***

Heriberto suspirou enquanto acariciava o braço de Victoria e desfrutava do calor e da suavidade de sua pele. Agarrados naquela cama, exaustos e satisfeitos depois de fazerem amor tão apaixonadamente, era como se nenhuma mágoa, mentira ou traição pudesse alcançá-los. Eles emanavam amor, esse sentimento do qual tanto haviam fugido e resistido. Victoria amava a sensação de aconchego que seu cheiro e seus braços lhe propiciavam ainda que, tanta intimidade e entrega, sempre lhe dava medo.

— No que você está pesando? — Foi ele quem rompeu o silêncio apreendendo o aroma dos cabelos dela que pareciam acariciar-lhe a alma.

— Em tantas coisas. — Ela fez um gesto para se aninhar um pouco mais nos braços dele. — Infelizmente não dá para esquecer de tudo que há fora desse quarto. Inclusive que Pipino está me esperando há muito tempo lá no bar. — Recordou com um sorriso.

— Você devia mandar uma mensagem a ele, para que ele volte a sua casa sem você. Temos tanto, tanto que conversar. — Suas palavras também externalizavam seu medo e seu intenso desejo de estar com ela.

— Eu não me sinto à vontade aqui. — Explicou quase tímida. — Aquela mulher está nesse hotel e, não sei, é como se a presença dela contaminasse inclusive os ambientes nos quais ela não está. — Sentiu um arrepio que parecia avisar-lhe que a ameaça não estava completamente neutralizada.

— Hum, Bernarda! — Ele fez uma expressão enfadada. — Eu preciso descobrir como ela conseguiu me dopar. Minhas lembranças daquele dia são muito nebulosas, agora eu sei bem o porquê.

— Ela deve ter um, ou mais cúmplices. Alguém próximo de você, no flat ou no hospital. É mais complicado investigar aqui da Flórida, mas, quando eu descobrir... eu vou dar outra surra nela até fazê-perder o conhecimento! — Nem se deu conta do quanto ficava explícita quando se tratava de defender seu amor.

— Você bateria nela por mim? — Ele disse um pouco vaidoso sorrindo.

— As duas vezes em que eu fui às vias de fato com ela, foi por você. — Ela confessou um tanto amedrontada. Odiava quando tinha que delatar todo o amor que sentia por ele. — Heriberto, por que você não sai deste Hotel? Vamos para Miami, fique em minha casa comigo. — O convite impetuoso continha muita esperança.

— Eu não posso. — Ele disse com pesar. — Eu estava te preparando uma surpresa antes de... Antes das armações de Bernarda. Eu vinha até a Flórida estar próximo de você e ver seu desfile. Por isso eu me organizei para participar de um Congresso de Medicina aqui, no Hilton. Não sei como Bernarda descobriu...

— Às vezes todas essas coincidências parecem muito suspeitas... — Uma nuvem de desconfiança invadiu os pensamentos de Victoria.

O quarto também foi invadido de repente, sem que alguém batesse à porta, ela se abriu. Mas o que se viu em seguida não era abstrato como uma suspeita, era real demais para não ser levado em conta. Bernarda com um cartão-chave entrou puxando uma pequena mala de mão como se tivesse trânsito livre por aquela suíte e fingiu não ver que Heriberto estava na cama com Victoria. Ela ficou de costas como se estivesse ajeitando a mala e a estilista teve apenas tempo de encarar Heriberto confusa e muito desconfiada.

— Heriberto, eu vim te avisar que estou deixando o hotel, preciso estar em Miami para preparar o desfi... le. — Ao fim da frase se virou e fingiu surpresa.

Que seu plano de separá-los não tivesse dado completamente certo, não a impedia de continuar atrapalhando a relação dos dois. E mais depois de vê-los transando com tanta paixão e tanto vigor, aquilo lhe havia doído mais que a surra de Victoria, não aceitaria perder o médico para ela ainda que não pudesse tê-lo por completo.

— Ops, eu não sabia que você estava acompanhado. — Simulou espanto. — Bom, eu já vou que não estou nenhum um pouco disposta a outro barraco.

Ela falou e saiu depressa, rumo ao elevador, sabia que não precisava de muito mais que isso para despertar a fúria e a desconfiança de Victoria.

— Bernarda, como você entrou aqui? Não vá embora desse jeito que você tem muito o que me explicar. — Heriberto pulou da cama e se enrolou no lençol para tentar detê-la desesperado, ele sabia que aquela atitude seria um novo bombardeio em sua relação, não haviam tido sequer tempo de conversar e se resolver do outro mal entendido.

Ele foi até o meio do corredor, mas as portas do elevador já haviam se fechado e ele estava enrolado em um lençol, impossibilitado de persegui-la. Quando ele voltou ao quarto, Victoria estava terminando de se vestir, a transfiguração em seu rosto era evidente.

— Victoria, por favor, não vá embora, vamos conversar! — Implorou.

— Eu sabia! Eu sabia que não devia ter cedido às suas investidas, algo dentro de mim me dizia que ainda havia algo errado, coisas a esclarecer. — Ela disse furiosa pegando sua bolsa e seus sapatos. Tinha pressa de sair dali e não se importava que fosse descalça.

— Victoria, você não cedeu a mim. — Ele se colocou entre ela e a porta impedindo-a de sair. — Você queria tanto quanto eu. Você sabe o que sentimos aqui neste quarto, nesta cama. Nossos corpos e almas se conectaram. Paixão não se mente, Victoria.

— Aparentemente, da sua parte... é a única coisa que não se mente. — Seu ódio se materializou em lágrimas que ela lutou ferozmente para não derramar. — Saia da minha frente ou eu passo por cima de você!

— Victoria, por favor, seja razoável. Ela não tinha a chave deste quarto, foi um engano, entre ela e eu não há nada, nem mesmo amizade, acredite em mim. — Afastou-se da porta e se aproximou dela fazendo menção de acariciar seu rosto, mas ela se desviou dele. — Se ela armou um flagrante lá no DF, o que a impedia de armar também aqui para nós dois? Ela não nos quer juntos, entenda que ela só quer te afetar. — Ele implorou para que ela entrasse em razão.

Ela suspirou e deu um passo para trás, sentando-se na cama para calçar seus sapatos. Fazia sentido. Apesar de tudo, fazia sentido. A chave-cartão podia ser do próprio quarto de Bernarda e ela podia ter desconfiado que os dois se entenderam e ter querido se vingar da surra que levou. Mas, ao mesmo tempo, era muito difícil confiar em um homem que lhe arrebatava todos os sentidos daquele modo.

Victoria ainda não havia aprendido a lidar com o turbilhão de sensações que aquela relação e aquele homem, somente ele, lhe provocavam. Entregar-se era ceder à fragilidade, colocar-se nas mãos de outra pessoa, perder o controle. E, se tudo isso já era imensamente difícil para ela, imagine com tantas interferências?

— Eu preciso pensar. — Ela respondeu um pouco mais calma. — Me dê um tempo. Eu vou voltar para Miami agora, tomar um banho, colocar minhas ideias em ordem e... em outro momento nos falamos. Eu tenho que ir.

Ela saiu do quarto e Heriberto ainda inspirou o aroma de seu perfume quando ela passou por ele com os olhos fechados. Só nesse momento, recordou que havia ido aos Estados Unidos com a intenção de afrontá-la e lhe reclamar por sua viagem sem se despedir. Isso já não importava. Tudo o que importava agora era recuperar a confiança de Victoria. Não podia e, definitivamente, não queria seguir vivendo sem a mulher de sua vida.

***