Notas iniciais
Oi amores, olha eu aqui de novo! ♥ Como fiquei muito tempo sem atualizar, vou presentar vocês com mais três capítulos seguidos! E para quem anda meio perdidinho na história por causa do tempo sem postagem, vamos recapitular: 1) Tobias e Tris estão separados; 2) Tris está em Chicago há um mês; 3) Tobias está próximo de Cara, assim como Tris está saindo com Edward e morando com Al; 4) Chris está grávida e noiva de Will; 5) O casamento será em duas semanas; 6) Andrew está sumido; 7) Tris lê a carta deixada por Natalie neste capítulo. (este é a continuação do cap XXXVII) No mais, é só isso, eu acho haha Espero que gostem ♥

BEATRICE PRIOR

— Chris, ele tinha razão. – assumi, ainda com as mãos tremulas, enquanto segurava a carta da minha mãe.

Minhas lágrimas tinham parado de cair, mas meu rosto inteiro estava molhado. Eu tinha começado a chorar no momento em que meus olhos bateram no “Querida Beatrice”. Eu reconheci sua caligrafia imediatamente, apesar das letras terem ficado meio tremidas devido à fraqueza da mamãe. Pela data na carta, ela tinha sido escrita uma semana antes dos seus órgãos entrarem em falência. O câncer tinha avançado e consumido tudo. Eu sentia sua falta todo dia. Eu lidava com a dor e a saudade diariamente. Duvidava que algum dia eu fosse me acostumar com sua morte. Ninguém se acostuma com isso.

— Quem estava certo e sobre o quê? – Christina me perguntou. Ela estava sentada ao meu lado e eu tinha certeza de que ela também tinha lido a minha carta, mas ela queria ouvir de mim. Havia coisas que Chris simplesmente não entendia.

— Tobias. – respondi fungando. – Ele estava certo sobre a história dos meus pais. Andrew conheceu a mamãe num clube de... – parei, porque ainda era difícil assimilar. Natalie tinha sido uma prostituta, assim como Tobias e sua família a descrevera.

Isso não se parecia nada com a mulher que tinha me criado. Ela era doce, gentil e incapaz de destruir a família de alguém. Ao menos era isso que eu achava até ler sua carta. As respostas estavam lá, todas em detalhe. Ela e o papai tinham se conhecido quando ele e Evelyn estavam de casamento marcado. Aparentemente, era pra ser algo casual, pois era a profissão da mamãe e Andrew era seu cliente. Mas aí eles se apaixonaram e Andrew largou tudo para se mudar para Chicago e começar uma nova vida. Ele dizia não amar Evelyn. Tinham caído na rotina e ela o traía constantemente. Eles só estavam juntos porque agora ela estava grávida, só que ele não tinha certeza se o bebê era mesmo dele; ou foi isso que ele tinha contado a Natalie, ela não sabia me dizer direito. Mamãe mencionara sobre o abandono de Nita na carta, mas não aprofundava o assunto. Dizia que não cabia a ela explicar porque não era sua história. Se eu quisesse respostas sobre o porquê disso, teria de correr atrás do papai.

Minha cabeça fervia. Eu tinha relido a carta três vezes para que minha ficha começasse a cair. Tinha sido tão injusta com Tobias... Ele tinha me contado a verdade. As palavras que ele tinha dito sobre a minha mãe eram o único impasse que me impedia de voltar para ele e perdoá-lo, mas depois de ler o que Natalie tinha escrito... Eu quem deveria pedir perdão. Eu não devia ter duvidado dele. Eu o amava, tinha certeza disso, mas o orgulho tinha me deixado cega. As humilhações, as mentiras... Tudo isso tinha pesado no momento em que decidi voltar para Chicago. Meu coração, no entanto, havia ficado lá.

— Acho que está na hora de voltar. – assumi para Christina. – Pedir desculpas por ter sido tão injusta e imatura. Eu devia ter ouvido ele, não é? Fui tão burra, fiz tanto drama...

— Graças a Deus que sua ficha tá caindo! – minha melhor amiga levantou e fez um gesto com as mãos aos céus, como se estivesse grata. – Não aguentava mais todo aquele papo dramático de “eu não posso perdoá-lo, ele disse coisas horríveis da minha mãe, blá blá blá...”. – ela afinou a voz, numa tentativa fracassada de imitar minha. – Sério, eu já estava quase te dando uns tapas por deixar um homem como Tobias escapar.

— Eu estou tão confusa. – suspirei. – Eu não posso simplesmente ignorar o fato da mãe dele ter assassinado meu irmão. Caramba, Chris, isso é muito sério!

— Eu não devia falar isso, tudo está sendo feito sob sigilo absoluto, mas foda-se, você é minha melhor amiga, Will não deveria ter contado se ele não queria que eu te dissesse, enfim – ela respirou fundo e se levantou da cama, andando de um lado para outro no meio do quarto antes de voltar a falar. – Tobias está processando a própria mãe. Ele se encontra com o advogado quase todos os dias por causa disso, mas aparentemente estão sem provas contra ela. O caso foi há muito tempo e foi tudo muito bem planejado, Evelyn é o próprio satã, mas seu homem está empenhado em fazer o que é certo. Soube que eles conseguiram uma confissão do perito responsável... As coisas estão caminhando. Devagar, mas caminhando. Ele está fazendo justiça, Tris. E pelo que Will contou... Nita também não vai escapar. Ela não agiu junto com a mãe no assassinato, ela só era uma criança quando aconteceu, mas sabia e guardou isso por todos esses anos. Will acha que ela vai ser indiciada como cúmplice.

Era a coisa certa a se fazer. Nita podia não estar totalmente envolvida no caso da morte de Caleb, mas ela sabia quem o tinha feito e como tinha sido. Ela tinha ficado ao lado da mãe todos esses anos. Não sabia quais tinham sido seus motivos, mas proteger alguém que tinha feito algo tão horrível não era justificável. Ela deveria ter passado por cima do sangue se isso significasse fazer a coisa certa.

Eu teria feito isso, não teria?

— Ele deve estar sofrendo com tudo isso. – falei à Christina.

Podia imaginar o quanto isso estava difícil para Tobias. Era a sua mãe e sua irmã, a única família que ele tinha. Eu confesso que não tenho certeza de que faria o que ele estava fazendo. Por mais correto que pudesse ser, eu jamais levaria Caleb ou mamãe à sua própria condenação. Era difícil demais, mesmo que isso fosse justiça. Eu lembrava da sua adoração pela irmã e tinha sido um ponto no qual eu admirava Tobias. A irmã era tudo para ele.

E ele estava passando por cima dela também, por minha causa.

Onde eu estava com a cabeça quando decidi fugir?

— Como falei antes, ele tem melhorado. – Christina respondeu, me olhando com atenção. – Teve uns dias bem difíceis, mas Cara o apoia. Se não fosse por ela, Tobias tinha se destruído. Ela é uma boa pessoa, o que dificulta as coisas para você.

— Ele tem outra pessoa? – perguntei, sentindo um forte aperto no peito. – Assim tão rápido?

Eu não queria ouvir a resposta, por mais que soubesse que a culpa dele ter seguido em frente era minha. Eu o tinha mandado embora. Ele tinha vindo aqui, implorado por perdão e eu simplesmente chutei ele, ignorando todos os seus sentimentos. Estava tão arrependida. Queria poder voltar atrás.

— Estou tentando não julgá-lo por isso, Tris. Você não esteve lá, não sabe como ele ficou quando você foi embora, mas eu sim. Eu vi de perto seu sofrimento, vi o quanto ele ficou arrasado com tudo que aconteceu. Cara foi tipo a luz no fim do túnel. Ela cuidou dele, teve paciência... Ela estava lá quando ele mais precisou de alguém. Não sei como funciona a relação deles, Tobias deixa claro para todo mundo que ainda é você quem ele ama, mas do jeito que as coisas estão indo, eles vão acabar ficando juntos. A garota praticamente mora lá na casa dele agora.

Engoli o nó que se formou na minha garganta, enquanto piscava rapidamente para afastar as lágrimas. Eu não podia chorar por isso. Christina tinha razão, eu tinha me transformado em alguém que eu não era. Tinha sido forte a minha vida toda, não chorava por qualquer besteira e isso era uma besteira. Eu tinha sido a culpada por tudo isso. Eu o mandei seguir em frente. Eu o expulsei. Eu o julguei, o xinguei... Caramba, eu merecia perdê-lo!

No entanto, suas palavras ontem à noite me diziam que eu ainda tinha uma chance. Ele sentia minha falta e Deus sabia o quanto eu sentia a sua. Ele era o amor da minha vida. Aquele tipo de amor que a gente só encontra uma vez; do tipo que te faz voar, mesmo com os pés cravados no chão. Eu nunca tinha amado tanto alguém como eu o amava. Nem mesmo Al tinha sido tão importante assim.

— Você acha que ele consegue me perdoar? – a aflição na minha voz era quase palpável. Assumir minhas fraquezas era algo que eu estava trabalhando há um tempo. Guardar tudo para mim tinha sido sufocante. Eu era feliz por ter Christina para compartilhar meus medos. De certa forma, isso fazia parecer mais fácil. – E me aceitar de volta? Ou o lance entre ele e Cara é sério?

— Pelo amor de Deus, basta você aparecer lá pro Quatro chutar aquela loira de farmácia. Confie em mim, ela pode estar apaixonada, mas ele não. Você fisgou o roqueiro, amiga. – ela riu, mas o semblante sério voltou assim que tornou a falar. – Ouça, eu super apoio você voltar para Miami. Organizar meu casamento juntas, voltar a trabalhar no clube... Isso é tudo que eu mais quero, Tris, mas você precisa ter certeza disso. Você vai voltar para ficar com Tobias, mas saiba que as coisas podem demorar a acontecer, como o caso de Evelyn e Nita. Você precisa passar por cima disso para tê-lo de volta, amiga. Ele é tão vítima quanto você.

— Eu sei. – concordei com um aceno de cabeça. – E ele está processando a própria mãe por mim, isso diz muita coisa. Acho que eu nunca deveria ter deixado Miami. Era pra gente enfrentar isso juntos, não era?

— Foi bom você ter voltado. Você reviu seu melhor amigo, tirou um tempo para si mesma, organizou as ideias... E agora está pronta para voltar! Talvez se você tivesse ficado lá Tobias não tivesse pulso para enfrentar a megera da mãe e a vaca da irmã. As coisas aconteceram exatamente como tinham de acontecer. Mas se você não estiver segura de voltar, não volte agora. Tobias está... Ele está bem, Tris. Se você voltar pra ficar fazendo cu doce ou confundir a cabeça dele, melhor nem ir. Tenha pena do coitado.

— Já passei tempo demais longe dele. Ontem ele me disse coisas tão bonitas no telefone e eu fui tão grossa. Preciso ir lá e consertar as coisas. Tobias deve saber que eu o amo e que sou grata por tudo que ele tem feito em segredo por mim. Você tem razão, eu preciso parar de fugir. Eu não quero mais fugir dele.

Eu estava sendo corajosa, exatamente como mamãe tinha pedido que eu fosse.

Christina abriu um largo sorriso para mim.

— É assim que se fala, garota! Essa é a Tris que eu conheço. – ela socou o ar num gesto de vitória. – Podemos arrumar suas coisas então?

— Agora?! – arregalei os olhos.

Chris caiu em uma gargalhada e antes que pudesse falar, uma batida na porta e um Al preocupado surgindo atrás dela nos interrompeu.

— Hum, desculpe interromper, mas acho que o que está passando no canal 17 interessa a vocês. – ele entrou no quarto e pegou o controle da TV, ligando-a e aumentando o volume. – Parece que a irmã dele sofreu uma tentativa de estupro agora pela manhã. Todos os canais estão falando sobre isso.

— Meu Deus! – exclamou Christina, enquanto eu estava paralisada assistindo à matéria do jornal.

As imagens de Tobias chegando ao hospital junto de Will acompanhado por seguranças se repetia à tela, enquanto a repórter informava sobre o estado de saúde da modelo Nita Jhonson, irmã da lenda do rock Quatro. Tobias ainda não tinha se pronunciado sobre o assunto. Continha um óculos ray-ban escuro no rosto, mas ainda assim era possível ver o quanto ele estava atordoado e nervoso.

— Eu vou ligar para Will. – Chris declarou, parecendo chocada com tudo que a repórter falava sobre o caso de Nita e deixou o quarto.

O suspeito tinha sido preso em flagrante. Tratava-se de um psicopata de 47 anos. O homem estava foragido e era procurado pela polícia há três anos, acumulando mais de dezessete estupros seguidos de homicídio na ficha criminal. Suas vítimas tinham sempre as mesmas características: mulheres, cabelos negros e pele branca.

Mesmo odiando Nita, foi impossível não sentir compaixão por ela. Ninguém merecia passar por isso. Era cruel demais, ia muito mais além que um corpo violado. Era uma mente que sofreria com esse trauma pelo resto da vida. Não tinha como não se sentir triste por Nita. Eu só esperava que ela pudesse passar por cima de tudo isso.

— Ele e a irmã parecem ser bem próximos. – Al falou, pondo a TV no mudo e sentando-se ao meu lado na beirada da cama. – Você devia ligar. O cara precisa de algum apoio.

— Eu vou voltar, Al. – olhei diretamente para meu melhor amigo. – Cometi um erro vindo para cá. Não dei chance nenhuma para ele se explicar, eu simplesmente... – pausei, respirando fundo. – Preciso voltar porque...

— Você o ama. – Al completou com um sorriso triste antes que eu pudesse terminar a frase. – A carta explicou muita coisa?

— Tudo que eu precisava saber. Ainda há algumas pontas soltas, mas sinceramente, eu não quero mais insistir nisso. Mexer no passado é doloroso, acaba magoando e eu estou cansada de ficar triste. Tudo que é importante eu já sei: tenho uma irmã, minha mãe não era tão santa quanto eu pensei que fosse e Tobias estava certo. Evelyn está sendo indiciada e vai pagar pelo assassinato de Caleb. Isso é o suficiente.

— Quem está cuidando do caso? Eu posso ajudar nas acusações. Tenho um crédito no escritório, o pessoal lá poderia adiantar algumas coisas. – declarou Al um pouco mais relaxado. Eu sabia o quanto a questão de Caleb ainda mexia com ele. Eles eram melhores amigos também.

— Tobias está cuidando disso, mas ele não sabe que eu sei. Pelo visto, tudo está sendo feito sob total sigilo para que Evelyn não desconfie e tente fugir. – soltei, remexendo minhas próprias mãos. – No entanto, não é por causa disso que eu vou voltar.

— É por causa dele. – Al reforçou.

— Sim, é. – respondi com convicção. Era a certeza da minha vida no momento: eu voltaria por Tobias. Eu o amava e estava disposta a lutar por nós. As declarações do telefonema na noite anterior me davam esperança. Ele ainda me amava também. – Você acha que ele vai me aceitar de volta depois de todo esse tempo?

— Ele te ama. Percebi isso na maneira como ele olhou pra você no dia em que veio aqui. – Al sorriu mais uma vez, balançando a cabeça negativamente. – Não vou aliviar pra você, gatinha. Como eu disse ontem, você fez um drama totalmente desnecessário. Com tanta maturidade, depois de tudo que você passou, eu esperava mais. Te apoiei porque amo você e sempre vou amá-la, mas você exagerou. Você devia ter escutado o cara, Tris. Você sabe que ele é inocente.

— Eu sei. – rebati, cansada de todo aquele papo dele e de Christina em julgarem minhas decisões. Eu sabia que tinha errado; eles não precisavam ficar me lembrando disso a cada cinco segundos. – Eu errei e agora vou voltar para me desculpar e lutar por ele. Não é tão fácil como parece, acredite, estou lidando com o fato de que a mãe dele matou o meu irmão e a própria irmã fez da minha vida um inferno. Não o defenda como se ele não tivesse qualquer parcela de culpa nisso, porque ele tem e nós dois sabemos disso.

— Não estou defendendo ele, Tris. Você sabe que se dependesse de mim, você ficaria, nos casaríamos e teríamos uma penca de filhos. Eu nunca escondi meu lado nessa história, sempre fiquei ao seu. – ele sorriu. – Mas acima de tudo eu quero te ver feliz e a verdade tem que ser dita. Você precisa parar de ter medo das coisas e enfrenta-las. Você sempre foi tão corajosa... O que aconteceu?

— Em algum momento eu me perdi. – desabafei. – Perdi minha conduta, meus princípios... Muita coisa aconteceu de uma vez, Al. A mamãe morreu, o papai fugiu, descobri que tenho uma irmã que me odeia e minha possível sogra é a responsável pela morte do meu irmão. Eu... Muita coisa aconteceu.

— Eu sei e tudo isso só prova o quanto você é forte, gatinha. – Al me confortou.

— Parece que ele tem outra pessoa. – confessei ao meu melhor amigo. Era banal, mas esta era coisa que mais me preocupava no momento. – E se eu voltar e ele não me quiser mais? Nós nos falamos ontem à noite, mas ainda assim...

— Não tiro a razão dele. O cara veio aqui, você disse não, vida que segue. – Al deu de ombros. – Mas quer um conselho? Ninguém que conhece você te esquece facilmente, gatinha. Você é linda, forte, gentil, amável... É fácil se apaixonar por você e praticamente impossível te apagar da vida. Se você quer o cara, volta lá e brigue por ele.

— Christina disse que ela é boa.

— E ela realmente é. – minha amiga voltou ao quarto. – Eu até tento não gostar dela, mas... Argh, ela complica as coisas.

Se ela continuasse elogiando Cara eu tinha certeza de que desmontaria. Tobias me amava. Nós tínhamos sido alma gêmeas, mesmo que por pouco tempo. Um amor tão intenso quanto o nosso não acabava de uma hora para outra. A ideia dele se envolvendo com outra pessoa me causava ânsia de vômito, ao mesmo tempo em que me dava mais vontade de voltar e lutar por ele. Ele precisava saber que eu não estava o deixando. Não mais.

— Você está chateada, não é? – Chris perguntou.

— Claro que estou! – exasperei. – Como você ficaria se fosse Will?

— Bem, eu voltaria para lá e tomaria meu homem de volta, você sabe como eu sou. – ela riu. – Tobias já fez a parte dele vindo até você, Tris, e levou um baita de um não. É sua vez agora.

— Eu sei.

— E depois do que aconteceu hoje, acredito que seu apoio seria de grande ajuda lá. – falou Al.

— Como Nita está? Will disse alguma coisa? – perguntei à minha amiga.

— Ela está desacordada. Além do estupro, o cara ainda tentou mata-la. Will e Tobias estão com ela no hospital. Ela levou uma pancada séria na cabeça, estão aguardando o resultado dos exames. Cara está lá também, além do Zeke, Uriah e Marlene.

— O grupo de vocês é bem grande. – bradou Al.

— Você nem imagina. – Chris respondeu. – Vou precisar voltar o quanto antes, o jatinho já está pronto e Will precisa de mim. Mesmo que ele não tenha admitido o quanto está sofrendo com o que aconteceu, eu sei que ele está. Tobias, ele e Nita são uma família.

— Posso ter uma última carona?

— Então você vai mesmo voltar?! – Chris abriu um largo sorriso e eu concordei com um aceno de cabeça. – Graças a Deus você ouviu a voz da razão aqui. Sua fuga de Tobias estava sendo no mínimo meio estúpida. E ele precisa de você; principalmente agora.

— Eu nunca tive chance, não é? – Al soou cabisbaixo e ficou de pé, pondo ambas as mãos nos bolsos do seu jeans. – Quando você voltou... Achei que poderíamos voltar a ser o que éramos, mas parece que eu não sou seu número um.

— Al... – tentei explicar, mas simplesmente não sabia o que dizer. Al e eu já tínhamos finalizado nossa história; por que era tão difícil para ele aceitar nosso fim? Ele sabia que eu o amava; sempre o amaria. No entanto, eu não era mais apaixonada por ele. Como sua paixão podia resistir a tanto tempo?

— Não é justo você fazer isso com ela, garoto. – Christina semicerrou os olhos para meu melhor amigo. – Você teve sua chance, vacilou e perdeu, vida que segue. Pelo amor de Deus, ela não é o amor da sua vida. Se fosse, você não teria cagado tudo há sei lá quantos anos atrás. Agora pare de encher a cabeça dela com essas suas ideias idiotas, eu esperei muito tempo pra que isso acontecesse. Você não vai estragar meu casal, ok?

Al levantou as sobrancelhas; um sorriso divertido tomava seus lábios.

— Como você consegue ser amiga de alguém como ela? – ele perguntou diretamente pra mim.

— Ela é meu oposto. É por isso que nos damos tão bem. – dei de ombros sem conseguir esconder o sorriso no meu rosto.

— Foi amor à primeira vista, baby. – ela fez beicinho. – Agora vamos logo juntar suas coisas porque nosso tempo é curto. Enquanto estamos aqui, meu noivo está lá, com sua ex entre a vida e a morte, que por acaso é irmã do seu melhor amigo, que na verdade é seu irmão de criação.

— Isso é meio nojento. – Al fez uma careta. – É como se fosse incesto.

— Eu também acho, mas Will não é irmão de sangue deles. O pai dele foi casado por pouco tempo com Evelyn. É uma história confusa e eu tento não pensar sobre isso. Imaginar Nita e Will juntos me dá ânsia.

— Como ela pôde ter o amor dos dois? – perguntei, tentando entender como Nita sendo alguém tão má conseguia ter não somente o amor de Tobias, mas o de Will também. Pelo que eu sabia, os dois já tinham se envolvido. – Sendo do jeito que ela é... É estranho.

— Vai ver ela não é cem por cento má, né? As pessoas têm disso. – Christina revirou os olhos. – Só espero que essa coisa toda não atrapalhe minha festa de casamento. Não é como se eu fosse uma insensível ou fria, é só que estou esperando por um isso há muito tempo e eu não quero me casar quando a barriga começar a aparecer. Você entende, não é? Por favor, me diz que eu não sou uma vadia por isso. Não é como se Nita e eu fossemos amigas. – ela soltou. – Quer saber, esqueça isso. Vamos pro apartamento do bonitão aí juntar suas coisas e zarpar, nós já perdemos tempo demais.

Assenti e junto dos meus dois amigos, nos despedimos da Sra. Carter, a mãe de Al. Eu não tinha falado muito com ela. Ela serviu o almoço e depois de comermos, me entregara a carta. Mamãe e ela tinham sido amigas desde que Natalie e Andrew se mudaram para cá. Ela tinha me dado apoio quando Al e eu ainda éramos namorados, mas depois que terminamos, algo mudou, embora seu apoio também estivesse lá quando mamãe morreu, só não era a mesma coisa de antes. Em algum momento, a ponte da nossa relação foi queimada. Algumas coisas simplesmente não se superam.

Al, Christina e eu seguimos para o apartamento dele logo após deixar a casa da sua mãe. Enquanto eu juntava minhas coisas, meu coração batia fortemente no meu peito. A ideia de voltar era animadora, ao mesmo tempo em que me provocava um terrível frio na barriga. O fato de Tobias ter seguido em frente ainda era um impasse para mim. Na noite passada, quando nos falamos ao telefone, ele mencionara que estaria lá por mim. Como tudo tinha mudado de um dia para o outro? Será que ele estava bêbado enquanto falava comigo? Eu sabia que ele estava numa festa. Podia ser que ele estivesse delirando. Oh Deus, e se as coisas com Cara fossem sérias? Como eu poderia lidar com isso?

— Desembucha, vai. – Christina falou, enquanto me ajudava a fechar minha última mala.

— Acha mesmo que eu devo voltar? Já faz algum tempo desde que eu fui embora. Talvez seja melhor deixar as coisas como estão. – respondi, sentindo um nó se formar na minha garganta só de pensar na possibilidade de perder Tobias para sempre. – E se ele estiver melhor sem mim? Com toda essa história da sua mãe e do meu irmão... Talvez seja melhor a gente deixar isso pra lá, não é? E se Cara o estiver fazendo feliz...

— Para, Tris. Sério. Isso não combina com você. – Chris negou com a cabeça. – Ele não está feliz. Ele está seguindo, porque foi isso que você pediu que ele fizesse. Aconteceu uma tragédia com sua irmã hoje e eu aposto que se ele pudesse escolher alguém para estar ao lado dele, essa pessoa seria você. Cara é alguém que se importa com ele e que está lá, mas eu juro pelo meu bebê que ele preferia que fosse você. Ele te ama, Tris. – ela me deu um sorriso. – Você quer que eu continue te incentivando? É disso que você precisa? Porque se for, eu vou continuar. Você já teve seu tempo para lidar com tudo que aconteceu e agora precisa me responder: você está feliz aqui? Isso ao menos se compara ao que você viveu em Miami?

— Não. Mas o que tive em Miami foi baseado numa mentira.

— Não força, vai. Ele te contou sobre seu parentesco com Nita e eu aposto que se ele soubesse do caso do seu irmão, ele também teria te contado. Ele não mentiu sobre o que sua mãe foi, Tris. Ele estava certo, você quem não sabia das coisas. Não esqueça de que ele está processando a própria mãe para que a justiça seja feita. Nita pode ser indiciada também, mas as coisas podem demorar pra acontecer depois de hoje. Enfim, ele está fazendo tudo isso por sua causa. Se não fosse seguro você voltar, acredite em mim, eu jamais a apoiaria nisto. Mas sua felicidade está lá, amiga. E você merece ser feliz. Apenas vá lá e pegue seu homem de volta.

— Você tem razão. – afirmei.

— É claro que eu tenho razão. – murmurou com um sorriso divertido. – Isso é tudo? – assenti. – Ótimo. Miami, aí vamos nós! – exclamou batendo palminhas com as mãos.

Al tinha acabado de colocar minhas coisas no porta-malas do seu carro. Christina já estava dentro dele falando ao celular com Will. Eu tinha pedido para que ela não contasse que eu estava voltando. Ainda não sabia como Tobias iria reagir, mas gostaria que fosse uma surpresa; algo inesperado. Algo dentro de mim me dizia que seria melhor desta forma.

Seguimos até o hangar em silêncio, o que fez parecerem horas até que finalmente chegássemos ao local. Eu estava no banco do carona, ao lado de Al, enquanto Christina sentava no banco traseiro. Minha melhor amiga passava todas as coordenadas para ele, que ouvia atentamente, e por fim estacionava na garagem onde estava nosso jatinho.

— Poderia nos ajudar com as malas? – Chris perguntou a um dos funcionários que estava no local. Ele prontamente concordou e se apressou para arrumar nossas bagagens.

— Não quero que vá. – Al olhou para mim com sinceridade. Meu peito doeu. Eu também não queria ter que deixá-lo. Ele era meu melhor amigo; senti muito sua falta e continuaria sentindo agora que estava voltando. – Vou sentir saudades.

— Eu também vou sentir saudades. – devolvi, sentindo as lágrimas embaçarem minha vista. – Mas você ainda vai ao casamento da Christina, não é? Vamos adorar tê-lo lá.

— Fale por você, lindinha. – minha amiga ironizou, em seguida deu dois beijinhos nas bochechas de Will e subiu as escadas do jato. – Até breve, gatão. E se despeçam logo que eu não tenho o dia todo.

— Vou sentir falta das visitas dela também. – ele riu, apontando com um aceno de cabeça para onde Chris havia entrado. – Você sabe que tem um lar aqui sempre que precisar, não sabe? – concordei. – Eu te amo, gatinha. Desde que nós éramos crianças; isso nunca mudou e nem vai mudar. Qualquer coisa você me liga e eu te resgato, ok? Vou te deixar ir porque quero vê-la feliz e isso não está aqui.

— Eu te amo. Mais uma vez obrigada por tudo que fez por mim. Você é incrível, Al. Espero que encontre alguém que esteja à sua altura.

— Eu já encontrei. – ele sorriu, mas de maneira meio triste. – Só que ela encontrou também e esse alguém não sou eu.

— Al...

— Vem cá. – ele me puxou para um abraço e eu retribuí, enterrando minha cabeça na curva do seu pescoço. – Só me promete uma última coisa, Tris. – eu assenti, esperando que ele continuasse. – Promete pra mim que vai parar de fugir quando as coisas não saírem como o planejado.

— Eu por acaso pareço fugindo agora? – perguntei com um sorriso. – Estou voltando para o lugar onde exatamente nada saiu como o planejado. – nós dois rimos. Em seguida, um silêncio se formou e eu sabia que era a minha hora. – Preciso ir.

— Eu sei.

— Você precisa me soltar. – ri mais uma vez.

— Eu sei. – ele riu junto comigo e seu aperto foi aos poucos se afrouxando. – Me liga quando chegar lá.

Assenti e me despedi dele com um último beijo em sua bochecha. Subi no jatinho e sentei na poltrona de frente para minha amiga que me olhava impaciente. Christina balançava a perna constantemente; era nítido que estava nervosa.

— Quem está voltando sou eu e quem fica nervosa é você? – brinquei, enquanto afivelava o cinto e ouvia o piloto anunciar a decolagem.

— O que aconteceu com Nita mexeu comigo. – disse, parecendo pensativa e perdida nos pensamentos. – É uma merda que ela tenha passado por isso, mesmo conhecendo quem ela é.

— Sim, é uma merda. Ninguém merece algo assim. – suspirei. – Nós vamos direto pro hospital?

— Sim, eu falei com Will. Ele me disse que Tobias se recusa a sair de lá e ele não irá sair do lado do irmão. Eu avisei que estava voltando, mas ele não sabe nada sobre você, assim como você pediu.

— Obrigada. Pra falar a verdade eu não sei como Tobias reagirá.

— As circunstancias são as piores, mas acredite em mim, esse é o melhor momento para voltar. Quatro ficará feliz em vê-la.

— Tomara que você esteja certa.

— Eu sempre estou. – Chris sorriu e afivelou o cinto.

O piloto deu as instruções da decolagem e o avião partiu de Chicago em direção à Miami. O frio que eu sentia na barriga não era apenas por causa do voo; eu finalmente iria vê-lo. Como será que Tobias reagiria? Pensar que ele estava sofrendo fazia meu coração sangrar. Tentava encontrar meios para amenizar sua dor diante do que aconteceu com Nita, mas o que eu poderia fazer? Ela me odiava. Eu também não era sua fã. Não havia amor entre nós, mesmo com nosso grau de parentesco. Ela sabia da morte de Caleb; tinha sido conivente com isso. Como eu poderia perdoá-la? Ou melhor... Como eu poderia conviver com ela mesmo depois de tudo?

— Tá tudo bem? – Christina perguntou. – Você está pálida.

— Não sei como fazer isso, Chris. Quando penso que terei de encarar Nita depois de tudo o que ela fez...

— Tris, ouça; eu sei que não é fácil. Tente pensar que você está voltando não por ela, mas pelo Tobias. Pense nele. Você o ama, não? Você vai conseguir superar isso. Vocês vão dar um jeito nisso. Eu sei que tudo aconteceu muito rápido e o passado trouxe revelações assustadoras, mas não deixe que isso mude o seu futuro. Não deixe nem ao menos que ele interfira no presente. Lute por quem você ama, porque no final vale à pena. Will e eu já passamos por coisa bem ruins, mas conseguimos superar porque enfrentamos juntos. Tobias precisa de você agora e eu sei que você também precisa dele. Apenas vá lá e enfrente isso com ele. Vocês vão conseguir superar, acredite em mim.

— Eu só queria que as coisas fossem mais fáceis. – suspirei.

— Quando é amor de verdade nunca é fácil. – ela sorriu como forma de conforto. Eu apenas assenti.

Quando o avião pousou em Miami, minhas mãos suavam tanto que mal consegui segurar minha mala. Ao descermos do jatinho, um SUV preto já nos esperava. No entanto, ao entrar no carro não encontrei nenhum rosto conhecido.

— Olá, Srta. Christina. Devemos seguir até o hospital? – o motorista, um homem alto e forte com postura ameaçadora, cumprimentou minha melhor amiga. Seu olhar cruzou com o meu através do retrovisor e ele apenas me deu um aceno de cabeça.

— Sim, George, por favor. Você já tem alguma notícia para nos dar? De preferência uma que Nita não esteja morta.

— Chris! – repreendi.

— Que foi?

— A Srta. Nita está na sala de cirurgia. – George respondeu. – O Sr. Will não me disse muito, apenas pediu para que eu a levasse em segurança até ele. A imprensa toda já sabe está fazendo a cobertura no hospital. Devo alertá-la de que a senhorita não tem permissão para falar nada. O Sr. Eaton não autorizou qualquer pronunciamento à imprensa.

— Sim, eu sei bem como é. Tomara que dê tudo certo. – Christina falou. O motorista apenas concordou com a cabeça.

Quanto mais eu pensava no que acontecera com Nita, menos ódio eu sentia dela. A compaixão e a tristeza tomavam conta agora. Ninguém merecia sofrer algo assim, nem mesmo ela. Fechei os olhos e pedi por sua vida. Tobias não suportaria perder a irmã; ele perderia a si mesmo também. E eu não suportaria perder Tobias. Não de novo.

Aguente firme, Nita.

O caminho até o hospital não foi tão longe quanto pensei que seria e minha ansiedade corria nas veias. A adrenalina pulsava em meu corpo. O medo, a saudade, o amor... Tudo era uma mistura de sensações. Eu queria tanto ver o Tobias...

Ao descermos do carro e usarmos uma entrada restrita aos funcionários para evitar a imprensa, meu coração batia mais rápido a cada passo que eu dava em direção à sala de espera do hospital. Estava acontecendo. Eu finalmente iria encontrar o homem que eu amava. Será que ele ficaria feliz em me ver? Era realmente uma boa ideia aparecer justo agora quando a irmã que ele amava e que me odiava estava entre a vida e a morte?

— Chris, acho que não é um bom momento... – disse, diminuindo meus passos, vendo que estava apenas há alguns metros da sala onde ele estava. Meu coração pulsava tão forte que eu tinha certeza de que ela podia ouvir.

— Por favor, Tris, não vamos começar de novo. Você vai mesmo precisar de um sermão a cada uma hora? – ela segurou minha mão. – Confie em mim, ele vai gostar de ver você.

Nos aproximamos da sala. Eu podia ouvir os murmúrios. Aparentemente o lugar estava cheio, mas a voz de um homem se destacava no meio de todas as outras. Pelo que ele falava, tive a certeza de que era o médico responsável por Nita.

— Fizemos uma tomografia e identificamos um hematoma subdural no cérebro da paciente. Estamos em cirurgia tentando diminuir a pressão no cérebro de Nita para controlarmos a hemorragia, mas ela perdeu muito sangue. Seu corpo e seu cérebro sofreram traumas grandes, então ela vai precisar de uma transfusão. Ela é O negativo, então se alguém aqui também for e estiver disposto a doar, teremos que fazê-lo o mais cedo possível. Se for um parente próximo, como o pai ou um irmão, seria ainda melhor.

— Droga, eu sou B positivo. – reconheci a voz de Will.

— Porra! – gritou Tobias fazendo meu peito apertar. – Eu não posso ajudá-la. Ela precisa de mim e eu simplesmente não posso ajuda-la.

Tentei me mover, mas meus pés simplesmente congelaram no chão.

— Calma, Tobias, vamos dar um jeito. – desta vez Zeke quem falou. – Não há outra alternativa, doutor?

— Nós estamos fazendo de tudo, mas sem uma transfusão Nita certamente não resistirá. Eu sinto muito. Farei tudo que estiver ao meu alcance para salvá-la, mas precisamos deste doador. – ele fez uma pausa. – O negativo. Alguém? – perguntou.

— Eu não posso perdê-la, doutor. Por favor, salve minha irmã. – Tobias implorou. A dor em sua voz foi o suficiente para me fazer sair do transe e entrar na sala. Eu era a única ali que poderia salvá-la e não estava abrindo mão disto. Não era o que minha mãe faria. Não era o que eu faria.

— Eu sou O negativo. Estou pronta para doar. – afirmei assim que coloquei os pés na sala. Todos os olhares voltaram-se para mim, exceto o de Tobias. Ele não tinha movido um músculo sequer para se virar em minha direção. Estava imóvel. Eu só conseguia ver suas costas.

Um silêncio tomou conta de todo o lugar.

— Ótimo! – o médico animou-se e direcionou seu olhar para mim. – E você quem é?

— Sou a irmã dela.

Notas finais
E aí, o que acharam da volta triunfal de Tris?! Comentem, comentem, comentem ♥ O próximo já vai ser postado! E o seguinte dele também haha Vocês merecem! Um beijo ♥