Estrada da Morte
2 Maddie
Notas iniciais
Maddie
Ótimo, pensou pisando fundo no acelerador. Simplesmente perfeito.
Enquanto dirigia furiosamente, Maddie imaginava o assunto do dia. Com certeza seu pai usaria a palavra ingrata pelo menos cinco vezes, e sua mãe no mínimo dez. Seus tios seriam obrigados a ouvir a história repetidamente vista de todos os ângulos e a fazer a comentários — apenas por educação — e os avós diriam que nada disso era culpa deles, mas da má influência desses “amigos desordeiros de satã” e das tecnologias atuais que “deformam a mente dos jovens”.
O que Maddie não entendia era porque eles não podiam somente aceitar sua decisão. Já tinha vinte anos, e apesar do humor suspeito era mais madura que a maioria das pessoas da sua idade, sabia o que queria para o seu futuro e mesmo com todas as confusões em que se metia sempre teve as melhores notas. Porque não podia se transferir para Columbia, em Nova York?
De qualquer maneira, Maddie já tinha tudo decidido e resolvido. Columbia tinha respondido seu pedido de transferência no mês anterior, e o que para seus pais devia parecer um pedido de permissão era na verdade um comunicado de que, sim, ela iria para o norte. E, depois de uma intensa e longa discussão com eles, resolveu matar o típico almoço em família de domingo e ir logo para Nova York sem avisar ninguém além de sua futura colega de apartamento Esther — uma bailarina que já tinha sido presa por dançar bêbada dentro de uma fonte no Central Park.
Como não estava com cabeça para dirigir no domingo, tinha passado praticamente o dia inteiro lendo debaixo de uma macieira que ficava longe o bastante de sua casa e passado a noite no hotel da família de Ada, sua melhor amiga desde a infância — e que para seu contentamento apoiava sua ida para Columbia. No dia seguinte, antes mesmo do sol nascer, pegou seu carro e começou a longa viagem para o norte do país, se sentindo até aliviada por estar indo embora.
Já estava há uns dois quilômetros da saída do estado quando encontrou uma viatura da polícia impedindo a passagem, o policial encostado na nela numa pose que provavelmente imaginava ser sexy. Revirando os olhos, diminuiu a velocidade aos poucos imaginando porque alguém interditaria aquele lugar no meio do nada, para Maddie era um mistério.
– Desculpe, mas terá que dar meia volta, senhorita. — falou com uma expressão arrogante e um sorriso presunçoso.
Maddie já o odiava.
– Posso saber porquê? — perguntou com um sorriso delicado coberto por uma camada perfeita de gloss.
– Só precisa saber que deve voltar. — respondeu duramente, e Maddie sentiu o sorriso estremecer em seus lábios. Ela queria enforcar o policial.
– Olha só — aumentou o sorriso e levantou os óculos escuros, exibindo os olhos castanhos contornados por delineador -, eu estou dirigindo desde cinco da manhã, e agora são o que? — olhou seu relógio — Cinco da tarde. Tudo bem, eu parei pra almoçar e dormi um bom tempo, mas eu acordei realmente cedo. Então não poderia me deixar passar? Eu juro que ninguém vai saber. Nem sei seu nome.
O policial continuou a encarando impassível, mas eram óbvios os olhares que lançava para o decote da blusa de Maddie. Ela respirou fundo se preparando para um bom flerte.
– Ou podemos fazer um acordo. — falou com a voz mais mansa possível naquelas circunstâncias e se inclinou para a janela, fazendo os seios ficarem comprimidos na porta e se realçarem pelo decote.
O homem iria concordar, Maddie tinha certeza. Estava estampado no rosto dele. Ela não faria nada com ele — até porque bigode estilo franjinha não fazia o seu tipo — , só precisava que ele tirasse o carro do caminho. Só isso. Mas quando ele abriu a boca, o rádio preso na gola de sua camisa começou a chiar, e alguém falava com o policial. Parecia sério. Tão sério que ele se endireitou, respondeu com alguns “entendido” e “sim, senhor” e olhou para Maddie com decepção, enquando ela sorria com o olhar mais sensual que conseguia lançar.
– Dê meia volta, por favor. — pediu o policial apertando os lábios numa linha fina que desapareceu sob o bigode.
– Mas…
– Mas nada. Dê meia volta, por favor, ou terei que deter você.
Maddie fechou completamente o sorriso e o encarou ameaçadoramente. Sem dizer mais nada, ligou o carro novamente e fez o retorno.
– Filho da puta, desgraçado. — bateu no volante irritada — Eu não vou voltar praquela casa, me recuso a fazer isso.
Já estava na estrada fazia duas horas. Maddie não fazia ideia de para onde ia. Talvez voltasse para a casa de Ada, talvez parasse na próxima cidade e ficasse por lá até poder ir para NY. Estava pensando nisso quando seu celular começou a tocar I’m Not Your Boyfriend, do 3Oh!3.
– Fala. — foi direta. Estava irritada, o que podia fazer?
– Maddie, onde você está? — Ada perguntou do outro lado, preocupada.
– Aconteceu alguma coisa?
– As estradas estão todas fechadas. Você não conseguiu passar, não é? — dessa vez parecia desesperada.
– Não. O que aconteceu? — dessa vez Maddie parou o carro no acostamento, preocupada.
– O marido da Avery sofreu um acidente. Ele morreu. Ela está desesperada, e meus pais e Anne foram tentar ajudar ela. Eu estou sozinha aqui e o jornal acabou de avisar para as pessoas não saírem de casa porque estamos em situação de risco, e os hóspedes estão com medo e pedindo a conta. Eu não sei o que fazer, Maddie, estou tremendo! — falou tudo praticamente num fôlego só, a voz falhando em alguns momentos.
– Espera, espera. — pediu Maddie passando a mão por seus cabelos, nervosa — Respira fundo e explica isso direito. Como assim o Ray está morto?
– Ele estava voltando do trabalho, e a polícia daqui estava enlouquecida, e uma das viaturas bateu no carro dele. O policial ainda está vivo, e o Ray foi levado pro hospital vivo também, mas mamãe acabou de ligar pra contar que ele morreu.
Falando assim Ada parecia ter dez anos, não dezoito. Maddie conseguia imaginá-la com seu corpo minúsculo trêmulo e os olhos negros lacrimejando, e isso a fez sentir uma enorme necessidade de protegê-la.
– Eu vou demorar um pouquinho, mas vou direto pra sua casa, o mais rápido que eu conseguir, ok? Se os hóspedes quiserem ir embora, deixe. Não se meta em confusão.
– Mas o meu pai não vai gostar disso…
– Dane-se o seu pai. Deixe eles irem embora e ponto final.
– Tudo bem. — a garota respirou fundo do outro lado da linha — Só vem logo.
– Já estou chegando. — Maddie desligou o celular e ligou o carro, acelerando o carro o máximo que pode.
A estrada estava completamente vazia e, apesar disso ser bom, também era estranho. Estava tudo muito quieto. Não tinha visto nenhum animal pelas muitas fazendas de Oklahoma, e isso não era bom sinal. Quando animais se abrigavam significava que as pessoas deviam fazer o mesmo.
E então, quando chegou á uma ponte que passava sobre um rio, começou a avistar as luzes vermelhas de vários carros. Muitos indo na mesma direção que ela. Mas nenhum voltando. Tinha como o dia ficar pior? Não conseguiu ir pra NY, Ryan estava morto, Ada estava desesperada e precisando dela, e agora um engarrafamento.
Bufando, Maddie passou para a pista do lado, que era contramão, e acelerou sem se importar. Não tinha nem um carro vindo mesmo.
– Otários. — sorriu debochada para a fila de carros que buzinava indignada para ela.
Acelerou até não poder mais. Não encontrou nenhum carro de polícia, ao contrário do que Ada falou. Tinha como as coisas ficarem mais estranhas?
Meia hora de estrada depois — e sem um carro para atrapalhar o caminho -, encontrou a origem do engarrafamento desaparecendo pela entrada de uma cidade. Era possível ouvir, mesmo de longe, as sirenes. Passou direto. Faltava mais duas horas para chegar em sua cidade, pelo menos na velocidade de 110 km por hora em que estava.
Por todo o caminho, encontrou algumas cidades como a anterior, mas nenhuma tão barulhenta quanto aquela. Outras pareciam pacíficas com eram normalmente. A cidade onde vivia estava entre as duas coisas. Via carros de polícia e ambulâncias de um lado para o outro mas não havia movimento além desse.
Dirigiu direto para onde Ada, que ficava numa parte isolada da cidade onde só tinha uma grama verde viçosa e bem aparada e muitas flores rodeando o enorme prédio de madeira que era o hotel. As únicas luzes acesas eram as do primeiro andar e só tinha um carro no estacionamento improvisado de terra, e era o carro de atendimento do hotel.
– Ada? — chamou escancarando a porta principal.
O barulho de passos no chão de madeira era inconfundível, ainda mais para Maddie que conhecia tão bem o lugar que era sua segunda casa, e logo a ruiva apareceu correndo.
– Finalmente você chegou. Céus, ainda estou tremendo que nem vara verde. — falou abraçando Maddie.
– O que está acontecendo? Que loucura é essa? As cidades estão todas malucas. Tem umas ainda meio paradas, mas é Oklahoma, então…
– Passou na televisão, no jornal, que a polícia está agindo para tentar deter vândalos que estão matando pessoas por todo o estado. Deve ser alguma forma de protesto, não sei. Mas… Mandaram todos ficarem dentro de casa. E parece que daqui a pouco tem um anúncio do governador. — falou de uma vez só.
– Alguém já te disse para respirar entre os monólogos? — Maddie sorriu tranquilizadora.
– Sim. — Ada respondeu revirando os olhos — Você.
– Tudo bem, vamos esperar por esse tal discurso do governador.
Maddie fechou a porta que deixara aberta e foi para o escritório do pai de Ada, John, onde tinha um televisão, ligada no principal canal de notícias do país. Ficaram sentadas no aconchegante sofá perto da janela e esperaram por um tempo, em silêncio, até ouvir o hino do país que anunciava que era hora do discurso.
O governador falou e falou e falou e no fim colocou a culpa dos problemas que aparentemente estavam ocorrendo no país inteiro em testes ilegais de armas biológicas internacionais e aconselhou todas as pessoas a ficarem em suas casas.
– Como assim ele declara situação de risco e depois diz que está tudo bem? — Maddie acusou, completamente revoltada — Se a situação é de risco, não está tudo bem. Acho que ele não entende isso. Mas que burro. Qual o problema dele? Uma pessoa que fala uma coisa dessas não devia ser eleito.
As duas continuaram encarando a televisão que agora passava uma reprise de um documentário sobre o clima. Ou coisa do tipo. Maddie não estava prestando atenção.
– Estou com sono. — ela falou suspirando.
– Olha que sorte a sua. A suíte principal acabou de ficar vaga. — Ada sorriu pegando uma chave na gaveta principal da escrivaninha.
– Que coincidência!
As duas subiram para o último andar, com um boa noite, Maddie ficou na suíte enquanto a outra caminhava para seu quarto, depois de uma porta que dizia “apenas para funcionarios”.
Maddie tirou as roupas, ficando apenas com a lingerie, e se deitou na cama gigante sob o grosso e macio edredom. Assim que deitou a cabeça no travesseiro caiu na inconsciência e, em seus sonhos, estava presa num quarto escuro sozinha, pedindo por uma ajuda que nunca viria.
O sonho era tão assustador que ficou feliz quando foi acordada. Mas só até perceber que o que a acordou eram barulhos de batidas na porta. Uma batida frenética e alta.
Saindo da cama, ela foi até o interruptor e tentou acender a luz mas isso não aconteceu. Na completa escuridão, saiu do quarto tropeçando nos móveis.
– Maddie, é você? — ouviu a voz de Ada assustada de algum lugar por perto.
– Sim. Quem pode ser a essa hora?
– Meus pais que não são, ou teriam usado a chave.
Uma ajudou a outra a chegar na porta da frente.
– Tia Ally! — uma voz masculina gritou do lado de fora — Por favor, esteja ai… Annie? Ada? Alguém! Até tio John!
Apesar dos protestos de Maddie, Ada abriu a porta depressa, deixando um homem entrar. Ele fechou a porta depressa atrás de si e encostou nela, arfando. Não conseguia ver quem era, mas Maddie tinha certeza que tinha corrido bastante, pela respiração densa.
– Xavier? O que está fazendo aqui? — Ada perguntou confusa.
– Xavier? Seu primo Xavier, aquele meio maluco? — Maddie ergueu uma sobrancelha, zombeteira, mas ninguém respondeu. Ada continuou.
– O que aconteceu?
– Vocês não viram televisão antes da energia acabar? — perguntou, e diante do nosso silêncio, continuou — O mundo está acabando.
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