Notas iniciais
CHEGUEI!!!!! Ouvi um amém, irmãos? Após uma semanas procrastinando, aqui estou eu novamente

Duas semanas se passaram desde que o filho do Barão de Ouro Verde e a Rainha do Café se encontraram. No decorrer das duas semanas Aurélio Cavalcante não teve paz, seus pensamentos, independente da ocasião ou hora, era levados até Julieta Bittencourt e agora ela invadia até mesmo seus sonhos, todavia em seus sonhos a Mulher de Preto era mais vívida, mais alegre, mais aberta a emoções e esses sonhos fizeram com que ele se questionasse se havia um pouco de via dentro dela, afinal de contas, independentemente de sua frieza e indiferença a qualquer sentimentalismo ela era humana.

Era meio dia, Aurélio descansava na sala lendo jornal. Estava
tendo seu primeiro momento de paz absoluta, seu pai trancou-se no quarto após o
conflito que tiveram pela manhã, ele tentou novamente convencer o pai a
negociar com Julieta, mas ele estava mais irredutível e difícil do que nunca.
Aurélio sabia que no fundo o pai tinha medo de Julieta e não se conformava com
o fato de uma mulher ter tanto poder, se fosse Osório Bittencourt, ou qualquer
outro homem que aceitasse um conhaque e fumar um charuto, ele consideraria a
ideia e um acordo já estaria fechado, mas era de Julieta que estavam falando, a
mulher que era mais temida e impiedosa que qualquer homem. Ela não recuou diante
dos gritos do Barão, retrucou os desaforos com que ele lhe atacou no primeiro
dia que se conheceram e ainda assim conseguia manter a compostura, e esse era
um dos milhares de motivos que ele tinha para justificar sua paixão por ela.

Sim, paixão. Aurélio cansou de tentar enganar a si mesmo buscando
justificativas para o que sentia quando estava perto dela. O que ele sentia por
Julieta chegava a ser mais forte do que o que ele sentia pela mãe de Ema, não
que ele não amasse a mãe de sua filha, ele amava, ela foi seu primeiro amor e
lhe deu a sua joia mais preciosa. Ele ficou com ela até o dia de sua morte, quando sua vida era levada lentamente pela morte e manteve sua mão atada a dela
até seu último suspiro, quando ela murmurou um breve ‘Eu te amo’ antes de morrer.
Mas o que sentia por Julieta era intenso, havia algo nela que ele não conseguia
explicar, um sentimento que crescia a cada dia e que inicialmente ele negou-se
a admitir.

A chegada de Jorge foi a anunciada por Dolores que logo se retirou
deixando os amigos sozinhos. Aurélio fechou o jornal e o colocou de lado
saudando o amigo com um abraço.

— Como está, meu amigo? — Jorge perguntou e sentou-se.

— Eu estou bem, Jorge. Esses últimos dias me serviram para colocar
alguns pensamentos em dia, mas e você, como está?

— Estou bem, na verdade não poderia estar melhor. Mas não é sobre
mim que vim falar, soube que Julieta Bittencourt está de volta ao Vale do Café?

Jorge não pôde deixar de notar quando um pequeno sorriso de canto
iluminou por alguns segundos o rosto de seu amigo.

— Não, eu não sabia, não falo com ela desde que estive em São
Paulo, mas é bom saber.

Uma semana atrás ela esteve no Vale do Café, brigou com o filho e
partiu de volta para São Paulo e quando ele foi procurá-la, ela já havia
partido.

— Aurélio, ainda sobre Julieta, o que você decidiu sobre ela? Da
última vez que nos falamos ficou bastante claro para mim que você estava
confuso sobre o que sentia por ela.

— Meu coração chegou a uma conclusão, Jorge. No início eu temia falar
isso em voz alta mas agora não posso mais negar que tenho sentimentos por
Julieta. E são sentimentos que não consigo explicar e isso está me sufocando.

— Você ouve todos meus desabafos, o mínimo que posso fazer é ouvir
um dos seus, diga-me, o que sentindo?

Aurélio levantou-se abruptamente enquanto apertava nas mãos
nervosamente, buscou algumas palavras para dar continuidade a aquela conversa.

— Julieta é diferente de qualquer mulher que eu conheci, o que eu
sinto por ela também é diferente, mesmo que eu não devesse sentir, afinal, eu
deveria odiá-la, certo? Ela está tomando a fazenda do meu pai, está sendo cruel
em suas negociações e aparentemente ela não nutre nenhum sentimento por mim
além de desprezo.

— O coração escolhe quem o coração escolhe, não adianta negar ou
lutar contra — Jorge disse lembrando-se de si próprio e de sua paixão proibida
pela filha de seu melhor amigo, que estava de pé confessando seus sentimentos
sobre uma mulher que aparentemente jamais o amaria.

— Meu pai jamais me perdoaria se soubesse o que sinto.

— Você nunca foi de dar ouvidos ao seu pai, além do mais ele não
pode fazer nada quanto a isso, não pode simplesmente tentar dominar seus
sentimentos. Se pudéssemos escolher quem amamos muito sofrimento seria poupado, nossos corações não sofreriam por escolher a pessoa errada.

— Mas Julieta não é a pessoa errada — Disse de imediato, no início
ele pensou a mesma coisa que Jorge, que Julieta era a pessoa errada para amar
mas chegou à conclusão de que estava enganado.

— Então já que tem tanta convicção do que sente, talvez devesse
procurar Julieta e lhe contar o que sente.

— Mas o que quer que eu faça? Que diga, no meio dessa guerra que
se instalou entre ela e meu pai, que tenho sentimentos por ela? Acha realmente
que ela chegaria a me dar ouvidos? No máximo pensaria que é uma tática minha para
a seduzir e fazê-la desistir de cobrar a dívida.

— Ela de certo vai pensar isso mas quanto antes enfrentar esse
sentimento menos sofrerá, meu amigo.

Jorge estava certo, ele sempre estava quando o assunto era
conselhos amorosos, apesar de que não segue nenhum eles. Quanto mais rápido
enfrentasse seus sentimentos por Julieta Bittencourt menos sofreria. Ela
dificilmente acreditaria em seus sentimentos, por mais verdadeiros e puros que
eles fossem.

Após repensar o conselho do amigo, Aurélio dirigiu-se a Fazenda
Bittencourt. As portas da casa estavam abertas, elas sempre estavam. O silêncio
era quase absoluto e Aurélio sentiu-se quase que como um invasor, buscou com o
olhar por algum sinal da Dona da casa e de seus sentimentos mas aparentemente
ela não estava em lugar algum. Durante sua análise rápida os olhos de Aurélio
foram atraídos para uma foto em cima de uma mesa, sua curiosidade o fez ir até
a foto e pegá-la. Era Julieta, muito mais jovem, ela não mudou com os anos,
segurava nos braços uma criança, Camilo, o jovem que agora estava hospedado em
sua casa. Os braços de Julieta embalavam o menino de forma protetora, mas havia
algo no olhar dela, não era a frieza que ela carregava atualmente, mas também
não era a alegria que qualquer mãe teria expressa ao segurar seu primogênito, parecia medo ou alguma coisa do tipo.

— Boa tarde — A voz masculina atrás de si quase o fez soltar o
porta retrato, Aurélio suspirou e agradeceu por ser Tião e não Susana —, posso
ajudá-lo, Senhor Aurélio?

— Me perdoe a invasão é que as portas estavam abertas. Vim ver a
Senhora Julieta, ela está?

— Sim, está. Mas ela está no jardim e Dona Julieta não gosta de
ser incomodada quando está lá.

— Eu entendo, a esperarei aqui.

Tião apenas assentiu antes de se retirar. Aurélio não tinha
nenhuma pretensão de espera-la ali e assim que Tião deixou a sala entrando na
cozinha ele saiu, caminhando pela fazenda, inicialmente ele hesitou e pensou em
voltar para casa e esquecer a ideia de Jorge, mas suas pernas caminhavam não
dando atenção ao que seus pensamentos diziam.

O jardim era afastado da casa, ela realmente gostava de espaço.
Ele a encontrou cercado por rosas intensamente vermelhas, as
manuseando com cautela, quase que carinhosamente. Ainda trajava preto, Aurélio
não se recordava de vê-la usando outra cor, não importava a ocasião, ela sempre
estava usando preto. Jorge havia comentado brevemente que ela aderiu a cor
definitivamente após enviuvar, aquilo fazia Aurélio ter certeza de que Osório
Bittencourt era um bom homem, talvez o amor da vida dela.

— Nossos melhores encontros aconteceram na presença de rosas como
essas — Se fez notar após alguns segundos em silêncio sem ser notado.

A mudança de postura dela foi algo notável, seu corpo ficou
imediatamente tenso e sua pose desleixada foi deixada de lado.

— Eu já disse incontáveis vezes para não entrar na minha
propriedade sem ser convidado ou anunciado, não cansa de ser importunam-te?

— E a senhora não cansa de fugir de mim?

— Eu irei deixar claro apenas uma coisa antes de acabar com essa
conversa, eu não fujo de nada e de ninguém. Além do mais eu não tenho motivos
para fugir do senhor, ou tenho?

— Não, não tem, mas não vim aqui para discutir. Soube que você
estava de volta ao Vale do Café e decidi vê-la.

— Para você é senhora — O corrigiu —. Agora que o senhor já me viu
pode ir embora.

— Toda vez que nos vemos teremos que discutir?

— Se for necessário para que o senhor entenda que não desejo sua
presença.

— Mas o que a incomoda tanto?

— O que me incomoda é o senhor e a posição que está se colocando.
O senhor deveria estar trabalhando em conjunto com seu advogado para encontrar
uma saída para os problemas da sua família ou talvez tentando convencer seu
pai a aceitar a generosa proposta que lhe fiz e que aliás está com dias
contados.

— Eu sei bem o que deveria estar fazendo agora.

— Então o que continua fazendo aqui?

— Pode ter certeza de que não queria estar aqui, mas por mais eu
tente não consigo evitar.

— Evitar? Evitar o que?

— O que sinto por você.

Quando se deu conta do que havia falado já era um pouco tarde
demais para voltar atrás. As sobrancelhas de Julieta se curvaram em um fingido
desentendimento.

— O que sente por mim? Senhor Aurélio, está se colocando em uma
posição ridícula.

— Eu sei disso, mas eu não consigo evitar algumas coisas, sabe? Eu
não deveria estar apaixonado pela mulher que quer me tirar tudo mas olha onde
estamos.

— Usando da paciência que ainda resta em mim para dialogar com o
senhor, irei pedir que se retire imediatamente de minha casa.

— Eu vim aqui para falar sobre meus sentimentos mas percebo que
isso só irá aumentar as desconfianças que tem sobre mim — Ele não iria se
retirar e ela sabia disso, ao invés de fazer o que lhe foi ordenado ele estava
aproximando-se dela.

— Então se o senhor não se retira, eu saio.

Ela passou por ele, tentando evitar qualquer contato visual, mas
antes que pudesse afastar-se sentiu as mãos grandes dele circundando seu pulso,
ela o olhou nos olhos de forma interrogativa e depois para o local que ele
segurava com delicadeza, tentando não machucá-la. O seu coração acelerou assim
que sentiu sua pele entrar em contato com a dele.

— O que pensa que está fazendo?

Ele não sabia e não poderia responder àquela pergunta. Sua
resposta veio após alguns segundos de hesitação, um impulso do seu corpo o
levou a beija-la. Ela continuou firme no primeiro segundo mas acabou por ceder.
Os lábios reais eram muito melhores do que os que ele fantasiava a noite. Suas
mãos envolveram a pequena cintura da Rainha do Café e ela quase padeceu quando
suas pernas fraquejaram. Julieta caiu em si, a algum momento o ar se faria
necessário e ela precisava pôr um fim no beijo e voltaria a sentir o
constrangimento de ter cedido, em resposta ao atrevimento dele ela mordeu o
lábio dele, fazendo com ele se afaste bruscamente.

— O que? — Ele murmurou enquanto tocava o local onde ela havia
mordido, sangrava um pouco.

Os lábios dela estavam avermelhados, mesmo que ele tivesse sido
extremamente cuidadoso ao beijá-la. Ela tocou os próprios lábios, desacreditava
que havia sido levada, novamente, pelo desejo e um estava surpresa pela própria
reação.

— O senhor é um abusado — O insultou enquanto corrigia sua
respiração desregulada —. Nunca mais atreva-se a me beijar novamente.

Ela deu as costas e seus passos ficaram mais firmes e apressados
do que ela gostaria. Aurélio gritava para que ela parasse mas ela não lhe dava
ouvidos, estava surda e cega. Quando entraram na mansão os gritos dele se
tornaram abafados.

— Julieta, espere — gritou novamente e quando se deu conta alguns
empregados o encaravam.

— Saia — Foi a única coisa que ela gritou enquanto subia as
escadas.

Seria inútil segui-la e mais inútil ainda tentar fazer com que ela
ouvisse o que ele tinha a dizer, ela não daria atenção. Se dando por vencido
ele se retirou da casa enquanto alguns olhares o seguia. Talvez devesse ser
mais consciente da próxima vez e parar de deixar que seus instintos guiassem
suas decisões.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.