele engoliu em seco. Leonardo tinha um sorriso divertido nos lábios.
— Quando? Como?
— Bem, meus pais estavam viajando e eu a convidei para ir à minha casa depois da escola.
À medida que ele falava, a cena se desenvolvia na sua frente em meio a tantas outras que passavam rápido demais para ver. O quarto era pequeno e cheio de pôsteres das bandas favoritas de Léo. Uma música dos Titãs tocava e Léo e Liz liam algumas revistas sobre a cama. A garota fechou sua revista e atraiu a atenção do rapaz com alguns beijos.
— Como sempre, ela tomou a liderança e uma coisa levou à outra. – Leonardo disse, e observou os olhos atentos de Léo que não deixavam a tela.
— Você quer saber o que aconteceu depois? – o mais velho ofereceu.
Léo olhou para ele e assentiu.
— Tem certeza?
Então o rapaz olhou para ele com um misto de hesitação e curiosidade, mas balançou a cabeça positivamente. Leonardo espelhou a ação e começou a contar, enquanto novas imagens se reorganizavam.
— Nós namoramos por dois anos, éramos felizes. Nossas famílias aprovavam o nosso relacionamento. Mas uma noite, em dezembro, voltando de uma viagem, os pais dela se envolveram em um acidente de carro e faleceram. – as cenas mostravam Liz chorando copiosamente nos braços de Leonardo.
— Nós tentamos continuar. – A voz dele vacilou, e Léo viu o quão fortes as emoções geradas por aquela lembrança eram. – Ela entrou em depressão e se isolou de todo mundo. Com o tempo, ela melhorou, mas nossas vidas estavam uma bagunça. Eu estava no auge do cansaço e esgotamento por conta do trabalho e da faculdade, e confesso que não consegui ser tão presente quanto ela precisava que eu fosse.
Léo ouvia, consternado, o relato de seu eu mais velho. Ele podia sentir a dor que Leonardo sentia, dentro de seu próprio peito. Aquele aperto que nos diz que talvez tudo o que fizemos não tenha sido o suficiente. Ou aquele frio que sentimos quando admitimos para nós mesmos que talvez não tenhamos realmente feito tudo que estava ao nosso alcance.
As imagens escureceram e o som de trovões distantes e chuva insistente soava baixinho. Olhando para cima, Léo e Leonardo viam as nuvens escuras que cobriam todo o céu, e os diversos tons cinzentos dos prédios da grande capital. As gotas de chuva acertavam uma a uma o concreto sob seus pés, numa harmonia triste.
— Um dia eu cheguei em casa mais cedo e ela estava com outro homem.
Uma versão dele saiu de um dos prédios chorando e correu pelas ruas de São Paulo. Leonardo olhou para Léo, que observava enquanto a outra figura se distanciava dos dois. Notando o olhar do mais velho, desviou os olhos para seus pés.
— Nós havíamos crescido, havíamos mudado. E éramos estranhos novamente. O que quer que tenhamos nos tornado, não era mais o suficiente para nenhum de nós.
— Então é isso. – O entusiasmo havia sumido da voz de Léo.
— Sinto muito. – Leonardo se desculpou. – A vida é uma merda e aí você morre. Não tem muito mais que isso aqui no futuro.
— Você tem 25 anos. Nós já perdemos nossa esperança?
Leonardo não soube o que dizer.
— Você acha que ela está bem?
— Bem... – ele começou, mas foi interrompido novamente.
— Quero dizer... Você acha que ela está melhor sem a gente?
Leonardo apenas assentiu. Léo ficou sério e silencioso, e seu jeito agora lembrava o do mais velho. Leonardo sentiu uma pontada de culpa, mas escondeu as mãos nos bolsos e olhou pra cima, para as mesmas nuvens escuras que ainda estavam ali.
— Foi como você esperava que fosse? – perguntou.
— Você sabe que não. – Léo respondeu no mesmo tom calmo e reservado que o outro sempre utilizava.
Todo o cinza se evanesceu e o vazio branco estava de volta. Eles se viraram frente a frente novamente e se olharam nos olhos por uns instantes.
— Se fosse hoje, você agiria de outra forma? – foi a vez de Léo perguntar.
— Você sabe que sim.
Ambos sorriram, e a luz foi ganhando força até que o clarão cegou Leonardo, e em seguida uma dor aguda na parte de trás da cabeça faz com que ele levasse a mão à nuca.
Ao abrir os olhos, ele viu que Simas e Ana estavam ao seu lado, o olhando com uma expressão preocupada.
— Ele acordou! – Simas gritou, e Leonardo ouviu as vozes aliviadas dos outros funcionários.
— Você está bem? – Ana perguntou, preocupada.
— Sim. – A dor de cabeça não estava tão forte.
— Acho melhor chamar a ambulância. – Patrícia, a editora chefe por quem eles esperavam já havia chegado.
— Não, não precisa de nada disso. Eu estou bem, juro. – Ainda massageando a parte de trás da cabeça, Leonardo conseguiu se levantar e sentar em sua cadeira outra vez.
— Bem, não tem sangue e ele não parece estar confuso. Acho que está tudo bem.
Leonardo respirou fundo e assimilou aquele estranho sonho que acabara de ter. Olhou para o porta-retratos na sua mesa com a foto de seus pais, sua avó, ele e Liz, sorridentes em um parque. Havia um Post-It sobre o rosto de Liz, e ele o retirou, amassou e jogou no lixo. Apoiou os cotovelos sobre a mesa e passou os dedos entre os cabelos, suspirando.
— Trouxe o gelo! Ele melhorou? – Ele ouviu uma voz familiar vinda da porta. Quando se virou, viu um rosto redondo, os olhos cor de mel, as sardas nas bochechas. O cabelo estava pintado de rosa, mas ela ainda era a mesma. E ainda assim, completamente estranha.
— Ah, essa é minha nova assistente, Liz. – Patrícia falou, mas logo percebeu a familiaridade dos dois. Liz sorriu timidamente, estendendo a bolsa de gelo para Leonardo. Desviou o olhar, desconcertada.
Ele se levantou, pegou a bolsa de gelo com uma mão, estendeu a outra para ela, sorrindo. Ela hesitou por um momento, mas viu algo nos olhos dele que fez com que ela retribuísse o sorriso. Era aquela mesma vida, o mesmo entusiasmo que existia em um Léo que ela um dia conheceu. E, de repente, lá estavam as covinhas. Leo sentiu um peso enorme sair de seus ombros. Suas mãos se encontraram em um aperto firme, cheio de vitalidade.
— Prazer.
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