Estilhaços
1 Confissão
Bati à porta três vezes como de costume. Um ruído breve e abafado vindo do lado de dentro rompeu o silêncio da madrugada. Em qualquer lugar do mundo, não se costuma receber visitas tão tarde, a não ser que se tratasse de uma urgência. E não havia, afinal, outra circunstância pela qual eu ali me encontrava, atormentado e trêmulo. Gotículas de suor frio brotavam de minhas têmporas enquanto eu sentia os ossos das mãos vibrarem como que submetidos a uma descarga elétrica. Eu havia feito algo terrível e somente ali eu deveria encontrar alento.
Seriam necessários ainda mais alguns instantes até que David reconhecesse meu rosto através do olho mágico e enfim girasse a maçaneta. Quando o vi finalmente surgir por detrás da envelhecida e escura porta de madeira, havia estampada em seu rosto uma expressão que fundia espanto e preocupação. Era como se ele soubesse de tudo. As olheiras que começavam a se formar debaixo de seus olhos eram indícios incontestáveis de que ele passara a noite em claro, inquieto, por minha causa. Sua sensibilidade ímpar o tornava capaz de farejar algo errado a quilômetros de distância. Um dom verdadeiramente admirável.
Eu encontrava-me física e emocionalmente deplorável, incapaz de ocultar minha própria miséria. Não tão certo sobre como reagir àquele embaraço, permaneci estático a fitar em seus olhos a minha própria imagem refletida. David retribuíra-me esboçando uma expressão terna. Aqueles olhos brilhantes cor de cobre pareciam ver através de minha alma. Incapaz de evitar que um pequeno filete de lágrima escorresse, movi os lábios na tentativa falha de emitir algum som inteligível e disfarçar o choro iminente. No instante seguinte eu me encontrara envolto em seus braços, o toque suave e quente de seu rosto junto ao meu. Seu cheiro era como bálsamo que impregnava em minhas narinas levando-me a um estado de pura embriaguez. Minhas mãos subiram pelo pescoço, constatando a maciez de sua pele lisa e o eriçar dos finos e raros pelos. A boca entreaberta era um convite silencioso para um beijo. No momento em que senti a umidade de seus lábios a tocarem os meus era como se eu visse a mim mesmo suspenso em um vácuo e o mundo houvesse deixado de existir. Sem demora, estávamos ambos em seu quarto, a cama como um altar luxurioso em louvor ao próprio Eros. O sexo fora intenso e selvagem. A introversão típica de David surpreendentemente dera lugar a uma fera voraz e insaciável que até então permanecera adormecida. Eu entrelaçava-me a ele como uma serpente, ansiando pelo apogeu do prazer enquanto meus beijos vasculhavam cada centímetro de seu corpo impecavelmente esculpido pela natureza. As horas de intercurso carnal acabaram por extrair de nós até a última gota de energia. Esgotados, adormecemos e por uma leviandade momentânea deixamos de nos importar com um possível e eventual flagra. Felizmente, as primeiras horas da manhã chegaram sem que proporcionassem a terceiros essa surpresa.
Ao abrir os olhos, tive o confortante vislumbre da silhueta de David sem camisa de pé em frente à janela enquanto fumava um cigarro e lançava um olhar melancólico em direção ao horizonte. Nenhuma palavra fora dita desde nosso encontro. Desvencilhei-me das cobertas e caminhei em sua direção. Abracei seu corpo por trás, passando os braços pelo seu abdome. Ele retribuíra reclinando a cabeça em minha direção, dando sinal verde para que eu beijasse seu pescoço. Naquela mesma posição, entretanto, ouvi o soar de sua voz, quase como um sussurro, indagando-me sobre o estado de pânico em que eu me encontrava horas atrás. Ele tinha o incômodo costume de trazer à tona questionamentos desconfortáveis como aquele nos momentos mais inapropriados e eu frequentemente me sentia aborrecido por isso. Mas não daquela vez. Atravessei o cômodo até chegar aos meus pertences, revirei os bolsos do espesso casaco — a primeira peça que fora prazerosa e bruscamente arrancada de sobre o meu corpo — e de um deles retirei um robusto maço de notas de dinheiro.
— Vim lhe dar isto — disse, estendendo a mão.
David arregalou os olhos com o espanto de alguém que encarava o olhar gélido de um fantasma. Era muita grana e eu mesmo não tinha noção precisa do quanto tinha em mãos.
— Como conseguiu todo esse dinheiro, Júlio? — questionou. Sua voz agora adotara um timbre mais firme e sonoro.
Havíamos feito um voto de total honestidade um para com o outro. Até então eu estava disposto a cumprir minha promessa. Contudo, as recordações da noite anterior assombraram-me como o próprio diabo com o dedo em riste apontado em minha direção. Primeiro veio a culpa. Eu havia feito algo extremamente reprovável. Em seguida, tive medo. Medo de que a verdade o afastasse de mim, que destruísse nosso amor.
— Não importa — determinei severo — Por favor, pegue.
— Não enquanto não me disser de onde tudo isso saiu.
Eu era um sujeito emocionalmente instável. Muito me admirava um pacífico como David se dispor com tanta paciência a estar ao meu lado e a compartilhar comigo seu amor. Impaciente, num ímpeto instantâneo, fiz ecoar pelas paredes a minha voz:
— Porra, David! — esbravejei, deixando cair o valioso malote sobre a cama e involuntariamente apontando-lhe o dedo — Você não faz ideia dos riscos que assumi por esse dinheiro. Eu fiz por você!
O silêncio imperou por alguns segundos. Enquanto mil e uma coisas contorciam-se em um turbilhão dentro de minha cabeça, a expressão de David denotava uma incógnita neutralidade. Ele apenas caminhara em minha direção e segurara meu rosto entre as mãos.
— Eu te amo — disse suavemente — mas você precisa confiar em mim. E me contar tudo.
Deixei-me cair sentado sobre a cama, com um pesar colossal na consciência. Ele sentou-se ao meu lado. Entre soluços, meu relato tomou forma e juntos voltamos no tempo...
Fale com o autor