Estranha Perfeição
17 Capítulo XVII
Notas iniciais
BEATRICE PRIOR
Eu não me lembro de uma vez sequer ter dormido tão bem na minha vida depois que minha mãe ficou doente. Por mais que ela insistisse dizendo que eu precisava descansar, eu me recusava a deixá-la e dormia no seu quarto. Inúmeras vezes eu acordei com ela vomitando sangue e gemendo de dor. Não gostava dessa lembrança dela. Sua morte ainda estava sendo difícil de superar.
Expulsei os pensamentos e olhei ao redor do quarto: não havia mais ninguém naquele enorme cômodo além de mim. Levantei com cuidado, sentindo minha barriga latejar. Eu ainda estava com o curativo da noite anterior, então fui até o banheiro e o retirei, jogando-o no lixo e me despindo. Olhei para a banheira e mal podia esperar para desfrutar da sensação que era estar dentro dela. Torcia para que minha recuperação viesse o mais rápido possível.
Liguei o chuveiro e tomei uma ducha. Enxaguei o cabelo, enquanto me perdia nos pensamentos. Será que quando eu melhorasse o sentimento de culpa que Tobias sentia também iria embora? Ele iria me mandar de volta para o quartinho? Todo o carinho que ele estava tendo por mim era apenas uma ilusão? Não. Eu não achava que ele estava agindo apenas pelo que sua irmã fizera. Eu acreditava que Tobias gostasse de estar comigo, como ele havia me falado na noite passada. Nosso jantar tinha sido tão bom. Ele não tinha me pressionado para falar sobre assuntos que eu não estava preparada e tinha sido agradável estar com ele. Na verdade, tinha sido bem mais que agradável passar a noite com Tobias.
Saí do chuveiro e me enrolei numa toalha. Usei o secador do banheiro para secar meus fios e escovei os dentes em seguida. Fui até o quarto e abri minha mala, tirando um vestido branco de alça fina que ia até a metade das minhas coxas. Ele tinha ficado um pouco curto com o passar do tempo, mas graças a sua saia solta rodada, o vestido ainda servia em mim. Fiz um novo curativo na minha barriga, passando a pomada e enfaixando o local, e somente quando estava acabado, pus minha roupa e prendi meu cabelo em um rabo de cavalo.
Arrumei toda minha cama, dobrando os lençóis e pondo todos os travesseiros no seu devido no lugar. O ambiente não cheirava a mofo como um quarto desocupado normalmente faria. Aqui tinha cheiro de rosa e lavanda, combinando com sua decoração elegante. Só depois de ter a cama feita, notei que havia um bilhete na cômoda lateral. Reconheci a caligrafia de Tobias instantaneamente.
Eu não quis acordá-la. Terei café da manhã preparado quando você se levantar. Me encontre no jardim, porque tenho uma surpresa para você.
A propósito: você é linda quando dorme.
Tobias.
Era impossível conter o sorriso que eu tinha estampado no meu rosto. Todos os pensamentos negativos sobre Tobias foram embora tão rápido quanto vieram. Ele gostava de mim; ele se preocupava comigo. Era o segundo bilhete que me deixava. Pode parecer bobo, mas eu tinha aqueles simples lembretes como algo significativo. Eu tinha certeza de que ele realmente me queria por perto. Ainda mais pelo elogio no final que me deixou vermelha como uma pimenta.
Quando abri a porta do quarto e comecei a descer as escadas, não vi ou ouvi sinal de mais ninguém por ali. Só então quando avancei para a cozinha, os gritos e as risadas – embora fracos – dominavam todo o local. Das janelas do cômodo, pude ver cada criança e reconhecer todas do Orfanato. A imagem de Tobias na piscina sorrindo para a pequena Louisa fez meu coração se derreter. Como podia alguém me afetar tanto?
Abri a porta dos fundos e saí para o jardim. Avistei Jeanine debaixo da parte sombreada pelo teto de madeira, próximo à churrasqueira. Ela mantinha seus olhos na piscina, observando cada criança que se movimentava. Eu me perguntei quanta atenção aquela mulher tinha. Era impressionante. Embora todos os pequenos estivessem com boias de braço ou de peito, manter os olhos neles nunca seria demais.
Ao me aproximar da piscina, alguns dos meninos me notaram e sorriram ao me verem, chamando meu nome, fazendo com que Tobias vire seu rosto e pouse seus olhos em mim. Não sei se é a profundidade deles ou se é apenas o fato de ele me observar, mas quando ele o faz sinto meu estômago dar um giro. Tobias beija o topo da cabeça de Louisa e cochicha algo em seu ouvindo, fazendo com que ela dê uma risadinha e acene para ele. O carinho entre os dois é nítido, o que faz com que eu me maravilhe ao observá-los.
Quando Tobias ergue seu copo e sai da piscina, é até mim que ele faz o seu caminho.
– Ei, linda. – ele sorriu, mantendo certo espaço entre nós, para que eu não me molhasse com os respingos que caíam do seu corpo. Tobias não vestia nada além de uma bermuda praiana e isso deixou seus músculos e bíceps totalmente notáveis, fazendo com que eu reprimisse um suspiro. Por que ele tinha que ser tão lindo? Eu já o tinha visto assim antes, mas agora eu sabia a sensação de tocar a sua pele e eu queria fazer isso novamente. Muito.
Quando tornei a olhar para seu rosto, seus lábios estavam curvados para cima em um sorriso malicioso, comprovando que ele sabia exatamente o jeito como eu o estava avaliando. Droga. Eu precisava ser mais discreta às vezes.
– Ei. – foi tudo o que respondi, desviando o olhar do dele.
– Você dormiu bem? Eu iria acordá-la, mas você estava tão descansada que não consegui. – ele sorri para mim.
– Que horas são? – eu juntei as sobrancelhas.
– Quase onze. – minha boca caiu quando ele respondeu, fazendo com que Tobias soltasse uma gargalhada. – Não faça essa cara. Não é muito tarde. As crianças vão ficar aqui até as cinco, então você ainda tem tempo com elas. – ele pausou. – E comigo. – completou, seguido por uma piscadela. – Venha, eu preparo algo para você comer.
– Eu sei cozinhar, sabia? – ironizei, quando ele abriu um sorriso singelo para mim.
– Sim, mas gosto de fazê-lo por você. – Tobias me deu um sorriso de jogador, que eu tinha certeza de que ele sabia exatamente o que estava fazendo. Flertando. Tobias estava flertando comigo. Ok. Para onde tinha ido o oxigênio do lugar?
Nesse momento, Louisa – a garotinha do orfanato – se aproximou e parou no meio de nós. Ela tinha apenas seis aninhos, mas era uma das mais espertas. Seu cabelo era na altura dos ombros, escuros como o de Tobias, mas coberto por perfeitas ondulações. Os olhos eram castanho-claro como mel e sua pele era clara como a minha. Ela era, definitivamente, uma das mais bonitas crianças que eu já tinha visto. Era gentil, amável, carinhosa e muito, mas muito divertida. Muitos dos que apareciam para adotá-la ficavam encantados, mas descartavam a ideia quando viam que ela tinha dificuldades na fala e apresentava sinais de dislexia.
– Oi, Eu posso ficar com focês? Jon e May jogam ága em eu. – ela franziu a testa, o que a fez parecer ainda mais adorável. Olhei para Tobias, que sorriu para mim antes de se voltar para Lou.
– Depende. – ela encolheu os ombros. – Só se você prometer que não vai contar aos meninos onde eu guardo meus chocolates. – Louisa abriu um sorriso e começou a concordar com a cabeça freneticamente.
– Eu pometo. – ela olhou para Tobias com um olhar sincero, fazendo-o soltar uma pequena risada. Ele a ergueu em seus braços e Lou enlaçou suas mãozinhas em volta do pescoço de Tobias.
– Ok, vamos lá então. – ele me apontou a direção e eu segui. Sorri para Jeanine, que nos observava por um mísero segundo e fui atrás de Tobias.
Ao entrarmos na cozinha, Tobias colocou Louisa em cima do balcão de mármore e beija, novamente, o topo de sua cabeça, antes de se voltar para mim.
– O que você quer? Há cereal e leite na geladeira, mas eu fiz café mais cedo e posso esquentá-lo se você preferir comer um sanduíche ou qualquer outra coisa. – ele diz, abrindo a porta de um dos armários. – Tem material para panquecas, mel...
– Cereal ao leite está bom. – sorri e ele retirou uma tigela e um talher do armário. Eu não queria que ele fizesse tudo por mim, mas esta era a sua cozinha e eu não sabia onde ficavam as coisas, aliás. Tobias despejou o cereal na tigela e pôs leite, entregando-a para mim logo em seguida. – Obrigada, mas eu posso fazer as coisas para mim.
– Você está queimada. – ele aponta para minha barriga.
– Não é grande coisa. – dei de ombros e levei a colher até minha boca, começando a saborear meu café da manhã. – Estive em situações bem piores e consegui lidar sem nenhum problema.
– Eu não estava lá para você, no entanto. Só que agora estou. – ele respondeu e voltou sua atenção para Lou. Eu estava impressionada com o fato de que ela tinha estado calada desde a hora que entramos. – Ei, menina bonita.
– Eu quelo cocolate. – ela fez beicinho e algo nos olhos de Tobias brilhou. Ele sorriu e se afastou, pegando um pote de vidro repleto de chocolates e estendendo à Lou, para que ela pudesse escolher.
– Aqui está seu “cocolate”. – ele verbalizou, numa tentativa falha de imitar sua voz. Eu apenas os observava.
Louisa ficou indecisa entre duas opções de sabores e Tobias permitiu que ela pegasse as duas. Ela fez um sinal com os dedos, jurando que não iria contar a ninguém, o que fez com que Tobias e eu déssemos uma gargalhada. Lou nos seguiu, mas seus olhos pararam em mim quando ela abriu um sorriso e falou:
– Tia Tlis, focê é namolada dele?
Embora a pergunta fosse inocente e sem alguma intenção de me constranger, senti que fiquei vermelha e me recusei a olhar para Tobias. Eu não queria vê-lo com aquele maldito sorriso insinuador maravilhoso, mesmo que não houvesse nada entre nós, o que era bem estúpido da minha parte pensar nele de outra forma. Tomei uma respiração e pensei numa resposta convincente para Lou. A garota não deixada nada passar despercebido.
– Tobias e eu... – minha voz estava vacilando, então eu pigarreei antes de continuar, dessa vez soando mais firme. – Nós somos apenas amigos. Assim como Jon e May, Lia e Emily... Só amigos.
– Não acledito. – ela semicerrou os olhos. – Eu fico de ôio em focês. – Lou fez mais um sinal com as mãos, apontando para seus próprios olhos e em seguida para Tobias e eu, fazendo jus a sua expressão de “ficar de olho”.
Tobias explodiu em uma gargalhada e eu o segui. Louisa estava adorando ser o centro das atenções, pois batia palminhas e sorria alegremente para nós. Ela ainda estava com suas boias de braço da Cinderela, mas seu cabelo já não pingava mais.
Terminei de comer meu cereal e me levantei, colocando o prato e o talher dentro da lava-louças, enquanto Tobias ensinava um comprimento de mãos para Lou. Eles eram tão adoráveis juntos que eu podia facilmente ter um vislumbre de como seria Tobias sendo pai.
– Vamos voltar para os outros. – Tobias diz, tirando Louisa de cima do mármore e a apoiando em seus braços. Ele pousou seus olhos em mim. – Tris, você pode pegar os chocolates para distribuirmos? Está bem naquele armário. – ele direcionou e eu obedeci.
– Quem quer chocolates? – gritei, tendo a atenção de todas as crianças, enquanto elas viravam a cabeça e começavam a pedir animadamente.
Entreguei um pacote a Tobias e começamos a distribuir. Eu recebia inúmeros “obrigado, tia Tris”, enquanto me espalhava por eles. Na verdade, não eram muitas crianças. Em torno dos vinte e cinco a trinta. Nosso orfanato era pequeno. Um dos menores de Miami e por isso Jeanine conseguia dar conta sozinha.
Hector, um dos mais velhos do grupo, estava mais afastado, abraçado aos joelhos, enquanto olhava fixamente para algo à sua frente. Me aproximei de Jeanine quando acabei de entregar todos os chocolates do pacote, deixando dois para Hector.
– O que há com ele? – perguntei apontando na direção de Hector, baixo o suficiente para que ninguém além dela pudesse ouvir.
– Ele está distante. É uma criança muito boa, mas reservada. Eu já lhe perguntei o que é, mas ele me diz que não há com o que se preocupar. Talvez ele fale para você. – ela sorriu.
Me aproximei de Hector e sentei ao seu lado. Ele não moveu um músculo sequer para me olhar, mas eu podia dizer que ele sabia que era eu quem estava com ele. Eu o observava desde o meu primeiro dia no orfanato. Apesar dos seus onze anos, ele era muito inteligente para os meninos de sua idade. Observador, sincero e confiável era umas das suas principais qualidades. Seu cabelo era castanho e repleto de cachos que o deixavam encantador. A íris era cor de mel, como os de Louisa. Ele não havia sido adotado porque os que apareciam, não o queriam por ser “velho demais”.
– Ei. – cumprimentei, mas ele não virou seu rosto para mim.
– Oi, Tris. – ele me respondeu.
Havia mais sobre Hector também; ele era o único no orfanato que não me chamava de “tia Tris”.
– O que há de errado? – eu acariciei suas costas. – Não está se divertindo?
Ele virou seu rosto para mim.
– É esse o problema. – ele diz e eu não entendo nada até que ele começa explicar. – Eu sei que Tobias está cumprindo pena conosco e que o prazo dele foi de um mês. Já tá acabando. Como nós vamos nos divertir quando ele não estiver mais com a gente? Jeanine nos leva para o parque com alguns voluntários, mas não se compara a isso aqui. – seu olhar vai para enorme piscina centrada no quintal. – Eu nunca estive em uma piscina antes. Eu não sabia que era tão bom.
– Você não precisa se preocupar com isso agora, Hec. Logo uma família irá lhe adotar e você terá uma piscina ainda melhor que essa. – eu sorri, encorajando-o.
Ele riu, embora sua risada não enganasse a ninguém. Eu, melhor que ninguém, sabia reconhecer um coração dolorido de longe.
– Não vão me adotar, Tris. Quando eu ficar mais velho, irei para a casa dos adolescentes. Depois disso, vou ter que me virar sozinho.
– Não é assim, Hector. Alguém vai aparecer. Basta ter esperança.
Ele acenou com a cabeça, embora não acreditasse muito bem no que eu falava. Tomei os dois chocolates que eu tinha separado e os coloquei em sua mão. Hector sorriu para mim e retirou o plástico de um, dando a primeira mordida.
– Obrigado por ficar com a gente, Tris. Sei que damos muito trabalho às vezes e deve ser cansativo para você.
– Não diga isso. – eu brinquei com seus cachos. – É ótimo ficar com vocês.
Ele riu, mas não disse mais nada. Ouvimos as ordens de Jeanine dizendo que estava liberado entrar na piscina e Hector sorriu para mim, antes de correr e entrar num pulo, fazendo a água espirrar e molhar toda a borda. Eu ri, me levantei e procurei por Tobias. Ele não estava mais com Lou em seu colo.
Me aproximei e fiquei ao seu lado.
– Como está sua barriga? – ele perguntou, virando-se para mim.
– Me sinto bem. Já posso voltar a trabalhar.
– Nem pensar. – Tobias fez uma carranca. – O médico recomendou duas semanas, Tris, e não dois dias.
– Não foi grande coisa. – dei de ombros.
Ele balançou a cabeça negativamente, fazendo com que eu soltasse um riso.
– Por que você quer me manter agora se antes tudo que você queria era se livrar de mim?
Não quis soar com mágoa, mas minha voz falhou nisso. Tobias me deu um olhar triste, mas ainda sorriu para mim. A dor em seus olhos esmagou meu coração. Eu não gostava desse olhar. Eu gostava dele quando ele estava esbanjando felicidade.
– Você consegue dizer isso sem me fazer sentir ainda mais culpado?
– São fatos.
– Fatos passados. – ele suspirou. – Você ainda não pegou a dica, não é?
– Que dica?
Quando ele ia responder, a campainha da casa tocou e, embora soasse um pouco mais fraca no quintal, nós conseguimos ouvir. Tobias me deu um sorriso de desculpas, encolhendo os ombros.
– Deve ser Christina. Você atende e eu vou usar interfone para saber da comida. – ele pôs a mão nas minhas costas e me guiou até a porta dos fundos, parando na cozinha e eu seguindo até o salão principal.
Não usei o olho mágico. Destravei a porta e abri, congelando onde eu estava. Meu coração parou e todo o oxigênio que eu tinha sumiu para algum lugar. Eu podia sentir o sangue disparado pelas minhas veias. Ela também arregalou os olhos a me ver e uma postura tensa estava se formando sob ela. Nita pressionou os lábios, formando uma linha fina, os olhos irradiam o ódio que tinha por mim que eu ainda não conseguia entender.
– Onde está o meu irmão? – ela disparou.
Eu hesitei. Ainda não estava prepara para vê-la. O que ela tinha feito comigo no clube ainda estava fresco e eu tinha marcas em meu corpo agora que eu iria carregar para sempre.
– Por que você me abriu a porta? Quem você pensa que é? – sua voz era tão fria que eu senti vontade de me encolher. Ela era muito intimidadora quando queria. – Eu te fiz uma pergunta. Você é burra o suficiente para não entender o que eu estou falando ou o quê?!
Eu ia abrir a boca, mas a voz de Tobias me impediu de fazer isso.
– Tris, por que você ainda... – ele parou de falar quando percebeu que Nita estava do lado de fora da casa. Eu já sabia o que estava por vir, mas tudo que eu pensava que sabia foi por água a baixo quando Tobias ficou atrás de mim, pondo ambas as mãos na minha cintura. Sua irmã desceu o olhar para onde ele tinha me tocado e a raiva em seus olhos aumentou ainda mais. Eu não sabia que era possível. – Olá, Nit.
– Por que ela está aqui? – ela não escondeu a fúria na sua voz. Nita me odiava e não lhe dava o trabalho de esconder isso.
– Por que você está? – Tobias devolveu e eu me surpreendi mais uma vez. Ele não estava permitindo que sua irmã me atacasse.
– Cristo, Tobias, você é meu irmão! – Nita perdeu o controle. – Ela é só uma boceta que você comeu.
– Bata a merda em outro lugar, mana. – Tobias tentava controlar a raiva na sua voz. – Se veio aqui para atacar Tris, vá embora. Ela vai ficar com marcas pelo resto da vida por sua causa. O mínimo que você poderia fazer por ela seria parar de agir como uma vaca mimada e pedir desculpas.
– Eu vim me desculpar com você e não ela, mas se você prefere sua bunda imunda em vez da irmã que sempre esteve ao seu lado, então foda-se você! Só não venha correr para mim quando isso acabar. Vá para o inferno! – ela gritou, então girou nos calcanhares e correu até sua Mercedes.
Quando Nita não estava mais no nosso campo de visão, Tobias rapidamente tirou suas mãos da minha cintura e soltou um suspiro. Era notável para qualquer um que ele odiava ter que discutir com sua irmã. Ele amava Nita, mesmo ela sendo tão arrogante.
– Às vezes eu só gostaria que ela voltasse a ser como antes. Eu detesto magoá-la. Dói em mim também, mas se essa é a única maneira de consertar a merda que ela se tornou, terei que fazê-lo. – ele não esperou por resposta qualquer resposta minha. Saiu e me deixou para, ainda segurando a porta.
Quando eu estava prestes a fechá-la, Christina apareceu na minha frente. Ela tinha um sorriso malicioso nos lábios, o que significava que ela tinha assistido a algum momento em que Nita armava essa cena. Minha amiga achava que isso era divertido, embora eu insistisse em convencê-la a não pensar dessa maneira.
– A vaca saiu daqui fervendo arrastando o carro dela. O que você fez? – ela riu.
Eu odiava o clima tenso que estava aqui agora. Tobias tinha se afastado, com a mágoa, culpa e o ressentimento estampado em seu rosto. Eu queria poder fazer alguma coisa para que ele voltasse a ter o semblante de mais cedo.
– Não acho que eu fiz algo. Ela só me odeia. – eu disse, dando um passo para trás, para que Christina pudesse entrar e logo em seguida fechei a porta atrás dela.
– O gostosão ali a colocou para correr? – ela disse, soltando uma risada, ecoando por toda casa.
– Não dessa forma. Ele só está tentando fazer com que ela pare de ser tão mimada. É para o próprio bem.
– Eu sei. Você está fazendo um ótimo trabalho com ele, Tris. Tobias nunca pôs Nita em seu lugar e é bom saber que ele abriu o olho para a megera que é a irmã dele.
– Ela deve ter seus motivos. – eu tentei explicar, enquanto guiava Chris para o quintal da casa.
– Acredite, não é bom o suficiente. – ela deixou escapar e eu senti como se ela soubesse de algo que eu não sabia. – Onde estão as crianças? – Chris desconversou.
– No quintal. – eu apontei com a cabeça.
– Sua barriga está melhor?
– Como nunca. Eu estou vendo se ainda volto para o trabalho ainda essa semana. – sorri.
– Você deveria seguir as instruções do médico, sabe? Ele é especialista.
– Não foi nada, acredite em mim.
– Não sei porque você faz tanta questão de ir para lá. Se todos me amassem como amam você, eu com toda certeza tiraria vantagem disso. – ela riu.
– Não é tão legal ficar sem fazer nada.
– A questão é que você não vai ficar sem fazer nada sozinha. Aposto que o bonitão ali não faz questão que você trabalhe.
– Nós somos apenas amigos, Chris. Pare com essas besteiras. – eu balancei a mão para que ela parasse de falar, enquanto minha amiga apenas soltava uma gargalhada, fazendo as crianças nos notarem quando chegamos.
– Tia Chris!!! – elas disseram em conjunto, fazendo com que minha amiga corresse para borda da piscina e beijasse o topo da cabeça de cada um.
Eu procurei por Tobias e o encontrei no canto mais afastado, olhando para o nada respectivamente. Eu queria ir até ele e abraça-lo. Não somente por ter me defendido das garras de Nita, mas porque sabia que ele estava sofrendo com essa turbulência familiar. E eu sabia que isso era tudo minha culpa. Se eu não tivesse aparecido aqui, sua vida perfeita ainda estaria intacta.
Quando o relógio bateu às cinco da tarde, as crianças rugiram em protesto sobre ir embora. Eu ri da situação e Tobias lhes prometeu uma segunda vez, não muito distante, o que diminuiu um pouco o alvoroço dos meninos. Eu confesso que essa pequena atitude e a forma como ele abraçou cada criança encheu meu coração de amor. Tobias tornava difícil não se apaixonar por ele quando ele agia dessa maneira.
Me despedi de Christina, que aproveitou a van alugada por Tobias para levar as crianças de volta como uma ótima carona, já que o caminho do Orfanato era próximo da sua casa. Ela sorriu para Tobias como despedida e pulou no banco da van. Nós dois acenamos quando eles partiram, então voltamos para dentro de casa.
– Você está bem? – eu perguntei quando um silêncio constrangedor se instalou por nós.
– Sim. Eu só preciso de um tempo. Tudo bem por você? – embora aparentasse estar cansado de tudo, Tobias ainda era gentil e se importava com o que eu pensava.
– Claro. Eu estarei aqui em baixo, se você precisar. – eu ofereci, embora duvidasse que ele iria precisar de mim em algum momento. Tobias acenou e subiu as escadas, sumindo da minha vista.
Eu fui para o quintal e comecei a limpar a bagunça que as crianças haviam feito. Juntei todas as embalagens de chocolates e todo lixo em um saco plástico e o coloquei no lugar da coleta. Enquanto eu tentava me distrair arrumando tudo, mesmo sendo recomendada a ficar de repouso, era inevitável não pensar em Tobias. Ele estava em todo lugar em que eu insistia olhar.
Demorei tanto quanto pude para terminar de limpar tudo e quando o fiz, já era noite. Tobias ainda havia descido do quarto, então eu decidi subir para o meu e tomar um banho. Lavei meu cabelo e o sequei, optando por um vestido solto púrpura, já desgastado pelo tempo. Não prendi o cabelo. Deixei-o solto e pus um chinelo de dedo. Fiz outro curativo na minha barriga e tomei o antibiótico, antes de sair do quarto e fechar a porta.
Quando desci e não vi sinal de Tobias, esperava que a decepção não rasgasse meu peito. Eu não sabia dizer se ele estava me evitando ou se apenas precisava de um tempo para encarar tudo aquilo.
Fiz meu caminho até a sala do piano e me sentei a ele, posicionando minhas mãos e tentando me lembrar das melodias que minha mãe costumava tocar. Uma muito familiar, que ela sempre tocava em meu aniversário me veio à mente e eu decidi que seria essa a tocar. Mamãe adorava o filme “Um Amor para Recordar” e a música tema do filme era uma de suas favoritas. Embora eu achasse o filme muito depressivo, eu me sentava com ela e a ouvia comentar sobre como o ator era bonito e que ele estaria em algum lugar esperando por mim. Segundo Natalie, eu era a filha mais bonita já existida na Terra e deveria ganhar um prêmio por isso.
(Dê o play antes de continuar. Essa é a música.)
Iniciei a introdução e a música saiu com facilidade. Podia enxergar a imagem da minha mãe sentada, sorrindo para mim, enquanto recitava a melodia. Toquei até que meus dedos doessem, não querendo perder a imagem da minha mãe nem por um segundo. Quando minha mão começou a latejar, eu parei, sentindo uma lágrima cair.
– Você está bem? – a voz rouca inconfundível preencheu o silêncio que eu provoquei.
– Sim. – eu respondi, enxugando a lágrima solitária da minha bochecha.
– Você não parece bem. – Tobias falou, aproximando-se de mim e sentando ao meu lado.
– Você também não.
– Lidar com Nita é mais difícil do que você imagina. – ele falou com sinceridade.
– Sentir saudade da minha mãe é doloroso às vezes. – me abri com ele.
– Eu sei que sim. – ele me puxou para um abraço e eu repousei minha cabeça em seu ombro. – Desculpe por deixá-la sozinha até agora. Eu só precisava pensar um pouco e eu não faço isso direito quando estou com você por perto. – ele riu.
– Nunca foi minha intenção atrapalhar você em algo, mesmo sabendo que eu tenho feito isso. – eu respondi, me referindo a sua relação com Nita. Queria me desculpar com ele.
– Você sabe que não é sua culpa, não é? Minha irmã não merece que você se sinta assim por uma merda que nem é sua. Ela tem que arcar com as consequências, Tris. Já tinha passado da hora de alguém repreendê-la. Sinto muito por você ter enfrentado ela hoje. Eu não fazia ideia de que ela iria aparecer aqui.
– É a sua casa e ela é sua irmã. Se tiver alguém que está fora aqui, essa pessoa sou eu.
– Não fale dessa forma. Nita plantou o inferno dela em você. Ninguém merece ser tratado da maneira que você foi e nem merece o que ela fez com você.
– Por que está me tratando diferente? Por que está me colocando acima dela? Eu não consigo entender.
– Eu pensei que sabia quem você era quando pôs os pés na minha sala, mas eu estava tão errado, Tris. Você é linda, gentil, doce e amável. É difícil não ficar encantado por você quando você é apenas você. Você encara e aceita a vida como ela é. Não choraminga ou faz birra por ter uma vida mais difícil que a maioria das garotas da sua idade; apenas ergue a cabeça e luta para sobreviver. Você é o melhor exemplo que eu pude observar. Foi forte quando a vida quis que você fosse fraca. Sorriu quando deveria ter chorado. Você ajudou todo mundo, mesmo quando ninguém ajudou você. – ele levantou o queixo para que eu pudesse olhar para ele. Tudo o que eu sentia era uma explosão de confusão. – Você é o meu oposto. Eu nunca estive perto de alguém que fosse tão honesto e justo como você. Estou tentando consertar a merda que fiz antes que seja tarde demais. Agora que sei o que é ter você na minha vida, não posso abrir mão disso. É por isso que eu a trato diferente agora. Quero mantê-la comigo até você dizer basta. – ele me deu um olhar sincero, o que confirmava o que ele dizia. – Quero você, Tris.
Eu não tinha palavras no momento que pudessem explicar o que eu estava sentindo. Era tudo tão novo. Nem mesmo com Al havia sido dessa maneira. O que eu sentia por Tobias era mais. Muito mais, mesmo eu não entendendo nada do que se tratava. Quando seu olhar desceu para a minha boca, eu já não me importava com nada. Eu só queria sentir seus lábios nos meus novamente. Então o fiz. E o beijei com tamanha paixão.
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