Notas iniciais
Seguindo o modus operandi habitual, este capítulo tem uma música-tema associada: Ghost Town, do Adam Lambert. Se não tentar defender o Dante, quem o defenderá? ;)

“Died last night in my dreams

All the machines

Had been disconnected

Time was thrown at the wind

And all of my friends

Had been disaffected

Now, I'm searching for trust

In a city of rust

A city of vampires

Tonight, Elvis is dead

And everyone's spread

And love is a satire

And now I know my heart is a ghost town”

(Adam Lambert, Ghost Town)

A pequena mala já estava pronta em cima da cama. Dante sabia que não ia precisar de muito.

As paredes do quarto o sufocavam numa opressão sentida na pele e na alma e ele não ia aguentar por muito mais tempo permanecer naquela casa. A casa que tinha sido a dele. A casa que nunca mais voltaria a ser a dele. Não depois dos acontecimentos das últimas semanas.

Era um asco amargo, bílis perniciosa, aquela que se tinha entranhado na sua boca quando se recordava das cenas dos dias anteriores.

Uma onda de revolta voltou a percorrer Dante, como um tsunami que destrói tudo por onde passa de uma forma desordeira e ao acaso.

Um idiota. Ele tinha sido um burro da pior espécie por ter confiado em todos, exceto naqueles em que deveria ter confiado.

Ele, paladino da verdade, tinha sido um Pinóquio cujos fios tinham sido puxados pelos Geppettos convertidos em vilões da história.

Ele era um menino de carne e osso, não uma marioneta para ter sido manipulado daquela forma por Romero Rômulo, Gibson Stewart e tantos mais que se atravessaram no seu caminho. O mesmo menino marcado a ferro e fogo pelo massacre de Seropédica.

Dante já não tinha mais lágrimas para derramar ou peças de mobília para destruir; pontapeando, esmurrando ou lançando contra a parede os substitutos físicos daqueles que ele já não tinha mais como alcançar.

O seu próprio pai se é que Romero alguma vez tinha merecido esse epíteto. Dante tinha sido usado da forma mais vil que um ser humano pode ser usado.

Teria sido ele culpado de excesso de inocência ou de demasiada ingenuidade? Era o pai dele. Cada criança aprende a confiar no pai como se ele fosse um super-herói. Romero Rômulo tinha sido o vilão da história, apenas reencontrando o heroísmo segundos antes da sua morte.

Houve um tempo em que Dante teria dado a vida por Romero, sem sequer pestanejar. Naquele momento, apenas lhe tinham sobrado vontades. Vontade de chorar, vontade de partir tudo, vontade de desaparecer. Tinha que escolher uma das três.

O que tinha sido um lema de vida era naquele momento a sua vergonha marcada como um ferro em brasa num peito oprimido. “Meu pai, meu herói” ecoaria para sempre dentro da sua cabeça, não pelo significado literal, mas por ser a derradeira prova de que todos os deuses têm pés de barro.

Respirando fundo, Dante pegou a mala e saiu do quarto sem olhar para trás, marchando através do corredor largo e depois descendo correndo as escadas imponentes. Nunca mais regressaria àquela casa.

Todos lhe diziam que ele não podia pensar assim porque ele era demasiado jovem para despedidas definitivas.

O mesmo tinha acontecido quando ele entregou o distintivo da DARCO. Talvez um dia ele voltasse a sentir aquele apelo para ser um policial justiceiro. Talvez não.

Antes de qualquer decisão, Dante sentia a necessidade de se purificar.

Ele sabia perfeitamente que para os outros ele era um completo idiota, o pior policial à face na terra, o energúmeno que tinha entregado durante anos os planos da Policia para a maior rede de criminosos do Rio de Janeiro.

Já não importava. Se os outros pensavam isso, não era relevante para o ex-agente. Depois das revelações das semanas anteriores, os seus olhos estavam mais abertos do que os da maioria, mas se os outros o queriam continuar julgando burro, ele respeitaria as regras desse jogo.

Dante sabia perfeitamente que não tinha sido Zé Maria o algoz do poderoso Gibson Stewart.

A lista de suspeitos viáveis pela morte do Pai englobava poucas pessoas, sendo que todas partilhavam meios, motivos e laços de parentesco.

A mãe, a tia ou a avó. Uma delas tinha posto fim àquele pesadelo, sem dúvida com o objetivo de proteger o resto da família contra uma chacina inevitável.

Depois de tudo, seria ele capaz de prender alguma delas por isso?

A linha que separa o certo do errado é um fio muito ténue, por vezes tão desgastado, que se torna num borrão para quem o olha de longe.

Além disso, o instinto lhe dizia que a provável assassina era Kiki. Por que outro motivo teria Zé Maria assumido um crime que não era seu?

Não que coubesse a Dante o papel de juiz, mas mereceria a sua mãe ser presa depois de passar anos de um suplício diário, privada de liberdade pelo próprio pai? A mãe que ele tinha acabado de reencontrar? A mãe de quem ele tinha orgulho de ser filho.

Existem assuntos que merecem permanecer enterrados para todo o sempre.

Dante bateu a porta da casa, colocando os óculos de sol para encarar a claridade do dia. A moto estava atestada e pronta para partir. Acabando de colocar a jaqueta de cabedal preto, procurou o capacete e só aí se deu conta do silêncio incomum em seu redor.

Os seguranças que até dias antes brotavam do chão daquela propriedade tinham sido todos dispensados. Havia terminado o tempo de guerra com uma vitória incategorizável. Afinal, não é assim tão fácil distinguir entre o bem e o mal.

Nenhum ser humano é completamente bom ou mau. Todos existimos dentro do espetro do cinzento, alguns num tom mais claro, outros num tom mais escuro.

Para Dante, as preocupações começavam a terminar, como um ciclo que, inevitavelmente, tem que se fechar.

Ele sabia que, no final da viagem, ela o estaria esperando. Ela tinha estado do lado dele durante toda a vida. Ele lhe devia demasiado, por não ter acreditado nela quando mais tinha sido necessário, mas Dante sabia que ela nunca tinha desistido dele.

No final da viagem ele teria um par de braços para o abraçar no momento de regresso. Os braços certos com quem reconstruir a sua vida.

O portão já estava aberto quando o ex-policial saiu sem dizer adeus, acelerando a potente moto na direção do por do sol.

Era fácil considerar que tinha vivido demasiada tragédia para uma só vida, mas a vida é uma só e é curta.

Podia ter sido uma vida manipulada de todas as maneiras, adotado por quem o tinha deixado órfão, criado pelo demónio em pessoa, crescendo numa existência alicerçada pela ilusão.

Carregaria o peso de ser o filho sem pai e o neto sem avô. Os dois criminosos que tinham sido o seu modelo, mas que não o tinham moldado à sua semelhança.

O dia terminava, mas ele apenas tinha começado, se afastando da cidade a alta velocidade, com o vento batendo forte na sua face e uma sensação de liberdade e de livre arbítrio que o preenchiam, se sentindo de novo com asas para voar.

Pela primeira vez era senhor do seu próprio destino, sem trajeto traçado, apenas a vontade prosseguir ao sabor do acaso.

Estrada aberta, apenas ele e a moto, tentando encontrar um novo caminho.

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