Estou indo, Pontas
1 Na hora da minha morte.
Morte.
Dizem que enquanto você está morrendo um filme sobre a sua vida se passa á sua frente. Novidade: não é exatamente assim que acontece. Não é algo mandado pelo divino, ou mágico. Não vem de uma força superior ou algo assim. Vem de você. Como se você quisesse se lembrar das coisas boas que viveu, o que te prendia á terra, te dava conforto e dizer adeus á elas. Um último suspiro.
Eu podia ver claramente.
O rosto de James, com o típico sorriso malicioso de quando alguma de nossas pegadinhas obtinha sucesso. Os olhos verdes de Lily, toda vez que olhava para você, com aquele carinho imenso que te fazia sentir quente por dentro. O sorriso de Marlene, aquele tipo de sorriso que te tirava o foco e te deixava bambo, que mesmo nos dias mais escuros te fazia acreditar que ainda tinha esperanças no mundo. O jeito de Remus, quando fazíamos bagunça no dormitório e ele estava lendo um livro, nos olhava completamente irritado como se quisesse arrancar as nossas cabeças, mas no minuto seguinte estava rindo de alguma palhaçada que James fazia. Os cabelos curtos e de um rosa chamativo de Nymphadora, o jeito que os seus cachos balançavam quando ela dava aquela risada infantil, de jogar a cabeça para trás e bater as mãos. A expressão sonhadora de Dorcas, o jeito que via encanto em tudo, que sempre estava otimista e sorrindo, o jeito que apoiava os seus amigos, como apoiava Remus quando descobria a sua licantropia e o sacrifício que fez para salvar Lily e seu bebê.
E fiquei surpreso quando me lembrei de Regulus, meu irmão. O encanto que rondava seu ser quando o levei á uma clareira na madrugada de seu aniversário e soltei uma caixa de fogos no céu.
Eu era o último Black afinal.
Toujours pur.
De que serve isso quando tudo o que resta de nós é pó?
Eu me arrependia.
Arrependia-me profundamente. De não ter pedido a mão de Marlene quando pude, de não ter a possuído como mulher, comprar uma casa em uma vila qualquer e tiver um punhado de filhos. Não para continuar a linhagem dos Black. Mas sim para continuar o legado de Sirius, e Marlene. Só deus sabe do quanto àquela mulher queria ser minha e só deus sabe o quanto eu queria que ela fosse.
Arrependia-me de não ter agradecido com mais intensidade á Charlus e Dorea por me acolher em sua casa. De não ter dito mais vezes á Marlene o quanto eu a amo. De não ter dado mais atenção para Dorcas. De não ter escutado Remus mais vezes. De não ter dito a James o quanto eu o admirava. E de não ter dito a Lily que eu a adorava como a uma irmã que nunca tive. E me arrependia de não ter dado a Peter uma boa porrada.
Os marotos.
Oh, minha doce juventude. Costumávamos pensar que éramos imortais, deuses. Que viveríamos para sempre e teríamos uma enorme glória. Tínhamos sonhos, oh sim, muitos sonhos. Ser um jogador de Quadribol famoso, um auror de honra e respeito, o ministro da magia. Os bruxos mais gloriosos do século.
Ah, e as garotas. Caiam aos nossos pés. E alguns garotos também. Faltavam lamber o chão em que passávamos. Beijávamos aos montes, transávamos com três ou mais na mesma noite. Mas a época que fomos mais felizes foi quando percebemos que as garotas que sempre queríamos estavam sempre aos nossos lados. Ruiva, morena e loira. As melhores, mais bonitas, mais bondosas e fogosas garotas que o mundo já viu. Lily, Dorcas e Marlene. Tínhamos orgulho de tê-las ao nosso lado, foi meio difícil conquistá-las, naturalmente, mas conseguimos.
Os garotos morriam de inveja, as garotas se estapeavam para estar no lugar delas.
Estávamos todos felizes. Pensávamos que nada ia estragar isso. James se casou e Lily ficou grávida. Dorcas e Remus estavam noivos. Marlene e eu morávamos juntos, agíamos como se estivéssemos em uma eterna lua de mel.
Nunca irei me esquecer de quando seus cachos loiros batiam em seus seios enquanto ela... Ah. Os seus olhos violetas brilhavam quando eu dizia que a amava e ela deitava em meu peito nu, parecia um anjo enquanto adormecia e eu acariciava sua pele alva.
O anjo que me tirou da perdição. Ou me afundou ainda mais nela.
Então, veio a morte.
A encapuzada chegou e nos buscou um por um. Caímos como um dominó em câmera lenta. Um atrás do outro. Com pequeno espaço de tempo, trazendo mais dor e sofrimento. Destruindo quem estava vivo.
Primeiro foi Peter. Ah sim, aquele Peter que nos ajudava a fugir de pegadinhas e vivia sempre com fome estava morto. Tudo que sobrou foi um rato covarde e traidor.
Em seguida, Dorcas. Entrou em frente á um Avada para salvar Lily. Corajosa. Aluado ficou arrasado, todos nós ficamos, mas ele parecia destruído por dentro. E de fato estava.
Semanas depois, a morte que nunca pensei e desejei que chegasse. Marlene se foi, assim como toda família. Minha pequena lutadora levou mais de trinta comensais consigo, me deixou orgulhoso. O que mais me doeu foi a aliança em meu bolso, fria como a mão da pessoa á quem pertenceria. Eu iria finalmente á propor, no dia seguinte ao da sua morte. Nunca tive essa chance.
Ai veio a morte de James e Lily. Sentia meu coração sendo arrancado do peito ao ver a casa deles destruída. Estava insano, morto por dentro. Fui imediatamente atrás de Peter, queria vingança, estava cego pela dor.
E como presente por ser leal, me veio mais dor. Preso em Azkaban. Nenhuma visita daqueles que amava. Só me tinha restado Dora e Remus e eles me odiavam, pensavam que eu era um monstro. Não os culpo por isso.
Meu sobrinho.
Meu sobrinho. Fiquei histérico ao conhecer Harry. Meu peito doeu. Era a cara de James e tinha os olhos de Lily. Tudo o que eu queria era chorar, chorar em posição fetal. Mas eu não podia, tinha que destruir Peter. Tinha que vingar os Potter, os McKinnon e os Meadowes. Enfraqueci. Ao ver os olhos verdes que tanto me transmitiam carinho me olharem com ódio e com dor. O rosto que eu tanto admirava se contorcendo em uma careta furiosa.
Não vi Harry naquele momento. Somente James e Lily. Ansiando pela minha morte, me acusando de traidor. Rasgou-me ao meio, me destruiu mais do que eu achava possível.
Jovens para sempre.
Esse era o nosso lema. Para sempre, para sempre, para sempre. Quem diria que o sempre seria tão curto assim?
Morte.
Era a minha hora. Eu aceitava isso. O meu sempre tinha acabado. Todo o sofrimento, angustia e dor. Remus era o último afinal.
Procurei o rosto da minha família enquanto caia lentamente rumo ao véu. James e Remus estavam me olhando chocados. Desculpe. Harry e Remus. Havia dor em seus rostos. Nymphadora lutava como uma guerreira, nem notava o que estava acontecendo. Era melhor assim.
Sorri sinceramente. Finalmente encontraria a minha paz. Harry conseguiria vencer Voldemort, eu sei que sim. Remus se casaria e teria um filho, eu tinha certeza. Eu podia descansar. Poderia encontrar Marlene do outro lado.
Fechei os olhos e pude ver todos que morreram, todas as pessoas que eu amo. Eles sorriam e estendiam os braços para me seguram enquanto eu cai em direção á eles.
Cai sorrindo. Como um verdadeiro Maroto.
Estou indo, Pontas.
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