Estou em todas as coisas encantadoras
1 Estou no silêncio da manhã
Notas iniciais
Estou em todas as coisas encantadoras
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Estou nas flores que desabrocham,
Em uma sala silenciosa,
No cantar dos pássaros,
Em cada coisa encantadora.
Do Not Stand at My Grave and Weep, Mary Elizabeth Frye
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Primavera
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O sol já despontava no céu outra vez quando voltaram a treinar. A relva exalava um cheiro fresco de terra molhada e as árvores balançavam sedutoramente suas copas carregadas de flores. Ainda ventava na planície, fazendo a grama ondular, mas a chuva não voltaria tão cedo. Algumas gotas presas em folhagens e pétalas refletiam como cristais a luz do dia ensolarado que se consolidava, dissipando nuvens.
Dohko e Shion até tentaram se concentrar na luta que travavam, todavia, a temperatura amena combinada à sensação de plenitude do almoço que haviam comido às pressas eram um convite ao repouso. Depois de muito discutirem se era justificável mais um intervalo, Libra tentou persuadir o companheiro de que ninguém os flagraria matando o treino e sugeriu que se embrenhassem ainda mais na mata, só para garantir. Shion até relutou, porém, estava exaurido pela refeição pesada e a manhã de exercícios — e o sorriso de Dohko era tão convincente...Logo, acabou cedendo.
Pegaram a cesta de provisões, seus casacos e migraram da clareira para a sombra de árvores cada vez maiores. Na trilha, o moreno comentava amenidades, como se não estivesse tramando uma das suas. É claro que Shion sabia que o convite era impregnado de segundas intenções. O ariano até entrava no jogo, agindo com naturalidade enquanto o ajudava a definir o melhor local para "descansarem".
Libra mal podia crer no seu poder sobre Áries.
Quando conheceu o lemuriano, nos tempos em que ainda eram aprendizes, Dohko deparou-se com a profundidade do abismo entre si próprio — anônimo, magricelo e apatetado — e o descendente dos nobres ferreiros de Jamiel. Mesmo se alguém lhe contasse sobre seu futuro com ele, jamais teria acreditado na sorte que o esperava.
Altivo, forte e de uma beleza diáfana, Shion unia poder e encanto numa única figura. Suas habilidades inatas impressionavam mesmo os preceptores. O menino diferente botava os colegas para comer poeira sem grandes dificuldades.
Na inexperiência da juventude, Dohko nunca havia visto um ser humano sequer parecido com ele. Nem mesmo as estórias sobre elfos e sirenas, ninfas e fadas...nada chegava perto da raridade daquela espécie. A estrutura elegante, a pele leitosa, os olhos amendoados e encimados por dois sinais, os cabelos de um loiro cor-de-limão...Apaixonara-se por aquela criatura sobrenatural com a rapidez de um estalar de dedos.
Restou-lhe esforçar-se para ser digno de sua companhia. E foi assim, correndo atrás do prejuízo, que tornou-se, junto com ele, cavaleiro de ouro.
Não tinha sido nada fácil conquistar a amizade de Shion. Dohko perdeu a conta de quantas vezes esbarrou de cara na barreira de polida indiferença que cercava Áries. Mas, afinal, conseguiu cativá-lo com sua simplicidade e seu bom humor sempre infalíveis.
Aos poucos, viu refletida nele a admiração que só crescia com os anos. Sob o medo de estragar o relacionamento, Libra deixou que a atração seguisse um curso natural. Todavia, passado algum tempo, cansou-se de esperar e decidiu arriscar a sorte numa declaração desajeitada, com poucas palavras e muito contato físico. Para sua surpresa, Shion correspondeu vorazmente e amaldiçoando tanta demora a tomar uma atitude.
O resto da estória é beijos roubados, escapadelas na madrugada e todo um idioma traduzido em olhares e sorrisos.
Escolheram um carvalho e estenderam ao seu pé a toalha de piquenique. Tiraram as ombreiras e as sandálias; Shion livrou-se da regata, enquanto Dohko já estava descamisado há muito. A luz se infiltrava por entre as folhas e imprimia na pele exposta de ambos um aspecto rendado de sombras. As canções dos pássaros, as cores vibrantes das flores, a umidade da chuva — toda uma complexidade sensorial embriagava os enamorados.
Dohko não esperou nem um segundo: armado o leito, colou os lábios nos do lemuriano e deitou o corpo dele com o peso do seu próprio. Derreteu-se em juras de amor enquanto o tomava para si.
Afinal, satisfeitos, enrolaram-se nos braços um do outro e cochilaram um par de minutos. Shion acordou languidamente com afagos em seu cabelos, abrindo os olhos cor de avelã para a árvore que os protegia num aceno manso, salpicada de luz. Ele aspirou o perfume floral da natureza e trouxe até seus lábios a mão que o acarinhava.
— Sabe, de onde eu venho, Shion é nome de flor. — ouviu Dohko comentar em tom casual.
O jovem cavaleiro de Áries entreolhou-o já com uma resposta malcriada na ponta da língua. Contudo, não viu nele nenhum sinal de deboche. Muito pelo contrário, Libra mirava uma orquídea selvagem contemplativamente e parecia estar apenas evocando memórias. Assim sendo, o ferreiro sentiu-se mais tranquilo para esclarecer a verdade por trás do seu título:
— Esse era o nome de um antigo líder dos lemurianos. Minha mãe tinha fé de que eu estava destinado a ser grande como ele.
— Coração de mãe nunca se engana, não é mesmo?
Shion sorriu, enternecido.
Então, o moreno debruçou-se na grama e logo fez-se som de alguma coisa sendo partida. Alegremente, trouxe para diante dos olhos amados uma pequena margarida e encaixou-a no meio dos cabelos longos dele. Não conseguiu conter uma gargalhada, que muito ofendeu Áries.
— Não me leve a mal, mas acho que esse tipo de coisa combina mais com o Albafica...
— Pois vou te mostrar agora quem é a florzinha aqui!
Quando Shion montou sobre o namorado para iniciar outra sessão de carícias, a margarida desgarrou-se da cabeleira clara, mas não foi esquecida.
No final do dia, depois de emendar outro treino, os garotos recolheram seus pertences e voltaram exaustos para as doze casas. A realidade dos cavaleiros de Atena chamava-os de volta para a rotina de obrigações e o teatro diário no qual eles eram apenas bons camaradas. Apesar de tanto, no caminho, Dohko ainda teve a presença de espírito de brincar de "bem-me-quer, mal-me-quer" com a flor, sob reviradas de olhos de Shion.
E, defendendo a torcida secreta do lemuriano, "bem-me-quer" venceu.
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Verão
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O sol cor de sangue tocava as montanhas quando o repique de sinos se fez ouvir no alto da torre de Jamiel, anunciando a chegada de um estranho. Shion quase tropeçou ao pôr-se de pé, esbaforido, e pediu licença a Yuzuriha já a meio caminho da porta. Os passos se transformaram em galope nas escadas, e então em corrida assim que ele confirmou suas suspeitas. Era Dohko quem aguardava na entrada, metido em roupas de viajante e seu chapéu de palha.
O abraço que o acolheu veio forte e acompanhado das saudações mais doces. O menor estava ensopado de suor pelo calor que fazia, mas Shion não se importou.
— Parti do Santuário assim que recebi sua carta, querido. Fiquei preocupado...um espectro de Hades? Aqui?
— Era o irmão de Yuzuriha.
— Conte-me tudo, por favor!
Adentraram o palácio com discrição, mas esfomeados por mais demonstrações de saudades. A temporada de Shion em Jamiel estava se estendendo demais, para desespero de ambos.
Chegaram a um salão onde antes o ariano escutava as preocupações de seus pares. Dohko foi apresentado aos remanescentes da raça de Shion e convidado a passar a noite na morada deles. Áries sorria internamente ao ver as bochechas do companheiro corarem toda a vez que ele apertava a mão de alguém. O chinês impressionava-se com facilidade pela beleza dos lemurianos — tão altos, tão pálidos, tão majestosos. Todavia, mesmo depois de conhecer outros representantes da espécie, ainda considerava Shion o mais bonito de todos, sem dúvidas.
Conversaram numa grande roda sobre o ataque de Tokusa de Hanuman e as notícias que se espalhavam depressa sobre estranhas atividades cosmo-enérgicas na Itália. O clima era de apreensão.
Quando escureceu e o calor do dia deu lugar a uma noite gelada, Áries e Libra viram-se finalmente sós e longe das cerimônias de terceiros. Dohko pôde então tomar um banho e desfazer a pequena mala no quarto de hóspedes, obrigando seu amado a reprovar o pijama curto que ele havia trazido. No Tibete, a temperatura era sempre baixa após o pôr-do-sol, mesmo no verão. Mas Shion somente compreendeu aquele pequeno equívoco assim que o convidado invadiu seu dormitório e enfiou-se embaixo de suas cobertas, batendo o queixo e pedindo abrigo.
Como negar hospitalidade a um homem tão lindo, ainda mais vestido em pouco tecido? Esquentaram juntos a cama de Shion, abafando gemidos.
A madrugada avançou e eles se perderam em conversas triviais, até tocarem de novo no tópico delicado.
— Dohko, você acha que a Guerra Santa está próxima?
— Eu não duvido. O mestre anda bastante envolvido com assuntos externos, e também...Sasha já é uma moça. Nunca ouvi falar de uma reencarnação de Atena que chegou à vida adulta sem enfrentar Hades.
Shion emudeceu, abraçando o peito do amante com mais ímpeto. O moreno leu seus pensamentos e buscou tranquilizá-lo:
— Ei, você não precisa se preocupar. Nós vamos enfrentar qualquer coisa juntos, certo?
O lemuriano assentiu.
— Os cavaleiros de ouro estão muito preparados. Vai ficar tudo bem.
Dohko tinha tanta certeza do que dizia, que o convenceu, ao menos por aquela noite.
Ao amanhecer, o ferreiro fez alguns reparos na armadura de Libra antes de seu amado seguir viagem. Despediram-se sob o sol abrasante do meio-dia, entre promessas de um reencontro breve na Grécia, que se concretizaria em não mais que uma semana, às raias da batalha que decidiria suas vidas.
Naquele verão, os cavaleiros de ouro seriam varridos do mapa, à exceção deles.
Nem tudo ficaria bem, afinal. Mas eles sim.
E porque seriam os únicos sobreviventes, teriam que se separar para assumir as funções que urgiam cumprimento. Dohko partiria do Santuário para sempre e estabeleceria moradia nos Cinco Picos Antigos, onde jazia o selo de Hades. Deixaria para trás ruínas e a pessoa mais preciosa de todas: o novo Patriarca, nomeado por Atena em pessoa.
Shion naquela vida nunca mais veria seu amado colocar os pés em solo grego. E, também, esconderia as lágrimas inconformadas atrás de uma máscara de metal e um capacete. Contudo, não permitiria que realmente se distanciassem: escreveria cartas com frequência e enviar-lhe-ia presentes nas datas festivas.
Libra era o melhor capítulo da sua parca existência, seria um tolo se deixasse o vínculo entre eles morrer.
Décadas se passariam, entre cartas de amor e poemas trocados. Dohko tricotaria pulôveres de gosto duvidoso para remeter a Shion nos invernos e o lemuriano mandar-lhe-ia por correio todos os livros de que mais gostasse.
Não poupariam sinceridade nos seus manuscritos, nem carinho. A paixão adolescente amadureceria com a exploração completa das suas almas, através de comunicação escrita. O platonismo aclararia uma compreensão mais profunda sobre si mesmos e o relacionamento que nutriam, e passariam a admirar-se ainda mais. Apaixonar-se-iam pelas pessoas Dohko e Shion. E, assim, o amor deles atravessaria a dimensão dos corpos e dos anos.
Sonhavam o tempo todo em rever-se, todavia, aquilo não saía do plano imaginário nem mesmo para adocicar a correspondência íntima. Shion prometia a si próprio que, enquanto não reconstruísse o Santuário, não deixaria seu posto para uma nova reunião.
Então, um dia, sua condição se cumpriu.
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Outono
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— Eu queria muito que você pudesse vir me visitar na primavera, quando a montanha se enche de flores. É simplesmente um paraíso.
— Paraíso é qualquer lugar onde eu possa ficar com você, Pátroclo¹.
Dohko e Shion sorriram em meio ao abraço. Pátroclo e Aquiles eram os nomes fictícios com que assinavam suas cartas de amor, a fim de torná-las livres de quaisquer suspeitas. Shion ainda era o Grande Mestre e devia manter uma postura irretocável diante dos novos cavaleiros de ouro. Se desconfiassem de que o seu Patriarca não tinha viajado para retiro espiritual algum, ele certamente entraria em descrédito.
Havia aportado em Rozan nas primeiras horas da manhã e sem nenhum aviso. Não precisavam. Dohko reconheceu seu cosmo a quilômetros de distância, trazido pelos ventos. Quando o regente alcançou o casebre no topo da montanha da cachoeira, seu amado já o esperava em pé no umbral. Usava um dos hediondos pulôveres que havia ganhado dele e sentia-se gordo, mas foi recebido com suspiros e elogios.
Conversaram como se nenhum dia houvesse se passado. As correspondências se mostraram cruciais no sentido de mantê-los a par de tudo que acontecia em seus universos tão distintos e descobriram que, de fato, entre eles não havia novidades e nem segredos a serem colocados em pauta.
Depois de um lanche farto e regado a chá, o casal de homens já maduros sentou-se frente a frente no tapete de folhas secas que se formava sobre a pedra onde Dohko vigiava a cachoeira. O frio levantava uma delicada névoa sobre a vegetação e os obrigava a manterem-se agasalhados. A queda d'água fornecia uma trilha sonora de paz e a luz pálida desenhava nela pequenos arco-íris. No entanto, não dedicaram um único segundo à natureza de Rozan, pintada de amarelo e vermelho; deram-se as mãos, em mútua contemplação.
Libra não deixou de notar as linhas que sulcavam o rosto de seu companheiro e os fios grisalhos que surgiam, discretos, em meio ao loiro cor-de-limão. Nem passaram despercebidas as manchas de sol no pescoço um tanto flácido e nas mãos de pele mais fina do que se recordava. Entretanto, o olhar dele, apesar de ter ganhado bolsas e rugas, ainda era tão intenso quanto o que sua memória preservava.
Dentre tantas transformações, sua opinião era a única que não havia mudado — Shion continuava sendo a pessoa mais bonita do mundo.
Quanto a si próprio, sabia que o misopheta menos² consumira-lhe a juventude mais rápido do que gostaria. Aparentava pelo menos quinze anos a mais que seu companheiro privilegiado pela genética dos lemurianos. Fora com timidez que se colocara na presença do antigo cavaleiro de Áries, porém, logo que se deparou com a reação dele ao vê-lo — encantada—, desarmou-se de inseguranças. Apenas havia se sentido alguns centímetros mais baixo quando se abraçaram e sorriu sem graça ao ser questionado sobre a barba e o bigode que vinha cultivando.
— Estamos envelhecendo — Dohko deu voz àqueles pensamentos.
— Vamos envelhecer juntos. Quantos outros cavaleiros tiveram essa sorte?
Libra quis dizer que não estavam envelhecendo juntos, mas somente assentiu. Quem era ele para reclamar, afinal? Era mais afortunado do que poderia ter pedido aos céus.
Ao invés de estimular o sofrimento, trouxe o maior para perto de si e aninhou-o em seu peito. Como nunca mais tinham feito aquilo depois da guerra santa, Shion ouviu pela primeira vez o coração do chinês bater numa lentidão interminável — quase parecia morto. Aquela percepção deixou o ferreiro apreensivo; a morte era um tema com o qual ainda tinha dificuldades para lidar.
— A grande desvantagem de não termos perecido na guerra é que um de nós deverá partir primeiro, enquanto o outro permanecerá, assim como os casais comuns.
— Mas temos um prêmio de consolação: nos reuniremos nos Elísios e lá poderemos passar toda a eternidade como os jovens pombinhos que éramos. — Dohko soltou um riso baixo que lembrou Shion do menino matreiro que ele um dia havia sido. E o ariano lembrou-se também dos beijos mansos, do esfregar das pernas dele nas suas, do coração explodindo ao final das noites. Lembrou-se de como, temeroso, o havia rechaçado tantas vezes enquanto eram adolescentes, só para acabar mordendo a língua e se entregando à atração que era recíproca. Aquelas memórias estavam sempre ali, ao alcance da menor saudade.
E, novamente abraçados, entendia porque não tinham optado por esquecer tudo e seguir cada um o seu caminho, do jeito mais fácil. Entendia também as consequências daquela escolha; entendia que teriam que continuar aguardando pacientemente até que os mesmos deuses que os puseram em contato e depois os separaram demonstrassem clemência.
De qualquer maneira, não era como se eles alimentassem grandes expectativas.
— Eu sempre tive medo de que algum de nós falecesse antes desse reencontro de hoje — Shion confessou, grato pelos pequenos momentos de felicidade.
A partir daí, deixaram de usar palavras.
O dia na China durava uma infinidade, apesar de ser outono. Revoadas de pássaros migravam para o sul, abandonando as árvores quase desnudas. O vento carregava os restos da época produtiva, enquanto o casal se protegia dele no aperto de seus braços, como num casulo.
Não se dobravam ao tempo, nem às guerras e intempéries. O amor que espera tudo suporta.
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Inverno
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A neve fina cobre a vegetação outrora exuberante de Rozan. A cachoeira aos poucos se congela, até que o fluxo seja interrompido e estanque numa escultura de gelo impressionante. Mesmo no inverno, os Cinco Picos Antigos são uma paisagem de tirar o fôlego.
O velho solitário se recolhe à sua cabana na montanha em passos lentos e fundos — um filme que se repete todos os dias há mais de duzentos anos. Mas esta rotina está prestes a mudar. Ele não é mais o único morador daquela terra sagrada.
Dohko se inclina sobre o berço da pequena Shunrei e a entretém com a tosca bonequinha de lã que ele mesmo confeccionou. A bebê ri e estende os bracinhos na direção dela, ainda incapaz de se sustentar nas pernas. O ancião sempre esteve ciente da necessidade de prover continuamente o Santuário com novas fileiras de cavaleiros e amazonas, mas só naquele ano resolveu adotar uma menina, sob o pretexto de treiná-la.
O motivo? Não era a reencarnação da deusa Atena do século XX, isolada do mundo na torre do Santuário. Esta já tinha toda uma nova geração de cavaleiros de ouro para garantir sua proteção, graças a Shion.
Dohko arrumou uma nova companhia, porque somente agora, depois de dois séculos, ele pode dizer que está sozinho de verdade.
Seu grande amor faleceu em terras gregas no início da estação e foi sepultado longe da sua presença. Nem era como se quisesse torturar-se com o enterro dele; despediu-se do cosmo que esteve ao seu lado por toda a vida no momento em que ele se extinguiu. Sabia que um dia aconteceria, cedo ou tarde, e só desejava que sua alma gêmea não sofresse. Foi como o apagar de uma vela — de repente, a energia que vivia em sintonia com seu fraco coração foi soprada para longe. E, subitamente, passou a sentir mais frio.
O idoso — carcaça do guerreiro vivaz que um dia foi par de Shion — dá de comer à sua nova família e prepara a lareira para as temperaturas baixas. Executa tudo sempre devagar, pois não tem mais pressa. Mais dia, menos dia, partirá também para os Campos Elíseos e finalmente para junto de seu amado.
Assim que a menina se aquieta, ele se vê livre para voltar à sua mesmice: meditações, um gole de vinho de arroz e um pouco de leitura antes de dormir.
As paredes do quarto do mestre Roshi são revestidas por estantes até o teto, repletas de livros tão envelhecidos, que suas capas empalidecidas e páginas amareladas parecem todas iguais. Mas ele sabe distingui-las, e muito bem.
Dirige-se a um volume carcomido, lido e relido tantas vezes, e abre-o numa página marcada.
As aventuras de Aquiles e Pátroclo estão logo abaixo de uma flor do campo miúda, de pétalas lilases e centro amarelado, parecida com uma margarida. O marcador de páginas, a florzinha seca, mescla ao cheiro de livro antigo um perfume suave — cheiro de primavera.
O quintal de Dohko era repleto de flores como aquela: Aster tataricus, mais conhecida como "não vou te esquecer" ou shion.
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