Estigmas
4 Capítulo 4
Capítulo 4:
A gélida voz sussurrou e os músculos de Hermione congelaram por uma fração de segundos, tempo necessário para que sua mente a levasse de volta até os gritos, lampejos e corpos caídos pelos corredores de Hogwarts.
Tão rápido como a lembrança veio, ela se dissipou e Hermione, como uma expert em duelos, rapidamente se esquivou, empurrando Draco para longe e apontando a varinha para frente. Com o gesto, o prato de comida que carregava se despedaçou no chão, espalhando o jantar de Malfoy para todos os lados.
Com a respiração ofegante, a castanha levantou a cabeça, fazendo com que seu cabelo se espalhasse por seu rosto.
"O que você pensa que está fazend-" -
Antes de terminar sua frase, porém, se pegou observando as feições do loiro. Malfoy olhava fixamente para a varinha de Hermione, e toda raiva e ódio que habitualmente estavam presentes no rosto fino e pálido do sonserino haviam sumido. Ao invés disso, Hermione podia ver o olhar de pavor e podia até mesmo jurar que sentia medo emanando de Draco.
Hermione reconheceu esse pânico; era o mesmo que estava acostumada a ver quando se olhava no espelho após acordar durante as noites em que não tomava sua poção do sono.
Seu pensamento foi quebrado pela voz de Draco, que agora olhava para ela. Qualquer vestigio de medo não se encontrava mais em sua face.
"Se você acha que eu vou me submeter a você, Granger – cuspiu – está na hora de fazer você acordar."
O sangue de Hermione ferveu. Quem ele pensava que era? Quem aquele maldito sonserino imaginava que era?
Andou para frente em passos largos e parou a centímetros de Draco, cravando a varinha em seu pescoço e observando a pele alva se avermelhar com a pressão.
"Acho que você não entendeu muito bem, Malfoy." – ela disse empurrando ainda mais a varinha contra a pele dele, os olhos brilhando de raiva – "Você não esta em posição de discutir. Se quiser ir embora, ótimo! Não me importo em te jogar em uma cela imunda em Azkaban. De preferência, levo até sua família de comensais junto."
Hermione sustentou o olhar fixo nos olhos do loiro durante todo o tempo em que falava, analisando cada mínima reação que ele pudesse demonstrar. Percebeu os olhos cinzas ficarem novamente desfocados no momento em que apontou a varinha para seu rosto, mas, dessa vez, o olhar sem vida de Malfoy rapidamente sumiu, no exato momento em que Hermione tocou no nome de seus pais. Uma pequena ruga de preocupação apareceu na pálida testa do sonserino.
Sorriu internamente. Então era isso. Era ali que ela iria entrar.
"Por falar em família, Malfoy. – ela sorriu, retirando a varinha do pescoço de Draco e a tamborilando por entre os dedos – acredito que queira saber como a sua está, não? Ou não se importa em continuar sem notícias?"
O loiro a encarou, com os cabelos caindo sobre os olhos e um brilho mortífero nestes.
"Não? Tudo bem então." – Hermione disse displicentemente enquanto caminhava em direção a porta de saída.
"Onde ela está, Granger?" — Malfoy grunhiu entre os dentes.
Hermione se virou calmamente e o olhou fixamente, demonstrando que a forma como ele falara com ela não a atingira nem um pouco.
"E por que eu deveria te falar isso, Malfoy?" — ela perguntou — "Que motivos você me dá para que eu te passe essa informação?" — ela se aproximou, parando a uma distância em que podia sentir a raiva que fluía em torno dele — "Isso aqui não é um jogo, Malfoy. Você não pode me comprar com o dinheiro de sua família, você não pode me intimidar com o seu nome." -olhou diretamente para ele — "Não estamos em Hogwarts. Isso aqui é a vida real. Isso é o pós-guerra."
Hermione se virou e começou a se afastar dele. Fez um feitiço e em segundos o prato, juntamente com o jantar de Draco, estavam intactos. O colocou na mesa e atravessou o quarto em direção a saída. O loiro, do lado oposto do quarto, deitou na cama, de costas para ela.
Segurou a porta e parou por um momento, soltando um suspiro quase inaudível e dizendo antes de fechá-la atrás de si.
"Eles estão bem."
(...)
Hermione desceu as escadas apressadamente. Sua cabeça estava fervilhando e ela não conseguia se concentrar. O que fora aquilo que acontecera no quarto de Draco? O que estava acontecendo nesse maldito pós-guerra?
Não podia negar que o olhar de medo que havia visto no rosto de Malfoy havia mexido com ela. Esperava a explosão, esperava brigas, espera até mesmo por agressão física! Mas não, não esperava por medo. Não esperava pelo olhar que vira no rosto dele.
"Droga." — murmurou baixinho ainda descendo as escadas do Largo Grimmauld. Será que ela estava certa o tempo todo sobre ele?
Antes que pudesse pensar qualquer outra coisa, sua visão escureceu e Hermione perdeu a noção de onde estava. O frio na barriga, familiar a quedas, foi sentido pela castanha, mas o provável baque contra os degraus da escada não veio. Ao invés disso, braços fortes e familiares a envolveram, a colocando novamente em pé.
"Obrigada." — ela disse, já sabendo quem era. Seus olhos foram percebendo a claridade aos poucos, até Hermione recuperar totalmente a visão.
"Foi ele, não foi?" — Rony gritou — "Ele te enfeitiçou, não enfeitiçou, Mione?" — o ruivo ficava mais nervoso a medida que falava. — ''Eu sabia! SABIA! VOU MATAR AQUELE FILHO DA PUTA!"
"CHEGA RONALD!" — Hermione gritou. Estava cansada do temperamento explosivo do namorado. E, principalmente, cansada da falta de atenção que ele lhe dava. Não que Rony não fosse cuidadoso, ao contrário disso, o ruivo era até demasiadamente. Porém, esse cuidado não envolvia atenção ao pequenos e importantes sinais de Hermione, que a cada dia ficavam mais visíveis.
"Chega, Ronald." — Ela repetiu se acalmando. — "Malfoy não tem absolutamente nada a ver com isso. Nada. Se você fosse menos insensível, teria percebido que tenho passado por isso desde antes dele chegar." — Ela terminou tristemente.
O ruivo se calou. Parecia estar fazendo um enorme esforço para se recordar de alguma vez em que houvesse visto a namorada nesse estado.
Depois de alguns longos segundos de silêncio, ele disse:
"Voc-Você não está grávida, está?" — ele perguntou, encarando Hermione, com uma imensa dificuldade em colocar aquelas palavras para fora e um brilho acusatório no olhar. — "Você não pode estar! Você não seria irresponsável a esse ponto!" — O ruivo parou de se dirigir a castanha e parecia falar consigo mesmo — "Não que eu não queira um filho, é óbvio que eu quero. Sou um Weasley, não sou? Mas um filho agora não pode acontecer!"- Ele aumentou o tom de voz — "Vai estragar o meu treinamento como auror!"
O sangue de Hermione ferveu ao ouvir aquilo, ao mesmo tempo em que sentia uma pontada familiar no coração. O ruivo sempre, sempre, conseguia a machucar de alguma forma, mesmo que não percebesse isso.
"Eu não estou grávida, Ronald." — ela disse encarando o ruivo nos olhos — "Não que se eu estivesse a culpa fosse somente minha, não é? Que eu saiba é necessário duas pessoas pra fazer um filho!" — O tom de voz de Hermione se elevou algumas casas. — "Mas não, graças a Merlim não estou grávida de um pai que não deseja ter um filho!"
"Eu não disse que não quero um filho! Eu disse que um filho agora estragaria tudo!"
"Eu entendi o que você disse, Ronald Weasley!" — E realmente Hermione havia entendido. Sabia que estava tendo uma reação mais do que exagerada, mas estava exausta da falta de sensibilidade do namorado. E se fosse verdade? E essa ela realmente estivesse grávida? Não era totalmente impossível, tendo em vista que ele mantinham relações sexuais com uma certa frequência. Se ela realmente estivesse grávida, era aquela recepção que ele a planejava dar?
O clima entre os dois pesou. Podiam sentir a tensão no ar, e esta só foi quebrada quando Hermione resolveu que já haviam passado dos limites.
"Vou pro meu quarto, Rony. Acho que você também deveria descansar."
E sem esperar a resposta do ruivo, voltou a subir as escadas.
(...)
Hermione entrou em seu quarto, se jogando na cama e abraçando um travesseiro. Se arrependia pela forma como falara com o namorado, não por achar que estava errada, mas por conhecer Ron.
Sabia que o temperamento do ruivo era exatamente dessa maneira, e se questionou se a culpa de tudo não era exatamente o fato de sempre terem brigado.
Suspirou. Era pra ser assim, não era? Era pra eles namorarem, certo? Era o que todos esperavam que ela fizesse. E ela também o amava, disso não tinha dúvidas. Mas não podia negar que as vezes se indagava qual era esse amor.
Se lembrou de um livro trouxa — um dos favoritos de sua mãe — e que ela havia quase o decorado de tanto ler.
N'O monge e o executivo, havia uma passagem que talvez resumisse exatamente o que Hermione estava passando no momento.
Lembrava que ela dizia que, quando o personagem principal havia promovido o melhor operador de retroescavadeira da fábrica em que trabalhava a supervisor, ele havia criado novos dois problemas: Passou a ter um mau supervisor e perdeu seu melhor operador.
Os olhos de Hermione se encheram de poucas lágrimas com a constatação. Era aquilo que ela estava passando. Fizeram, ela e Ron, o que achavam que todos esperavam e acabaram por quase destruir todo o carinho que sentiam um pelo outro, com um relacionamento repleto de brigas. Não era falta de amor, era a diferença entre o amor.
Sentia falta do melhor amigo, que agora estava camuflado pela namorado incompreensível.
Sabia o que tinha que fazer, sempre soubera e desconfiava de que Rony, por incrível que pareça, também sabia.
Deixou-se por cair na cama com as lágrimas rolando por seu rosto. Não seria fácil, mas era preciso.
(...)
Alguns minutos depois, Hermione voltou para o quarto de Malfoy. O ambiente estava escuro, a forçando murmurar Lumus. A fraca luz vindo da varinha de Hermione a permitiu enxergar o quarto; Estranhamente tudo estava exatamente no mesmo local que havia deixado.
O prato em cima da mesa estava intocado e Malfoy aparentemente não havia se mexido um centímetro sequer da posição em que estava há uma hora atrás, quando ele e Hermione discutiram.
A castanha imaginou que ele estivesse dormindo e foi em direção ao prato deixado por ela; esquentou e renovou a comida — novamente no mesmo dia — e se assustou ao ouvir a voz de Draco.
"Então quer dizer que você é meu elfo doméstico particular, Granger?"
Hermione apenas deu de ombros.
"Não precisa se preocupar, não comerei sua comida imunda. Provavelmente está envenenada por sua mão de sang-"
"Você deveria ficar agradecido, Malfoy!" — Hermione retrucou sem poder se conter e evitando pensar que era a primeira vez que ele a chamava de sangue-ruim desde que chegara na casa. O gesto assustou Draco, que sentou rapidamente na cama. — "Devia ficar muito agradecido! Você não vê?" — ela continuou sem poder se conter; os acontecimentos do dia a haviam tornado extremamente emotiva. — "Você está tendo uma segunda chance, droga! Dumbledore não teve uma! Snape, que por sinal arriscou sua vida para te proteger, não está mais aqui! Isso é tão injusto. É tão injusto o fato de que eles, que sempre fizeram o bem e tentara nos proteger não estão aqui! E você, — ela se aproximou da cama com lágrimas de raiva nos olhos — você, sua barata asquerosa, que sempre fez tanto mal ao Harry, aos Weasleys...a mim, está aqui! Tendo a maldita de uma segunda chance! Enquanto metade dos meus amigos morreram tentando concertar a bagunça que vocês — apontou para o braço esquerdo de Draco — fizeram. Então não me venha reclamar de qualquer coisa, Malfoy, porque você não pode. Você não tem o direito."
O rosto de Hermione estava vermelho de raiva, seus olhos brilhavam de lágrimas contidas e sua respiração estava descompassada. Não esperava que tivesse essa reação, mas percebeu que precisava daquilo.
"Porque essa marca — ela esticou o braço, mostrando a grotesca cicatriz que Belatriz a havia dado: mudblood – não define quem eu sou. Já você — ela novamente apontou para o braço esquerdo de Draco — me parece que faz questão de deixar a sua te definir."
"Quem você está sonhando que é, Granger? Pra falar assim comigo! Você não sabe nada sobre mim!" — Draco conseguiu dizer, com a voz que lhe restava, se levantando da cama — "E afinal de contas, por favor, eu te imploro, Granger — ele continuou — me explique o porquê de você ser minha guardiã."
"Eu não sei, Malfoy." — Ela suspirou cansada — "E tem razão — ela continuou — eu só sei sobre você o que você mostra para o mundo, e não pense que é uma coisa boa."
Virou de costas, cansada, pronta para sair.
"E quer saber? Essa comida é a mesma que sua mãe irá comer." — completou se lembrando que fora a Sra. Weasley que cozinhara aquele dia — "Você deveria se alimentar."
E, mais uma vez, deixou o quarto.
(...)
Dracou bufou.
Passou a mão pelos cabelos e novamente bufou.
Sentou-se na cama e jogou um travesseiro no lado oposto do quarto.
Suspirou.
Levantou e se dirigiu a mesa.
(...)
Já era mais tarde do que o recomendado para uma pessoa saudável dormir, quando Hermione foi para a cozinha do Largo Grimmauld. Bebeu um copo d'água, fechou os olhos e passou a mão pela têmpora dolorida.
Ouviu a porta da cozinha se abrir e encontrou o Sr. Weasley com um olhar preocupado.
"Está tudo bem, Hermione?" — ele indagou, a vendo assentir brevemente com a cabeça.
"O que o Sr. faz aqui a essa hora, Sr. Weasley?" — Hermione perguntou sem poder se conter.
"Molly está preparando as coisas para a chegada da Sra. Malfoy. A ida será depois do outros." — Ele sorriu brevemente, abaixando a cabeça e a balançando em sinal de negação, como se não acreditasse que aquilo realmente estava acontecendo. — "Pediu para eu ver se encontro algo aqui que possa ser útil." — suspirou — "Ela realmente está animada."
"Acha que vai dar certo?" — Hermione perguntou e Arthur percebeu o duplo sentido da frase. A chamou e sentaram lado a lado no banco da cozinha do Largo.
"Qual o problema, Hermione?" — ele perguntou paternalmente.
"É que o Malfoy me perguntou uma coisa hoje. — ela começou encarando as mãos juntas sobre seu colo — E eu não soube a resposta."
"E essa coisa seria?"- Sr. Weasley continuou.
"O porquê dele estar comigo." — terminou olhando para os olhos bondosos do homem.
Arthur sorriu.
"Olha, Hermione. — ele começou — eu sei que você deve estar se sentindo insegura. Mas quero que você saiba, que todos, todos, os aurores, juntamente com os membros da Ordem, prontamente aceitaram quando seu nome foi sugerido."
Ela o olhou com um olhar de indagação e ele prosseguiu.
"Isso, minha filha — passou o braço em torno dos ombros de Hermione, lhe dando um meio abraço — só mostra como todos percebem a bruxa excepcional que sabemos que você é. — e continuou, vendo que Hermione não estava satisfeita com a resposta.- E eu sei, que se alguém tem um coração bom a ponto de ver bondade nas piores pessoas e conseguir fazê-las perceberem isso, esse alguém é você. Sei que você vê um coração em Draco."
Hermione assentiu, não podendo discordar das palavras do sogro.
"Mas não deixe que isso ocupe tudo de você, Hermione. Qual foi a última vez que você se divertiu?"
Hermione contraiu os lábios em um meio sorriso sarcástico.
"Acho que os músculos do meu rosto não sabem mais o que é isso, Sr. Weasley."
O homem se levantou e beijou o topo da cabeça de Hermione.
"Sabe que te consideramos uma filha, não é? Molly e eu." — e completou significativamente. — "E não digo isso por você ser namorado do Ronald."
Hermione assentiu e sentiu seu peito se encher de carinho pelo sogro.
"Boa noite, Hermione."
"Boa noite, Sr. Weasley."
(...)
Já era quase outro dia quando Hermione abriu cuidadosamente a porta de Malfoy. Fazendo o mínimo barulho possível, se dirigiu a mesa e pegou o prato causador da discussão. Caminhou para fora do quarto, tentando não acordar o sonserino, e, quando estava no corredor iluminado pela fraca luz das velas, olhou para baixo; encontrou o prato surpreendentemente vazio.
Sorriu.
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