Estrada Perdida
1 Prólogo
O puta gosto amargo do café de três dias, requentado, não é mais o mesmo. As meias fedem mais do que o normal, e os óculos dificultam a visão devido à crosta de gordura e poeira sobre as lentes. A merda de gato está lá na varanda há mais tempo do que o café e do que a televisão fora do ar.
Aqueles chuviscos e pontilhados tremem na caixa de fósforo. A válvula não regula mais, as teias de aranha são muitas. Apoiado no pedaço de madeira rachado do parapeito de uma velha janela, ele cospe, entre tragadas de cigarro — molhado na tempestade da noite anterior e secado no varal de um vizinho cego — e uns goles do café maldito.
O Sol, colorindo o céu, é a maior beleza que, talvez, se encontre por lá e diz a ele um intenso bom-dia. “Porra de bom-dia é esse!?”, retruca em tom seco e grosso.
Sua voz já não é mais a mesma e, às vezes, dá uma soluçada para conseguir dizer uma palavra mais comprida. Ele observa a alvorada e cospe novamente. Já não é mais um cuspe qualquer. É uma baita de uma catarrada intensa que rasga sua garganta, jorrando sangue por todos os cantos. Mais cheiro ruim pro pedaço.
Antigamente era perfume de margarida e a calcinha rosa com cheiro do amaciante de extrato de camomila que tomavam conta.
Hoje, aquela calcinha rosa só tem cheiro de mijo, mas ainda assim ele a inala com desejo, pois o faz lembrar dela.
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