Estranho? Pois Eu Não Acho!
17 A mulher do vestido amarelo
Notas iniciais
Eu só pensava nas possibilidades. Nas conclusões em que chegava. Ás vezes saia um pouco para esfriar a cabeça. Em uma dessas vezes, uma coisinha que seria simples para você, me espantou, mais do que as sombras que via em todas as partes, mais que o assassinato de Louis.
Eu passeava com meu cachorro na rua da escola, era um fim de tarde, um domingo, estava nublado. A rua com o movimento normal de pessoas, com o humor normal de cada uma delas, o senhor da primeira casa, a grande e azul, regando suas rosas e margaridas, durante uma sinfonia de assobios. A viúva mal-humorada da segunda casa, sentada na cadeira de vime olhando para o nada. A garotinha da terceira casa brincando com suas bonecas no jardim.
Mas você já deve ter percebido que nada por aqui é realmente normal. E a saída da rotina estava na quarta casa, a casa abandonada a muito tempo, onde ninguém ia, onde ninguém desejava ou precisava ir. Mas parece que naquele dia alguém queria estar lá. Ali, em pé, na frente da casa em ruínas, uma mulher pálida, de cabelos alaranjados enrolados em um coque, vestindo um vestido amarelo.
Um olho castanho como a terra, o outro azul como o mar, o sorriso que apresentava nos lábios, assustador, ela me olhava como se fosse sacar uma arma e atirar em mim, tentei desviar os olhos sem sucesso. Ela se aproximou de mim lentamente, os pés descalços. Inclinando levemente a cabeça disse:
– Você consegue ver que não sou o que pareço? Acho que a senhorita sabe coisas demais sobre nós. — ela deu uma sinistra gargalhada, mostrando os dentes incrivelmente brancos e afiados. — Mas você já se meteu agora princesa, e terá de carregar esse fardo.
– Eu não conheço você, me deixe em paz. — falei.
– Mas eu conheço você, e sei que não vai nos deixar em paz.
– Nós quem? — perguntei.
– Seus piores inimigos. Ainda iremos lhe causar muitos pesadelos. — ela riu novamente, e sumiu. Corri o mais rápido que consegui, Órion me acompanhando, só queria me afastar daquela maldita casa da mulher de amarelo. Esbarrei em alguém, e só para piorar a situação cai em cima dele.
– Olhe para onde anda! Ah! Oi Pandora, sempre com pressa. — Me vi olhando nos olhos dourados do Orfeu, rindo da minha falta de atenção.
– Oi Orfeu. — ele não desgrudava o olhar do meu rosto, revirei os olhos e sai de cima dele, depois o ajudei a levantar, quando o fiz ele me puxou para perto dele, e nossos rostos ficaram a centímetros de distância novamente, me afastei.
– O que faz por aqui? — perguntei.
– Passeando, e você?
– Passeando.
– Tem certeza? Ta com uma cara de quem viu assombração.
– É, porque eu vi. — contei a ele, seguimos caminho conversando.
– Que maluquice. Tem certeza de que ela sumiu? — Orfeu me perguntou.
– Absoluta.
– Aconteceu mais alguma coisa?.
– Um assassinato. — falei a ele sobre Louis também.
– Isso é perturbante. — comentou.
– Claro, né.
– O que vamos fazer?
– Não sei. — disse.
– Você não acha que teremos de ir até as fronteiras da escuridão, acha? — ele me perguntou.
– Talvez. — Orfeu engoliu em seco.
–Legal, esse é o primeiro lugar no mundo que quero visitar. — falou.
– Não brinque com isso.
– O.k. — falou. — Ei, não olha para trás agora. — ele começou a sussurrar. — Mas aquela não é a mulher do vestido amarelo que você me falou.
Olhei no reflexo da vitrine de uma loja. Aquela maldita ruiva me seguia, agora encapuzada, mas com uma parte do vestido amarelo como o sol aparecendo no meio da longa capa roxa.
– Corremos? — sussurrou Orfeu.
– Corremos. — disparamos. Quando dobramos a esquina, a mulher de amarelo surgiu na nossa frente.
– Do que estão fugindo? — ela tirou o capuz, revelando seu lindo rosto pálido e as madeixas ruivas.
– Que horror! — Gritou Orfeu. Lhe franzi as sobrancelhas, a mulher parecia má, mas feia não era. A mão dele deslizou para a minha, passei a ver a realidade, seu rosto era rachado como cerâmica quebrada, ainda mais branco, os olhos totalmente negros, os lábios secos e violetas, os dentes ainda mais pontudos, certamente a bruxa obscura mais horrível que já vi.
Antes de contar o que aconteceu, uma breve explicação, no meu mundo existem bruxas como no seu, apesar de você provavelmente não enxergar a maioria delas. Em ambas dimensões existem bruxas boas e más, aqui classificamo-as. As bruxas más, feias, que fazem magia negra, são chamadas de bruxas obscuras. Já as bruxas boas, belas, que fazem magia da luz, são chamadas de bruxas claras.
Aquela mulher era com certeza uma bruxa obscura, e não estava feliz.
– Pelo jeito seu amigo vê ainda mais que você. — disse ela. — Mas não importa, nem um poder tolo vence a magia negra de Morgana!
Órion começou a rosnar e mordeu a sua perna, a bruxa ficou furiosa, e sacou (não sei de onde), um longo cajado negro, com uma pedra roxa no topo, e o apontou para o focinho do meu cachorro.
– Não! — me meti entre eles, e o raio violeta veio em minha direção, não fui atingida. Eu estava de olhos fechados, não pensei em nenhum feitiço, nem usei nem um poder. Quando reabri os olhos Orfeu estava na minha frente, um tipo de campo de força dourado envolvia nós três, Morgana, não parava de lançar feitiços inúteis que ricocheteavam na barreira. Orfeu parecia tonto, pálido, sem energias, no momento não entendia o por que.
Acumulei minhas forças, e fiz os ventos (que fazem parte da natureza, ou seja estão dentro do meu campo de controle) empurrarem a maldita bruxa, que caiu a metros de distância.
Agarrei Orfeu, e corremos o mais rápido o possível, para a floresta, só paramos quando tive certeza de que não nos achariam.
– Você está bem? — perguntei a Orfeu, que estava quase desmaiando. Pousei a mão na sua testa, estava fria, Orfeu NUNCA está frio.
– Senta aqui. — eu o sentei na terra molhada. E o envolvi em meus braços, a sua palidez foi se esvaindo.
– Ei, o que você fez foi incrível, você salvou nossas vidas, obrigada. — lhe disse.
– Eu? Eu não posso ter feito aquilo. — murmurou.
– Pode sim, você tem poderes, mas acho que aparecem apenas quando são necessários. — falei.
– Acho que nunca tive nenhuma chance ou necessidade de salvar a vida de alguém antes. — ele me disse.
– Agora tem, vai se acostumando, ainda vou nos meter em muita encrenca. — lhe disse sorrindo. Ele riu.
– Prefiro que seja assim.
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