Estorietas de Gaveta
1 Chama-se Chamego
Notas iniciais
Bons tempos...
Chamego é uma palavra que só existe no português, assim como saudade e cafuné. Me peguei pensando a respeito disso e de uma porção de outras coisas esses dias.
Pensei no forasteiro, e no não pertencer, e no retorno, e no não pertencer de novo. Percebi que não pertenço, sou forasteiro na família e forasteiro entre os amigos, mas que as vezes me sinto parte, e que esses momentos são deliciosos.
Existe, por acaso, conforto; Não, chamego melhor do que o da casa dos Avós? Que relação estranha essa que temos com os pais de nossos pais. Eles não sabem muito sobre nós, mas mesmo assim, nos acolhem como pertencentes àquele lugar, e àquele núcleo.
Aquela cama que é de todos os netos quando vão visitar, e que sempre tem cobertas pesadas com cheiro de amaciante e uma colcha de retalhos feita em casa para colocar por baixo, para ficar ainda mais macio.
Aquele cheirinho de creme de vó, que não tem como confundir, que fica impregnado mesmo depois da bênção (mesmo para os netos ateus) e do beijinho seco na base do pescoço, onde a cabeça dela encosta na hora do abraço.
Aqueles trocados doados para o refrigerante, mesmo a gente já estando a muitos anos no mercado de trabalho.
O espanto genuíno e divertido com o cabelo rebelde em moicano, com os piercings, e com as primeiras tatuagens. "Meu Deus..." eles vão dizer, espantados, mas já amaciados pelas loucuras dos netos mais velhos.
O Pão de Queijo quentinho no domingo, fim de tarde, quando toda a família que está na cidade se reúne sem nenhum motivo aparente.
O arroz com feijão, que ninguém nunca vai conseguir fazer igual. A castanha quebrada na hora, o revezamento da louça depois da farra.
O silêncio... O aroma... O vento uivante... Aquelas coisas que só mesmo forasteiro pra perceber, quem tá lá todo dia não vê, não sente... O chamego, o cafuné, e a saudade.
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