Estranha Perfeição
45 Capítulo XXXXIII
Notas iniciais
BEATRICE PRIOR
No mundo só existem três maneiras de se acordar maravilhosamente bem: a primeira é se você acaba de ganhar na loteria uma fortuna de uns cinquenta milhões de dólares; a segunda é se você tem alguma doença terminal e magicamente se curou da noite para o dia; e a terceira, e mais importante de todas, é se você acorda com Tobias Eaton agarrado a você. Exatamente como eu estava nesse momento.
Eu estava de frente para ele, seu braço em volta da minha cintura, me segurando firmemente mesmo enquanto ele dormia. Sua respiração era calma e seu rosto parecia tão sereno. A barba não era feita há algum tempo e eu gostava de como estava. Não era nada muito cheio, mas os pontinhos pretos furando a pele deixava Tobias bem mais sexy. Minhas mãos imploravam para esfrega-la. Ele era tão bonito. Não era justo que alguém pudesse ser tão bonito dessa forma.
— Volte a dormir. – Tobias sussurrou e beijou minha testa. Eu levantei meus olhos para ver seu olhar brilhante olhando para mim através das pálpebras pesadas.
— Eu gosto de olhar para você. – sorri e movi minha mão para alisar seu rosto.
— Você é tão linda. – ele beijou minha mão e seus olhos nunca deixaram os meus. – Eu tenho muita sorte.
— Eu acho que concordo com você. – brinquei e ri.
— É claro que sim. – ele beijou a ponta do meu nariz e me olhou apaixonado. – Eu poderia ficar assim com você pelo resto da minha vida que não me importaria.
— Eu fico pensando em como teria sido se Nita não tivesse aparecido com a sua mãe naquele dia. – confessei. Esse era um pensamento que ocupava muito minha mente. As possibilidades de uma vida ao lado de Tobias eram tentadoras e assustadoras ao mesmo tempo. – Pode ter sido doloroso no início, mas agora vejo que era necessário que a verdade viesse à tona.
— Eu não iria te esconder nada, Beatrice. – Tobias falou um tanto arrependido. – Tanto que eu estava te contando tudo que eu sabia antes mesmo delas aparecerem. Guardar a verdade de você era sufocante. Aquilo estava me matando cada maldito segundo que eu olhava para você. Se Nita ou minha mãe não tivesse aparecido, talvez nós nunca soubéssemos da verdade sobre Caleb, mas isso não iria mudar a forma como estamos agora. De algum jeito ou de outro eu teria você para mim.
— Você não parecia tão disposto por mim há uns dias atrás. – rebati sem conseguir esconder a chateação na minha voz. Tobias era inteligente; ele pegaria a dica.
— Você está chateada. – ele franziu a testa e eu levantei as sobrancelhas numa expressão óbvia. Algo brilhou em seus olhos quando ele se deu conta do que eu estava falando. – Isso ainda é por causa de Cara?
— Me desculpe se eu não consigo ficar o.k. com isso. – atirei com ironia e semicerrei os olhos, irritada com a situação. O tom da minha voz saiu mais duro do que eu esperava.
Por mais que eu tentasse, não conseguia ficar bem com o fato de Tobias e Cara terem algo. Uma queimação dentro de mim me fazia ter vontade de ir até ela e reivindicar o homem que era meu, ao mesmo tempo em que eu queria estapear Tobias por ter cedido e estado com ela. Eu estava com raiva, com ciúme e me sentindo meio traída. Sabia que não era justo que eu me sentisse dessa forma, afinal tinha sido eu a chutá-lo quando ele foi até mim em Chicago. Eu que tinha colocado um ponto final na nossa história. Eu que o mandei seguir em frente.
Por que diabos ele tinha que ter me obedecido?
— Eu sinto muito que isso tenha te magoado. – Tobias falou sincero. – Vai ser mais uma coisa que eu vou ter que te compensar com o tempo, mas se isso te faz se sentir melhor quero que saiba que a noite que passei com Cara foi um fiasco.
— Aham. – revirei os olhos. Ele achava mesmo que eu iria acreditar? Cara tinha o corpo de modelo com rosto de anjo. Ninguém que passasse a noite com ela poderia dizer que tinha sido ruim. Ela era um espetáculo e isso não melhorava as coisas para mim.
— É sério. – ele garantiu com uma risada. – Acabei gemendo o seu nome. Foi terrível.
— Realmente é bem constrangedor. E ela aceitou isso numa boa? – perguntei surpreendendo até a mim mesma pelo interesse no assunto.
A verdade é que eu tinha simpatizado com Cara no momento em que a vi. Saber do que Tobias tinha feito me fazia ter compaixão por ela. Eu esperava que ela não tivesse tão magoada com isso. Não entendia o porquê, mas sentia uma boa energia vindo dela. Não queria vê-la mal.
— A gente conversou. Eu me senti muito mal com isso e ela viu. Cara é uma pessoa incrível e uma grande amiga. Entendemos que não era o momento para ficarmos juntos. Vida que segue. – ele deu de ombros.
— Eu sei que pedi para que você seguisse em frente, mas eu detesto que você tenha feito isso. – bufei, mas não estava brava de verdade com ele. Estava brava comigo por ter sido tão imatura em relação a nós. – Agora tenho que lidar com o fato de que você e ela, além de terem construído uma relação super bacana, já dormiram juntos e ela teve o que é meu.
— Você com ciúme é tão sexy. – ele riu e acariciou uma maçã do meu rosto. – E vê-la dizer que eu sou seu torna tudo ainda melhor.
— Eu não estou me divertindo tanto assim. – semicerrei os olhos para ele numa tentativa de parecer brava, mas não conseguia parar o sorriso nos meus lábios. Era impossível olhar para ele e não me sentir feliz. Nós realmente estávamos juntos. As coisas pareciam certas de novo.
— Por mais que eu queira muito ficar com você abraçadinho pelo resto do dia, nós precisamos levantar. Tenho algumas reuniões no estúdio, mas eu queria passar no orfanato antes de tudo. Aposto que é o que você quer também. – ele sorriu, mas eu conseguia ver algo mais por trás dos seus olhos.
— Você também quer ver Nita. – não foi uma pergunta. Tobias estava muito fácil de ler.
— Eu quero. Eu preciso, na verdade. Ela é minha irmãzinha e eu quase a perdi. – ele suspirou. – Mas eu não quero deixar você, Beatrice. Não quero mais ficar um segundo sequer longe de você.
— Eu posso ir junto. Não acho que Nita queira me ver, mas posso esperar do lado de fora enquanto vocês conversam.
— Você faria isso? – ele perguntou com admiração. Eu assenti. – Deus, você é incrível. Nós vamos ao hospital e de lá seguimos para o orfanato. Depois eu tenho que passar no estúdio, mas vou tentar ser o mais rápido possível. Quero passar o restinho do dia fazendo alguma coisa que você goste.
— Eu gosto de estar com você. – respondi simplesmente. Isso fez com que Tobias me desse um largo sorriso.
— Teremos isso, então. – ele riu. – Eu estaria apressando as coisas se te pedisse para passar a noite de hoje aqui também?
— Talvez. – eu dei uma risada leve. – Mas nós não precisamos agir como se estivéssemos no início de tudo. Eu já morei com você uma vez. Nós já fomos um casal. Não precisamos fingir que isso não aconteceu. Sei onde paramos e podemos continuar de lá se você também quiser isso.
— O que diabos eu fiz para merecer você? – ele balançou a cabeça e segurou meu rosto antes de tomar meus lábios nos seus.
Nenhum de nós tinha escovado os dentes ainda, mas isso não tinha tanta importância. Nada do que Tobias fizesse poderia ser ruim ou nojento e com esse beijo não seria diferente. Seus lábios eram calmos junto aos meus e ele me beijava com uma delicadeza impressionante. Não havia urgência, era mais um beijo com gostinho de saudade, apreciação e muito, muito amor. Eu o correspondi na mesma intensidade.
Algo pontudo começou a cutucar minha coxa. Eu percebi que era a ereção de Tobias. Meu impulso foi mover minha mão até ela e segurá-lo. O volume me fez gemer em excitação. Eu estava ansiosa sobre quando o teria dessa forma novamente, mas ontem à noite ele não havia tentado nada. Nem mesmo quando nos deitamos. Achei que pelo tempo que passamos longe um do outro, essa seria uma das primeiras coisas que ele iria querer fazer. Pelo visto eu estava enganada. Talvez nossa experiência não tivesse sido tão boa para ele quanto tinha sido para mim.
Mas eu o queria tanto...
— Porra, Beatrice. – Tobias gemeu quando eu o segurei mais forte lá em baixo. Ele era grande demais para minha mão e isso só me deixava ainda mais excitada. Queria senti-lo em mim outra vez. Queria aquela sensação de ser preenchida por Tobias. Queria o orgasmo que eu sabia que ele conseguiria me dar. Eu queria tantas coisas... – Nós precisamos parar.
— Por quê? – quebrei o beijo e o soltei. – Eu não sou boa o bastante para você transar comigo?
— O quê? – Tobias parecia confuso.
— Você não gostou do sexo comigo? Porque na noite passada você nem me tocou. E agora quando eu tento você me rejeita. Não consigo encontrar resposta para você agir assim, a não ser o fato de que talvez você não tenha gostado da nossa transa e não saiba como me dizer isso. – eu estava insegura. Não me sentia assim antes, mas o fato dele ter tido alguém tão linda e experiente quanto Cara estava mexendo comigo. Eu não conseguia evitar.
Tobias explodiu numa gargalhada. Isso me deixou furiosa, mas antes que eu pudesse me desvencilhar dele, ele ficou por cima de mim. Seu pênis pressionava minha entrada. Meus joelhos estavam dobrados em cada lado da sua cintura. Ele balançou a cabeça negativamente com um sorriso no rosto.
— É isso que você pensa? – perguntou ainda sorrindo e me olhando com descrença.
— É isso que parece. – me defendi. Não acreditava muito nessa minha teoria maluca, mas não conseguia entender porque ele estava se mantendo tão afastado, mesmo quando eu já tinha dado sinais do que eu queria de verdade.
— Eu estava tentando ser um cara romântico porque você merece romantismo, Beatrice; mas pelo visto você entendeu tudo errado. – ele me olhou sério agora. – Tris, nada nunca foi tão bom quanto estar com você naquela noite. Foi tudo incrível. O sexo passou a ter mais valor para mim depois de você. Quis levar as coisas com calma para que você não pensasse que eu só queria isso de você. Eu quero muito isso, mas é um complemento sabe? Não é o mais importante. O mais importante é você, baby. Mas isso não quer dizer que eu não queira você. – ele riu. – Eu quero muito você, gata. Eu não tenho pensado em nada além da noite incrível que nós tivemos. Eu só... Queria levar as coisas com mais calma desta vez, mas dei uma bola fora. Jamais quis que você se sentisse indesejada, ainda mais quando tudo que eu quero é ter você novamente.
— Você com certeza sabe o que dizer para uma garota. – eu lhe dei um beijo suave. – Mas como eu falei, nós não precisamos fingir que nada aconteceu entre a gente. Nós podemos retomar exatamente de onde paramos.
— Você está o.k. com isso? – assenti. – Então acho que agora é uma boa hora para fazer amor com você.
— Seria, mas você demorou demais e agora nós com certeza nos atrasaríamos e eu não quero atrapalhar você. Posso esperar até a noite por você.
— A questão aqui é se eu consigo esperar até a noite. – ele riu e pressionou sua ereção contra minha entrada. Apertei os olhos e sorri com a maravilhosa sensação que era tê-lo tão junto a mim. – Você me deixou animado. Tudo que eu vejo agora é você.
— Dez minutinhos? – sugeri.
Ele balançou a cabeça.
— Eu ainda estou com muita saudade, então não acho que dez minutos seriam suficientes para matar toda minha vontade de você. – ele disse e enterrou seu rosto na curva do meu pescoço. Inalou profundamente, fazendo com que todos os pelos do meu corpo se arrepiassem. – Eu sinceramente não dou a mínima para as reuniões de hoje. Você me fez uma proposta muito mais tentadora.
— É bem tentador mesmo, mas eu também quero muito ver as crianças. – sorri. – E eu já decidi que não vou ser um peso para você. Nada de atrapalhar os planos da sua carreira como o fodão astro do rock.
— Você me acha fodão? – ele juntou as sobrancelhas, mas me olhava com um sorriso divertido. Dei de ombros como resposta. – Certo. Então vamos tirar esse corpinho lindo fora da minha vista, ou senão eu vou ignorar tudo que você falou e nós não iremos sair dessa cama pelos próximos dez anos.
Uma risada saiu de mim ao mesmo tempo em que Tobias se levantou da cama e me puxou junto com ele.
— Faremos o mesmo esquema de ontem. Você usa o meu chuveiro e eu me viro com o do quarto de hóspedes. – ele falou. Eu assenti. Tomar banho com ele não seria uma boa ideia. Ele estava certo. Eu também estava morrendo de saudade do sexo com ele. Uns minutinhos não seriam o suficiente.
— Só tenho um problema: a única coisa que tenho para vestir é o vestido de ontem, só que ele ainda está completamente encharcado.
— Nita sempre deixou roupas aqui. Eu posso procurar, se isso não te incomodar tanto.
— Eu tenho outra escolha? – perguntei, torcendo para que Tobias respondesse “sim”. Eu não ficaria confortável vestindo algo de Nita, mas parece que não haveria outra alternativa. As roupas de Tobias não serviriam para que eu saísse de casa.
— Não. Desculpe por isso. Mas é só até irmos na Christina, aí lá você se troca. Eu já volto. – ele beijou minha testa e deixou o quarto.
Caminhei até o banheiro e me livrei das roupas de Tobias que eu vestia. Enquanto tomava meu banho, pensava no quanto a vida estava sendo generosa comigo agora. Mesmo sem o meu pai e com uma nova irmã que me odeia, eu estava começando a ser feliz de novo. Eu tinha Tobias, nós tínhamos voltado a ser quem éramos antes de tudo ruir, e estávamos bem de novo. Eu também tinha Will e Christina e muito em breve teria um bebê para nos encher de alegria. Finalmente sentia que pertencia a um lugar novamente.
Eu estava feliz.
Eu estava muito feliz.
Saí do chuveiro e vesti um roupão branco depois de enxugar meu corpo. Enrolei uma toalha no cabelo e voltei ao quarto encontrando um Tobias já vestido com um jeans escuro e um tênis casual. Ele apontou para uma calça dobrada em cima da cama enquanto passava a toalha para enxugar seu cabelo.
— Encontrei essa no quarto que costumava ser o de Nita. Acho que vai servir em você. – ele falou. Eu não conseguia prestar muita atenção no que dizia porque estava concentrada demais no seu peito nu exibido para mim. As gotas de água escorriam por ele de modo que deveria ser proibido olhar. Ele era um pecado. – Apreciando?
— Você é muito bonito. – eu ri. – Eu dei sorte.
— Eu que dei com você, baby. – ele sorriu e estendeu duas camisas de manga para que eu escolhesse. – Essa ou essa?
— Esta aqui. – apontei. – Você fica bem de preto.
Ele assentiu e se vestiu. Dobrou as mangas até o cotovelo e penteou o cabelo. Eu coloquei a calça de Nita e uma camiseta da The Lost que Tobias havia me emprestado. Emprestado na visão dele, já que eu não pretendia devolver. A calça ficou mais justa do que eu esperava, mas servia. Por fim, coloquei os saltos da noite anterior e sequei o cabelo.
— Assim é foda. – Tobias me olhou dos pés à cabeça e sorriu. – Você nem mesmo se esforça e ainda assim consegue ficar linda pra caralho.
— Deus foi generoso comigo. – dei de ombros sorrindo para ele.
Ele riu e me puxou delicadamente para junto dele, me dando um suave beijo na boca. Retribuí na mesma medida, me deliciando do gosto de Tobias e da maravilhosa sensação que era beijá-lo. O sentimento que havia entre nós era algo tão forte e ao mesmo tempo tão calmo. Nós não tínhamos mais aquela urgência de antes; estávamos mudados. Diria até que mais maduros. Talvez fosse necessário passar pelo que passamos de forma tão dura para que amadurecêssemos. Nós estávamos pronto para vivermos nosso amor. Eu sentia isso e poderia dizer que Tobias também. Era nossa hora; nosso melhor momento.
Tobias segurou minha mão o caminho inteiro, mesmo enquanto dirigia. Às vezes ele depositava alguns beijinhos nela e cada vez fazia meu coração derreter em amor ainda mais. Eu o amava tanto. O tempo longe só me fez perceber o quanto minha vida era vazia sem ele. Agora que estávamos juntos novamente, eu não queria me afastar nunca mais. Estava gostando do ritmo de como as coisas estavam caminhando entre nós. Não tínhamos pressa. Apesar da separação dolorosa que tivemos e do tempo que ficamos longe um do outro, nenhum de nós parecia querer apressar as coisas. E eu estava confortável com isso.
Como era quase hora do almoço, nós fomos direto ao hospital. A calça de Nita tinha servido e combinado com a camiseta que Tobias me emprestara, então não tínhamos motivos para passarmos na casa dos nossos amigos apenas para trocar de roupa. Eu não veria Nita de qualquer forma, então ela não armaria uma cena por eu usar algo seu. Só passaríamos lá para que Tobias desse um “oi” e depois seguiríamos para o orfanato.
Quando chegamos ao hospital, usamos a entrada restrita aos funcionários, visto que a principal ainda estava tomada pelos jornalistas que faziam plantão à espera de notícias de Nita. Essa parte da vida de Tobias ainda era um pouco estranha para mim. Quando vim para cá, ele ainda estava na sua pausa e não era de costume ser alvo dos holofotes, mesmo que qualquer um no país ainda soubesse quem era Tobias “Quatro” Eaton. As coisas agora eram diferentes. Não só a fatalidade de Nita tinha acontecido, mas agora também ele estava voltando aos palcos. Eu ainda não sabia como me sentir em relação a isso, mas amava Tobias. Amava muito. Não importa o que aconteça, eu estou pronta para apoiá-lo em tudo que ele decidir.
E a fama, lá no fundo, me animava.
Tobias entrou no quarto que Nita estava internada e eu fiquei esperando por ele no corredor. Estava silencioso, frio e não havia mais ninguém além de mim. Tirei meu celular do bolso no exato momento em que ele vibrou com uma nova mensagem. Era Christina.
Chris: Contei ao Will sobre o bebê. Me liga assim que puder.
Por mensagem tudo parecia bem robótico, não dava para saber se ela estava animada ou não sobre isso. Estava prestes a ligar para ela, mas a porta do quarto de Nita se abriu e Cara saiu de lá. Guardei o celular no bolso e olhei para ela. Ela sustentou meu olhar com o seu. Senti necessidade de conversar com ela. De falar alguma coisa... Qualquer coisa, mas não sabia por onde começar. Não era como se eu quisesse marcar algum território com ela. Minha insegurança ainda não tinha chegado neste ponto e eu confiava em Tobias. No entanto, estava curiosa a respeito da mulher que havia juntado os cacos do homem que eu havia quebrado.
Cara se apoiou na mesma parede em que eu estava encostada, mas manteve uma distância segura entre nós. Ficamos em silêncio por algum tempo. Ela também parecia querer dizer algo, mas nenhuma de nós conseguia encontrar as palavras certas. Na verdade, eu nem sabia ao certo o que queria conversar com ela. Eu só sentia que devia fazer isso.
— Eu o amo. – ela confessou sem olhar para mim. Os olhos estavam fixos na parede branca à sua frente.
— Eu sei. – admiti e era verdade. Eu tinha visto a maneira como ela olhou para Tobias. O jeito como ela o abraçou ontem e o brilho agora nos olhos dela enquanto falava dele eram a confirmação de que ela realmente o amava. Muito.
— Passei o último mês com ele e foi inevitável não amá-lo. Estou completamente apaixonada por Tobias. Qualquer um vê isso.
— Aonde você quer chegar? – me virei para ela. Meu tom saiu mais duro do que eu gostaria. Não estava sendo grossa com ela; só queria saber o motivo dela estar se abrindo comigo sobre seus sentimentos por Tobias. Eu não queria uma competição.
— Eu me importo muito com ele. Tentei construir algo com ele uma vez, mas Tobias estava obcecado por você. Então você foi embora e o destruiu. Em todo meu tempo de amizade com Nita, eu nunca o tinha visto daquele jeito. Ele ficou bem ruim. Consertar a bagunça que você fez deu trabalho, mas eu consegui. Me orgulho em dizer que fui a âncora que Tobias precisava na época para se apoiar.
— Eu não pretendo atrapalhar a amizade de vocês. – disse, imaginando ser esse o motivo para Cara começar a despejar todas essas informações em cima de mim. Eu não iria me meter na amizade deles, a menos que isso em algum momento chegue a ser um empecilho entre Tobias e eu.
— Eu sei que não vai. O que eu quero saber mesmo é o que você pretende fazer agora que voltou. – ela finalmente se virou para mim. Os olhos verdes tinham um fogo diferente neles. Queria manter a pose de durona, mas Cara não me encarava com ódio. Eu tive a impressão de que ela quase gostava de mim. – Eu amo Tobias e vou protegê-lo. Infelizmente ele ama você e não a mim, então preciso saber: você o ama também? Ou só voltou para confundi-lo ainda mais? Porque se isso for um jogo e você resolver ir embora de novo, eu juro por Deus que acabo com você. Ele sofreu muito com a separação. Não vou permitir que nada mais o machuque.
— Eu entendo você e até sou grata por tê-lo ajudado quando eu não estava aqui. – tomei um fôlego antes de continuar. – Eu entendo você porque também estou apaixonada por Tobias. Precisei me afastar para lidar com traumas pessoais, mas a distância e o tempo longe nunca diminuíram o que eu sinto por ele. Não pretendo ir lugar algum. Não posso te dar garantia, mas não pretendo machucá-lo. Nunca mais. Eu o amo muito também.
Cara refletiu por alguns segundos sobre o que eu tinha acabado de falar e em seguida fez a coisa mais inesperada possível: abriu um largo sorriso doce e amigável para mim.
— Era isso que eu queria ouvir. – declarou. – Não vou ficar no caminho de vocês. Eu não quero um homem que não me ama e está mais que claro que meu amor por Tobias nunca será correspondido da mesma forma. Ele nunca olhou para mim do jeito que olha para você. Por um momento eu achei que poderia ter alguma chance, mas depois de vê-lo com você... Simplesmente não vai acontecer. – ela sorriu mais uma vez. – Mas achei que gostaria de saber isso vindo de mim. Não vou atrapalhar.
— Obrigada, eu acho. – eu disse meio sem jeito. Deveria agradecê-la, não? Afinal, ela estava mantendo o caminho livre para mim e havia cuidado de Tobias por todo esse tempo. Mesmo que a ideia deles dois juntos quase me matasse por dentro, eu sabia que tinha de agradecê-la. – Por tudo que você fez.
Cara, mais uma vez, me deu um sorriso amigável.
— Não me agradeça, não fiz por você. – pelo tom de voz que usou, ela não foi grosseira. Pelo contrário, conseguia notar o carinho enorme que ela tinha por Tobias mesmo quando ela não o mencionava. – Espero que vocês dois sejam felizes. Quero muito que ele seja feliz.
Estava prestes a dizer que pretendia fazê-lo feliz quando a porta do quarto de Nita se abriu e um Tobias sorridente saiu de lá. Ele alternou o olhar entre Cara e eu e pude ver a curiosidade sustentada nele.
— Sobre o que as duas estavam conversando? – perguntou com um sorriso desconfiado.
— Nada de importante. – Cara falou primeiro. – Ainda não tinha tido a oportunidade de conhecer a famosa Tris, então aproveitei que você estava lá dentro para batermos um papo.
— Você a assustou, não foi? – Tobias semicerrou os olhos para Cara enquanto envolvia seu braço na minha cintura. O gesto não passou despercebido por ela nem por mim. Eu entendi o recado que Tobias estava mandando e acho que Cara também. Ele estava comigo. Seu gesto de posse era para confirmar isso.
Meu amor por ele só aumentou.
— Nós só conversamos, Tobias. Não fique se achando. – Cara revirou os olhos.
— Então quer dizer que não brigaram feio por mim? – Tobias levou a mão ao peito como se tivesse sido acertado no coração de um jeito bem dramático. – Estou decepcionado.
Cara riu e se dirigiu até a porta do quarto.
— Te vejo por aí. – ela disse a Tobias e me deu um aceno de cabeça antes de entrar no quarto e fechar a porta.
Tobias me virou de frente para ele e beijou minha testa. Ele não conseguia parar de sorrir.
— O que aconteceu lá dentro? Você parece bem feliz. – eu sorri, porque era impossível não ser contagiada pela alegria que saía de Tobias.
— Nita. Ela está... Diferente. Parece mais humana. – explicou. – É como se a pessoa que eu sei que existe estivesse aparecendo para as outras pessoas. É uma merda o que aconteceu. Eu nunca desejaria isso para ela, mas isso de alguma forma a mudou. Tá fazendo ela enxergar melhor o sentido da vida.
— Eu fico feliz por ela. – disse quando começamos a caminhar em direção ao estacionamento. – Mais por você, claro.
Chegamos ao carro, mas antes que eu pudesse abrir a porta para entrar, Tobias me girou de frente para ele e pressionou seu corpo ao meu. Ele tirou um pedaço do cabelo que estava na frente do meu rosto antes de aproximar sua boca da minha e me tomar num longo e delicioso beijo apaixonado.
— Eu te amo. – ele falou me olhando nos olhos. Meu coração disparou. – Os dias sem você foram uma merda total. Eu te amo muito, Beatrice Prior. Não quero apressar as coisas entre nós, porque não quero te assustar e te afastar de novo, mas não consigo mais guardar isso dentro de mim. Eu não quero mais guardar isso para mim.
Lágrimas embaçaram minha visão quando olhei para ele e acariciei sua bochecha. Eu o amava tanto também. Ficar longe dele tinha sido necessário, mas agora que estávamos juntos de novo... Não sei como consegui ficar tanto tempo longe. Eu pertencia a Tobias Eaton. Meu coração seria só seu. Agora entendia o porquê de não ter dado certo com Al. Na época eu fiquei arrasada e chorei por meses sem compreender o motivo de não termos funcionado. A resposta está bem aqui diante de mim. A vida me reservava Tobias. Eu não combinaria com mais ninguém.
— Eu também te amo, Tobias. – respondi com um sorriso enquanto olhava com adoração o homem à minha frente. – Sou completamente apaixonada por você. Isso nunca mudou e duvido que vá mudar algum dia.
Ele riu e beijou a ponta do meu nariz. Suas mãos ainda estavam apoiadas na minha cintura.
— Tem certeza de que não podemos voltar para casa? – seus olhos brilharam.
Eu considerei. Realmente considerei sua proposta, porque tudo que eu mais queria era sentir Tobias em mim novamente. Mas eu também estava com saudade das crianças. Eu queria muito vê-las também e eu devia isso. Tinha ido embora sem mais nem menos. Elas mereciam uma explicação. Principalmente Hector, que já tinha uma cabecinha formada e conseguia entender certos assuntos. Eu precisava explicar porquê fui embora. E tinha Lou. O amor que eu sentia principalmente por esses dois era inexplicável.
— Sinto muito, mas você não é prioridade para mim. – brinquei sorrindo. – Não queira competir com as crianças; elas vêm primeiro.
— Você é teimosa. – ele riu e me soltou, destravando o carro e abrindo a porta para mim.
— Você gosta mesmo assim. – dei de ombros e sentei no banco.
Tobias fez a volta, entrou e deu partida no carro. No caminho até o orfanato nós conversamos sobre Nita. Na verdade, Tobias quem falou o tempo inteiro. Ele estava animado com a recuperação da irmã e com o fato de que agora ela estava mostrando que tinha uma pessoa por baixo do monstro que fazia questão de ser. Nita tinha sido muito cruel comigo desde que eu cheguei aqui. No início achei que fosse por eu estar morando na casa do seu irmão, mas quando a verdade veio à tona, percebi que o motivo era muito mais que isso. Eu esperava que em algum momento nós pudéssemos construir algo. Ela era minha irmã. Ainda não sabia como faria isso, mas gostaria que pudéssemos ter um laço no mínimo amigável. Principalmente agora que eu estava tão apaixonada por Tobias.
— Estive pensando em fazer algo pelas crianças. – ele falou. – Um evento para promover a adoção delas. O lugar foi praticamente esquecido pelo governo, mas se juntarmos a boa mídia que eu tenho, acho que conseguimos achar uma família para todos eles. O que você acha?
Era simplesmente... Incrível.
— Há quanto tempo você vem com essa ideia na cabeça? – perguntei, porque sabia que isso não vinha de agora. Não era segredo que Tobias se importava muito com essas crianças, mas isso que ele estava fazendo... Era tão bonito. Dizia muito sobre quem ele era e sobre como seu coração era bom.
— Já faz algum tempo, mas... Não era o momento certo. Não queria que eles soubessem que só conheci essas crianças porque estava cumprindo pena.
— Eles vão saber... De um jeito ou de outro. – falei. Minha vida nunca tinha sido nos holofotes, mas eu tinha noção de como a mídia funcionava. Eles iam cavar até achar.
— Eu sei, mas agora eu posso usar essa mídia que vou receber para uma coisa boa, não? Posso fazer um show para arrecadar fundos e ainda usar a visibilidade para promover a adoção. Conheço gente influente, gente famosa, que toparia na hora um evento desses. O que você me diz?
— Isso é fantástico, Tobias! – respondi animada. A ideia era muito boa. – E as crianças que não forem adotadas irão ficar num orfanato totalmente reformado com o dinheiro arrecadado.
— Sim. Minha intenção é que todas elas encontrem um lar, mas se isso não acontecer, quero transformar esse lugar no melhor orfanato que já existiu. Você acha que Jeanine vai aprovar?
— Só tem uma maneira de descobrir.
Quando paramos no orfanato e tocamos a campainha, uma inquietação e alegria tomaram conta de mim. Eu estava tão ansiosa para ver minhas crianças. Tinha sentido tanta falta do carinho, da bagunça e do afeto que eu tinha por elas. Todas, sem exceção, haviam me marcado de alguma forma e eu era muito grata por tê-las. Claro que Hector e Lou tinham um lugar especial no meu coração, mas eu amava todas elas.
— Meu Deus, que surpresa! – Jeanine disse assim que abriu a porta e me envolveu num abraço caloroso. – Christina não me disse que você estava voltando.
— Foi de última hora. – eu me encolhi envergonhada. Não por voltar, mas sim por ter deixado este lugar.
— E olhe só para você! – ela virou-se para Tobias. – Eu até entendo os motivos que levaram Tris nos deixar, mas você? Achei que tivesse gostado de nós quando ficou mesmo quando seu tempo de pena já tinha sido cumprido, mas pelo visto eu estava enganada.
— Não, não estava. Eu amo esse lugar, Jeanine. – ele sorriu. – E amo ainda mais essas crianças. Eu só precisava de um tempo para lidar com... Problemas pessoais.
— Ah, sim. Christina me falou do pé na bunda que você tomou. – Jeanine zombou e eu não pude segurar o riso. Chris adorava uma fofoca. – É bom ter vocês de volta.
— É bom estar de volta. – Tobias e eu dissemos juntos e nós três caímos na risada ao perceber que não tinha sido nada planejado.
— Onde estão as crianças? – perguntei quando Jeanine nos convidou para entrar e fechou a porta atrás de nós.
— Estão lá no quintal. – ela respondeu com um sorriso. – Temos um casal de voluntários que meio que supriu a falta de vocês, mas elas vão adorar saber que os dois estão aqui. Sentiram muita falta. Principalmente de você, Tris.
— Ai. Essa doeu. – Tobias riu e nós três fomos em direção ao quintal dos fundos.
Ao chegar lá, me deparei com um monte de crianças correndo, gritando e pulando. Elas estavam espalhadas por toda parte. Umas brincando com a bola, enquanto outras sopravam bolhinhas de sabão e as estouravam. O que me surpreendeu não foi o fato delas estarem felizes e bem sem a gente. O que me surpreendeu foi encontrar dois rostos adultos conhecidos no meio delas: Uriah e Marlene.
— Ei crianças, olha só quem veio nos visitar! – Jeanine gritou, atraindo a atenção de todos aqueles olhinhos curiosos.
Levou apenas dois segundos antes que eu fosse devorada por abraços aconchegantes de todos eles.
— Tia Tris! – um deles gritou.
— Você cortou o cabelo! – May, de oito anos, sorriu e estendeu a mão para tocar meus fios. Eu ri e me abaixei para ficar na altura dela. – Ficou lindo.
— Sentimos saudades, tia Tris. – Emilly me encheu de beijos, enquanto Thomas e Theodoro se espremiam para me abraçar.
— É. A tia Christina não é tão legal como você. – falou Eli.
— Às vezes ela se irrita com nossas brincadeiras. – declarou Jace com um sorriso travesso, enquanto lançava um olhar cúmplice a Eli.
Eu ri e dei um abraço coletivo em todos eles. Movi meus olhos na direção de Tobias e o vi ser recebido pelas demais crianças com o mesmo carinho que tinha sido dado a mim. O grupinho que estava comigo correu para ele e eu ri da confusão quando todos eles tentavam falar ao mesmo tempo.
Virei meu rosto a tempo suficiente para ser surpreendida com mãozinhas quentinhas me envolvendo num abraço.
Meu coração se partiu quando ouvi os soluços de Lou e senti suas lágrimas molharem minha roupa. Apertei-a contra mim o máximo que pude e acariciei seu cabelo, sentindo minhas próprias lágrimas embaçarem meu campo de visão. A ligação que eu tinha com ela era algo que eu não conseguia explicar. Ia além. Era como se eu sentisse que ela, de alguma forma, era minha.
— Saudade, tia Tlis. – foi tudo que ela disse para em seguida cair no choro novamente.
— Eu também senti saudade, meu amor. – funguei e beijei sua bochecha. – Desculpe ter passado tanto tempo sem vir aqui. Eu sinto muito por isso.
— Tudo bem. – ela se afastou apenas o suficiente para que eu pudesse ver seu sorriso. – Focê foltou. Eu te amo.
— Eu te amo muito mais, querida. – lhe dei mais um beijo e enxuguei nossas lágrimas.
— Eu posso foltar pala bincar ou focê fai embola de novo? – ela inclinou a cabeça.
Eu ri e toquei a ponta do seu nariz.
— Pode brincar, meu amor. Eu não vou a lugar nenhum. – eu assegurei e ela assentiu, antes de correr para onde estavam as demais crianças.
— Onde está Hector? – Tobias perguntou à Jeanine antes que eu pudesse dizer a mesma coisa.
Ela nos deu olhar cauteloso antes de responder.
— Ele costuma ficar mais sozinho desde que vocês foram embora. – Jeanine soou triste. – Ele mal sai do quarto a não ser para comer. Está deprimido. Não lidou bem com a ausência de vocês como os outros lidaram. Eu sinto muito.
Meu peito queimou. Eu podia imaginar como Hector estava se sentindo. As últimas palavras que eu havia dito a ele era que eu jamais o abandonaria. E então eu parti sem lhes dar qualquer explicação.
Eu precisava me desculpar.
— Podemos vê-lo? – perguntei.
— Claro.
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