Estranho? Pois Eu Não Acho!
7 Por que você está me seguindo?
Notas iniciais
A aula havia acabado. Então eu simplesmente me despedi dele, virei as costas e fui embora. Sai pelo grande, negro e antigo portão de ferro, em direção a floresta. Meu caminho de sempre. Mas eu tinha a sensação de que alguém me seguia.
Entrei na floresta. Agora os barulhos de paços eram inconfundíveis. Aquele garoto fazia mais barulho que um trator e uma manada de bois juntos, correndo em cima de galhos e folhas secos, eu hein! Eu tentava me segurar para não rir.
Uma hora, fui para um lado e o enganei rapidamente. Subi em uma árvore cheia de folhas e me escondi no meio delas. Quando ele se aproximou da figueira onde eu estava, eu me soltei, e caí de cabeça para baixo, pendurada no galho apenas pelas pernas, foi de propósito, apenas para assustá-lo.
Ele levou um susto tão grande que caiu no chão. De novo tentei me segurar para manter minha expressão séria e furiosa. Não funcionou.
– Eu posso saber por que você está me seguindo Orfeu? – perguntei olhando bem fundo naqueles olhos amarelos, percebi que ainda estava pendurada de cabeça para baixo. Então pulei, e cai em pé sem nenhum desequilíbrio.
– É que... Que... e – eu... – Orfeu tentou responder.
– Você o quê? Para de falar travado garoto! Por acaso você tem medo de mim? – falei sorrindo em tom de deboche.
– Eu tenho boas razões para ter medo de você. – ele respondeu, se levantando.
– É isso é verdade. Mas você não respondeu a minha pergunta.
– Bem... eu só queria ver para onde você ia.
– Eu vou pra minha casa. – respondi simplesmente. E eu fui andando. Orfeu me seguiu.
– Mas sua casa fica no meio do bosque? – ele perguntou confuso.
– Sim. Algum problema?
– Não. Só acho um pouco estranho!
– Pois eu não acho! – respondi.
– Porque você sempre fala isso?
– O que?
– “Estranho? Pois eu não acho!”?
– Me ajuda a acreditar em mim.
– Ah. Acho que... me ajuda também.
– Que bom. Eu criei a frase com esse objetivo. Ajudar as pessoas a acreditarem nelas mesmas.
– Legal. – ele respondeu simplesmente.
Andamos um pouco mais em silêncio, ele seguia ao meu lado. Até que perguntei:
– Sua casa fica perto daqui?
– Sim. No fim do bosque.
– Ah. É meio longe não?
– Um pouco.
– Você nasceu aqui em Imaginação? – fiz outra pergunta.
– Não. Nasci em Magia, o que é meio irônico para um cara que não tem poderes. Mas eu e os meus pais nos mudamos para cá semana passada, por causa do trabalho deles. E você? Nasceu aqui?
– Sim. Nunca saí da cidade.
– Que triste. Meus pais trabalham com turismo, quase sempre nos mudamos. Mas talvez a gente fique um pouco mais de tempo por aqui.
– Legal.
– É bom ficar mais tempo em um só lugar. Sabe. Quando você muda tanto, não pode nem arranjar amigos.
– Que triste.
Eu vi um pequeno vulto cinzento se aproximou ao longe. Eu não me assustei nem um pouco, mas quando Orfeu o notou, o medo tomou conta de sua mente. Asémi, a loba, veio correndo até mim dizendo:
–Oi chefia! Quem é esse aí?
– Oi querida. Esse é o Orfeu, aluno novo lá da escola. Cadê os outros animais?
– Todos os outros foram beber água no riacho. Sabe como é né? Com todo esse calor.
– Ah ta. É mesmo.
– Ta falando com quem? – Orfeu me perguntou com uma cara de “mas que garota louca”.
– Com a loba.
– Primeiro. Isso é uma loba? E se ela arrancar nossas pernas ou algo do gênero? – Orfeu disse. Nem eu nem Asémi gostamos do comentário ridículo, ela rosnou pra ele, eu consegui não fazer o mesmo.
– Ela é minha amiga. Não faria mal a uma mosca. Como você é medroso! – respondi.
– Ei! eu não sou medroso. Mas enfim. Segundo por que você está falando com ela? – ele disse.
– Eu falo com animais. É um dos meus poderes. – eu respondi.
– Ah ta.
Chegamos na frente do castelo. Eu avisei:
– É aqui que eu fico.
– E essa é minha deixa pra ir. – disse Asémi. E foi embora. Minha mãe não gostava dela perto do castelo.
– Isso é gigante! – comentou Orfeu olhando a estrutura de cima abaixo.
– É eu sei. – falei simplesmente. Nenhum “Incrível não é mesmo?” ou “ Duvido que já tenha visto igual”. Eu acho esse tipo de comentário ridículo, o tipo de comentário que a minha mãe faria.
– Preciso ir. Depois a gente se vê. – eu disse.
– Tudo bem! Até, então.
– Até.
Orfeu virou as costas e voltou ao bosque, mas antes, juro que notei um largo sorriso estampado em seu rosto.
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