Estranha Perfeição
37 Capítulo XXXVI
Notas iniciais
TOBIAS EATON
TRÊS SEMANAS DEPOIS
Era a primeira vez que eu estava deixando minha casa desde o dia em que voei até Chicago. Bem, isto não era tecnicamente verdade, visto que eu tinha saído para o estúdio de gravações na última semana e algumas vezes para o escritório de Harrison, meu advogado. No entanto, era a primeira vez que eu saía para um lugar onde tinham música, bebida e gente. Gente pra caralho.
Eu não estava animado com a ideia, o que fez com que Will praticamente me arrastasse para fora do meu quarto. Tínhamos discutido, então ele usou a chantagem sobre estar noivo e precisar aproveitar seus últimos momentos de solteiro com os caras antes de se amarrar completamente.
Faria sentido, se Christina também não estivesse indo junto.
— Eu realmente não tô no clima, Will. – eu disse, apanhando uma camisa preta do meu guarda-roupa e vestindo-a, totalmente contrariado. – Mas estou fazendo isso por você. Somente por você, cara.
— Eu sei e agradeço, mas você precisa superar essa merda, mano. – ele bufou, impaciente. – Não gosto de ver você sofrendo por ela. Bola pra frente e cabeça erguida. Tris seguiu a vida dela. É uma merda, mas você vai ter que fazer isso também. Encontre uma maneira de lidar. E quanto a Cara?
— O que tem? – perguntei, enquanto calçava meus sapatos a contra gosto. Will tinha de lamber minha bunda por eu fazer isso por ele.
— Bom, ela é um mulherão e eu vi que ela tem dormido bastante aqui. – ele respondeu, apontando para as chaves em cima da mesinha do abajur ao lado da minha cama. – Não rola nada? Nem uma foda sequer?
— Não. Cara e eu estamos bem com o lance de amigos. – respondi, pegando as chaves e deixando o quarto, descendo as escadas com meu irmão logo atrás de mim.
Era a verdade. Cara e eu estávamos muito mais próximos desde o dia em que Tris me deixou. Nos encontrávamos principalmente à noite, quando eu ficava bêbado demais para raciocinar e aí ela vinha e escutava toda minha merda despejada. Depois me levava para casa e me dava comprimidos para curar a ressaca. Na manhã seguinte ela me preparava o café e nós conversávamos sobre nada em especial, apenas para passar o tempo. Eu não me sentia tão sozinho. O vazio que Tris havia deixado ainda estava lá, mas com Cara por perto era mais fácil lidar com tudo aquilo. Isso se repetiu durante duas semanas até que eu finalmente colocasse minha bunda de volta nos trilhos.
O estúdio tinha sido minha maior fonte de distração. Me dedicar ao novo álbum, aquele que seria o principal marco do meu retorno para a mídia, estava sendo incrível. Eu amava a música. Era tão vivo quanto os batimentos do meu coração. Colocar todo meu sofrimento nas letras e melodias estava rendendo faixas impressionantes. A gravadora estava contente com tudo isso. Eu só me sentia aliviado de poder desabafar de alguma forma. A dor tinha sido insuportável nas últimas semanas. Eu não conseguia dormir, a menos que bebesse um litro inteiro de uísque. Era deprimente. A casa era vazia, silenciosa e grande demais para mim. Eu não tinha percebido isso até que Tris entrou na minha vida. E em seguida me deixou.
— O que você falou para deixá-lo com essa carranca no rosto? – Christina perguntou quando chegamos à sala principal. Ela vestia um vestido preto justo, coberto de lantejoulas ou alguma merda assim. Tinha certeza de que há dez metros de distância eu saberia reconhece-la apenas por aquele tecido tão chamativo.
— Ele está puto porque não quer sair de casa. – meu irmão respondeu com deboche na voz, abraçando a noiva por trás e beijando a curva do seu pescoço.
Eu estava puto com a demonstração de carinho na minha frente. Queria que eles se fodessem. Eles não se cansavam dos cento e vinte beijos que davam por dia. Era como se esfregasse na cara de todo mundo o quanto eram felizes juntos. Às vezes tinha vontade de esmaga-los por serem tão bom juntos. Tinha mantido distância deles porque Will estava sempre com Christina. E Christina me lembrava Beatrice.
— Cala a boca. – resmunguei, enquanto pegava o celular para checar uma mensagem de Cara.
— Você precisa seguir em frente – Christina começou, olhando para mim numa mistura de pena e compaixão. – Tris fez isso, devia fazer o mesmo.
Tremi só de ouvir o nome dela. Tinha me perguntado todo dia como ela estava. A parte de mim egoísta queria que ela estivesse sofrendo tanto quanto eu sofria. Queria que ela estivesse sentindo minha falta, que pensasse em mim em cada maldito segundo do dia. Mas a outra parte – a maior delas – queria que Tris estivesse se curando. Superando toda a dor que eu e minha família tínhamos causado a ela. Que de certa forma ela estivesse bem, se alimentando corretamente e vivendo um dia após o outro.
E, quando estivesse pronta, pegasse o primeiro voo e viesse até meus braços.
— Você tem falado com ela? – a dor na minha voz era quase palpável. Eu não me importava em esconder mais. Todo mundo sabia que eu estava vivendo um inferno desde o dia em que Tris fugiu para Miami, voltando pros braços de outro cara. Um cara que não tinha escondido um segredo fodido e uma família que a odiava. – Como ela está?
— Claro que eu tenho falado, eu não fodi as coisas com ela – Christina revirou os olhos como se fosse uma coisa óbvia. – Ela está bem, eu acho. Tem melhorado com o tempo. Voltou a sorrir, conseguiu um emprego e está empenhada em prestar o vestibular no final desse ano. E ainda tem o Al cuidando dela o tempo todo. Ela tem sorte de ter um homem como ele completamente louco e apaixonado por ela.
— Chris! – Will repreendeu, mas sua noiva permaneceu com a postura intacta.
Eu sabia que ela tinha escolhido as palavras certas para me atingir e havia conseguido. Saber que Beatrice estava morando com aquele merda engomadinho fazia meu sangue ferver. Eu não tinha o direito de reclamar. Ela não me pertencia mais. Era livre e desprendida, como sempre tinha sido. Tinha sido minha culpa que ela estivesse ferida e eu tinha começado a aceitar que, por mais que Beatrice fosse o amor da minha vida, eu não era o da dela. Eu tinha fodido tudo. Nita tinha fodido tudo. Minha mãe e o embuste do seu marido tinham fodido tudo.
Eu não podia fazer nada para ajuda-la ou consertar as coisas. Tinha tentado, fui até ela e ela me chutou. Eu entendia sua reação. No inicio tinha sido doloroso e até mesmo revoltante, mas conforme o passar dos dias, a aceitação foi vindo. A única coisa que ainda me mantinha são era me agarrar a um fio de esperança de que um dia ela se curaria totalmente, ao ponto de conseguir me perdoar.
Eu precisava acreditar nisso. Era tudo que eu tinha.
— Bom. – eu respondi à provocação de Christina, então segui para garagem e subi no meu carro. Ela e Will me seguiram e sentaram na parte de trás. – Vou passar no condomínio de Cara antes de irmos para boate, tudo bem por vocês?
— Argh, não suporto essa garota – Christina cuspiu. – Qualquer um que seja amigo de Nita não é uma pessoa confiável.
— Para de resmungar, amor. – Will pediu com um tom suave que só usava com Christina. – Cara não é nada como Nita. Devia lhe dar uma chance. Ela é gente fina pra caralho.
— O quê, vai ficar ao lado dela também? Vocês homens são tão burros! – vi pelo retrovisor Christina revirar os olhos, enquanto tentava se esquivar do abraço de Will. – Basta olhar para um rostinho bonito que já caem de quatro pela garota. Ela nem é tudo isso.
— Você está certa. – ele concordou, dando um beijo carinhoso em sua bochecha. – Ela sequer consegue chegar aos seus pés.
Eu mordi a boca para conter o riso. Não só do ódio de Christina para Cara, mas por Will estar totalmente caído de amores pela noiva. Era engraçado como o inferno. Will nunca tinha se interessado de verdade pela Chris, até o dia em que ela lhe deu um belo chute nas suas bolas. A festa dos sócios tinha marcado nossas vidas, mesmo que de formas diferentes.
Parei o carro em frente à entrada do condomínio de Cara. Ela acenou para um dos seguranças e andou até meu carro, abrindo a porta e sentando no banco do carona.
— Hey. – ela sorriu para mim e em seguida virou-se para meus amigos no banco de trás. – Chris, Will.
— Pra você é Christina. – a morena rebateu, cruzando os braços na altura do peito numa postura defensiva.
— Ignore-a. Christina não tem estado no melhor humor nas duas últimas semanas. – Will se desculpou pela noiva e deu um sorriso constrangido para Cara.
— Você está linda. – eu a elogiei, enquanto seguia na pista em direção à boate.
— Obrigada. – ela sorriu. – Eu passei duas horas pra escolher essa roupa e acho que nem gostei tanto assim. – Cara fez uma pausa, respirando fundo, antes de continuar a falar. – Você está bem?
— Estou melhorando. – eu respondi e virei o rosto apenas por alguns segundos para olhá-la; para confirmar que eu realmente estava dizendo aquilo. Eu estava melhorando. Não sabia se seria capaz de superar algum dia, mas ao passar do tempo, eu melhorava. Pelo menos eu achava que estava e isso já era um começo.
— Isso é bom. – disse ela por fim.
Liguei o som do carro e pus em uma estação de música clássica. Não era minha praia, mas eu só tinha escutado música clássica nas últimas três semanas. Tris adorava esse estilo. Por muitas vezes enquanto ouvia o rádio a imaginei tocando piano na minha sala, como ela já tinha feito outras vezes. Eu não queria perder isso. Por mais que ela tivesse me chutado para fora da sua vida, eu não queria perde-la. Mesmo que isso significasse viver sob memórias.
— Nita me ligou. Ela tem estado preocupada com você. Disse que você não atende mais as ligações e que você a deixou totalmente de lado. Ela voltou pra faculdade arrasada, Tobias. Você devia ligar. – Cara torceu as mãos nervosamente.
— Deixe a vadia sofrer. É o mínimo que ele pode fazer depois de tudo que aconteceu. – Christina resmungou.
— Que porra você tem Chris?! – Will exasperou. – Por mais que eu te ame, isso não é da sua conta. É um assunto de família, porra. Além do mais, será que você pode controlar sua língua? Você tem estado a grosseria em forma de gente. Sem contar nas mudanças repentinas de humor. Isso já deu. Ou você melhora ou a gente volta pra casa. Era pra ser uma saída divertida. – ele suspirou, parecendo cansado. – Vamos nos casar em duas semanas, amor. Tenta relaxar um pouco.
— Tudo bem. – ela concordou, baixando um pouco o tom de voz. – Sinto muito, Tobias. Realmente não é da minha conta.
— Eu entendo por que faz isso. – eu sorri através do espelho retrovisor para que ela me visse. – É pela Tris. Não precisa se desculpar. Eu entendo de verdade. – me virei para Cara. – Não quero falar sobre Nita. Por favor.
— Ok. – ela assentiu, pegando o celular da bolsa para checar alguma coisa.
Seguimos o restante do caminho em silêncio, exceto por alguns sons de beijos de Christina e Will. Eu iria conversar com meu irmão quando estivéssemos a sós. Casar em duas semanas? Isso era loucura. Eles estavam indo rápido demais, alguém precisava meter o pé no freio. Por mais que eu amasse Will – e também amasse Christina – alguém precisava o alertar. Casamento era algo sério demais. E em duas semanas?! Porra. Isso era muito, muito, muito rápido. Será que algum deles tinha certeza disso?
Quando chegamos à boate, descemos do carro e eu entreguei as chaves ao manobrista. A fila para entrar no lugar era imensa a ponto de começar a dobrar na esquina. Os cochichos começaram quando as pessoas aos poucos iam me reconhecendo. Zeke ou Uriah precisavam aparecer antes que a merda explodisse e ficasse incontrolável.
— Eu não acredito no que estou vendo! – uma voz grave conhecida me fez girar o pescoço e encarar Eric saindo da boate. – Então o bom filho a casa torna. Não imaginei que você fosse vir depois de recusar o meu convite por cinco vezes.
— Acredite, ou eu vinha ou eu era um homem morto. Will vai se amarrar de vez. – eu apontei com a cabeça em direção ao meu irmão.
— E aí, Eric, tudo tranquilo? – ele perguntou, cumprimentando Eric com um aperto de mão. – Esta é minha noiva, Chris. Chris, esse é o Eric. Ele era basicamente a babá do meu irmão.
— Ei cara, respeite. – Eric riu. – Eu era o assistente e estou voltando pro meu posto agora que Tobias está pronto pros palcos novamente. – ele desviou a atenção de Will e Christina e pousou os olhos em Cara. – Uau, como você se chama, docinho?
Eu reprimi os lábios. Era estranho ver um cara como Eric – coberto de piercings e tatuagens, todo alto e musculoso – usar uma palavra no diminutivo. Ainda mais se isso significasse que era por uma garota.
— Cara. Cara Baiocchi. – ela estendeu a mão. Meu amigo logo se apressou em pegá-la e beijá-la. – E por favor, se quer me ganhar por essa noite, não me chame de docinho. – ela revirou os olhos. – Deixo você me pagar uma bebida para se redimir por isso.
Os olhos de Eric brilharam em desafio.
— Aceito. – ele concordou e apontou para entrada VIP da boate. – Vamos entrar, o lugar lá dentro tá insano! – falou animado.
Mandei uma mensagem do meu celular para Zeke e Uriah avisando que já estávamos entrando. O mais novo respondeu que tiveram um imprevisto e iriam se atrasar por mais meia hora. Eric deixou seus nomes na lista dos seguranças que cuidavam do espaço VIP, para que eles fossem para nossa área assim que chegassem.
A porta pela qual entramos dava acesso ao segundo andar. Acima dele havia mais um espaço, num total de três ambientes. Separada por vidros, a parte em que estávamos era rodeada por sofás elegantes de couro, com alguns quadros sensuais pendurados nas paredes e uma pintura escura moderna, entrando em harmonia com toda decoração. Soube de início que aquele deveria ser o andar mais luxuoso.
— Meu camarote é o segundo seguindo reto. É fácil de achar, basta entrar naquele que tiver mais cachaça, uísque e mulher bonita. Tem um pessoal do escritório também, mas posso garantir que todo mundo é bem gente boa.
A música eletrônica já pulsava nos meus ouvidos.
Seguimos Eric até seu camarote e ele não estava brincando na descrição que havia feito. Haviam quatro sofás enormes, três mesas cheias de bebidas, uma sinuca situada no fundo do local e muitas mulheres gostosas. Nisso eu tinha que concordar com Eric: havia muita mulher bonita ali. Ele tinha caprichado.
— Uau, é impressão minha ou você é o Quatro? – uma morena se aproximou de mim, segurando uma taça de champanhe nas mãos. Ela vestia um vestido vermelho justo, que ia até os seus joelhos, e usava saltos combinando. A boca estava destaca com um batom da mesma cor. Ela tinha lábios carnudos, parecidos com os de Angelina Jolie. Os cabelos pretos também se destacavam em meio à sua pele branca.
— Alicia! – exclamou Eric antes que eu pudesse falar qualquer coisa. – Não imaginei que viria hoje.
— Bom, cá estou eu – ela sorriu, tomando um gole da sua taça. – Acabei de chegar, na verdade. Desculpe pela surpresa. Luiz disse que eu poderia subir, mas eu posso ir embora se isso incomoda. Não quero ser rude.
— Que nada, você sabe que é mais que bem-vinda. Deixe-me apresentar vocês dois – Eric se apressou. – Quatro, esta é Alicia, uma das melhores cantoras que eu conheço. Sério, essa garota tem um talento incrível. Essa boca consegue fazer mágica, mano. – eu não deixei passar despercebido o tom de malícia na sua voz quando ele disse a última frase.
Alicia apenas levantou uma de suas sobrancelhas, enquanto tomava mais um gole de sua taça. Ela pareceu não se importar com o comentário de Eric.
— Vou deixar vocês dois conversarem um pouco. Tenho ainda que resolver um assunto, mas volto logo. Divirtam-se – Eric se despediu, sem me dar qualquer chance de protestar. Eu entendi sua jogada. Ele estava me empurrando para Alicia.
Olhei em minha volta procurando por meus amigos. Christina e Will estavam sentados em um dos sofás, aparentemente discutindo sobre algo. Eu já tinha me acostumado a isso. Chris era exigente, mas Will estava tendo muita paciência com ela. Meus olhos varreram o local em busca de Cara, mas não a vi em canto algum.
— Calma, gato, você parece pronto para fugir a qualquer momento. Relaxa, eu não sou de morder. A menos que você queria. – ela disse com uma voz sensual, enquanto lambia os lábios, limpando o pouco do champanhe que tinha ficado neles.
— Há quanto tempo você canta? – eu desviei o assunto, tentando disfarçar meu constrangimento. Eu sabia flertar e eu geralmente fazia isso quando via o interesse da pessoa. Mas então Tris entrou na minha vida e tudo mudou.
— Profissionalmente há um ano e meio, mas estou no ramo da música já tem um tempo. Eu geralmente sempre permaneci nos bastidores. Sou produtora e agente de marketing. É daí que eu conheço o Eric. – ela respondeu, colocando todo seu cabelo para um só lado, deixando seu pescoço à mostra. Isso chamou minha atenção. Eu era um fã de pescoço nu.
Em uma outra época, eu teria investido. Alicia tinha uma postura firme, segura de si. Ela também tinha um corpo de uma estrela pornô, cheia de curvas, com bunda e peitos enormes. Seus olhos destacados pela maquiagem escura transbordavam em malícia. Então eu comecei a fazer algo em que eu tinha virado especialista quando as mulheres se aproximavam de mim: comparei com Tris.
Seu cabelo não era tão longo ou sedoso quanto os de Tris. O nariz era muito fino e perfeito – coisa que só se conseguia com cirurgia plástica – nada como o da minha garota. Os seios eram grandes demais e pareciam falsos. Os lábios eram carnudos e algo neles me dizia que ela era uma profissional no boquete. Outrora, eu teria amado isso. Agora me causava repulsa. Ela não tinha a ingenuidade de Tris, a pureza, a inocência... Ela não era nada como Tris.
Nenhuma delas eram.
Eu tinha como ser mais patético? Tris agora estava com outro cara, que a amava e era apaixonado por ela por sinal. Ela não tinha retornado nenhuma das minhas ligações ou mensagens. Ela tinha esmagado meu coração da última vez que conversei com ela, mesmo depois de tudo que eu tinha dito. Eu não a culpava completamente. Eu entendia seu lado. Minha família tinha fodido a sua vida de uma forma que ela jamais perdoaria. Ficar comigo seria aceitar a crueldade que fizeram com ela. Ela se lembraria toda vez que olhasse para minha mãe ou Nita e eu não queria magoá-la ainda mais. Eu a queria feliz. Ela estava segura agora. Por mais que eu odiasse, Al estava cuidando dela e ela merecia alguém como ele. Nunca alguém tão fodido quanto eu e o que vinha junto comigo. Isso seria demais.
Mas então, eu acho que eu nunca seguiria em frente com outra mulher. Eu pertencia a Tris. Meu coração estava com ela desde o dia em que ela entrou na minha casa. Eu sabia que ela me mudaria. Eu fiquei assustado pela forma como ela despertava sentimentos desconhecidos em mim. Por isso a tratei como merda nas primeiras semanas. Mas aí me apaixonei e já era tarde demais para fugir. Achei que o que nos separava fosse apenas um segredo sobre seu parentesco. Eu nunca esperaria algo do que tinha descoberto meses mais tarde. Era uma porra. Tudo era porra fodida do caralho.
— Eu não lembro uma única vez de um homem ter ficado entediado comigo. Isso é novo e eu já sei que não gosto. Estou falando por horas aqui e você não está nem aí. Isso não é gentil nem educado. Ao menos peça licença ou invente alguma desculpa para se afastar. Seu desinteresse já ficou mais que claro para mim. – Alicia resmungou, numa mistura de raiva e decepção.
Eu havia sido rude. Maldição, eu não queria ouvi-la falar. Ela era entediante e superficial. Queria apenas ignorar e sair andando, como fazia no passado. Eu estava pouco me fodendo para as mulheres que não me atraíam. Mas algo dentro de mim havia mudado. Eu tinha me tornado um cara para Tris. Um cara diferente, longe do Quatro que todo mundo conhecia. Eu tinha sido Tobias para ela e gostava da minha nova versão muito mais que da antiga.
Eu precisava me desculpar.
— Sinto muito, eu estou sendo rude e meio idiota – comecei, pegando uma dose de álcool da bandeja do garçom que circulava pelo camarim. – Estou com a cabeça meio longe ultimamente.
— É sobre o novo CD? Eu imagino o quanto deve ser animador e aterrorizante ao mesmo tempo o retorno para os palcos. – ela sorriu, parecendo aliviada com o meu pedido de desculpas.
— Sim, o novo projeto tem me deixado muito ansioso. – não era uma mentira. Isso tomava mais da metade do meu tempo, mas eu gostava. Só não era algo que estava tirando meu foco de tudo. Esse algo era um par de olhos verdes e cabelos loiros.
— Você está tenso demais, Quatro, eu posso ver. Talvez devesse relaxar. – ela se aproximou e pôs uma mão em meu ombro, inclinando-se para falar ao pé do meu ouvido. – Vamos dar uma volta. Eu posso fazer você espairecer um pouco. Acredite, Eric não estava brincando quando disse que minha boca faz mágica, gatinho. – depois de falar, ela lambeu o lóbulo da minha orelha e desceu para meu pescoço, chupando-o desta vez.
Eu a afastei antes que ela pudesse fazer qualquer outra coisa.
— Não vai rolar, Alicia. Me desculpe. – disse e me afastei dela quando avistei Cara sentada em um dos sofás de couro, ao lado de Will e Christina.
Fui até eles, mas antes peguei mais uma dose do uísque que estavam servindo. Eu não queria ficar bêbado, já tinha massacrado meu fígado por bastante tempo e eu não queria voltar pra isso. Mas eu estava entediado, então beber era o que me restava. No entanto, eu também já estava pronto para ir para casa.
— Porra, perdi a aposta – Will resmungou sorrindo e deu um beijo na bochecha da sua noiva.
— Que aposta? – perguntei, sentando-me ao lado de Cara.
— Apostamos quanto tempo você ainda duraria lá. – ela respondeu, apontando com a cabeça na direção de Alicia. – Will foi muito otimista. Ele disse que você a levaria para cama até. Christina deu meia hora e muitas doses de uísque. Eu sabia que você não duraria mais que dez minutos lá, então acabei ganhando. – ela riu. – Obrigada pelos trezentos dólares, pessoal. Aparentemente, eu te conheço muito mais que esses dois aqui.
— Por que você não está bebendo? – perguntei para Christina, notando o copo de água em sua mão. Esta não era a Chris que eu conhecia. Ela nunca ia para algum lugar que tivesse bebida e não bebia. Isso estava muito estranho.
— Ela está enjoada. – Will respondeu, bebendo um pouco de sua cerveja.
Christina deu de ombros para mim, mas eu podia notar a insegurança em seus olhos, por mais que ela tentasse esconder. Isso também não combinava com ela. Christina era muito segura de tudo que dizia respeito a ela. Alguma coisa estava errada. Eu era muito bom em ler as pessoas.
A ficha caiu em questão de segundos. Mudanças repentinas de humor, estresse, pouca paciência, enjoos e o fato dela não estar bebendo uma gota de álcool só podiam significar uma coisa: gravidez. Movi meu olhar dela para meu irmão, que parecia alheio a tudo isso. Will era muito lento. Tinha sido assim nossa infância toda. Ele geralmente era como um corno: sempre o último a saber de tudo.
— Chris, será que você pode me acompanhar até lá em baixo? – eu a convidei.
Precisava saber mais disso. Ela estava muito insegura; com medo. Talvez ela temesse Will. Ou o filho poderia não ser dele e ela estivesse se casando apenas para prender meu irmão. Parte de mim duvidava que Chris fosse esse tipo de mulher. Eu conhecia sua índole, seus princípios, sabia que ela amava meu irmão. Mas então eu ainda estava com o pé atrás. Precisava esclarecer as coisas com ela.
— O que diabos você quer com a minha garota? – Will cuspiu, parecendo meio bêbado já. – Converse com Cara, droga. Ela é a sua. Ou então volte pra branquinha siliconada lá. Apenas deixe-me aproveitar minha noiva.
— É apenas por alguns minutos, mano. – eu insisti, mas ele não queria ceder. Christina também evitava olhar para mim ou fazer qualquer movimento. Ela sabia que eu sabia. – Vamos lá, é sobre Tris.
A pena nos olhos de Will foi o suficiente para eu saber que meu último recurso nunca falharia. Ele sabia que eu sofria pela loira de Chicago. Ele sabia que eu nunca superaria alguém como ela, então ele apenas beijou a testa de Christina e concordou para que ela me seguisse. Eu esperei até que ela se levantasse e viesse atrás de mim quando fomos para fora da boate.
— Você está grávida. – eu constatei quando ela se encostou à parede e cruzou os braços.
— Eu não sei do que você está falando – ela revirou os olhos. – Achei que falaríamos sobre Tris.
— Sem conversa fiada, Chris. Somos amigos, porra. Você devia me dar algum crédito. Não precisa me tratar como um estranho só porque as coisas entre Tris e eu não deram certo. – eu rebati, me encostando ao lado dela na parede da boate. A rua estava quase deserta. Imaginei ser bem tarde da noite já.
— As coisas não deram certo porque você é um fodido de merda que tem uma família fodida de merda. Eu sei que somos amigos. Eu não esqueço disso, tá lega?. Me dói ver você sofrendo com tudo, mas você é a razão pela qual Tris foi embora. Ela era minha única amiga. A primeira pessoa que conseguiu me enxergar mais do que a puta fácil que todo mundo acha que eu sou. Estou brava com você, Tobias. Eu queria minha amiga aqui. Principalmente agora. – ela suspirou. – Eu estou grávida sim.
— Eu também queria que ela estivesse aqui, Chris. Eu nunca quis tanto algo na vida como isso. – eu respirei fundo. – Quando você descobriu sobre a gravidez?
— Há três semanas. Eu estava atrasada já tinham mais de duas semanas, então fui à farmácia e comprei uns testes. Os três deram positivos. Eu corri para Tris no mesmo dia em que descobri. Fiquei assustada; precisava de alguém para desabafar.
— Will sabe? É por isso que vão se casar em duas semanas?
— Não, Will ainda não sabe. Eu estou com medo de contar. Somos tão jovens, tenho receio de que isso fará o desistir do casamento. A ideia de casar tão rápido foi dele. Por Will nós já estávamos casados. Eu concordei assim que ele propôs sem nem reclamar. Eu não quero estar no meu vestido de noiva com uma barriga imensa parecendo uma baleia.
— O filho é dele? – eu perguntei antes que pudesse me parar.
— Que tipo de garota você acha que eu sou?! – ela berrou. – É claro que é dele!
— Desculpe, eu não quis ofender. Eu só estou tentando entender o porquê de esconder isso dele. – eu comecei, tentando acalmar Christina de alguma forma. Isso não se parecia com ela. Eu nunca a tinha visto insegura sobre algo. – Meu irmão te ama, Chris. Você precisa contar a ele antes que ele descubra por outra pessoa. Eu saquei rápido, alguém vai fazer isso também. Confie em mim quando digo para você contar. Ele vai gostar, eu conheço meu irmão. Ele ama você acima de tudo. Está tão entregue que chega a ser engraçado.
— Ok, acho que eu só precisava de alguém me dizendo o que fazer pela primeira vez. – ela soltou a respiração que prendia. – Obrigada. De verdade, eu sei que não tenho sido a melhor companhia nos últimos dias, mas meus hormônios estão me matando. Tem hora que eu quero beijar todo mundo e logo em seguida chorar. Mas depois quero arrancar a cabeça de cada um. Ainda é novo pra mim. Estou assustada. Se não fosse por Tris eu já tinha matado alguém.
— Ela seguiu em frente mesmo? – a dor em minha voz estava lá novamente. Eu me perguntava se algum dia seria capaz de lidar com isso sem que ainda ardesse em meu peito.
— Eu posso ser sincera com você? – Chris perguntou e eu assenti. – Ela tem tentado. Ela estava um caco na primeira vez em que a visitei, mas ela tem melhorado. Está se curando. Está mais forte também e até voltou a sorrir de verdade. Al está cuidando dela. Eu não entendo a relação deles, sei que já foram namorados e seria estranho entender se você não os observasse juntos. Eles ficam bem. Se ajudam, são cumplices. Al é completamente apaixonado por ela. Eu não acho que ela se sinta da mesma forma, mas eventualmente isso irá acontecer. Se você não fizer algo, você irá perdê-la. De verdade. Ele está lá cuidando dela enquanto você tá aqui como um bosta fodendo Cara Bai alguma coisa.
— Eu não estou fodendo Cara. – me defendi.
— Isso irá acontecer também se as coisas continuarem indo no ritmo que estão. A garota está apaixonada por você, é ridículo. Ela segue cada movimento seu com adoração no olhar, como você se fosse a porra de um deus. Seria algo bonito, se eu não fosse totalmente a favor da minha amiga.
— Eu acho que já a perdi – eu confessei, soando derrotado pra caralho. – Quando estive lá, ela me disse um montão de coisas. Coisas que eu não gosto nem de lembrar. Coisas que me feriram. Ela também não me quer. Eu fodi as coisas e a perdi. Ela me mandou embora. Me disse adeus por três vezes. Eu não tenho mais chance.
— Você não a perdeu, Tobias. – Christina sorriu, se movendo da parede para voltar à boate. – Confie em mim. Eu converso com ela todos os dias. Ela sempre pergunta de você, o que significa que ela se importa. Se ela se importa, então você tem uma chance. Pense nisso.
Então ela voltou para Will. Eu fiquei lá fora por mais alguns minutos pensando no que ela tinha falado. Será que ela estava certa? Será que eu tinha mesmo alguma chance de Tris me perdoar e me querer de volta? Por Deus, eu estava esperançoso. Eu esperava que Christina estivesse certa, porra. Eu lutaria.
Voltei para boate e passei o resto das horas conversando com Cara. Meu irmão e sua noiva tinham acabado de sair quando vi algo vibrar no sofá. O celular com capa de pedras rosadas me dizia que o telefone era de Chris. Peguei o aparelho e me levantei para correr em direção aos dois, mas paralisei ao ver quem ligava.
Uma foto de Tris e Christina iluminava a tela do telefone, enquanto ele vibrava com a ligação. O inteligente seria não atender. O educado também. Que se foda tudo. Eu queria muito ouvir a voz dela e falar com ela. Foda-se!
— Chris, você não vai acreditar no que aconteceu hoje – ela começou e só o som da sua voz me aqueceu, mas não me deu tempo algum para falar qualquer coisa. – Ed e eu saímos pela terceira vez e as coisas ficaram um pouco quentes. Ele me convidou para ir até seu apartamento e eu aceitei. Acontece que – ela fez uma pausa. – Espera, você está em alguma festa? O barulho da música alta dói e eu não posso ouvir você. Você não está bebendo, está? Christina?
— Tris.
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