Estranha Perfeição
13 Capítulo XIII
Notas iniciais
BEATRICE PRIOR
Por que era tão difícil acreditar que ele realmente tinha acabado de me beijar? Eu não tinha me dado conta de que tinha acontecido até sentir os lábios dele sob os meus. Eles eram firmes, mas ao mesmo tempo senti que Tobias estava sendo gentil comigo. Eu correspondi ao seu beijo e saboreei o seu gosto; era uma mistura de hortelã, cerveja e algo... Diferente. Somente dele, eu imaginei.
Quando eu enlacei minhas duas mãos em volta do seu pescoço, Tobias agarrou minha cintura e me puxou para seu colo, sem interromper a sincronia das nossas bocas. Meu coração estava a ponto de sair pelo meu peito de tão forte que batia. Ele agora estava exigente, chupando fortemente meu lábio inferior, enquanto eu suspirava para recuperar meu fôlego.
– Puta que pariu, Tris. – Tobias falou, enquanto passava o nariz pelo meu pescoço. – Quero provar essa boca desde o dia em que você pôs os pés na minha sala. – ele tomou meus lábios novamente.
Eu estava delirando. Senti meus joelhos enfraquecerem e o frio na barriga tinha aumentado. Meus batimentos estavam uma loucura e tudo que eu poderia fazer era correspondê-lo. Eu tinha perdido a noção quando o pedi para me beijar, mas era a única coisa em que eu pensava no momento.
Então, quando Tobias afundou sua língua na minha boca, eu soltei um gemido. E isso pareceu estimulá-lo ainda mais. Ele murmurou alguma coisa contra minha boca e apertou meu quadril. Algo duro, que eu sabia ser uma ereção, pressionou o espaço entre minhas pernas e mais um gemido incontrolável saiu da minha boca.
– Porra. – Tobias rosnou enquanto apertava minha bunda. Isso era bom. Muito melhor do que eu imaginava que fosse, e eu já tinha imaginado isso muitas vezes.
Sua mão foi para o laço do meu biquíni superior e eu congelei. Nós iríamos fazer isso aqui? Nós iríamos fazer isso agora? As coisas estavam indo rápido demais. Quando eu era mais nova, tinha prometido a mim mesma que só iria me entregar verdadeiramente ao cara certo. Tobias era o cara certo? Qualquer garota inteligente responderia não. Eu o observei. No primeiro dia em que estive aqui, ele havia dormido com uma garota e a despachou logo em seguida. Aquilo não significava nada para ele. Ele tinha feito isso no dia seguinte também. E depois, mais uma vez. Tobias já havia admitido para mim que era assim que funcionava com ele. Eu seria capaz de lidar com isso? Um lance de apenas uma noite?
Não. Eu era mais do que isso. Ele era mais do que isso para mim. Não importava se eu o queria intensivamente. Se ele não me quisesse na mesma medida, eu nunca seria capaz de me entregar. Não conseguiria me doar sem que um pedaço do meu coração não ficasse com ele.
– Eu... – tentei não soar nervosamente. Não queria acabar com o que tínhamos começado.
Passos foram ficando cada vez mais altos à medida que se aproximavam de nós. Olhei para Tobias, confusa, e ele agora tinha um olhar de pânico no rosto. Antes que eu pudesse me dar conta, a voz de Nita soou por todo jardim e Tobias deu um pulo, me tirando do seu colo e ficando em pé. Na mesma rapidez em que ela surgiu, ele pôs uma distância entre nós.
– Que porra você está fazendo?! – sua irmã gritou e avançou em minha direção, mas não rápido o suficiente para que Tobias não a impedisse. Ele a segurou por trás, enquanto ela se debatia. – Me solta, seu filho da puta! Você prometeu, Jay. Você prometeu!
– Se acalma, Nit. – ele pediu gentilmente, enquanto Nita ainda insistia em gritar. Dessa vez, ela havia partido para o lado dos insultos.
– Sua vadia estúpida! Fique longe do meu irmão. Você não é digna dele! – ela cuspiu.
Olhei para Tobias quando as lágrimas embaçaram meu campo de visão. Ele havia acabado de me beijar. Isso não significava nada? Ele iria continuar permitindo que sua irmã me insultasse desse jeito. Pedi uma resposta com o olhar. Ele desviou e se voltou para Nita, sussurrando ao pé do seu ouvido. Eu permaneci imóvel, como se meus pés tivessem acabado de se fixar ao chão.
– Então fala para ela. – Nita pediu, com a voz engolida pelo choro. Eu não conseguia entender. Tudo nela era falso. Como alguém tão observador quanto Tobias poderia ser tão cego em relação a ela. – Fala para ela que ela não passa de um lixo.
Tobias tornou a olhar para mim, então era como se suas palavras fossem tão afiadas quanto uma navalha, que agora estava rasgando meu coração lentamente.
– Foi um erro. – ele se desculpou.
Senti como se todo o ar tivesse sido tirado de mim. Como alguém podia ser tão manipuladora quanto sua irmã? Como alguém podia ser tão ingênuo em relação a alguém tão mau? Ignorei os últimos insultos de Nita e corri para meu quarto. Caí no chão e chorei, abraçada aos meus próprios joelhos, soluçando sucessivamente. Não conseguia me parar. Pela primeira vez desde que cheguei aqui, estava arrependida de ter vindo para cá. Sabia desde o início que meu pai não se importava comigo. Por que eu tinha seguido seu conselho? Eu era tão burra.
Levantei do chão e sequei minhas lágrimas. Era ridículo chorar por algo que nunca tive. Eu tinha conseguido cuidar de mim e da minha mãe nos últimos três anos; não precisava da ajuda do meu pai. Não precisava da ajuda de Tobias ou da sua irmã mimada egoísta. Eu tinha a mim. Tinha coragem, determinação e força. Eu não era uma garotinha. Eu era forte e iria ficar bem. Só bastava não me esquecer de quem eu era e nem das coisas que minha mãe gostaria que eu fosse. Eu iria ficar bem.
Fui até o canto do quartinho e peguei a caixa de papelão que havia deixado ali. Iria arrumar minhas coisas e ir embora. Estava cansada de viver numa casa onde havia tanta arrogância. Estaria procurando um apartamento na minha próxima folga. Iria sair na segunda, quando minha picape estivesse pronta. Eu também estava cogitando a ideia de voltar para Chicago. Tinha poupado todo o meu salário e as minhas gorjetas, então seria o suficiente para manter o aluguel de lá por até três meses. Eu arranjaria outro emprego e teria Al comigo. Por mais que houvessem barreiras emocionais que nos separavam, ele era minha única família.
Olhei mais uma vez a mala em cima da cama e suspirei. Sabia que não tinha para onde ir e nunca havia me sentido tão sozinha. Eu queria chorar. Não podia continuar aqui, havia sido um erro ter vindo para cá.
Um erro. As palavras dele voltaram à minha cabeça. Tinha sido fantástico sentir a maciez dos seus lábios. Eu quis o beijo. Quis muito, aliás, mas nunca imaginei que ele faria disso algo tão horrível quanto acabou sendo. Não fazia sentido. Ele havia se mostrado tão gentil comigo. Eu o conhecia. Ou talvez pensasse que o conhecesse.
Quando estou prestes a sair para jogar o lixo fora, ouço uma batida na porta e em seguida vejo Tobias entrar.
–Não se preocupe, eu pretendo sair em breve. – me apressei em dizer. Não queria dar a ele a chance de me expulsar. Já havia sido humilhação demais por um dia.
–Você não precisa ir, Beatrice. – me voltei para fechar as malas e pôr uma fita na caixa. Continuei arrumando minhas coisas, mas pude perceber que ele estava parado atrás de mim com os braços cruzados. Eu só queria que ele mantivesse distância. O quarto era pequeno. O cheiro dele estava se espalhando por todo cômodo. Isso não me faria pensar com clareza.
–E por que não? – me virei e o encarei. Estava cansada desse jogo dele. Ou ele me queria aqui ou não queria. Eu não tinha tempo para sua bipolaridade. – Por que eu tenho que ficar? Desde que cheguei, tenho sido boa. Quase invisível, porque sei que sua vida não é nada parecida com a minha. Você tem dinheiro, fama e o mundo. Eu só tenho a mim. Tenho me esforçado para não partir para cima da sua irmã mesquinha porque você me deu um lugar para ficar! Mas isso? Isso é demais. – ele não respondeu. – Eu vim até aqui porque meu pai me ofereceu ajuda, mas agora vejo que isso foi um erro. – enfatizei as palavras. Ele era inteligente. Iria pegar a dica.
–Seu pai é um desgraçado filho da puta! – ele disse, alterando a voz e erguendo as mãos até a nuca. – Você não entende. Eu estou fazendo isso por você também, porra. O melhor para você é ficar longe de mim.
–É, eu não entendo. Mas eu sei o que é melhor para mim. Tenho dezenove anos, mas me sinto com quarenta na maioria dos dias. – respirei fundo. – Eu nunca fiz nada que justificasse o tratamento que recebi. Eu nunca fiz nada para que vocês me odiassem tanto. Você me deixou ficar, mas sempre fez questão de demonstrar o quanto minha presença é indesejável. Por quê? Por que isso, Tobias?
–Eu não te odeio – ele disse e a maneira como seu tom saiu fez meu coração se partir. Ele parecia tão perturbado consigo mesmo. – E sobre Nita... É assunto dela, Tris. Ela é minha irmã e eu a amo. Você não entende. – suspirou.
Eu entendia. Tinha crescido e amado Caleb com toda força do meu coração. Quando soubemos que ele não resistiu ao acidente, eu senti como se parte da minha alma tivesse sido arrancada de mim. Caleb era meu protetor. Ele era dois anos mais velho do que eu e se gabava por isso. Ele me tratava como se eu fosse quebrar a qualquer momento. Se colocava à frente do mundo para que eu não me machucasse.
Não importava o que havia entre Tobias e Nita. Se ele não se sentia à vontade para falar dela, eu entendia. Não entendia porque ela o controlava e porque ela era tão má, mas entendia seu amor por ela. Eu havia amado Caleb na mesma intensidade.
– Fique até que possa arranjar um lugar. – ele falou, me afastando das lembranças do meu irmão.
Por mais gentil que estivesse sendo, eu estava cansada. O estresse familiar da vida luxuosa de Tobias era demais para mim. Eu sabia que se eu ficasse aqui, não honraria minha mãe. Eu desejava ter seu coração puro e bondoso. Em situações como essa, ela abaixaria a cabeça para Nita e espalharia o amor por essa casa. Eu tinha certeza de que eles iriam se cantar por ela. Ela fazia isso com todos desde que eu me conheço por gente.
– Por favor. – Tobias suplicou.
O encarei sem entender. Afinal, por que ele se importa? Eu estava duvidando se realmente o conhecia. Ele se mostrava bom para mim. Mas isso era apenas quando estávamos a sós. Bastava então uma terceira pessoa para que Tobias se transformasse e se tornasse irreconhecível.
– Se é pelo beijo... – ele começou.
À tona do assunto, eu fiquei chateada novamente. Era impressionante como eu me deixava levar por seu charme e o quanto ele me confundia.
– Eu entendi. Foi um erro. Posso fingir que nada aconteceu. Não foi grande coisa, de qualquer forma. – eu dei de ombros, e esperava que minha postura indiferente pudesse esconder a verdade. Tinha significado muita coisa para mim.
Ele ficou em silêncio por um tempo, seus olhos nunca deixando os meus. Tobias soltou um grunhido e simplesmente saiu do quarto, batendo a porta atrás de si, sem me dar qualquer resposta. Eu permiti que uma lágrima caísse. Seria a última que eu derramaria por aquela família.
Me sentei na cama e pensei no que ele havia me dito. Tinha que me planejar com calma. Eu ainda não tinha decidido para onde iria. Se eu não conseguisse um apartamento nas minhas condições aqui em Miami, eu teria que voltar para Chicago, mesmo que não houvesse mais nada meu lá. Pensei em Christina. Ela era minha única amiga aqui e talvez pudéssemos dividir o aluguel. Tínhamos conversado sobre isso outro dia, mas não demos muito enfoque. Eu precisava dela agora. Nessas horas eu sentia falta de ter um celular. Se eu tivesse um poderia ligar para ela e pedir para ficar lá hoje mesmo. Eu tinha que sair daqui. O mais rápido possível.
Coloquei minha mala e a caixa com minhas lembranças no canto do quarto. Eu estava ficando com fome, mas todo meu pão havia acabado. Eu só tinha a manteiga de amendoim agora. Teria que aguentar até amanhã para comprar o pão. Eu podia esperar até lá. Já tinha passado por situações bem piores.
Deitei na cama a fim de ignorar o ronco do meu estômago. Fiquei um tempo olhando para o teto, esperando o tempo passar, enquanto lentamente eu ia esquecendo de pensar em comida. Pensei na minha mãe e no quanto sentia falta dela. Se ela pudesse ver o papai agora, talvez ela perdoasse o ódio que eu estava começando a sentir dele.
Acordei e vi que já era noite. Cocei os olhos e bocejei. Me levantei da cama e peguei minha toalha e uma muda de roupa. Segurei o lixo que tinha esquecido de jogar e saí para tomar banho. Quando saí do quarto e fechei a porta da dispensa, ouvi vozes. Quase chorei em alívio ao perceber que não era a voz de Nita. Sem fazer barulho, me apressei em jogar o lixo no depósito da cozinha. Quando estava indo em direção ao banheiro de trás, ouvi um gemido. Congelei. Por favor, que não seja o que eu estou pensando. Ele não seria tão covarde.
Algo me dizia para ignorar e seguir para meu banho, mas por alguma razão estúpida eu resolvi ver o que estava acontecendo na sala. Queria me convencer de que talvez fosse um gemido de dor e Tobias precisava da minha ajuda. Eu era idiota. Muito idiota. Sabia que não havia hipótese disso acontecer e quando cheguei mais perto, tive certeza. Senti meu estômago revirar. Era nojento o bastante para que eu sequer conseguisse acreditar.
Tobias estava sentado no sofá com duas garotas, ambas loiras, que se apertavam juntas em cima dele. Elas estavam de topless, rindo e gemendo ao mesmo tempo. Ele as segurava firmes pela cintura, enquanto beijava o pescoço de uma e massageava o peito de outra. Parecia gostar muito daquilo. Não, não parecia, ele estava mesmo gostando daquilo. Como eu pude o deixar chegar tão perto de mim? Tobias era nojento! Eu havia permitido que sua boca beijasse a minha. Em que ele havia colocado aquela língua?! Meu Deus, eu sempre havia sido cuidadosa quanto a isso. Como pude ser tão burra?!
Tomei meu banho praguejando mil vezes por ter me interessado por ele. Ele teve a escolha de poder ser tudo, mas havia escolhido ser alguém manipulável e indecente. Não aceitava que ele pudesse ser tão vazio assim. Eu não queria acreditar! Ele havia sido tão... Merda! Eu estava tão enganada por pensar que o conhecia.
Voltei para o quarto, enquanto a cena se misturava na minha cabeça. Eu massageava minhas têmporas. Precisa esquecer isso. Precisava esquecê-lo. Não podia deixar que ele pudesse me afetar dessa forma. Ele era o erro. Queria me sentir dessa forma por Will, porque ele merecia. Ele era gentil, bondoso e gostava de mim. Pusera-se na frente de todos por minha causa. Eu devia me sentir atraída por ele, não por seu irmão mesquinho idiota!
Demorei a pegar no sono novamente, mas por sorte, quando dormi, não tive nenhum sonho ruim.
Acordei um pouco mais cedo que o habitual e terminei de arrumar todas as minhas coisas. Iria falar com Christina e implorar para ficar com ela. Pelos menos até minha picape estar pronta amanhã. Então eu iria pegar minhas coisas e ir embora. Se ela não pudesse me ajudar, estava decidido: eu voltaria para Chicago.
Quando saí da dispensa, o cheiro de bacon invadiu minhas narinas e automaticamente meu estômago roncou. Eu estava sem comer há mais de doze horas. Levantei meus olhos e uma garota estava cozinhando. Eu a reconheci de imediato. Ela era uma das loiras que estava no sofá ontem à noite.
– Acabou de sair da dispensa?! – ela perguntou, arqueando a sobrancelha perfeita na minha direção.
– Acabou de sair da cama do Tobias? – retruquei, porque estava cansada de me tratarem como se eu fosse menos que uma pessoa normal e também porque estava chateada por ela ser tão burra. Ela não passava de uma noite de sexo. Por que se rebaixavam a isso?
– Uma noite um tanto incrível, não é? Eu vi quando você nos bisbilhotou no sofá. Aquilo era só o início. O gozo dele na minha boca foi a melhor parte. – ela se exibiu.
Eu quis vomitar. A fome rapidamente tinha ido embora.
– Você deve ser a garota de quem Nita me falou antes de vir para cá. Exatamente como ela descreveu. Olhos muito afastados, nariz muito grande, seios pequenos... Argh. – ela espirrou seu veneno, na esperança de que aquilo fosse me atingir. Eu sabia que eu não era bonita, mas também conhecia o tipo dessa mulher. Não era de impressionar que ela estivesse ligada à Nita.
– Basta, Shauna. – Tobias entrou na cozinha e me olhou. – Você não estava indo para o trabalho? – era a minha deixa.
Soltei a respiração e saí pela porta dos fundos, dando à volta na casa e indo para a calçada. Esperaria por Will aqui. Tínhamos combinado que ele me buscaria hoje antes do trabalho porque minha picape só estaria pronta amanhã. Meu estômago estava roncando. Eu esperava que desse tempo de tomar café no clube. Eu não sei se conseguiria trabalhar sem pelo menos um suco antes.
Avistei a Range Rover preta de Will e suspirei. Ainda bem que ele não havia demorado. Ele parou o carro e abaixou o vidro do passageiro.
– Não precisava andar até aqui. – Will sorriu.
– Eu estou com um pouco de pressa. – dei de ombros e sorri, mas não da maneira que ele esperava. Entrei dentro do carro e quando eu fechei a porta, Will deu a partida.
– Você não dormiu bem? – ele perguntou, depois de alguns minutos de silêncio.
– Minha noite foi longa. – eu respondi, apoiando minha cabeça na janela do carro.
– Você tomou café da manhã?
– Não.
– Quer que eu te leve antes para comer algo? – ele disse, estendendo a mão direita para segurar a minha. Eu não podia permitir que essa coisa entre nós fosse muito longe. Eu não o enxergava dessa forma.
– Eu só quero que você me leve para o clube. – soei mais dura do que qualquer outra vez, e quando ouvi o suspiro de Will, me senti quebrada. Eu não devia ser rude com ele. Ele era o único gentil comigo.
Embora quisesse me desculpar com ele e explicar que ele estava entendendo tudo errado, eu permaneci em silêncio, enquanto Will nos guiava até o Teller’s Clube. Eu não queria magoá-lo, mas meu coração não o pertencia. Era estúpido, mas eu estava me afeiçoando ao seu irmão e isso não fazia o menor sentido. Will merecia meu amor. Tobias, por outrora, não.
Quando Will parou o carro no estacionamento exclusivo para sócios, eu franzi a testa. Ele costumava me deixar na entrada e logo em seguida ir embora. Ele sequer desligava o motor. Parecendo ler meu pensamentos, Will sorriu para mim.
– Estou de folga hoje. Meu pai me liberou. Pensei em jogar golfe com os meninos enquanto você trabalha. E então, quando você largar, nós podemos ir a um lugar bacana.
– Will, eu... – comecei, mas foi inútil.
– Não diga nada, Tris. – ele aproximou sua mão do meu rosto e segurou meu queixo. – Apenas me dê uma chance.
Eu fechei os olhos. Eu precisava deixar que ele soubesse da verdade. Não poderia permitir que Will se iludisse e acabasse machucado por minha causa. Eu não queria feri-lo.
– Eu não posso. – saiu quase como um sussurro.
– O quê? – Will soou decepcionado. Eu desejei que tudo pudesse ser mais simples. Que eu pudesse sentir meu coração acelerar quando eu o visse, e não quando seu irmão entrasse em cena. Era tudo tão complicado.
– Tenho que ser sincera com você. Eu já te disse uma vez, mas preciso esclarecer novamente. – soltei um suspiro. – Nós nunca poderemos ser mais que amigos, Will. Eu só o vejo dessa forma.
Ele murmurou uma maldição.
– Você tem certeza? Nem todo esse tempo você nunca me viu como algo mais?
– Eu sinto muito. Eu gostaria de vê-lo assim. Você é incrível. – assumi, esperando que ele não se sentisse menos do que isso. Will era simplesmente espetacular!
– Mas ontem... O beijo.
Eu não podia revelar porque eu o tinha feito, no entanto. Essa era uma parte da qual Will não poderia ficar sabendo. Isso com certeza iria partir seu coração. Embora eu não gostasse da ideia de omitir a verdade para ele, eu estava fazendo isso. Seu bem estar em primeiro lugar.
– Aconteceu, mas... – eu procurei as palavras que amenizassem sua mágoa.
– Você não sentiu nada. – ele completou para mim.
– Sinto muito, Will. – era tudo o que eu sentia.
Will apertou os olhos e suspirou.
– Certo. Mas não me peça para desistir, ok? Você vale a pena. – ele sorriu, embora eu pudesse ver rastro de dor em seus olhos.
– Você devia dar uma chance a Chris. – falei, lembrando-me da paixão da minha amiga por ele.
– Quem? – ele franziu as sobrancelhas.
– Christina. A garota do carrinho de bebidas.
– Ah, sim. Ela é divertida, mas não é o meu tipo. – ele riu. – Christina é meio “popular” na nossa roda de amigos, então... Não sei.
– Ela é muito mais do que uma transa se você deixar que ela seja. Confie em mim, Will. Chris é incrível e é muito bom tê-la por perto. – eu sorri.
– É assim que tenta se livrar de mim? Me empurrando para uma amiga sua? – Will brincou.
– É exatamente isso. – provoquei.
– Sabe que eu não vou desistir de você, não sabe? – ele falou, desta vez mais sério que antes.
– Apenas pense na minha proposta. – eu em inclinei, beijei sua bochecha e desci do carro, acenando para Will e indo à entrada dos funcionários.
Quando entrei na cozinha, me apressei em vestir meu uniforme e antes de começar a servir as mesas, me sentei à mesa dos funcionários e comi uma maçã, alguns biscoitos, um sanduíche de queijo e tomei um pouco de suco de laranja.
Saí para o salão e imediatamente avistei a mesa dos meninos. Peter, Zeke e Uriah estavam sentados próximos à janela. Will tinha se juntado a eles também, e assim que me avistaram, todos eles abriram sorrisos encantadores. Não era de se espantar o fato de todas as sócias do clube da minha idade ou até mais velhas babarem por eles. Os rapazes eram conquistadores! Cada um deles.
– Ei, minha garçonete favorita. – Uriah me cumprimentou.
– Bom dia. – eu os cumprimentei. – O que vão querer beber? – perguntei, já sabendo que eles sempre bebiam antes de comer qualquer coisa.
– Alguém já te disse o quanto você está linda hoje? – Uriah brincou mais uma vez. Ele era o mais divertido do círculo.
– Deixe de azarar, Uriah. Ela não é para seu bico. – Peter sorriu. – Falam muito bem de você por aqui, Tris. Espero mantê-la comigo por muito tempo. – ele piscou.
– Eu dou meu melhor. – sorri, sentindo orgulho de mim por meu esforço valer à pena. Eu trabalhava duro para manter meu trabalho e estava feliz que conseguia fazer tudo certo. – Que tal um café preto antes dos pratos?
– Para mim está ótimo. – Peter concordou.
– Para mim também. – Zeke sorriu, embora estivesse mais sério que de costume.
– O café vem com você de brinde? – Uriah piscou para mim. Eu não pude deixar de sorrir.
– Quem sabe você não dá sorte dessa vez? – retruquei, ainda sorrindo.
– Não dê bola para ele, ele ainda é um moleque. Como já te falei, você precisa de alguém mais maduro. – Will brincou.
– Deixem minha funcionária trabalhar em paz, seus idiotas. – o filho do meu chefe falou com um sorriso divertido. Embora fosse alegre estar com eles, Peter estava certo. Eu tinha que voltar com seus pedidos e atender outras mesas.
– Eu já volto. – me despedi e virei em direção à cozinha.
Prendi a respiração assim que vi Nita Johnson e suas amigas sentadas à mesa 16. Fechei os olhos e respirei fundo. Eu teria que servi-la. Gabe e eu dividíamos como servir as mesas. Ele ficava da mesa um até a mesa sete e eu servia da mesa oito até a mesa 16. Não me preocupava em ser vista como funcionária. Pelo contrário, me orgulhava em ter conseguindo um emprego tão bom numa cidade tão desconhecida para mim. Porém, eu conhecia Nita. Eu a tinha visto de perto e ela me odiava. Eu não sabia do que ela seria capaz.
Soltei a respiração e segui confiante para as outras mesas, anotando o pedido de todas. Os sócios eram simpáticos comigo e me davam gorjetas altíssimas. Eu ficava impressionada com o fato de tanto desperdício de dinheiro, mas não iria reclamar. O dinheiro iria pagar minhas despesas e não me traria dor de cabeça. Se eu fosse embora, tinha a certeza de que jamais poderia encontrar um emprego tão bom quanto esse.
Quando cheguei me aproximei da mesa 16, pude ouvir as risadas, mas foi apenas no instante em que parei frente a elas, que Nita e suas amigas notaram minha presença. Eu reconheci três garotas além da irmã de Tobias. Uma tinha dormido com ele na primeira noite em que cheguei à Miami. A outra tinha sido há pouco mais de um mês, talvez. E a última eu a tinha visto hoje de manhã.
– Vejo que o nível de funcionários daqui do clube caiu bastante. – uma das amigas de Nita comentou.
Eu não permiti que seu comentário me ofendesse.
– Bom dia. Vocês vão querer beber alguma coisa antes do prato inicial? – perguntei.
– Espero ser servida por gente de mais classe. – a loira de hoje de manhã retrucou, com um sorriso.
– Eu vou querer uma água. E também uma sopa, sem muitos legumes. – Nita se pronunciou.
Eu quase suspirei de alívio. Ela não havia dado espaço para piadas ou humilhação. Talvez a conversa que Tobias teve com ela tivesse ajudado de alguma forma. Se esse seria nosso relacionamento, ela sendo objetiva e eu apenas respondendo tudo que ela me perguntasse, eu estaria mais que satisfeita. Isso era o céu.
– Algo mais?
– Não. E não demore. – Nita ordenou.
Certo. Me apressei em ir à cozinha e entreguei as anotações ao cozinheiro. Iria servir as bebidas e logo em seguida os pratos iniciais. Saí com a bandeja na mão e servi todas as mesas que eu tinha. Voltei para cozinha e estava na hora dos pratos iniciais. Respirei fundo e depois de servir cinco mesas que haviam recusado bebida antes, cheguei à mesa de Nita. Ofereci o guardanapo de tecido e quando estava prestes a retirar o prato de sopa quente da bandeja, Nita me parou.
– Eu pedi sem muitos legumes, você não ouviu?! – disse; sua voz saiu estridente. – Não acredito que Peter contratou alguém tão incompetente!
– Eu sinto muito. – olhei para o prato e notei que não havia tido um engano. A sopa quase não tinha legume algum. – Posso trocar, se você preferir.
– E você vai trocar mesmo. Eu não vou comer esse lixo! – ela retrucou. – E fique ciente de que Peter saberá dessa sua incompetência. Eu farei de tudo para tirar você daqui.
– Nita, eu não sou responsável pelos pratos... – comecei, mas antes que eu pudesse terminar, ela gritou.
– O que você está esperando para trocar minha sopa, sua estúpida? – então ela me empurrou e eu desequilibrei.
Caí sentada no chão, quando a sopa fervente se espalhou por toda minha barriga. Aconteceu numa câmera lenta do inferno. Tudo foi como um zumbido. Risadas no fundo, gritos de alguém, pessoas chamando meu nome... Eu só conseguia pensar no quanto minha barriga queimava. As lágrimas caíram quando o líquido fervente ultrapassou o tecido do meu uniforme, fazendo com que ele grudasse ao meu corpo. Eu gritei, numa mistura de dor, agonia e vergonha.
– Merda, Tris. Você está bem? – Will se abaixou, soando desesperado.
Eu não consegui responder. Queimava demais. Apenas balancei minha cabeça e apontei para minha barriga, quando ele se apressou e tirou minha camiseta. Eu não podia me sentir mais envergonhada. Eu estava agonizando, gemendo e tremendo de dor.
– Porra, o que aconteceu aqui? – Peter gritou.
– Você contratou uma inútil! – podia ouvir a voz de Nita aos fundos, quando um aglomerado de pessoas formou-se ao meu redor.
– Vadia estúpida! Nem mais uma palavra ou eu mato você! – Will rugiu. – Precisamos leva-la para o hospital. Agora! – ele me pegou nos braços. Eu gritei.
– Hospital... Não... Por favor. – eu gemi. – Me leve para casa. – por mais que fosse idiota essa minha decisão, eu não tinha um plano de saúde e sabia o quanto assistência médica custava caro. E eu também sabia que Will não me levaria a um hospital público.
– Merda, Tris. Tá muito vermelho. – Uriah falou, enquanto Will me mantinha em seus braços, sem saber o que fazer. Ele estava desesperado.
– Você precisa de um médico. – Zeke falou. Eu não tinha percebido que todos eles estavam ao meu redor. Minha barriga agora estava começando a latejar.
– Eu só quero ir para casa. – me agarrei ao pescoço de Will.
– É o melhor lugar. – ele falou, com a voz rouca, como se estivesse fazendo um imenso esforço para não chorar. – Tobias terá o melhor médico para você. Estarei ligando para ele agora.
Eu não tive muito tempo para pensar a respeito, porque quando Will me colocou no banco traseiro do seu carro e o puxou com um arranco, eu senti mais dor e ardência, então tudo começou a girar, enquanto uma voz no fundo me pedia para ficar acordada. Eu tentei, mas fui fraca. Tudo escureceu. E aí eu apaguei.
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