Estranho? Pois Eu Não Acho!
22 Encontramos a bruxa
Notas iniciais
Conto a história toda a elas (com exceção da parte do beijo). Gostaria de dizer que Helena fica quieta enquanto eu falo, mas é óbvio que seria verdade, mas sinceramente, nada teria graça sem os seus “porquês”, “onde”, “quando”, “quem” e “como”.
– Por que a gente tem que ir mesmo? – dessa vez é Selena que pergunta.
– Porque vocês disseram que ajudariam, mas se não quiserem ir... – fala Orfeu.
– Não, não! A gente vai sim, mas sei lá... Não é meio... Tipo... Perigoso? – responde Sele.
– Se não fizermos isso algo bem mais perigoso vai acontecer. – respondo simplesmente.
– Mas nós vamos sozinhos? Sem nenhum adulto responsável? Por que mesmo que a gente ta se metendo nisso hein? – pergunta Selena.
– Sim vamos, por que os adultos não acreditariam se falássemos. Só nós sabemos e somos a última esperança dessa cidade, quer mais algum motivo? – explicou Helena, já sem paciência.
– Tudo bem. – Sele finalmente cede.
– Agora temos que buscar Tales e Peter. – diz Orfeu. – Qual dos dois que mora mais perto?
– Tales mora há uma quadra daqui, na margem do rio. – responde Hele.
– Vamos buscá-lo primeiro então.
Não demora muito até chegarmos lá. Já havia ido à casa de Tales quando era pequena, em festas de aniversário, para fazer trabalhos, mas não lembrava muito bem dela. Era uma casa simples, mas muito bonita. Azul celeste, com várias janelas contornadas por lindas conchas cravadas nas paredes. De todas as casas da cidade a de Tales era a mais próxima do rio. Quando chovia ela só não alagava por que o “Peixinho” controlava a água impedindo que transbordasse da torrente.
Sentados na beira da água se encontravam duas pessoas, uma delas possuía um par de grandes asas projetando-se das costas.
– Bem, isso facilita muito nossas vidas. Pelo menos não temos andar mais seis quadras para buscar a Gaivota Bêbada. – comenta Selena.
– Que sorte a nossa. – falo. – Vamos lá, não temos muito tempo.
– Ei gente! – grita Selena, assustando os dois patetas.
– Sentiram saudades e vieram me visitar? Que honra! – fala Tales, sarcasticamente.
– Isso realmente está sendo uma tortura, e não acredito que vou dizer isso, mas... Precisamos de vocês. – digo, depois finjo uma ânsia de vômito e uma tosse. Orfeu ri.
– Que gentileza! Para o que seria? – diz Peter.
– Estamos atrás de uma Bruxa Clara chamada Adorinda. Achamos que ela mora aqui no bosque de imaginação. Precisamos muito de algumas informações dela. Vai ajudar a salvar a floresta. – Helena resume a história.
– Excelente! Uma aventura! Vamos embora cambada, estão esperando o que? – fala Peter, não sei se foi sarcasmo ou só uma doideirinha habitual.
– Também estou dentro! – diz Tales simplesmente. Eles vêm até nós, só que o “Peixinho” se dirige especificamente à Helena.
– Oi. – diz ela.
– Oi. – responde ele, e a beija. Eu sinto meu queixo cair e meus olhos se arregalarem, foram movimentos inevitáveis diante da situação. Uma parte da minha mente dizia: “Que descarados!” e outra gritava: “Own! Que fofinho!”.
– O que exatamente foi isso? – falei. Os rostos dos dois ruborizam e eles riem.
– Estamos juntos desde o começo das férias. – explica Hele.
– E não falaram nada? – digo. Depois olho acusadoramente para a Selena. – Nem você?
– Juro que não sabia! – responde ela. – Olha maninha é um extremo mau gosto, mas tenho que admitir que acho muito fofo. – Tales ri e diz:
– É somos o casal mais fofo do mundo. Agora vamos achar essa bruxa.
– Não disse que vocês são o casal mais fofo do mundo, existem casais mais fofos que vocês, provavelmente, porque existem milhares de casais, e, tipo, não conhecemos todos eles, então não teríamos como saber e...
– Ta bom Selena! – falam todos em uníssono.
***
Como disse, já tinha andando pela floresta inteira e conhecia cada canto dela. Havia vistos algumas casas dentro do bosque, achava que já tinha visto todas que existiam lá, mas nunca tinha reparado na casa de Adorinda, talvez pelo fato de ela não ser tão visível assim.
Andamos bastante tempo, procurando algo que se parecesse com a casa de uma bruxa, algo velho, com flores estranhas e madeira podre, acho que estávamos usando os critérios de busca errados.
Até que passamos em uma parte da floresta que adoro, apesar de não ir muito nesse lugar por ser muito longe da minha casa. É um tipo de clareira, perto de um barranco, cheio de plantas compridas como cipós, com muitas folhas e flores, que brotavam de rochas e caiam como uma cascata verde. Havia um lago cheio de carpas que o sol iluminava como um holofote. O tipo de lugar que faz com que você esqueça toda a destruição do mundo e queira ficar ali para sempre.
– É tão lindo aqui. – comenta Helena.
– É mesmo. – digo.
– Mas o que é aquilo ali? – pergunta Orfeu.
– Aquilo o que? – fala Peter.
Orfeu não responde. Ele vai até uma das cortinas de plantas, nós os seguimos, ele afasta alguns dos “cipós” abrindo uma fresta que deixa amostra a grande rocha que existe atrás, nela, um furo, por onde a luz do sol passava. Orfeu se aproximou mais da rocha, e colocou a mão sobre o local furado, então aquela enorme pedra sumiu, revelando o enorme campo e a casa que escondia.
– Não era real. – disse Orfeu simplesmente. – A rocha não era sólida, é algum tipo de feitiço, acho.
– E eu acho que encontramos, espero que ela esteja em casa. – digo.
– Ela não me parece o tipo de pessoa que sai bastante de casa. – comenta Tales.
Presto atenção na casa. Era feita de pedras de um tom cinza claro, apenas um andar, uma chaminé torta brotava do telhado e cuspia muita fumaça. Tinha janelas, mas sem vidros, fechadas apenas com cortinas. Atrás da pequena estrutura cinza havia um galpão de madeira, grande e vermelho, maior do que a própria moradia.
O campo na frente da casa era repleto de cata-ventos coloridos, flamingos e anões de jardim. A entrada da casa terminava em uma trilha de areia, que começava bem no lugar onde estávamos. A porta torta de madeira, brilhante e envernizada, se abriu.
Imaginei que de lá sairia uma senhora baixinha de cabelos grisalhos, vestindo trapos compridos que algum dia teriam sido brancos, ou talvez uma mulher loira e alta, de olhos azuis, trajando um vestido longo. A maioria das Bruxas Claras era assim, mas essa, não era uma Bruxa Clara comum.
Tenho que admitir que me espantei com o que vi. Pela porta passou uma menininha bonita, de no máximo uns oito anos. Mulata, cabelos longos, castanhos e bem crespos. Olhos escuros e brilhantes. Vestia um vestido verde que ia até os tornozelos, nos ombros um manto de crochê azul, grande demais para ela e muito quente para a época do ano. Ela veio correndo em nossa direção, os pezinhos descalços fazendo ruídos altos ao entrarem em contato com a areia da trilha.
– Eu estava esperando por vocês! Estão atrasados! – disse a menina, com uma voz grave demais para uma criança de oito anos.
– Isso só pode ser algum tipo de piada... – comenta Selena.
– Você tem algo conta garotinhas? – pergunta a bruxinha um tanto raivosa.
– Não! Só acho que uma bruxa de trocentos anos tivesse uma aparência um tanto, sei lá, mais idosa. – responde a gêmea ruiva.
– Posso ter a forma que quiser para sua informação.
– Ah, por favor! Selena você não vai arranjar barraco com ela né? Fica quietinha, ela é mais necessária que você! – exclama Helena, já sendo tirada do sério (o que não é muito difícil de se fazer na verdade).
– Puxa, essa doeu. – fala Sele em um tom de mágoa falsa, ela já não liga mais para os xingamentos da irmã, brigam o tempo todo mesmo.
– Você é Adorinda? É um prazer, sou Pandora. Desculpe pelos modos da minha amiga. – digo.
– Sou eu mesma, o prazer é meu. Sei quem você é. E não se preocupe, já sabia que a menina dos cabelos de fogo não seria muito simpática. – responde Adorinda.
– Você me chamou do que? – exclama Selena.
– Sele quieta! – repreende sua irmã.
– Entrem, por favor, está frio aqui fora. – convida a bruxa.
– Frio? Está fazendo uns trinta graus! – diz Peter.
– Mas irá esfriar garoto alado. – responde Adorinda (não gostei desse apelido, não é ofensivo o bastante, sem graaaça.)
Então caminhamos pela trilha de areia até a porta de madeira. Entramos. Deparo-me com um lugar simples, rústico e aconchegante. Uma decoração brega digna de uma pessoa de idade. Um caldeirão enorme, é claro, ardia sobre as chamas dentro da grande lareira (que realmente tinham uma cor muito semelhante a do cabelo de Selena). Dentro dele borbulhava uma substância pegajosa e esverdeada que me deu um pouco de enjôo.
Uma mesa de carvalho, rodeada por três cadeiras, um tanto jogada em um canto da casa, como se comer não fosse tão importante assim. Um velho e grande sofá amarelo. No chão um tapete bordô velho e surrado. Nas paredes azuis, estantes repletas de livros, vidros com líquidos coloridos, potes e as substâncias mais esquisitas. Pinturas de época, representando pessoas que eu, obviamente, nunca vi na vida. Em outro canto havia um fogão à lenha aquecendo uma chaleira de ferro, que chiava. Uma cama de madeira não muito confortável e um guarda-roupa alto e torto.
– Sua mente é bloqueada, não é? – diz Helena se dirigindo à Adorinda, quebrando o silêncio. Às vezes até esqueço que ela pode ler mentes, não faz isso conosco com freqüência, e bem, se faz, não se manifesta, tenho que admitir que esse pensamento me dá arrepios. Todos têm coisas a esconder, e normalmente não é bom que alguém tenha conhecimento delas.
– Sim, eu mesma a bloqueei, não é um feitiço muito complicado, na verdade. Não gosto da idéia de pessoas vasculhando minha mente e roubando de mim minhas previsões. – responde a bruxa, calmamente. – Sentem-se, sentem-se, andaram muito para chegar até aqui. – convida ela indicando o sofá amarelo.
Sento no braço do móvel e Helena senta-se no outro braço os outros se espremem diretamente nas almofadas com cheiro de mofo. O odor desse lugar me causando tontura.
– Bem, Adorinda. Viemos até aqui buscando informações. Meu amigo e eu lemos umas coisas sobre a... Ahn... Sobre a senhora. – foi estranho para mim me dirigir a uma criança pequena e sorridente chamando-a de senhora. Mas continuei. — E certa previsão nos chamou a atenção. É sobre a Guerra do Bosque. Acreditamos que ela está a caminho, precisamos da sua ajuda, suas visões seriam muito úteis e...
– Sabia que pediriam isso. Na verdade, não sei se sou de grande ajuda minha jovem. – Adorinda me interrompe. Ela, em sua aparência de menina de oito anos, me chamou de “minha jovem”. Tudo bem, já posso riscar isso da lista de coisas absurdas que acontecem na minha vida.
– Não tenho tido mais visões a respeito dessa guerra em particular, a última foi há uns quatro anos. Porém vocês estão corretos, ela está muito próxima. E vocês precisam de ajuda. Farei o possível. Vocês trouxeram o livro? Gostaria de dar uma olhada nele, se não se importarem. – diz a bruxa.
– Eu trouxe, pode olhar sim. – fala Orfeu lhe entregando o livro. Adorinda apanha o livro com cuidado, e o folheia vagarosamente até encontrar a página que fala sobre ela mesma. Vou ficando cada vez mais tonta, mas que cheiro insuportável!
– Seu coração é de ouro, meu garoto. – fala a garota, repentinamente, se dirigindo ao Orfeu. – Ah muito amor nele, um amor bonito de se ver. Por causa dele você tem a capacidade de perdoá-lo, e deve fazê-lo. Sabe de quem estou falando, ele tem muito mais relação com tudo isso do que você imagina. – continua ela.
– O que você sabe? – pergunta Orfeu.
– Eu devo permitir que o destino faça com que você descubra sozinho.
– Durante todos esses anos eu não soube nada sobre o paradeiro dele! E agora, quando eu posso descobrir alguma coisa, e a resposta está, literalmente, em baixo do meu nariz, você diz para eu esperar que o destino me ajude? Ah por favor!
– Do que vocês estão falando? – se intromete Peter.
– De uma pessoa desaparecida. Não interessa quem no momento. – digo para ele simplesmente, já sabendo de quem falavam.
– Meu caro, peço desculpas, mas realmente não posso contar o que sei. Aprenda que algumas coisas não podem ser ditas, tem que ser conquistadas. – diz Adorinda calmamente.
Estou cada vez mais tonta e enjoada. Não costumo ser sensível assim a cheiros ou velocidade. Sinto meu corpo amolecer, vejo tudo em girando muito rápido. Apoio minha mão no ombro de Orfeu para não cair do braço do sofá.
– Pan, o que houve? – pergunta ele me olhando nos olhos, notando meu mal estar.
– Não sei, não estou me sentindo muito bem. – respondo e segundos depois desmaio, acho, pois sinto as mãos de Orfeu amparando minha queda, e os ouço falando.
– Pandora! – grita Selena.
– É a poção do caldeirão, está a deixando enjoada. – diz Helena, lendo minha mente. (É só eu falar que ela não faz isso comigo, mereço.) – Adorinda, posso fechá-lo?
– Claro, claro, faça isso meu bem.
Ouço o som da pesada tampa de ferro sendo posta sobre o liquido verde e borbulhante. Um pouco do cheiro continua no ar, mas some aos poucos, e é um alívio. Ainda não sei por que aquela coisa me deixou tão mal. Depois de uns dois minutos depois do bloqueio do cheiro nada agradável consigo abrir os olhos e me erguer lentamente. Orfeu solta meus ombros, mas ainda mantêm as mãos próximas deles, caso ocorra outra queda. Minha cabeça ainda gira, porém menos do que antes.
– Adorinda, você está cozinhando algum tipo de sopa de bacalhau podre por acaso? – digo. Eles riem.
– É gente, a Pan voltou. – comenta Tales.
– Infelizmente. – fala Peter, Selena projeta um forte tapa na cabeça dele. – É brincadeira! – diz a Gaivota Bêbada.
– Você é alérgica. Interessante. – observa Adorinda.
– Sou alérgica a que? – pergunto.
– Confrei.
– O que é isso?
– Uma planta. Tem poder curativo, pode ajudar a juntar ossos quebrados e cicatrizar ferimentos profundos. Estou fazendo chá de Confrei. Não se bebe, tem um gosto tão horrível quanto o cheiro. É venenosa se tocada. Mas nunca tinha visto uma reação tão grave quanto a sua. Parece que você sente o cheiro de uma forma bem mais forte. Aconteceu um pequeno acidente que acabou me ferindo. – explica a bruxa que levanta um pouco a saia e mostra a perna enfaixada. – O chá vai curar.
– Ficar longe de Confrei mesmo que eu esteja com um ferimento gravíssimo causando minha morte, anotado, obrigada. – digo ironicamente.
– Sem querer ser intrometido, já sendo, mas que acidente foi esse? – pergunta Peter.
– Um amigo meu me machucou sem querer, ele é um tanto desleixado sabe. Venham, vão conhecê-lo, não se assustem, ele é dócil, apesar não parecer, mas não é legal julgar pela aparência não é mesmo? – diz Adorinda com um olhar acusador para Selena.
A bruxa nos guia pela porta dos fundos. Atrás da casa há um extenso lago, algumas árvores, uma horta e o galpão vermelho que era para onde a bruxa estava nos levando. Para chegarmos ao enorme galpão tínhamos que passar pela horta.
– Cuidado com o Confrei. – Adorinda avisa para mim, apontando uma planta cheia de folhas compridas bem próximas do chão, sem caule aparente. Caminhei pelos vegetais com cuidado, passando o mais longe o possível daquelas malditas plantas fedidas.
Finalmente chegamos à enorme estrutura de madeira pintada de vermelho, a tinta desbotada e descascada. O cheiro que aquele ambiente exalava era de queimado, e era quente, o que era bom, já que a bruxa estava certa quando disse que esfriaria. Adorinda abriu as grandes portas de celeiro finalmente revelando seu amigo, um gigante dragão albino.
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