Estranha Perfeição
12 Capítulo XII
Notas iniciais
TOBIAS EATON
Mais uma vez, eu não tinha conseguido dormir naquela noite também. Isso estava tirando a minha paciência. Caramba. Ela estava me afetando. Eu não podia deixar que ela me afetasse, caralho. Não ela. Fechei os olhos e resmunguei muitos palavrões. Eu estava no meu quarto, andando de um lado para o outro, no meio da madrugada, malditamente inquieto. Eu me sentia mal sabendo que ela estava dormindo naquela porra de quarto. Isso estava me incomodando cada vez mais. Mas eu não poderia muda-la para o quarto de cima. Nós precisávamos de distância. Estava sendo uma tortura estar perto dela no orfanato. Se eu a deixasse se aproximar mais, isso seria meu fim. Nita nunca iria me perdoar e eu não queria perder a minha irmã.
Eu tinha dormido apenas duas horas, porque tinha esquecido de fechar as malditas cortinas. Tinha golfe marcado com Nita as nove no Teller’s Clube e precisava me apressar. Tomei uma ducha fria no banheiro, escovei meus dentes e me aprontei para levar a minha irmã ao clube. Desci as escadas e fui para cozinha.
O som do piano ecoou por toda casa e eu suspirei. Tris estava lá novamente. Eu imaginei que fosse sua folga hoje, pois a essa hora da manhã, ela já estaria no clube trabalhando no carrinho de bebidas. Eu suspirei, aliviado. Não teria que lidar com Tris e Nita enquanto jogava golfe. Seria uma dor de cabeça a menos.
Peguei minha xícara e fui até a sala do piano. Eu nunca tinha deixado ninguém entrar aqui, mas o fato de ter visto Tris naquele dia, tocando como se fosse um anjo enviado do céu, eu quebrei essa regra. Ela era a minha exceção. Além dela, ninguém mais poderia entrar aqui. Nem mesmo a minha irmã, ou o meu irmão.
Quando cheguei lá, ela tinha parado de tocar. Tinha o mesmo olhar distante. Eu me encostei ao batente da porta e cruzei os braços, com a xícara em uma das minhas mãos.
– Ei. – ela disse e se virou para me olhar. Tris tinha sentido que eu estava aqui.
– Bom dia. – eu respondi e não segurei o sorriso leve em meus lábios. Eu gostava de tê-la aqui, com o meu piano; com as minhas coisas. – É a sua folga? – eu já sabia a resposta, mas queria conversar com ela.
– Sim. – ela respondeu. – E do orfanato também.
– Jeanine me falou. Eu agradeci, porque aqueles pestinhas estavam me dando nos nervos. – eu brinquei e ela riu. Ela realmente riu. Não um riso daqueles que ela dava para Will, mas era o meu começo. Eu sorri também. – Você está com fome? Eu faço um bacon incrível.
– Obrigada, mas eu vou sair. – ela disse e se levantou. Eu fui pego de surpresa.
Ela iria sair? Diabos, ela não tinha amigos aqui, porra. Com quem ela iria sair? O ciúme estava queimando em mim.
– Você vai sair? – perguntei, não gostando nada daquela situação.
Tris desviou o olhar e encolheu um pouco os ombros, mas assentiu lentamente.
– Com quem?
– Will me convidou para conhecer Miami. Estou aqui há um mês e os únicos lugares que eu fui são o clube e o orfanato. Ele já deve estar chegando. – ela estava falando baixo e se eu não estivesse tão perto, jamais teria escutado.
Eu iria foder meu irmão.
– Pensei que Will estivesse no trabalho.
– Eu também, mas ele disse que é um jeito de pedir desculpas por ontem. – ela falou. – Eu não acho que seja necessário, mas eu não quis ser rude. Will é bom comigo. E eu também quero conhecer a cidade. Eu nunca estive aqui e tem alguns lugares que eu gostaria de ver. Além do mais, eu preciso de amigos. – ela se explicou. Tris também estava confusa. Ela não tinha que me explicar nada, mas eu gostei de ouvi-la falando. Mesmo que eu estivesse odiando a ideia de ela sair com meu irmão.
– Ele é o irmão bom. – eu respondi mais duro que o necessário.
Ela abriu a boca para falar algo, mas fomos interrompidos pela voz alegre da minha irmã. Merda. Nita tinha chegado e se me visse nessa sala com Tris, ela iria surtar. Eu nunca tinha deixado que ela pusesse seus pés aqui dentro. Era o meu refúgio. Tão seguro e puro quanto o meu quarto. Eu não queria que ela manchasse esse lugar.
Saí da sala e fui em direção ao salão principal. Minha irmã estava de pé, vestindo seu traje de golfe, uma saia branca curta, uma blusa justa rosa que ia até o meio da sua barriga e seu par de tênis que me custaram uma fortuna.
– Ei, está pronto para levar uma surra? – ela perguntou com um sorriso divertido.
– Eu só vou buscar minha carteira e as chaves para podermos ir. – sorri também. – Não saia daqui. – eu avisei e subi de dois em dois degraus em direção ao meu quarto. Eu desejei que não fosse no último andar. Eu precisava ser rápido, porque deixar minha irmã e Tris sozinhas lá em baixo não era uma ideia inteligente.
Me apressei, peguei minhas coisas e corri para escada. Nita estava distraída com suas unhas, mas apenas o suficiente para eu pôr os pés no salão. Ela sorriu para mim, mas nesse instante, Tris havia saído da sala do piano e eu vi como os ombros da minha irmã ficaram tensos e o sorriso que tinha vindo depressa, desapareceu na mesma rapidez em que veio.
– O que ela está fazendo aqui? – Nita perguntou, com o ódio brilhando em seus olhos.
– Ela mora aqui, Nit. Nós já conversamos sobre isso. – eu respondi, caminhando devagar até ela. – Não estrague nossa manhã, mana. Por favor. Ela já está de saída.
– Onde ela pensa que vai vestida desse jeito? – Nita levantou as sobrancelhas e verificou Tris dos pés à cabeça. Ela soltou uma risada. – É ridículo. Esses trapos velhos não podem ser considerados roupas. – ela estava sendo cruel e eu precisava pará-la. Agora.
– Ela vai sair comigo. – Will abriu a porta e falou, entrando na sala principal e se colocando ao lado de Tris. Ela tinha a cabeça baixa. Merda, ela não deveria abaixar a cabeça para a cobra da minha irmã. Ela já tinha levantado a voz para mim uma vez. Por que agora ela estava tão derrotada? – Espirre seu veneno para lá e leve seu rabo para longe dela, Nita. Eu não vou deixar que você fale assim com Tris. – ele estava protegendo-a. Bom garoto.
– Você não é ninguém para me dizer o que fazer, Will. Não me admira que você esteja ao lado dela. Você sempre foi fraco diante um rostinho bonito, não é mesmo? Está de sacanagem comigo. Ela está usando o sexo para controlar você. Como você pode ser tão burro?
– Chega, Nit. – eu disse, querendo acabar logo com aquilo.
– Vai ficar ao lado dela também? – ela disse, com a voz elevada a uma oitava e olhou para mim.
– Pare de agir como se tivesse cinco anos, Nita. É chato. Aja como uma adulta. Você já tem 21. – Will rosnou para a minha irmã, depois cochichou algo para Tris e a levou para fora, batendo a porta atrás de si. Ele a tinha levado.
Nita soltou um grito de frustração.
– Dá para acreditar? – ela riu, mas estava tão insegura que qualquer um poderia ver. – A maneira como ela está usando Will é tão... Previsível. Tá na cara de que ele só está com ela pelo sexo.
Nita estava sorrindo nervosamente para mim, esperando por um comentário que concordasse com o que ela estava dizendo. Eu não iria concordar. Tris jamais faria isso. Ela é inocente e honesta. Will não é cego.
– Vamos, mana. Já estamos atrasados. – eu falei e caminhei até a garagem, sabendo que minha irmã estaria logo atrás de mim.
Nós dois entramos no carro e eu dei a partida, dirigindo até o clube. Nita estava em silêncio. Eu não tinha concordado com ela e agora ela estava chateada. Eu não estava dando muita importância. Tris não era o que minha irmã achava que ela fosse. Nita jamais conseguiria me fazer concordar com isso.
Quando parei o carro na minha vaga de sócio e desci para dar a volta e ajudar a minha irmã a sair, ela fez uma careta.
– Você está estranho. O que há de errado? – ela saltou e perguntou, com os braços cruzados, numa postura defensiva.
Eu não sabia como responder sem magoá-la. Eu não podia simplesmente dizer que minha cabeça estava fodida graças à imagem do meu irmão fazendo com que Tris se divertisse. Eu deveria ser esse cara; o cara que a faria sorrir. Eu não tinha mais controle pelo que eu sentia por ela. Tudo que eu pensava era em tê-la comigo. Eu sabia que era proibido e que eu tinha muita bagagem para Tris. Porra, eu sabia que eu era a última pessoa que a merecia. Entretanto, eu queria tê-la comigo. Queria muito. Algo nela me dizia que eu era o único que poderia dar segurança a ela. E eu a protegeria.
Eu cuidaria dela.
– É por causa dela? – minha irmã perguntou. Seus olhos estavam brilhando e sua voz tremeu. – Você a acha gostosa, não é? Eu vi como você olhou para ela. – merda. Minha irmã estava rachando.
– Nit, amor, não. Não é por causa dela. – eu menti e me aproximei. – Ela não é importante, está bem? Só você, mana. Sempre você. – eu disse o que eu sabia que iria acalmá-la.
– Ok. – ela limpou os olhos e sorriu para mim. – Eu devo acabar com você agora? – ela brincou e a tensão em meus ombros se esquivou. Ela estava de volta.
– Eu quero guiar e não preciso de ninguém pegando meus tacos para mim. Você fica bem só comigo ou precisamos de um caddie? – eu perguntei, quando nós caminhamos até um carrinho de golfe e eu conduzi até o campo.
– Desde que você pegue os meus tacos e os limpe, então tudo bem. – ela deu de ombros e eu coloquei cem dólares na mão do carregador pelo seu tempo de trabalho. Ele me agradeceu e se afastou.
A manhã tinha sido mais fácil do que eu imaginei que seria. Depois de umas boas tacadas, Nita estava mais leve. Ela tinha reclamado algumas vezes das minhas escolhas de taco, mas isso só tornou tudo ainda mais divertido. Eu iria deixá-la ganhar, mas queria irritá-la um pouco. Eu sentia falta da relação descontraída que nós tínhamos. Minha irmã era o meu tesouro. Tris havia tirado sua paz desde o dia em que colocou os pés na minha sala.
Quando a partida de golfe encerrou, Nita estava exausta.
– Está quente, não é? – ela falou. Eu concordei. – Você está liberado. Eu tenho almoço marcado com as meninas e não posso me atrasar. – ela ficou na ponta dos pés e beijou a minha bochecha. – Até logo, maninho. Eu te amo.
– Eu te amo, mana. Dirija com cuidado. – eu pisquei.
– Sempre. – ela riu e ocupou majestosamente o assento do carona no carrinho de golfe. Eu sentei no do motorista e parti.
Dirigi até o restaurante, deixando minha irmã lá, para depois voltar ao estacionamento e subir no meu carro. Eu estava voltando para casa. Usaria a piscina hoje. O sol estava pedindo. Será que Tris já havia chegado? Eu deveria chama-la para vir comigo? Não sabia se era uma boa ideia. Porra, controlar a minha testosterona vendo-a num biquíni não seria fácil. Nunca seria fácil.
O carro do meu irmão não estava parado em frente à minha casa como eu esperava que estivesse. A decepção foi imediata. Eu queria que ela já estivesse aqui. Eles já tinham passado muito tempo juntos, caramba. Eu precisava tê-la comigo também. Ela trazia paz e doçura para minha casa.
Eu estaria ligando para o meu irmão.
Foi então que meu celular vibrou no meu bolso e o puxei para fora. Havia uma mensagem de texto de Will.
Você já está em casa? Meu pai precisa de mim agora no escritório, então estou levando Tris de volta, mas não gosto da ideia de deixá-la sozinha. Você vai demorar?
Nem se eu estivesse do outro lado do mundo.
Pode trazê-la. Estou em casa.
A resposta veio logo em seguida:
Obrigado, mas mantenha seu rabo longe dela.
Eu ri. Will não colocava medo em mim. Embora fosse meu melhor amigo, eu duvidava muito que ele conseguisse me manter longe da loira. Era impossível até mesmo para mim. Subi as escadas apressadamente e fui direto para o chuveiro. Eu estava suado do golfe e precisava estar limpo quando ela chegasse.
Vesti uma bermuda e uma camisa polo branca, depois desci para preparar algo para comermos. Não havíamos terminado bem as coisas mais cedo. Eu não tinha controlado minha irmã e ela havia dito coisas que magoaram Tris. Eu iria mudar isso.
O que será ela queria comer? Ela gostava de massas? Uma macarronada cairia bem? Ou será que tacos ficaria melhor? Deus, eu estava perdido. Queria agradá-la, mas eu não sabia de quase nada sobre ela. Will com certeza sabia. Ele estava aproveitando o tempo que ela estava aqui para desfrutar da incrível sensação que era estar ao lado dela. Merda.
Eu respirei fundo. O que havia de errado comigo? Eu tinha acordado com o pensamento de mantê-la longe e agora eu estava fazendo de tudo para que ela quisesse estar perto? Eu era um maldito fodido filho da puta. Tris era problema para mim. Me envolver com ela seria problema com a minha família. Eu precisava recuperar o controle.
Decidi que não iria mais cozinhar. Eu estava ligando para o delivery de um bom restaurante e pedindo minha comida. Era muito provável que Will já tivesse alimentado ela. Ele era o irmão bom que a merecia. Ele não tinha uma irmã mimada e um segredo que poderia fazê-lo perde-la. Ele era digno da bondade de Tris.
Abri as portas de vidro da varanda do quintal e fui em direção à área da piscina. Abri o freezer e peguei uma corona, tirando a camisa e me deitando na espreguiçadeira. Estava pensando em quem eu traria hoje à noite, quando o ronco do carro de Will me trouxe de volta. Eu me levantei e segui para dentro de casa, indo até a porta principal e abrindo-a no exato momento em que meu irmão beijava os lábios finos de Tris.
Eu senti como se tivesse levado um soco no qual eu não podia respirar. As cinturadas do meu pai não tinham sido nada comparadas a isso. Apesar de não ter sido nada parecido com um beijo, somente um roçar de lábios, eu me senti tentado a partir para cima de Will. Eu iria arrancar suas tripas. Como ele pôde ter feito isso comigo?! De todas as pessoas, ele era o único que sabia como eu me sentia em relação a ela! Não totalmente, mas ele sabia de alguma coisa.
No entanto, ao invés de arrancar todos os órgãos do meu irmão, eu tentei me manter impassível à cena. Ela não tinha durado muito. Na verdade, eles tinham se separado quando eu abri a porta. Eu só estava malditamente cego de ciúme para perceber que eles não estavam mais fazendo aquilo. A imagem do beijo estava grudada em minha maldita mente.
– Eu passo aqui amanhã antes de você ir ao trabalho, tudo bem? –Will falou à Tris, quando acariciou o seu cabelo.
– Ok. – ela respondeu simplesmente. Sua voz estava distante. Não havia emoção, o que era estranho. Ela era uma garota e havia acabado de ser beijada. Por que isso não fazia diferença para ela?
Foi então que a ficha caiu: ela não era tão inocente quanto eu imaginava que fosse. Ela estava tirando vantagem sobre meu irmão, que estava sendo gentil com ela. Eu quase tinha caído na sua lábia também. Meu Deus, como pude ser tão burro? Eu conhecia seu pai. Ela tinha sido criada por aquele homem! Eu não estava impressionado com o fato dela agir como ele. Eu estava impressionado com o fato de ter demorado tanto tempo para enxergar como ela era de verdade.
Minha irmã sempre esteve certa.
– Você está aí! – Will olhou para mim, e em seguida Tris o fez, como se só agora eles dois tivessem me notado. – Cuide dela. – ele sorriu.
Eu apenas acenei em resposta e ele caminhou de volta para o carro. Tris entrou de cabeça baixa e eu fechei a porta numa batida só. Eu queria explodir e arremessar alguma coisa contra a parede, mas eu me controlei e consegui fazer minha voz soar firme, quase inalterada.
– Quanto tempo pretende enganá-lo? – eu disse, me esforçando ao máximo para não perder a porra do controle. Ela deu um passo para trás e me observava atentamente.
– Do que você está falando? – Tris perguntou.
– Meu irmão. Ele está se apaixonando por você e você tá pouco se fodendo com isso. – a raiva estava nítida na minha voz, sendo que eu não sabia qual era o verdadeiro motivo: ser enganado por Tris ou estar com ciúme dela. Era ridículo.
– Eu realmente não sei do que você está falando. – a sua testa se enrugou e ela me olhou confusa. Droga, os olhos inocentes estavam me confundindo mais uma vez. Por que ela continuava mentindo para mim? Porra!
– Cale a boca! – vociferei. – Você é uma aproveitadora! Exatamente como seu pai. – eu rugi e ela deu mais um passo para trás. Eu tinha lutado para não perder o controle, mas o havia feito. E agora ela estava assustada. Eu respirei fundo e quando tornei a olhá-la, ela parecia ferida. – Por que enganar meu irmão? Por que não nos diz que você está aqui pelo nosso dinheiro?! Ele tem sido bom para você, porra! Todos nós temos sido!
– Está falando do beijo. – ela sussurrou. – Você viu.
– O que eu vi é que você está se aproveitando da bondade dele. – ela fez uma careta para disfarçar a mágoa. Então os olhos brilhantes lacrimejados olharam para mim e eu me senti um lixo. Eu tinha sido um idiota.
– Eu não me importo com seu dinheiro! – ela gritou e a dor na sua voz fez meu peito se apertar. Eu tinha ferrado com tudo. – Eu nunca pedi nada mais que um quarto, você lembra?! E eu iria embora, você lembra?! Você me pediu para ficar, Tobias. Você! – ela apontou o dedo para mim, enquanto as lágrimas rolavam pelo seu rosto. Eu queria desfazer tudo, mas permaneci imóvel. Eu nunca a tinha ferido dessa maneira. – Eu deixei que Will me beijasse porque precisava ter certeza, mas... – ela parou.
– Mas o quê? – eu semicerrei os olhos.
– Isso não importa. – ela disse e virou-se em direção à cozinha.
Uma porra que ela iria embora sem me dizer o que realmente queria dizer.
– Tris, não. – eu segurei seu cotovelo e ela virou seu rosto para me olhar.
– Não você. – ela disse e se debateu, tentando se livrar de mim, só que eu não estava disposto a soltá-la.
– Eu quero ouvir o que você tem para me dizer. Quero saber a verdade. – diminui o tom de voz. Tris se virou para mim e respirou fundo. Ela sabia que eu não a deixaria ir sem que ela me dissesse o que estava prestes a dizer, porém, ainda assim, ela se sacudiu e se livrou do meu aperto. Ela estava chateada. Porra, eu tinha acabado de falar a merda que a magoou. Era óbvio que ela iria fugir, mas eu não podia deixar. Tinha que consertar isso.
Eu peguei sua mão e pressionei seu corpo contra a parede. Encaixei minhas duas mãos na lateral do seu rosto e fechei a distância entre nós. Eu podia sentir sua respiração acelerada e quase podia ouvir o batimento do seu coração descompassado. Eu me sentia da mesma forma com essa aproximação. Inclinei minha cabeça um pouco para baixo e apenas um centímetro separava nossas bocas. Puta que pariu. Eu podia sentir a minha excitação.
– Eu sinto muito. Fui um idiota por pensar isso de você. Eu só... – murmurei uma maldição. – Eu só fiquei cego pelo ciúme. Não consigo aceitar que ele é o irmão com quem você deve ficar, Tris. Eu sou o errado para você, mas eu só penso em ter você comigo. Você é linda e gentil. Tão pura que às vezes me pergunto se você é real. Só que... Eu não posso ficar com você. Você é intocável. Está fora dos meus limites. Eu tenho muita bagagem. – soltei um suspiro. A verdade iria machucar a nós dois. – Quando você descobrir, nunca vai me perdoar.
Ela tinha os olhos lacrimejados mais uma vez. Eu precisei de toda minha força e mais um pouco para não beijar os lábios finos dela e confortá-la. Eu tinha posto a dor ali. Eu daria a minha vida para tirá-la de lá.
– Ok. – ela sussurrou. – Eu entendo.
Eu soltei um suspiro e dei um passo para trás. Ela apenas abaixou a cabeça e foi em direção à cozinha. Eu estava me sentindo tão mal que queria vomitar. Quando eu tinha ficado tão bom em arruinar tudo? Eu era um tremendo filho da puta.
Antes de entrar na cozinha, Tris parou e se virou para mim.
– Se estamos sendo sinceros, tem algo que eu preciso falar. – ela disse com uma voz baixa. – Eu deixei que Will me beijasse porque precisava ter certeza de que... – Tris soltou um suspiro cansando. – O que eu devia sentir por ele... Estou sentindo por você.
Ela saiu e eu ouvi quando a porta da dispensa foi fechada. Eu estava arruinado. Meu instinto me dizia para ir até ela e dizer que iríamos ficar bem; que nós daríamos um jeito de ficarmos juntos. Faríamos o maldito “nós” que era tão errado parecer ser certo. Eu só não podia. Eu já tinha ultrapassado meu limite quando a deixei morar aqui. Eu não a merecia. Eu tinha que lutar contra isso.
Voltei para piscina e decidir dar um mergulho. Não podia ficar lamentando por Tris e eu. Nós não podíamos ter uma história. Não era o certo. Não devíamos ficar juntos, por mais que nos sentíssemos atraídos. Ela gostava de mim e eu a adorava, mas alguém deveria impor os limites. Eu preferia deixá-la ir agora a que perde-la depois. Eu não conseguiria suportar a dor que ela poderia me causar.
Quando eu estava dentro da piscina, ouvi a porta dos fundos sendo aberta e Tris saiu dela vestindo um minúsculo biquíni e uma toalha nas mãos. Droga, ela não tinha a porra de um espelho no quarto? Não tinha ideia do quanto seu corpo era incrível?
Fiquei duro imediatamente. Será que ela estava indo aproveitar a água comigo? Senti toda tensão do meu corpo sumir, sendo substituída por uma extrema sensação de paz. No entanto, quando vi que Tris não estava se aproximando de mim e sim da saída que dava para a praia, eu fiquei tenso novamente. Ela estava indo para lá sozinha? Naquela porra de biquíni?
– Onde você vai? – eu perguntei, me apoiando na borda da piscina e, com um impulso, saindo dela.
Tris se virou e olhou para mim.
– Vou à praia. É chato ficar sozinha naquele quarto o tempo inteiro e se a única companhia que eu tenho aqui não quer ao menos ser meu amigo, então eu dou um jeito de passar o tempo de uma forma menos entediante. – ela disse e mais uma vez estava mostrando aquela Tris que quase ninguém conhecia. Aquela que não se sentia ameaçada pela pessoa que eu era e dizia coisas que ninguém tinha coragem de me dizer. Ela me enfrentava, se eu a testasse. E isso era fascinante.
– Espera. – eu disse quando ela começou ir em direção à praia.
– Por que não podemos pelo menos ser amigos? Eu não quero que você me odeie. Estou cansada de ser odiada, quando tudo o que faço é ser gentil. – Tris falou e me olhou. Como eu poderia dizer não àquela garota? Porra, ela já tinha tudo de mim. Eu, no entanto, não sabia se poderia cumprir com isso. Como eu poderia ser amigo dela? Ela já estava sob minha pele, caramba.
Respirei fundo.
– Eu vou ser seu amigo. Vou tentar o meu melhor para ser seu amigo, mas tenho que tomar cuidado. Nós dois temos, Tris. Você me faz querer coisas que eu não posso ter. – eu confessei. – Você não pode chegar muito perto, está bem? Nós precisamos de espaço.
– Tudo bem. – ela disse e acenou com a cabeça, apesar de haver muita confusão em seus olhos. Ela não entendia porque não podíamos nos entregar um ao outro e eu não poderia explicar isso sem magoá-la. Eu não iria machuca-la novamente. Meu segredo precisava ficar guardado e longe dela.
Quando ela começou a ir em direção à praia novamente, foi a minha vez de ficar confuso. Eu tinha acabado de dizer que podíamos ser amigos e ela estava fugindo? Não fazia a porra do sentido!
– Você não quer ficar aqui? – perguntei, notando a decepção na minha voz. Caralho, isso estava ficando cada vez mais ridículo. Eu tinha que controlar a porra das minhas emoções! – Pensei que tivesse dito que podíamos ser amigos.
– Pensei que tivesse dito que precisava de espaço. – ela retrucou e eu arqueei as sobrancelhas. A menina me surpreendia a cada minuto.
Não pude deixar de rir.
– Não há problema em aproveitarmos a piscina juntos. Somos amigos, não somos? Está calor e a água do mar há essa hora tá agitada para caralho. Você não ia querer entrar lá, acredite. – falei e vi como a chama do medo passou rapidamente pelos seus lindos olhos.
– Tem razão. – ela deu de ombros e foi até uma espreguiçadeira, colocando sua toalha em cima dela. Eu tinha que me esforçar muito para não ter meus olhos em sua bunda ou em seus peitos o tempo inteiro. Ela estava me distraindo como o inferno. Por que tinha que ser justo ela?
Nós ficamos em silêncio e eu entrei na piscina novamente, enquanto Tris se sentava no chão e olhava para mim. Por que diabos ela não usava uma das inúmeras cadeiras? Quanto mais eu tentava entendê-la, mas eu ficava confuso.
– Você não vai entrar? – perguntei.
– Não acho que seja uma boa ideia. – ela respondeu e eu entendi. Nós dois agora não estávamos mais escondendo o fato de nos sentirmos atraídos, mas ambos sabíamos que era errado. E ela estava certa sobre não ser uma boa ideia.
– É. – eu respondi.
E mais silêncio se abriu entre nós. Porra, porque era tão difícil ser um amigo? Eu não me lembrava do que eu tinha que fazer para fazê-la se sentir confortável comigo.
Saí da piscina e vi como ela olhava confusa para mim. Merda, eu iria mudar isso. Eu tinha acabado de prometer que daria o meu melhor para ser seu amigo, então eu estava fazendo isso agora mesmo. Sentei-me ao seu lado e sorri para ela.
– Eu disse que seríamos amigos e estou fazendo isso, sendo que não faço ideia de como conversar com você sem que pareça estranho. Tem alguma dica?
Ela sorriu.
– Nós podemos começar conversando, já que é o mais comum a se fazer. Eu não sei nada sobre você. – ela falou. – E aposto que você não sabe nada sobre mim.
Eu sabia tudo sobre ela, mas eu iria entrar no seu jogo. Não podia desapontá-la.
– Ok. Sobre o que você quer conversar?
– O que significa essa tatuagem que você tem nas costas? – ela me olhou com curiosidade e eu fui pego de surpresa. De todas as perguntas, eu nunca poderia imaginar que ela traria essa à tona.
Eu ri e virei de costas para ela, para que Tris pudesse observar com mais atenção.
– Eu fiz essa quando tinha 19. São símbolos dos quais nunca devo me esquecer de ser. – eu respondi e minha mente vagou para uma cena de cinco anos atrás. – Quando entrei na banda e o sucesso nos arrebatou, a fama começou a tomar conta de mim. Eu era amado pelo mundo todo e isso estava me transformando e me deixando arrogante. Comecei a tratar mal minha família, meus amigos e até mesmo os meus fãs. Foi então que me lembrei de um mito que me contaram quando eu era pequeno. Você precisa de apenas cinco coisas para manter o equilíbrio e viver em paz na sociedade. São elas: coragem, altruísmo, honestidade, inteligência e gentileza. – saí do transe e me virei novamente, ficando assim ao lado de Tris agora. – São coisas que eu não posso esquecer de ser. Nunca.
Ela parecia fascinada.
– Posso tocar? – ela perguntou e eu dei de ombros. Só não sabia que, ao sentir seus dedos finos tocando minha pele, eu ficaria tão afetado. Estremeci e torcia para que ela não tivesse percebido. – É linda. – Tris comentou e voltou a olhar para mim. – Minha mãe sempre me disse que eu deveria ser altruísta e gentil.
Era bom tê-la compartilhando coisas da mãe comigo. Me dizia que ela se sentia segura o bastante para falar de alguém que significava tudo para ela.
Nós ficamos em silêncio e eu entendi porquê. Tris – mais uma vez – havia visto o lado que eu raramente mostrava aos outros. Eu a estava deixando me conhecer de verdade. Isso estava nos afundando na própria merda.
Aproximei meu rosto do dela e fechei os olhos, porque se olhasse para aquela carinha comovente, eu colocaria tudo a perder. E nossa coisa de amigos que estava indo bem seria jogada pelo alto.
– Você vai me beijar? – ela sussurrou.
Eu não me permiti abrir os olhos ainda.
– Eu estou tentando ser gentil. – disse, respirando fundo. Quando essa tarefa tinha ficado tão difícil?
– Pode não ser gentil por um beijo? – Tris suplicou.
Ah, foda-se! Abri meus olhos e segurei seu rosto com as duas mãos; em seguida, afundei minha boca na dela.
Eu havia acabado de receber um pedaço do céu.
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