Estranho? Pois Eu Não Acho!
23 Voamos Num Dragão
Notas iniciais
Um animal grande e bonito, asas enormes, garras prateadas e afiadas, uma cauda longa, pescoço comprido e focinho alongado. Dentes afiados e sobressalentes, os olhos grandes e de um tom amarelo vibrante me encarando.
– Olá Afonso, querido! Trouxe visitas! – diz Adorinda indo na direção do dragão de braços abertos e sorriso no rosto. A enorme “fera” também se aproxima dela e encosta o focinho na palma da mão da bruxa. Os olhos amarelos de Afonso, carregados de culpa, seguem para a perna ferida da sua dona.
– Tudo bem meu amor, foi um acidente Afonso, não dói mais, já está melhorando. – tranqüiliza-o Adorinda, o dragão fica menos preocupado e seus olhos focam novamente em mim. Ele da passos rápidos em minha direção, abanando o longo rabo como um cachorro. Selena solta um grito apavorado. Em questão de segundos sua enorme cabeça escamosa já está a centímetros do meu rosto e sua língua bifurcado me lambendo inteira.
– Oi, oi Afonso, é uma prazer te conhecer também! – digo rindo. – Eca, para, para, sua baba é grudenta garoto! – o dragão finalmente para de me lamber, senta sobre as patas traseiras em fica me olhando.
– É ele gostou bastante de você Pandora. – comenta Adorinda rindo também.
– Ele é uma graça. – falo acariciando a cabeçorra do réptil alado.
– Uma graça? É assustador! – berra Selena.
– Por favor, Sele, deixa de ser medrosa, o bicho é inofensivo! – reclama Helena revirando os olhos para a irmã.
– Inofensivo? Ele arranhou a própria dona! – fala a ruiva fazendo o dragão virar a cabeça para o lado e soltar um ruído triste do fundo da garganta.
– Larga de ser chata Selena! Ele não fez por mal, foi sem querer. Para de falar assim dele, está magoando-o! Só por que tem medo não precisa insultá-lo, peça desculpas. – digo para Selena, e ela percebe a carinha magoada do animal, se tem uma coisa que Sele odeia é ver qualquer um triste.
– Tudo bem. Desculpe-me fera gigante e cuspidora de fogo, não queria te magoar, não mesmo! É que você me assustou, não costumo ver muitos dragões gigantes por aí, sabe. – se desculpa Selena.
– Eu não queria assustá-la! Não quero que tenha medo de mim, não te farei mal! – responde Afonso e, claramente, os outros só entenderam um monte de rugidos, como sempre, então traduzo para eles:
– Ele disse que não queria te assustar, Sele. E que não vai te fazer mal.
– Tudo bem.
– Como você conseguiu um Drako Waltrode? – pergunta Orfeu para Adorinda, mudando de assunto.
– Um o Traco o que? – pergunta Peter.
– Um Drako Waltrode. O livro fala sobre essa espécie no capítulo dos dragões. Eles são bem raros. – responde Orfeu.
– Tenho Afonso desde que era um ovo. Achei o ninho dele na floresta há alguns anos, sua mãe havia sido morta por soldados Górki, mas não vamos falar sobre isso, Afonso ainda não superou a perda. – conta Adorinda.
Uma breve explicação, os Górki eram uma espécie de exército do mal, uma das atividades favoritas deles era sair por aí matando pessoas e animais inocentes, eles foram banidos de Imaginação há um bom tempo, e condenados ao exílio pelo meu pai.
– Como Afonso pode não ter superado a morte da mãe dele se ele nem chegou a conhecê-la? – pergunta Tales.
– Shiu! Já disse para não falar nesse assunto, ele é muito sensível! Se magoa pelo fato de simplesmente não ter podido nem conhecê-la, entendeu? – diz a bruxa.
– Ta bom né. – fala Tales.
– Mas enfim, não trouxe vocês aqui só para conhecerem Afonso, tenho que levá-los até um lugar e é um pouco longe, então acho que vamos precisar de uma carona. — diz a bruxa.
– Espera o quê? O que você quer dizer com uma carona? Espera! Uma carona? Nisso aí?! — Selena fica um tanto desesperada ofendendo um pouco Afonso, novamente.
– Esse "nisso aí" é um ser vivo muito bom e com sentimentos, tá bom Sele? Se você tem medo, pode ir a pé se quiser. — disse à garota ruiva me dirigindo ao enorme dragão.
– Foi mal, não vou a pé não, só espero, você sabe, não cair e, sei lá, morrer. — falou a gêmea indo também até Afonso, relutante.
– Voar é muito bom, não tem por que ter medo, você vai adorar, garanto. — disse Peter, que pelo jeito também resolve voar no dragão, por mais que tenha a capacidade de fazê-lo sozinho.
– Poxa, valeu, ajudou muito esse seu diálogo complexo. — comentou a ruiva, sarcasticamente. — Aonde a gente vai afinal?
– Visitar uma pessoa. — responde Adorinda, simplesmente.
Subimos em Afonso. A bruxa na frente pilotando, logo atrás dela Tales, Helena, Selena, Peter, Orfeu e, por último, eu. O dragão passa pelas grandes portas de celeiro e começa a correr com velocidade pelo grande campo verde até que finalmente abre suas enormes asas que levanta vôo.
Aí na sua dimensão você têm aviões e helicópteros, aqui na minha não temos isso ainda, temos dirigiveis e balões e nunca voei em nenhum, não tinha noção do quanto era assustador. Primeiramente Afonso é muito, muito veloz, já no seu primeiro bater de asas do dragão eu quase caio para trás e sou obrigada a me segurar firme em Orfeu com os braços ao redor do seu abdomem. Ele vira a cabeça para trás para me olhar, sorri e diz:
– Você está bem? Não quero que caia.
– Eu acho que estou, mas isso da muito medo.
– Sério? Você nunca tinha voado antes?
– Não!
– Por que você não olha como é bonito? — Orfeu me pergunta, até então não havia reparado que meus olhos estavam fechados. Olho para baixo e o que vejo é realmente muito lindo, os rios e lagoas refletindo a luz do sol, pude ver toda a cidade e a floresta, mas mesmo assim, depois de alguns segundos uma leve agonia retorna a minha mente.
– Tá, tá e bonito, mas é muito alto! — falo encostando a testa nas costas do garoto loiro para não me deparar novamente com aquela altura absurda.
– É, é alto, mas é impossível que você caia me esmagando desse jeito.
– Ai, desculpa Orfeu. — digo soltando um pouco meus braços.
– Tudo bem, nenhuma das minhas costelas quebrou se você quer saber. — fala ele me fazendo rir. — Você também está com medo, Orfeu? — sussurro ao sentir o quão acelerado está o batimento cardíaco dele.
– Eu não, adoro altura, por que?
– Seu coração está batendo muito rápido, tá tudo bem?
– Ah, mas eu tenho certeza de que isso tem um outro motivo. — sussurra ele de volta, virando a cabeça para me olhar novamente, reviro os olhos e lhe dirijo um leve sorriso.
***
Aterrisamos em uma parte da floresta bem próxima da fronteira da escuridão o que me deixa um pouco desconfortável. Descemos do dragão e olho ao meu redor. Árvores para todos os lados com copas que impediam a passagem da luz do sol. Nada de muito especial na verdade, nenhum lago, nenhum rio, nenhuma cabana ou coisa anormal.
– Eu estou viva? Estou viva! Eu até beijaria o chão se não fosse tão sujo. — exclama Selena tocando seu rosto para se certificar que a sua cabeça está realmente ali.
– Meus parabéns maninha, você não se estabacou no chão e agora tem a incrível oportunidade de torrar minha paciência pelo resto de nossas vidas, estou muitíssimo feliz por você. — falou Helena em seu cruel tom sarcástico.
– Esse amor de irmã me emociona tanto, vocês não tem noção. — devolvo o sarcasmo.
– Qual era mesmo? — Adorinda pensa em voz alta, ignorando a discução das duas. — Ah, ali está! — a bruxa se dirige a uma árvore que aparenta ser igual a todas as outras e nós a seguimos. Adorinda puxa de dentro do vestido uma grande chave negra pendurada em uma corrente comprida no seu pescoço. Só então eu noto a pequena anormalidade daquela árvore, nela existe uma fechadura, como a de uma porta, onde a bruxa introduz a chave.
Automaticamente um enorme buraco se abre no chão revelando uma grande escada, cujo final não é visível. Se tem uma coisa que eu não suporto nem um pouco é o subterrâneo, saiba que pessoas muito claustrofóbicas, como eu, ODEIAM o subsolo.
– Nós não vamos descer aí, vamos? — pergunto em um tom um pouquinho desesperado.
– Vamos. — responde a bruxa, simplesmente.
– É necessário mesmo? É que eu não gosto nada mesmo de subterrâneos sabe, não sei se consigo suportar. — falo.
– Não há o que temer, você é bem mais forte do que pensa. — Adorinda fala e me encara, sinto que ela não se refere somente ao lugar subterrâneo. Respiro fundo e sigo até as escadas de pedra.
– Tudo bem, vamos lá, quanto antes nós formos mais rápido isso termina não é? — falo, mais para mim mesma. — Se quiserem passar na minha frente eu agradeço. Eles seguem pelas escadas até que só permanecem eu e Orfeu na superfície.
– Vai lá, eu estou bem atrás de você. — ele me diz, eu ponho o meu pé sobre o primeiro degrau e começo a descer lentamente. Quando Orfeu e eu chegamos mais ou menos na metade da escada ouço o chão se fechando novamente sobre nossas cabeças, e o desespero começa a me consumir, minha respiração fica ofegante e meu coração dispara, sintomas comuns do pavor. É um lugar muito úmido, escuro e abafado, que se estreita conforme você desce cada vez mais, o pesadelo de qualquer claustrofóbico.
– Pan, acalme-se, está tudo bem. — fala Orfeu tocando meu ombro e me empurrando de leve para me obrigar a continuar, eu paro como se meus pés estivessem colados no chão.
– Não dá, não consigo, é agonizante demais. — falo.
– Consegue sim. Finja que você não está em baixo da terra. É só uma escada que você está descendo para algum lugar que vai ajudar você de alguma forma.
– Tá, mas continua sendo um lugar debaixo da terra, úmido, minúsculo e sem oxigênio.
– Tudo bem, mudança de planos, quanto mais rápido você enfrentar o medo menos você sofre, é tipo mergulhar na água fria, é melhor pular de uma vez do que entrar devagar. Corre, mas cuidado para não escorregar. — obedeci, admito que é uma boa estratégia contanto que eu não caia e me estabaque. Me apoio na parede de pedra que, até então, não havia notado, e desço o mais rápido que posso.
Alcançamos os outros que ainda estão terminando de descer a maldita e longa escada, esbarro em Helena e quase faço ela rolar até lá em baixo. O local agora é tão estreito que só é possível que uma pessoa passe por vez. Os degraus terminam e nos encontramos diante de uma simples porta de madeira, Adorinda bate nela com força.
– Ô de casa! — berra a bruxa fazendo minha cabeça latejar. — Me perdoem o volume da voz, é que o velho é meio surdo. — depois de um tempo a porta se abre e dela surge um senhor magricela de cabelos e bigodes grisalhos e óculos redondos sobre os olhos azuis. Trajando uma calça bege com suspensórios por cima de uma camisa que um dia deve ter sido branca. Calçando sapatos negros um pouco desbotados.
– Olá minha velha amiga! Como posso ajudá-la? — disse o senhor ajeitando os óculos que se encontravam levemente tortos.
– Bem, Seu Hugo, esses jovens têm perguntas à respeito do que o senhor escreveu.
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