Estranho? Pois Eu Não Acho!
20 Apesar de tudo, estou feliz.
Notas iniciais
Orfeu pega um guarda-chuva que estava pendurado no cabide de chapéus ao lado da porta de entrada, quando ele ia abrir a porta para checarmos melhor o que estava acontecendo lá fora, ouvimos a voz da sua mãe gritar:
– Filho! Os biscoitos estão prontos venham comer!
– Já vai mãe! A gente tem que ir lá fora checar uma coisa! — responde.
– Você está levando um guarda chuva? Vai pegar um resfriado com essa água gelada caindo na cabeça! — sua mãe berra de volta, e quase não consigo conter minha risada.
– Sim mãe. — diz Orfeu fazendo uma careta para mim.
– Tudo bem então. Ah! Aproveite e traga água por favor. — pede Leia.
– Pode deixar. — Orfeu apanha o regador verde da bancada do corredor e finalmente abre a porta e o guarda-chuva.
– O que ela quis dizer com "traga água"? — pergunto, curiosa.
– A água da chuva é melhor para as plantas. Por isso toda vez que chove eu ou minha mãe coletamos um pouco pra regar as plantas lá de dentro. — ele responde.
– Legal.
– Aham. — Orfeu olha para minha cara de surpresa e admiração e solta uma risada. Ele pousa o guarda-chuva sobre nossas cabeças e sai da casa. Andamos alguns passos até acharmos um lugar em que pudéssemos enxergar melhor de longe. Primeiro encaro o céu, enquanto Orfeu estende o regador para armazenar a água. O céu está ainda mais escuro, e começa a ventar muito. Sou magra e baixinha então a sensação que tenho é de que sairei voando e de que as árvores serão arrancadas do chão, não consigo ver nada além delas, estamos longe do ponto onde aqueles "obreiros" estão trabalhando.
O regador transborda de água e Orfeu o recolhe.
– Viu alguma coisa? — me pergunta.
– Não dá para enxergar nada! — levanto minha voz para que ele possa me ouvir no meio dos barulhos do vento, trovões e gotas de chuva caindo com força no chão.
– É verdade. — responde. — Mas, vamos andar mais um pouco, talvez haja alguma fresta no meio das árvores ou notemos algo estranho demais. — continua ele.
– Tudo bem.
Orfeu deixa o regador na frente da casa, acho que deve estar pesado. Andamos, meus sapatos estão encharcados de lama e meus pés estão frios, noto que meus dentes estão batendo devido a intensidade do vento gelado. Mesmo de casaco meu corpo todo treme. Seguimos para um ponto mais alto do terreno, onde há uma espécie de morrinho, subimos nele.
– Acho que estou vendo alguma coisa! — digo, e realmente estou. No meio da chuva e das folhas das árvores e plantas eu vejo uma luz alaranjada no meio da floresta, primeiro acho que é uma lanterna ou algo do gênero, depois percebo que é fogo. Espere fogo? — Está queimando! É fogo! — digo para Orfeu apontando o ponto laranja.
– O quê? Está chovendo! Isso é impo... — ele se interrompe, pois nota, assim como eu, que a luz aumenta cada vez mais e com mais velocidade. — É, é fogo. — diz ele.
– É algum tipo de feitiço, vai queimar a floresta inteira! — digo.
– Como podemos apagar? É imune a água! — diz Orfeu. Isso realmente é um grande problema. Então me lembro de uma coisa que li em um livro há um tempo atrás, sobre os cientistas terem descoberto uma nova forma de apagar um incêndio sem alagar o local e sem desperdiçar água.
– Uma explosão elétrica. — digo simplesmente.
– Uma o quê? — Orfeu pergunta.
– Cargas elétricas alteram as chamas, as partículas de carbono respondem a campos elétricos de forma estranha que afetam a estabilidade da chama. Se for possível afetar essa estabilidade por tempo o suficiente, a chama colapsa. — digo.
– Não entendi metade do que você disse. — fala Orfeu. — Mas pergunto de novo, como vamos fazer isso?
– Magia contra magia.
– Você está me assustando, Pandora.
Aprendi isso quando era pequena costumava brincar de dar pequenos choques nos braços do meu pai, achava engraçado, foi um dos primeiros poderes que descobri que tinha, e um dos que menos conto para as pessoas, não sei muito bem por que, talvez por achá-lo desnecessário, mas agora vejo o quanto essencial ele é.
– Sei bem como mexer com eletricidade. — digo a ele. — Vamos logo!
O puxo para a mata, para mais próximo do fogo, não temos de correr muito, as chamas estão mais próximas do que imaginávamos. Elas não são tão altas mas se espalham rapidamente. Odeio isso, odeio, odeio, odeio. Minha vontade é de sair correndo, sou Pirofóbica, acho que já disse não lembro, mas tenho fobia de fogo. Minhas pernas tremem, mas não posso desistir agora e NÃO VOU deixar que destruam a minha floresta.
Esfrego as palmas de minhas mãos uma na outra com velocidade, sinto a eletricidade correr pelos meus dedos, mas não dói, então olho para as chamas novamente, e preciso correr, preciso, preciso. Não! Fique Pandora! digo a mim mesma, fecho os olhos, a eletricidade fica mais forte nas minhas mãos, esqueço o fogo e o calor que ele está trazendo, só penso em como as minhas solas de borracha estão impedindo que eu seja eletrocutada, nunca fiquei tão grata por ter sapatos nos pés.
Desgrudo as mãos uma da outra e as empurro para frente, como se estivesse jogando algumas coisa, em direção ao fogo, pelo menos acho que é na direção dele, mantenho os olhos fechados. Sinto a eletricidade a minha volta, ela não me assusta como quando levo um choque ao conectar algo na tomada, é diferente, um outro tipo de corrente elétrica, é mais, natural, é boa.
O calor some, e volto a sentir o frio do vento forte, da umidade e da água da chuva, inalo o cheiro da grama molhada, como amo esse cheiro. Abro os olhos, não existem mais chamas, plantas estão secas e amareladas, mas os danos não foram tão grandes. Meu corpo inteiro ainda está tremendo, e meus joelhos vacilam, Orfeu me segura.
– Pan, você está bem? Aquilo foi muito incrível! — Orfeu me ergue devagar seu braço me sustenta com força, e sua voz me tranquiliza. Lhe dou um sorriso.
– Não foi tão difícil. — digo. Ele solta uma risada.
– Tenho certeza de que não foi. — diz.
– Os biscoitos que sua mãe fez já devem estar frios. — digo.
– Acho que eles podem esperar mais um pouco. — Orfeu me vira de frente para ele e sorri. Ergo minha cabeça para olhar bem nos seus olhos, só agora, assim tão perto dele, que noto o quanto ele é mais alto do que eu. Um de seus braços sustenta o guarda-chuva enquanto o outro envolve minha cintura. Acabo colocando o meus braços em volta do seu pescoço e depois me dou conta de que estou na ponta dos pés, para que meu rosto fique na altura do dele, nossos lábios se encontram.
Eu fecho os olhos e simplesmente o beijo, sinto seu braço apertar um pouco mais minha cintura, como se ele quisesse garantir que eu não escaparei nunca mais, e eu me sinto segura. Percebo que, mesmo no meio de todo esse caos, algumas coisas simples podem me trazer alegria, como o fato de eu estar beijando o garota que eu gosto. Me afasto um pouco, consigo sentir sua respiração no meu rosto, sorrio.
– Eu realmente estou com uma vontade enorme de comer biscoitos. — digo a ele fazendo-o rir.
– Vamos logo. — diz ele. Então seguimos de volta para sua casa, andamos perto um dou outro com nossos ombros se tocando. Sentindo o cheiro da chuva e dos biscoitos recém assados, o formigamento bom nos meus lábios, o olhar de Orfeu em cima de mim e seu corpo tocando levemente o meu, vejo que, apesar de tudo que aconteceu e ainda vai acontecer, estou feliz.
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