Notas iniciais
Mais um para compensá-los o atraso na atualização! Dedicado à Metamorfose Filipa Rocha e à Maya pelas lindas recomendações. Fiquei muito feliz em ler tanta coisa linda em relação à minha história. Mesmo depois de tanto tempo no ar, vocês tiraram um tempinho para me surpreender. Meu sincero obrigada às duas! Espero que gostem do capítulo! Enorme beijo ♥

TOBIAS EATON

Eu estava sonhando. Ou pior: tendo um pesadelo. Não bastava minha irmã estar à beira da morte, agora eu estava tendo alucinações com a voz de Beatrice. Porra, parecia tão real. Eu tinha quase certeza de que era, mas estava com medo de me virar. Eu não conseguia sequer me mexer para ter certeza de que ela estava ali. Isso era possível? Mesmo depois de tudo?

— Ótimo! – Dr. Kang falou e direcionou seus olhos para a entrada da sala. – E você quem é?

— Sou a irmã dela. – Tris soou novamente e fui incapaz de me manter de costas para ela.

Virei meu corpo em direção da sua voz e a encontrei parada ao lado de Christina e George na entrada da sala. Ela estava tão diferente desde a última vez em que eu a tinha visto. Parecia mais magra, mas as bochechas tinham um tom mais rosado. Seus cabelos que antes eram longos agora tinham um corte na altura dos ombros, deixando-a com uma aparência mais adulta. Tão linda. O olhar determinado em seu rosto deu-me a certeza de que eu não estava delirando: ela estava ali. Tris havia voltado.

Por mim.

— Olá, Tobias. – ela deu um passo em minha direção e eu senti meus joelhos fraquejarem só de ouvir sua voz. Sentira tanto sua falta. Ela era meu ponto fraco. O que ela estava fazendo aqui?

— Beatrice. – tentei falar, mas saiu quase como um sussurro. Eu ainda não acreditava que ela estava realmente ali. Quanto tempo havia se passado desde que eu a tinha visto em Chicago?

— Precisamos ir, Srta. Beatrice, não temos muito tempo. – Kang interferiu. – Poderia me acompanhar? – Tris assentiu e me deu um último olhar antes de seguir o médico e a enfermeira por uma área restrita aos funcionários.

Todos na sala me olhavam perplexos, esperando qualquer fala minha que explicasse a volta repentina de Beatrice Prior à Miami. Estavam todos lá: Zeke, Uriah, Marlene, Cara, Will... Todos me olhavam como se eu tivesse alguma resposta, mas a verdade era que eu estava tão perdido quanto eles. Exceto por Christina.

— Mesmo depois de tanto tempo ela ainda me impressiona. – Uriah comentou. – Depois de tudo que aconteceu, não sei se teria a mesma atitude que ela teve para salvar Nita.

— Ela não fez por Nita. – Zeke rebateu. – Foi por Tobias.

Por apenas um momento desde que Will me contara de Nita eu tinha me esquecido do que havia acontecido com ela; tudo o que me importava era Tris. Meu estômago deu um nó só de pensar nas últimas palavras que eu tinha dito à Nita. Eu tinha sido tão duro com ela, mas eu só queria que ela crescesse e parasse de ser egoísta. Eu estava magoado. Tinha vivido minha vida toda somente para fazer Nita feliz e quando finalmente encontrei minha alma em Beatrice, minha irmã foi até lá e arruinou tudo. Eu só queria que ela entendesse meu lado. Fui cruel na minha escolha de palavras com ela, mas eu estava tão furioso... E agora isso parecia tão banal diante da ideia de perdê-la.

Eu jamais me perdoaria se Nita morresse.

— Achei que Beatrice estivesse em Chicago. – falou Cara voltando com um copo de café nas mãos. – Toma, beba alguma coisa. Você está sem comer nada há horas.

Peguei o café das mãos de Cara e lhe dei um sorriso antes de tomar um gole.

— Você sabia de alguma coisa, Will? – perguntei ao meu irmão que parecia tão surpreso quanto eu.

Ele negou.

— Ela viu a matéria sobre Nita na TV e soube que era o momento de voltar. – Christina começou. – Ela se importa com você, Tobias. Estava travada numa luta consigo mesma há algum tempo e não sabia o que fazer, mas então ela descobriu algo sobre o passado da mãe que a fez ter certeza de que devia voltar. Espero que esteja disposto a ajuda-la superar todo o trauma que sua família trouxe para ela.

— Ela está salvando a vida da minha irmã. Não achei que fosse capaz de amá-la ainda mais e agora faço qualquer coisa por ela. Espero que Nita possa entender isso quando acordar.

— Se Nita acordar será por causa de Tris, Tobias. Ela vai entender. – Zeke tentou me confortar.

— A imprensa está pedindo um pronunciamento, Sr. Eaton. – Amah, um dos meus guarda-costas, disse ao entrar na sala.

— Malditos urubus. – resmungou Will.

— Apenas diga que ela está em cirurgia e que seu estado é crítico; quando eu tiver qualquer novidade, irei eu mesmo falar com eles. Por mais que eu queira ignorá-los, não seria uma boa decisão agora. Estou prestes a lançar o CD. Manchar minha imagem na imprensa seria péssimo. Trabalhei duro durante anos para limpá-la, não vou simplesmente foder com tudo.

— Sim, senhor. Farei o comunicado. Com licença. – pediu e deixou a sala.

Eu andava de um lado para o outro, incapaz de ficar parado, nervoso com toda aquela merda que tinha acontecido. Nem Beatrice e nem o cirurgião tinham voltado para dar qualquer notícia. Isso só piorava a porra do meu nervosismo. Minha vontade era de invadir a sala por onde Tris tinha seguido e toma-la em meus braços. Eu sentia tanta a falta dela e ela finalmente estava de volta. Teria voltado por mim? Eu tinha tanta coisa para falar a ela. O processo, o lançamento do CD, o orfanato... Pareciam anos desde que ela foi embora. Havia muito que conversarmos. Então por que eu simplesmente não ia atrás dela agora? Era simples: Minha irmã, desta vez, precisava ficar em primeiro lugar.

Por muito tempo – desde o dia em que nasceu, especificamente – Nita havia sido prioridade em minha vida. Ela sempre estava no topo; não lembrava de um dia sequer em que eu não tivesse cedido às suas vontades. Eu fiz tudo que estava ao meu alcance para suprir a falta do pai e mãe que Nita não teve. Agora não era diferente. Nossa mãe não atendia a porra do celular. Eu não falava com ela desde o dia em que ela apareceu na minha casa e fodeu com tudo e agora ela simplesmente tinha sumido, assim como o bosta inútil do seu marido. Era óbvio que eles não se importavam com Nita; ela era apenas uma das fontes de renda que sustentavam suas vidas de merda. Estávamos sozinhos novamente. Seria Nita e eu contra o mundo mais uma vez. Ela só tinha a mim nesse momento. Eu não iria falhar.

— Ela vai ficar bem, cara. – Zeke disse sentando-se ao meu lado. Apesar da minha inquietação, eu finalmente tinha conseguido sentar a porra da bunda na cadeira e aguardar por notícias. Will e Christina tinham ido com Marlene e Uriah até o restaurante do hospital. Cara estava ao telefone. George e Amah conversavam baixo entre si. Eu sabia que todos eles estavam aqui não pela minha irmã, mas por mim e isso me comoveu. Era grato por tê-los. – Nita é dura na queda, vai sair dessa.

— Obrigado por ter estado lá por ela. Eu não suportaria viver se a tivesse perdido. – confessei.

— Você teria feito o mesmo por mim, irmão. Não precisa agradecer. Pode não parecer, mas também me importo com Nita.

Comecei a ligar os pontos. Zeke há algum tempo estava apaixonado, mas a garota parecia ter quebrado seu coração. Ele não havia dito para nós quem era a mulher, mas podia ser Nita? Tudo se encaixava. O fato dele não querer dizer quem era, a maneira como as coisas tinham acabado...

— Ela é a mulher que pegou você? – perguntei sem saber ao certo em que momento isso tinha acontecido e eu não percebi.

— Não. Não ela. – ele riu um pouco. – Estava saindo com Shauna e isso me deu a oportunidade de conhecer Nita melhor. Ela tem uma personalidade difícil, mas levando em conta sua infância não esperaria outro comportamento. Em alguns momentos que convivi com as duas pude ver o lado de Nita que apenas você vê e entendo porque você a ama. Ela tem um coração também, só não costuma deixar que outras pessoas saibam disso.

— Você se apaixonou por Shauna? – estava incrédulo. Como alguém tão bom quanto Zeke podia amar uma pessoa tão desequilibrada quanto ela?

— Tentei evitar, mas aconteceu. Sei lá que porra deu em mim. Num minuto estávamos no clube conversando e no outro eu tive o melhor sexo da minha vida.

— Então foi a famosa chave de boceta que você levou. – zombei, fazendo Zeke rir junto comigo.

— Quem dera fosse apenas isso. A gente tava saindo, mas aí vocês dois tiveram aquele lance e então houve o ataque à Tris... É por isso que eu tô tão fodido. Essa não é a pessoa pela qual eu me apaixonei. Juro que quando a gente estava junto ela era bacana até. Nunca pensei que seria capaz de fazer o que fez. Tentei pra porra esquecê-la, mas sei lá cara. É difícil.

— Que merda, mano. E ela simplesmente sumiu, não é?

— Sim, mas acho que é melhor assim. Talvez para Nita fosse bom que ela estivesse aqui, só que não sei se estou pronto para vê-la. – ele suspirou. Era óbvio que Shauna ainda era um assunto que machucava, então mudou de assunto. – Mas enfim, o bom filho a casa torna, não é? Tris finalmente voltou.

— E agora está salvando a vida de Nita. Engraçado as voltas que o mundo dá, não é?

— Talvez isso possa de alguma forma amolecer o coração da sua irmãzinha do mal. – ele riu. – Você não vai atrás de Tris?

— Nita precisa de mim agora. Fui muito duro com ela da última vez que nos falamos isso tá me comendo vivo; não posso deixá-la aqui e ir atrás de Beatrice. Minha irmã precisa ser prioridade agora. Eu não sei o que seria de mim se você e Uriah não tivessem chegado a tempo. Obrigado por isso, cara.

— Eu quase matei o filho da puta tarado do caralho. – Zeke cerrou o punho. – Eu juro, se não fosse por Uriah, ele estaria morto. Eu simplesmente fiquei cego de ódio. Gente desse tipo não merece viver.

— Não merece mesmo. Eu não teria parado até que ele estivesse morto, mas fico feliz que você não tenha feito isso. Não queria te ver preso por um lixo como ele.

— Valeria à pena. – ele garantiu.

— Paciente Anita Jhonson. – o cirurgião que havia levado Tris para a doação de sangue falou ao voltar para sala, mas não vi nenhum sinal da minha garota.

— Como ela está? – perguntei me levantando assim que ele entrou. – Onde está Beatrice?

— A cirurgia foi um sucesso e Anita já está no seu quarto descansando. Esperamos o efeito da anestesia passar para liberarmos, então o Sr. já pode vê-la. Ela ainda não acordou e os próximos momentos serão cruciais. Estamos monitorando tudo e estamos confiantes de que sua irmã não ficará com nenhuma sequela. Apesar da pancada forte na cabeça, conseguimos reverter o caso. Queira me acompanhar, Sr. Eaton.

— E quanto à Beatrice? – insisti, desta vez mais aflito por ele não tê-la mencionado.

— Sua outra irmã está fazendo um lanche na sala de recuperação. A transfusão também foi um sucesso, mas ela sentiu uma pequena tontura e sofreu um desmaio, reação que consideramos perfeitamente comum, mas a observaremos por precaução. Está pronto para ver Anita? – apenas assenti e o segui pelo corredor em direção ao quarto de Nita.

Não me preocupei em corrigir o médico a respeito do meu parentesco com Beatrice. De fora poderia ser complicado entender nossa relação, mas para mim era muito simples: seu pai tinha se casado com a minha mãe, mas isso não fazia de nós irmãos. A única coisa que compartilhávamos era Nita.

— Não se assuste com todos os aparelhos ligados a ela. Anita está bem, mas precisamos ficar de olho nela nas próximas horas. Ela pode acordar a qualquer momento, mas deixarei que esse momento seja apenas de vocês. No entanto, se notar algo estranho, qualquer coisa que seja, não hesite em nos chamar. Voltarei aqui mais tarde para uma avaliação pós-cirúrgica. – ele abriu a porta e deixou que eu entrasse. – Estarei do lado de fora da porta se precisar de mim.

Quando a porta se fechou e eu me virei para olhá-la, a dor no meu peito era como uma explosão. Fiquei parado apenas olhando todos aqueles monitores piscando e me dizendo que ela estava viva. Nunca a tinha visto tão indefesa. Havia uma faixa enrolada na sua cabeça e parte do seu cabelo havia sido raspado. Haviam agulhas e fios ligados à ela. Ela parecia tão pequena naquela cama de hospital. Me aproximei e segurei sua mão. Ela precisava saber que eu estava aqui; saber que eu a amava pra caralho.

— Ei, Nit, sou eu. Que susto você nos deu, hein? Eu falo nós porque estamos todos aqui. Will, Zeke, Uriah... Você importa para gente. Sei que da última vez que nos vimos eu lhe disse coisas horríveis. Eu só queria que você esquecesse tudo. Eu estou aqui e eu te amo, ouviu? Eu e você contra o mundo, Nit. Eu não vou a lugar nenhum. – beijei sua mão e a senti se mexer. Levantei o rosto e fitei seus olhos confusos olhando para mim.

— Quem é você? – ela sussurrou franzindo as sobrancelhas.

Que porra era essa?!

— Sou eu, Nit. – sorri nervoso. – Você não se lembra?

— Quem é você? – repetiu mais uma vez com sua voz fraca.

Estava prestes a chamar o médico quando a ouvi rir bem baixinho. Fraco, mas ainda era um riso. Olhei para ela incrédulo. Não acredito que ela teve essa coragem!

— Não brinque com isso, você quase me matou pela segunda vez só hoje. – eu ri, me aproximando novamente e me encostando à sua cama, ficando de frente para ela. Seu sorriso cansado fez algo dentro de mim acender novamente. Era tudo que eu precisava. – Como você se sente?

— Cansada. – ela suspirou. – E minha garganta dói.

— Eles entubaram você. Precisou passar por uma cirurgia de emergência na cabeça, mas ocorreu tudo bem. Você é uma lutadora, Nit. Tenho muito orgulho de você. – logo após eu falar isso, Nita começou a chorar. Eu entendi. A ficha dela estava caindo aos poucos, então ela estava se lembrando. Era uma merda, mas eu estava aqui para ajuda-la a passar por isso. – Shh, está tudo bem, Nit. Eu tô aqui por você, ouviu bem? Eu te amo.

— Foi horrível. – ela choramingou. – Eu me lembro de tudo, Jay, mas eu queria esquecer.

— Eu sei, Nit. Eu nem imagino como você deve estar se sentindo.

— Ele me tocou. – ela soluçou. – Ele me tocou e foi tão nojento...

— Você não precisa relembrar. Já passou e eu estou aqui. Conseguimos colocar o estuprador atrás das grades e se depender de mim ele vai passar o resto da vida de merda dele lá. Eu sinto muito, Nit. Eu sinto muito mesmo por não ter estado lá por você. – apertei de leve sua mão e em seguida a plantei um beijo suave.

— Onde está a mamãe? – pergunta Nita procurando ao redor do quarto.

Eu não sabia se devia responder a isso. Era óbvio que Evelyn já estava sabendo de tudo que tinha acontecido. A notícia estava em todos os jornais do país e eu tinha ligado para seu celular inúmeras vezes. Ela simplesmente não se importava. Sua filha estava no hospital, mas ela simplesmente não dava a mínima.

— Eu não consegui falar com ela, Nit. Sinto muito. – levantei e beijei o topo de sua testa. – Você precisa descansar agora, mana. Estou feliz que tenha acordado, mas você passou por uma cirurgia e uma transfusão de sangue. Seu corpo sofreu muito hoje.

— Transfusão de sangue? – ela franziu a testa.

Neste momento, a porta se abriu e um Will sorridente entrou no quarto.

— Voltei para sala e me disseram que você estava aqui e que ela tinha acordado. – ele disse e virou seus olhos para Nita. – Oi, Nit.

— Oi Will. – os olhos da minha irmã ainda estavam manchados das lágrimas, mas se suavizaram ao ver meu irmão. Pude ver algo que Nita dava duro para esconder: o amor que ela sentia. Eu sabia que minha irmã tinha um coração. Eu já o tinha visto muitas vezes. – São para mim? Você nunca me deu flores. – ela riu ao ver o buquê de rosas nas mãos de Will.

— Pense que para tudo tem uma primeira vez. – ele soltou uma risada e se aproximou de nós. – Como você se sente?

— Como você acha? Um estuprador tentou me violentar e me matar, e ainda por cima tive parte do meu cabelo raspado. Eu estou ótima! – ela foi ríspida, mas era óbvio que estava feliz em vê-lo. O sorriso no rosto dela a entregava.

— Vejo que o humor ácido continua o mesmo. É bom ver você bem, Nit. Ficamos preocupados. – Will sorriu e segurou sua mão.

— Você promete? – seus olhos brilharam. Como ela podia não ver que a amávamos incondicionalmente.

— Claro, Nit. – desta vez eu os interrompi. – Você é nossa irmãzinha; nós amamos você.

— Não foi isso que você me disse da última vez que nos vimos. – sua expressão era triste e ela me deu um aperto de mão fraco. – Eu achei que você me odiaria para sempre.

— Para sempre é muito tempo. – eu sorri. Sabia que as coisas tinham sido fodidas de um jeito que levaria algum tempo para consertarmos, mas isso não importava agora. Tudo que era importante era saber que Nita estava viva e que ficaria bem. Daríamos um jeito em todo o resto. – E eu nunca odiei você, Nit.

— Isso não é verdade. – ela semicerrou os olhos. – Eu tenho consciência de que o que eu fiz foi errado, Jay. Eu juro que estou arrependida.

— Nós ainda temos muito o que conversar, mas agora não é a hora. Tente dormir um pouco.

— Você precisa descansar. Passou por muita coisa, Nit. – Will falou acariciando seu rosto.

— Você contou para ele? – ela perguntou.

— Não; guardei segredo como você pediu. – ele respondeu.

Eu olhei confuso para os dois. Do que diabos estavam falando?

— No meu celular há um vídeo em que mamãe confessa sobre o acidente que matou Caleb. Consegui a prova de que ela também comprou o perito da época. Will me contou sobre o processo que você está movendo contra ela por causa da... – ela parou de falar. Eu entendi que Beatrice ainda era um assunto delicado para Nita e respeitei isso. – Bem, você sabe. – ela respirou fundo e continuou. – Eu ia te entregar hoje mesmo, mas aí o pior aconteceu.

— Mas por que você não me contou? – perguntei. – Eu teria ido até você.

— Queria fazer a coisa certa pelo menos uma vez. – ela me deu um sorriso triste. – E você também não atendia às minhas ligações. Eu não tinha como te falar nada, você tava me ignorando esse tempo todo.

— Eu sinto muito, Nit, mas eu estava tão furioso e magoado com o que você tinha feito...

— Eu sei. – Nita me interrompeu. – Eu não culpo você.

— Você contou pra ela quem a doou sangue? – Will perguntou para mim. Eu o repreendi semicerrando os olhos. Ainda não tinha contado para Nita e ele sabia disso; talvez fosse demais para ela lidar agora. Will apenas deu de ombros. – Conte. Ela precisa saber.

— Por que estão falando como se eu não estivesse aqui? – indagou Nita.

— Vou deixar vocês sozinhos. Deixei Christina sozinha no restaurante do hospital; a esta hora ela deve estar me chamando de santo. – Will brincou, segurou o rosto da minha irmã e beijou sua testa. – Se cuida, Nit. Eu volto assim que der.

— Espera. – ela segurou uma de suas mãos, o fazendo parar e virar-se novamente. – Vo-você é feliz com ela, Will?

Meu irmão olhou para mim por um momento antes de se voltar para Nita. Ele não se sentia à vontade para falar desse assunto com ela na minha frente, mas que se foda, eu não estava saindo. Pelo menos não agora. Se iam resolver essa merda faria isso comigo dentro do quarto. Eu já sabia como iria terminar e eu estaria aqui por Nita. Will partiria o coração dela; eu sabia, melhor que ninguém, o quanto ele estava realizado ao lado de Christina.

— Depois do que aconteceu entre a gente eu fiquei desolado, Nit. Você fodeu com tudo que eu sentia naquela época. Eu te amava tanto e você simplesmente foi lá e pisou em mim. Eu nem sei por que você fez aquilo. Mas então reencontrei Christina. Nos aproximamos e eu me apaixonei por ela. – ele suspirou. – Sei que isso a magoa, mas eu sou completamente apaixonado pela Christina. Vou me casar com ela em duas semanas. Estou feliz, Nit. Estou completo.

— Tá bem, já chega. – ela respirou fundo. – Já entendi. Você pode ir agora.

— Eu sinto muito. – Will disse e deixou o quarto.

Nita começou a chorar assim que a porta se fechou.

— Ei, Nit, não fica assim. – a consolei, mas a verdade é que estava aliviado por não ter dado certo entre eles. Eu amava os dois e por isso mesmo sabia que seria uma cilada. Will merecia alguém muito melhor que Nita. Ela mesma sabia disso. – Só não era pra ser.

— Eu sou muito burra. – soluçou. – Entreguei ele de mão beijada praquela filha da puta.

— Pega leve, mana. – alertei. – Sou amigo de Christina e não vou admitir que você fale assim dela.

— Só falta você dizer que o sangue que corre em mim agora veio dela. – Nita debochou soltando uma risada sem humor.

— Não foi ela.

— Foi o papai? – ela me olhou esperançosa. – Ele finalmente apareceu?

— Não, Nit; sinto muito por isso também. – respondi e vi como sua expressão murchou depois disso. Eu odiava Andrew. Ele não merecia as filhas que tinha. Ainda me impressionava o fato de que alguém como Tris pudesse ser do mesmo sangue que aquele filho da puta. Nita eu podia entender. Não gostava, mas entendia. Ela tinha um gênio difícil, propício a fazer merda, então era justificável que fosse filha dele. Mas Beatrice? Isso era praticamente impossível. Sua mãe devia ter sido alguém foda pra caralho. Ela tinha que ter puxado a ela.

— Não foi você. Nossos sangues são diferentes, teria dado errado. Também não foi Will ou então ele mesmo teria dito. Nem a mãe nem o pai apareceram. – Nita refletiu. – Quem me doou, Jay? Foi algum dos seus amigos?

— Nenhum deles era compatível e eles também precisavam que fosse alguém da família.

— Eu não entendo. Não sobra mais ninguém pelas minhas contas, exceto por... – a frase morreu quando sua ficha caía aos poucos. Eu não precisei revelar para Nita quem tinha doado sangue para ela. – Você só pode estar brincando comigo.

— Ela salvou sua vida, Nit. – justifiquei.

— Eu não acredito que o sangue dela... – Nita expressou nojo e os olhos se encheram de lágrimas. – Como isso aconteceu? Eu nunca teria aceitado, Jay.

— Você estava morrendo; não tinha muita escolha, mesmo se pudesse escolher.

— Ela voltou? Achei que tivesse deixado Miami para sempre depois de tudo que aconteceu na sua casa.

— Ela voltou porque soube do seu caso.

— Como ela soube?

— Saiu em todos os jornais. Não só ela como o país inteiro já sabe.

— Isso é um pesadelo. – Nita choramingou. – Como vou encará-la depois disso? Eu não consigo, Jay. Eu sinto muito.

— Eu ainda não falei com ela, mas duvido que ela esteja esperando por um agradecimento ou qualquer merda dessas. Ninguém a pediu que fizesse isso, Nit. Ela apenas foi lá e fez; não hesitou em momento algum. Você pode não agradecê-la, mas não pode impedir que eu faça isso. Tem noção do quanto foi nobre sua atitude? Mesmo depois de tudo que aconteceu?

— Eu não a entendo. Eu nunca teria feito algo assim por ela, mesmo sendo minha irmã. – ela negou balançando a cabeça. – Estou mesmo pagando por todas as coisas ruins que já fiz. A lei do retorno não falha, não é?

— Eu sinto muito, Nit. Gostaria que as coisas fossem diferentes, mas não temos como fugir do nosso destino. Você agora está colhendo o que plantou. É uma merda, mas... Você escolheu isso, maninha.

— Posso entender agora porque você a amou. O que ela fez hoje diz muito sobre quem é. – Nita suspirou. – Eu odeio admitir, mas não sou filha da puta o bastante para não reconhecer isso.

Eu conseguia ver que por baixo da postura arrogante e forte de Nita, ainda havia resquício da garotinha indefesa que cresceu sem o amor dos seus pais. Minha irmã sempre teve a mim, mas isso não era a mesma coisa e eu sabia. Eu tentava suprir a necessidade familiar que faltava a Nita, mas não era o suficiente. Eu sabia que ela sofria com tudo isso, mesmo que não gostasse de admitir.

— Você ainda a ama, não é? – minha irmã perguntou e me deu um sorriso. – Tudo bem, não é como se eu fosse sair daqui e ataca-la por isso.

— Eu nunca parei de amá-la, Nit. – respirei cansado. Era péssimo discutir sobre Beatrice com Nita porque eu sabia o quanto isso a magoava, mas agora não dava mais para evitar. Tris finalmente tinha voltado; eu não perderia a chance de me redimir com ela. – Eu tentei evitar quando ela chegou aqui e você sabe disso. Eu dei duro para mantê-la longe de mim porque era o que fazia você feliz e eu sempre te coloquei acima de tudo, Nit.

— Eu sei. – Nita assumiu cabisbaixa. – Eu achei que morreria hoje sem que você soubesse o quanto eu sou grata por ter você como irmão. Eu te amo muito, Jay. Você é a pessoa que eu mais amo na vida. Eu sei que sou difícil e tenho muito o que consertar ainda, mas saiba que tudo o que eu fiz foi por amar e achar que era o melhor para você. Não justifica eu ter agido tão cruel, eu sei disso, mas fiz porque era o que eu pensava que fosse o melhor.

— Tudo bem. A gente vai dar um jeito nessa bagunça toda. – levei minha mão até seu rosto e o acariciei. Ela piscou e me deu um sorriso triste. – Você sabe o quanto eu te amo, Nit; mas não me peça para escolher entre vocês duas.

— Porque você escolheria a irmã boazinha. – soltou insatisfeita.

— Sim. – rebati sem hesitar. – Você um dia iria me perdoar, mas se eu abrir mão de Beatrice de novo... Isso me mataria, Nit. Eu vou lutar por ela; seria bom se você entendesse isso e ficasse ao meu lado.

— Will me disse que você estava com Cara.

— E desde quando você e Will voltaram a ser tão próximos? – eu estava realmente curioso a respeito disso. Nos últimos tempos eu só tinha notado o quanto Will e Christina viviam grudados um no outro e correndo com os preparativos do casamento. Quando foi que ele tinha tirado um tempo para passar com Nita? E como foi que ele conseguiu esconder isso de mim? Ou melhor: de Christina.

— Você estava me ignorando. O papai sumiu e Evelyn nunca deu a mínima para mim. Ele era a única pessoa que se importava comigo. Nós saímos juntos algumas vezes. Ele me ajudou. – ela respondeu como se não fosse grande coisa.

Mas para mim era. Will tinha ganhado agora infinitos pontos comigo. Mesmo que eu estivesse puto para caralho com Nita naquele tempo, eu me importava com ela. Odiava a ideia de que ela estivesse sozinha e meu irmão certamente sabia disso, mesmo que eu não admitisse. Ele tinha assumido o risco e cuidado dela, mesmo se isso pudesse lhe trazer problemas com Christina. Eu estava orgulhoso. Will era um puta de um homem.

— Cara e eu somos complicados. – disse, pensando em como faria para consertar a bagunça que eu tinha feito com esse possível triângulo amoroso.

De início, Cara era alguém que se mostrava uma grande amiga e se preocupava comigo. Eu nunca tive a intenção de transar com ela; pelo menos não enquanto eu ainda amava tanto Beatrice. Se tivéssemos nos aproximado quando eu ainda não conhecia a Prior, teria sido diferente. Talvez pudesse ter existido algum “nós”, mas as coisas não tinham acontecido assim. Eu agora pertencia inteiramente a Tris.

E precisava urgentemente me desculpar com Cara pela noite anterior.

— Cara é uma boa pessoa. Ela ficou ao seu lado quando tudo ruiu, por que não lhe dá uma chance?

— Eu amo Beatrice, Nita. Ninguém pode competir com isso.

— Então você usou minha amiga?! – Nita demonstrou revolta. Eu não pensava assim, mas vê-la falando dessa forma fez eu me sentir um completo bosta. – Achei que você tivesse mudado.

— E mudei; não sou mais aquele cara de antes. Eu jamais usaria Cara. Eu gosto e tenho muito respeito por ela. As coisas só saíram do controle, mas eu vou consertar. Ainda não pude conversar com ela também. Tenho estado uma pilha desde que Will me deu a notícia sobre você. Eu não consegui focar em mais nada.

— Obrigada, Jay. – ela suspirou e em seguida deu um bocejo. Estava cansada. – Eu não sei o que seria de mim sem você.

— Por que você não descansa um pouco? Foi um longo dia.

— Não quero dormir. Ou melhor: não consigo dormir. Estou com medo de fechar os olhos e as imagens do bastardo me tocando virem à mente. Não quero reviver aquilo, Jay. Tenho muito medo.

— Eu estou aqui e não vou deixar que nada mais te machuque. Eu prometo.

Nesse momento a porta do quarto se abriu e o Dr. Kang e uma enfermeira sorrindo.

— Ora ora! A paciente que fez do meu hospital o maior caos finalmente abriu os olhos. – ele se aproximou de Nita e tirou uma lanterna de bolso do seu jaleco para examiná-la. – Faremos uns procedimentos bem chatinhos agora, mas é só para garantir que você não ficou com nenhuma sequela. O Sr. Eaton pode aproveitar esse tempo e fazer algum lanche, já que ficou plantado lá fora e não saiu até que garantimos que a senhorita estava bem.

— Eu volto assim que acabarem, ok? – disse à minha irmã, me aproximando, beijando sua testa e vendo-a assentir. Me virei para deixar o quarto e senti a mão da minha irmã segurar meu braço. Voltei-me para ela. – Precisa de algo?

— Eu sou grata pelo que ela fez. – ela disse e seu sorriso vacilou um pouco. – Quando a encontrar você poderia dizer que eu sinto muito? Por tudo que aconteceu com Caleb e a maneira como ela descobriu... Eu estou arrependida. De verdade. Vou ajudar com tudo que eu puder a partir de hoje e gostaria que ela soubesse.

— Tudo bem. Obrigado por isso, Nit. Eu sei quem você é de verdade e estou feliz que tenha escolhido fazer a coisa certa. – lhe dei mais um beijo antes de me afastar. – Eu te amo. Até daqui a pouco.

Ela me deu sorriso e eu pude deixar o quarto sentindo como se um peso tivesse sido tirado das minhas costas. Encontrei Will e Cara conversando no corredor. Procurei por qualquer sinal de Tris, mas não tive sucesso. Eu precisava encontra-la o mais rápido possível.

Assim que me viram, Cara e Will viraram-se para mim.

— Como ela está? – Cara perguntou tocando meu braço.

— Ela está bem. Um pouco cansada, mas a memória está boa e os sinais vitais também.

— Graças a Deus. – ela soltou a respiração.

Olhei para Will.

— Você viu Beatrice? – perguntei angustiado. Will olhou de relance e notei Cara murchar no mesmo instante. Merda. Eu tinha que me resolver com ela antes de tudo.

— Ela e Christina estavam no refeitório do hospital com Zeke, Uriah e Marlene antes de eu vir para cá, então ainda devem estar por lá. – meu irmão respondeu. – Ela perguntou por Nita. Acho que se importa mais do que queria.

— Eu não esperaria menos de alguém como ela. – sorri e direcionei minha atenção à Cara. – Podemos conversar?

— Vou deixar vocês dois a sós. – Will diz antes de sair.

Me encosto na parede ao lado de Cara, ainda sem saber como começar aquela conversa.

— Eu já sei o que você vai dizer, mas não sei se quero ouvir. – Cara começou. Sua voz estava embargada por um choro que eu sabia que sairia.

— Quero que saiba que você é muito especial, Cara. Beatrice voltar aqui não muda isso.

— A noite de ontem significou algo para você? – perguntou. – Eu sei que falamos disso na noite passada, mas agora que ela voltou... Eu não sei, Tobias. Talvez você não se sinta da mesma forma que antes. Como foi vê-la?

— Foi diferente. Assustador pra caralho, eu confesso. Mas porra, eu estou tão feliz que ela tenha voltado... Nada mudou pra mim, Cara. Não em relação a ela.

— E como é que eu fico nessa história? Eu não escolhi me apaixonar por você! – Cara gritou e vi seus olhos se encherem de lágrimas.

Merda. Mil vezes merda. Eu não negaria: sentia algo por Cara. Ela foi aquela famosa luz no fim do túnel que a gente tanto ouve falar. Eu não queria magoá-la; ela significava alguma coisa. Eu só não podia correspondê-la. O que eu sentia não era amor. Não tinha nem como ser. Quando eu colocava na balança sequer se comparava ao que eu sentia por Tris. E eu amava Beatrice. Sempre amaria. Eu gostava de Cara e a respeitava, mas Tris era o amor da minha vida. Ela era única.

Como resolveria a bagunça que eu tinha me metido?

— Desculpe, não quis estourar em você. – Cara se desculpou e fungou quando não falei nada.

— Não peça desculpas; isso só faz com que eu me sinta pior. – tomei uma mão sua e acariciei. – Não quero magoar você, Cara. Você significa muito para mim e eu não quero foder com isso também; mas, por favor, tente entender meu lado. Estou no meio de fogo cruzado. É a porra de um milagre que Beatrice esteja de volta e eu não posso simplesmente deixar isso passar. Sei que pode machucar você e sinto muito, muito mesmo. Deus sabe o quanto me sinto péssimo, Cara.

— Eu entendo. Assumi um risco quando me envolvi com você. Você sempre deixou claro o quanto ama essa garota; a culpa foi minha de ter visto coisa onde não tinha.

— Não fala assim. – pedi, detestando a forma como ela estava magoada com tudo aquilo. Eu queria fazer algo a respeito; mudar a situação e fazê-la se sentir melhor do que agora, mas eu não fazia ideia do que eu podia fazer. Não podia lhe dar falsas esperanças. A verdade que doía nela também doía em mim por machucá-la.

— Não quero perder o que nós temos. – Cara suspirou. – Ainda podemos ser amigos?

— Mas é claro! – respondi e em seguida a puxei para um abraço. Cara veio de bom grado e deitou sua cabeça em meu peito. Eu odiava que ela estivesse magoada por minha causa. Ela não merecia. Cara era um mulherão. Esperava que pudesse encontrar alguém à sua altura.

Ouvi alguém pigarrear atrás de nós e Cara e eu nos afastamos. Três pares de olhos nos observavam: Will como se pedisse desculpa por algo, Christina com certo desprezo e repulsa e por último Beatrice. Sendo que o dela eu não consegui ler.

— Oi, Tobias.

Notas finais
Me contem o que estão achando da história!! Comentem, comentem, comentem ♥ Já pode passar e conferir o próximo agora haha