Estes Laços Que Unem

11 Não Quer Compartilhar a Culpa?


Notas iniciais
Agora posso respirar aliviada porque consegui terminar mais um capítulo, espero que gostem. :D PS: não deixem de ler as notas finais.

Ainda na madrugada, depois que Samara e eu caímos no sono, acordei e tomei consciência do que se passava ao meu redor. Meu corpo desnudo estava sendo coberto por alguns lençóis, protegendo-me do vento gélido que se esgueirava entre as frestas da janela entreaberta.

Virei para o lado à procura de Samara e notei que ela não estava mais ao meu lado. Percebi, então, que sua voz rouca e sonolenta soava baixa e um pouco irritada do lado de fora do quarto. Ergui a cabeça do travesseiro, agora deitada de bruços, e virei meu pescoço em direção à porta brevemente, segurando o lençol contra o peito com firmeza e logo voltando a minha posição anterior.

Não demorou muito e ela voltou para a cama, suspirando cansadamente antes de arquear os lençóis e se aconchegar em mim. Virei meu corpo por inteiro para ela e abri os olhos como se estivesse acordando só agora, percebendo seus olhos escuros e brilhantes.

— Onde você estava? — Perguntei baixinho, apontando com os olhos para suas roupas de ontem. Ela estava vestida e isso não parecia justo.

— No corredor. — Ela sorriu amorosamente. — Eu tive que atender a uma ligação e não quis acordá-la. — Desculpou-se.

— Alguém importante?

— Não. — Respondeu simplesmente, aproximando-se para me beijar nos lábios. — Apenas meu pai. — Prosseguiu com a boca perto da minha, puxando meu lábio inferior entre os dentes e me fazendo murmurar algumas palavras em apreciação.

Ela não perdeu a oportunidade que se formou e lançou-se para cima de mim, acariciando meu quadril suavemente com a ponta dos seus dedos. Seus toques se intensificaram quando percebeu o efeito que suas carícias estavam surtindo em mim.

— Espere. — Tentei me concentrar no que eu estava prestes a dizer. — O que ele queria? Você parecia um pouco chateada e eu nunca a vi desse jeito. — Samara parou instantaneamente, fitando-me nos olhos com certo interesse.

— Perdoe-me por isso. — Começou meio sem jeito. — Mas podemos deixar esse tópico para depois? Agora eu só consigo pensar em nós duas... — Sua voz falhou quando ela ergueu seu corpo levemente sobre o meu só para vê-lo nu.

Abafei um riso e deslizei minhas mãos pelos seus braços, sentindo os relevos que algumas linhas avermelhadas faziam por quase toda a extensão deles. Procurei por outras marcas ao longo de seu pescoço, virando-o devagar para checá-los com mais atenção.

— Você está procurando no lugar errado. — Ela disse, sorrindo para o pensamento que provavelmente surgiu em sua mente.

Samara ergueu seu tronco um pouco mais, apoiando-se em seus joelhos — um de cada lado do meu corpo — e tirou sua camiseta devagar. Um frio gostoso e excitante correu em torno do meu ventre, provocando certa pulsação na região mais sensível de todo o meu corpo, quando seus seios foram expostos aos meus olhos famintos.

Não era nada que eu já não houvesse visto há apenas algumas horas, mas agora parecia diferente. A sensação de vê-la com pequenas manchas arroxeadas espalhadas por sua pele na altura dos seios e saber que era eu a responsável por tudo aquilo tornava o momento mais real e fazia-me sentir mais dominadora; Samara estava mais tentadora e genuína do que nunca, e isso certamente me levava a lugares inimagináveis.

— Eu fiz isso? — Voltei a minha realidade, apreciando por mais alguns segundos a vista que Samara estava me proporcionando antes de voltar com meu olhar para o seu.

— Quem mais poderia ser? — Samara riu docemente, brincando com algumas mechas do meu cabelo enquanto seus olhos não deixavam meu rosto.

— Desculpe. — Murmurei pensativa, lembrando-me de toda a noite de ontem como um filme que eu nunca me cansaria de ver; nem em cem anos.

— Você é tão gulosa. — Ela sorriu maliciosamente, inclinando-se em minha direção outra vez. — Mas eu certamente não fico muito atrás... — Apontou para o meu pescoço, tocando com a ponta dos dedos as marcas que ela também havia deixado em alguns lugares específicos de toda a minha pele.

— Eu gosto de você assim. — Confessei baixinho, trazendo seu rosto para bem perto do meu; seus olhos agora se encontravam num tom apaziguador de azul gelo.

Samara não disse mais nada; ajeitou seu corpo sobre o meu e deslizou uma de suas mãos até o meu seio. Ela o massageou devagar, vez ou outra apertando com força delicada. Sua boca logo veio de encontro a minha, roçando sua língua em meu lábio inferior provocativamente enquanto alguns gemidos baixos escapuliam dentre meus lábios quase colados aos seus.

Deixei com que minhas unhas escorregassem pelas suas laterais com certa força, procurando a base de seu short curtíssimo apenas para poder removê-lo. Ela ergueu seu quadril o suficiente para eu conseguir deslizá-lo pelas suas pernas, chutando-o de lado quando finalmente tive êxito. Inverti nossas posições e passei meus olhos por todo seu corpo desnudo, mordendo o lábio diante de tal visão.

— Agora é a minha vez de fazê-la minha. — Ela sorriu para a minha atitude, puxando-me pela nuca e me beijando cheia de afoito.

Agarrei sua cintura com uma das mãos e a apertei com força conforme acariciava seu abdômen lascivamente com a outra, descendo até o interior de sua coxa, perto demais de sua virilha, onde a provoquei descaradamente com alguns toques ousados antes de senti-la suspirar contra meus lábios.

Puxei seu lábio inferior entre meus dentes, gemendo baixo ao afastar um pouco meu rosto só para encarar seus olhos cobertos por uma necessidade física quase sufocante. Eu pressionava nossos corpos juntos de maneira firme, sentindo sua pele incendiar a minha por conta do atrito desejado.

Deslizei meus dedos pela sua intimidade, ao tempo em que também passava a sugar seu queixo fortemente, descendo até o seu pescoço. Samara logo deixou um gemido de pura ansiedade escapar de sua garganta, apertando suas unhas na parte de trás das minhas coxas com veemência, fazendo-me gemer também.

— Você... — Apontei para ela assim que a olhei rapidamente, devorando seu corpo nu com os olhos. E com a mente. — Tão gostosa! — Soltei devagar, escorregando meus dedos pela sua intimidade com facilidade até chegar a sua entrada.

Meus olhos dilataram ainda mais quando baixei os olhos para poder observá-la toda entregue, sentindo meu centro latejar violentamente com a sensação de sua umidade entre meus dedos. Arrastei minha mão livre até a altura do seu seio esquerdo, tomando-o com propriedade enquanto meus lábios se encarregavam do outro.

Passei minha língua devagar pelo mamilo, sentindo-o enrijecer em minha boca e sorrindo de leve por isso. Ameacei penetrá-la com dois dos meus dedos, mas retive o movimento propositalmente no instante seguinte.

— Emily! — Samara protestou; sua voz rouca e urgente causando arrepios por todo o meu corpo.

— O quê? — Deixei um sorriso involuntário escapar, erguendo a cabeça brevemente para poder fitá-la. Ela entendeu o que eu queria e sorriu fracamente, deixando sua cabeça cair para trás, no travesseiro.

— Por favor, apenas... Faça. — Suspirou com dificuldade. — Eu quero senti-la em mim.

Com isso, suguei a pele de seu seio com intensidade, subindo minha boca até a sua logo em seguida e a tomando com força e determinação. Sua língua logo se enroscava na minha, tornando o contato íntimo ainda mais necessário e ansiado por nós duas. Estimulei seu sexo lentamente antes de ceder aos seus gemidos roucos e suplicantes, que já estavam me levando à loucura, finalmente deslizando dois dedos em sua entrada quente e encharcada.

— Deus, você está tão molhada, Sam! — Sussurrei contra sua boca, pressionando nossos corpos ainda mais conforme meus dedos entravam e saíam de dentro dela num ritmo intenso.

— Continue assim... Por favor. — Ela gemeu, arrastando suas unhas pelas minhas costas sem dó.

Apertei minha mão em sua cintura, trazendo-a ainda mais contra os meus dedos ágeis e precisos, enquanto eu tentava inutilmente manter nossos lábios colados e em movimento. Era difícil nos concentrarmos e, a cada investida firme e veloz, sua respiração ficava ainda mais problemática.

Assim que percebi que Samara estava próxima de chegar ao ápice, desisti de levar nossas inúmeras tentativas falhas de manter um beijo adiante e desci minha boca pelo seu pescoço, parando alguns instantes para morder seu mamilo de leve, e tratei de continuar meu caminho até o meio de suas coxas.

Encostei a ponta da minha língua no seu sexo rígido, fazendo-a contrair os músculos e gemer meu nome alto. Era extremamente deliciosa a sensação de poder retribuir todo o prazer que ela havia me proporcionado ontem — e por mais de uma vez.

— Isso... Assim, Em. — Ela se apoiou sobre os cotovelos, afastando algumas mechas de cabelo do meu rosto enquanto eu mantinha um vai e vem fora de ritmo em sua intimidade.

Continuei a deslizar minha língua por toda sua extensão, sugando o excesso de sua umidade de bom grado. Ela gemia e murmurava palavras desconexas, o que me estimulava ainda mais a prosseguir. Samara segurou meu cabelo entre os dedos, vez ou outra puxando-o com firme delicadeza e aumentando o meu nível de excitação.

Não demorou muito e seu corpo tencionou furiosamente, causando a explosão de sensações que nós duas tanto ansiávamos. Rapidamente, um gemido alto e longo ecoou por todo o quarto. Em seguida, ela deixou suas costas caírem livremente contra a cama, arfando fortemente entre os espasmos de seu corpo.

Escorreguei minha língua lentamente pela sua virilha, sentindo o gosto de seu prazer se expandir por cada canto da minha boca, ainda mais intenso. Entre suspiros roucos e profundos, depositei um beijo casto e afetuoso no interior de sua coxa, escutando seu gemido fraco de contentamento.

Tracei um caminho de mordidas suaves por toda sua pele, até chegar aos seus lábios e tomá-los nos meus de modo firme e delicado. Agora, ela tinha o seu próprio gosto em sua boca e pensar nisso me fez sorrir entre nossos rostos colados.

— Minha menina aprendeu tão rápido... — Samara sussurrou contra os meus lábios, enquanto apertava minha cintura com as mãos levemente trêmulas.

— Isso é porque estou aprendendo com a melhor. — Retruquei entre risos confortáveis, tentando beijá-la devagar. Ela riu fracamente antes de se deixar levar pelo beijo, correspondendo-me de forma doce e delicada.

De repente, o toque agudo e barulhento de seu celular chamou a nossa atenção quase de imediato. Ela olhou para mim, como se pedisse permissão para atendê-lo, enquanto eu ainda estava em cima dela — o que eu achei muito adorável, diga-se de passagem.

Resmunguei alguma coisa sobre a falta de bom senso de quem quer que estivesse ligando para ela, dando grande ênfase ao fato de já se passar das três da manhã, e estendi meu braço direito em direção ao criado mudo ao lado da cama. Pude notar, assim que o peguei em minha mão, que o número que a ligava era desconhecido, e Samara não pareceu se importar com isso quando eu entreguei a ela o aparelho.

— Sim? — Atendeu com um tom extremamente cordial, tentando conter sua respiração conforme traçava linhas invisíveis por todo o meu rosto. — Eles estão comigo... Segunda pela manhã... Não, está tudo bem... Sim, eu posso... Obrigada... — Samara prosseguiu e, de repente, eu não estava mais interessada em escutar o que ela conversava.

Encostei minha cabeça em seu peito, escutando as batidas eufóricas de seu coração e, então, concentrando-me apenas nelas. O cheiro natural de sua pele macia e convidativa preenchia meus pulmões, fazendo-me querer ficar naquela posição por mais uma noite inteira. E, pela primeira vez, eu soube que eu realmente ficaria.

Minhas pálpebras agora estavam mais pesadas, fechando-se aos poucos enquanto a voz baixa e tranquila de Samara desaparecia junto da intensidade de seus batimentos cardíacos, que tão sonoramente ecoavam em meus tímpanos instantes atrás. Não resisti ao estímulo de suas suaves carícias em meus cabelos úmidos e apaguei.

Na manhã seguinte, no entanto, despertei suavemente do que pareceu ser um profundo e quase imperturbável sono, sentindo os lábios de Samara percorrendo as minhas costas nuas. Deixei alguns pesarosos murmúrios de satisfação escapar ao senti-la repousar seu corpo despido sobre o meu, afastando alguns fios de cabelo do meu rosto com cuidado.

— O que está fazendo? — Escutei o som da minha própria voz; rouca e sonolenta.

— Acordando você. — Ela sussurrou contra o meu ouvido, mordendo o lóbulo de maneira delicada, mas, ao mesmo tempo, provocativa.

Senti o cheiro de sabonete de frutas vermelhas, misturado ao aroma de seu shampoo, inundar todos os meus sentidos assim que me permiti elevar o meu rosto por um instante, na tentativa frustrada de olhá-la sobre os ombros.

— Eu não quero acordar. — Resmunguei baixinho. — E você não deveria querer também. — Enfiei a cabeça sob os travesseiros, escutando seu riso nasal ecoar brevemente pelo quarto.

— Vamos lá, Em, você precisa tomar banho. — Ela depositou um beijo tranquilo no meu ombro, levantando-se logo em seguida. — Eu tenho que ir a um brunch, e quero que vá comigo. — Levantei meu rosto rapidamente, encarando-a com o cenho franzido.

— O quê?

Samara agora estava apenas de calcinha e sutiã e, por conta disso, era perfeitamente possível enxergar as linhas avermelhadas que serpenteavam seus braços, ombros e coxas. O pensamento de que eu havia feito aquilo tudo na nossa primeira noite de amor me fez sorrir.

— Nós vamos a um brunch. — Sorriu animadamente, passando a colocar suas roupas. — Algumas pessoas importantes da Visionaire estarão lá. Será legal.

Olhei para a tela do seu celular ao meu lado na cama e chequei as horas, constatando que já se passavam das nove da manhã. De um domingo. Aquilo parecia ser tão injusto, certamente um grande desperdício; poderíamos passar o dia todo na cama vendo filmes enquanto comíamos bobagens e nos beijávamos de cinco em cinco minutos.

— Tudo bem. — Bufei após alguns minutos em silêncio. — Eu estou morrendo de fome mesmo. Depois de ontem, será muito bom tomar café e almoçar ao mesmo tempo.

Sentei-me na cama e observei enquanto Samara terminava de colocar seus sapatos de salto alto Louboutin. Ela parecia alheia a minha atenção sobre si, entredita com seus próprios pensamentos. Empurrei os lençóis para o lado e me aproximei dela, de joelhos, afastando seus cabelos loiros e úmidos para poder beijar seu pescoço castamente antes de partir em direção ao banheiro.

Depois de ter tomado um banho quente e retirado o vestígio de cansaço que se alojara com tanto afinco em mim, tratei de colocar roupas confortáveis e que fossem de acordo com o tempo glacial de Nova Iorque — calça skinny escura, camiseta branca e sobretudo de cor cinza por cima. Envolvi um cachecol grosso, com estampa de leopardo em meu pescoço e coloquei botas pretas de cano longo.

— Está pronta? — Samara apareceu na porta do quarto, carregando uma xícara de café em sua mão. — Trouxe para você. — Entregou-me ao se aproximar.

— Obrigada. — Lancei um sorriso preguiçoso em sua direção, puxando-a pela gola de seu casaco de lã escocês e roubando-lhe um beijo rápido logo em seguida.

— Você está maravilhosa, a propósito. — Sussurrou contra os meus lábios, abraçando minha cintura com firmeza.

— Você também não está nada mal. — Brinquei, analisando suas vestimentas com ar sério e, então, malicioso, o que a fez soltar uma risada gostosa.

Estávamos vestindo basicamente a mesma coisa, exceto por alguns detalhes importantes; seu pescoço estava envolto por um bonito lenço xadrez e a cor do seu casaco era azul marinho, realçando seus olhos extremamente escuros e hipnotizantes, e seus saltos de treze centímetros a deixavam mais alta que eu.

— Minha menina... — Suspirou de repente, escorregando suas mãos dos meus quadris aos meus glúteos com habilidade. — Mulher. — Completou lentamente, deslizando seus lábios até o meu pescoço.

— Sam, assim fica difícil. — Enrolei seus cabelos entre meus dedos, apertando-os ternamente.

— Tudo bem. — Afastou-se depois do que foram alguns segundos de uma leve tortura, sentindo seus lábios abandonarem minha pele rapidamente. — Vamos, antes que eu faça uma loucura.

***

Tão logo saímos e já nos encontrávamos na região financeira de Manhattan — uma luxuosa cobertura de um amigo próximo de Samara, em Midtown —, onde, assim que chegamos, fomos apresentadas a um farto e generoso banquete de café da manhã e almoço na sala principal que ocorria parte do brunch.

Conforme nos embrenhávamos num ambiente de extrema elegância, regado a pessoas com suave compostura, músicas de boa qualidade e obras de artes de todos os gostos, fui incorporando aos poucos tudo o que eu já havia retirado de cada festa pomposa de Rosewood em que marquei presença: sorriso forçado e refinada delicadeza a cada apresentação.

— Quer beber alguma coisa? — Pude ouvir Samara sussurrar ao pé do meu ouvido, apertando minha cintura levemente para chamar minha atenção.

— Ainda não. — Suspirei fracamente, olhando para os seus lábios rosados e tentadores.

Ela rapidamente desviou sua atenção quando uma senhora muito simpática e coberta por uma nuvem de Chanel Nº5 passou por nós e a cumprimentou, como se a conhecesse há muito tempo. Senti uma vontade quase devastadora de agarrá-la naquele momento. Eu queria repetir tudo o que fizemos ontem, mas com o dobro da intensidade.

— Você está maravilhosa. — Sussurrei no ouvido dela, devolvendo o elogio de mais cedo e colando nossos corpos brevemente. Aquele simples contato causava arrepios por cada centímetro da minha pele.

Ela sorriu, parecendo ter sido pega de surpresa, baixou os olhos e tocou meu braço suavemente, abrindo a boca para tentar dizer alguma coisa antes de sermos interrompidas por uma voz fraca e cordial.

— Srta. Cook, por gentileza. — Um rapaz alto, de pele escura e rosto anguloso tocou o ombro de Samara para ter sua atenção. Ele apontou para o outro cômodo, como se pedisse para que ela o seguisse até lá.

— Só um minuto, Vlad. — Ela voltou a me fitar assim que o rapaz se afastou um pouco de nós. — Eu volto num instante. — Garantiu, inclinando-se em minha direção para depositar um beijo casto em meu rosto e, então, distanciar-se.

Assim que ela se afastou, resolvi vagar por alguns pontos aleatórios do apartamento, sendo cumprimentada com acenos sutis por quem passava por mim. Observei a arquitetura moderna e ao mesmo tempo tradicional do lugar pela primeira vez, suspirando diante de uma das pilastras do espaçoso corredor da sala de visitas. Encaminhei-me diretamente até o salão principal, sentindo o cheiro de comida embalar meus sentidos depois de alguns instantes.

Arrisquei experimentar alguns petiscos de sabor agradável, percebendo que eu não estava com fome, o que era no mínimo interessante. Ontem à noite, Samara e eu havíamos feito loucuras na cama e, ao invés de eu estar com fome, estava enjoada. Olhei ao redor e me senti estranhamente sufocada; Samara me deixou sozinha e eu não conhecia absolutamente ninguém aqui.

— Aí está você! — Samara sorriu ao me encontrar saboreando alguns sanduíches naturais. — Está gostoso? — Ela direcionou seu olhar à mesa, puxando um guardanapo junto de impecáveis pratos de porcelana; uma para sua xícara e outro para seus aperitivos.

— Creio que sim. — Consegui dizer, depois de mastigar. — Eu só estou comendo porque não tenho nada para fazer. — Dei de ombros, reparando pela primeira vez que ela carregava algumas pastas em seu braço esquerdo.

— Melhor distração. — Samara riu, servindo-se de chá e biscoitos com maneiras diferentes das quais eu estava habituada. Aquilo a fez parecer tão... Inglesa.

— O que foi? — Encarou-me com curiosidade após bebericar seu chá brevemente.

— Estamos em território inglês, não é? — Passei os olhos ao redor, analisando cada detalhe com atenção; as músicas, as obras de artes penduradas na parede, a decoração que a sofisticada cobertura em estilo vitoriano tão orgulhosamente ostentava...

— E irlandês. — Piscou sedutoramente para mim, fazendo minhas pernas bambearem e meu coração acelerar no mesmo instante. — Está surpresa? — Ela franziu o cenho, provavelmente interpretando minha reação de modo totalmente errôneo.

— Não, claro que não. — Neguei rapidamente. — Eu já estou aprendendo a me habituar. — Dei de ombros, tentando manter as incontáveis sensações de cada toque de Samara, ainda bem frescas em minha memória, longe de todo o foco de hoje.

— Veja só quem resolveu aparecer! — Alguém surgiu ao meu lado de repente, aproximando-se de Samara e a cumprimentando com um abraço amistoso. — Coisa do meu coração, eu pensei que teria que mandar aqueles malditos relatórios através de Jane. — Continuou com o tom leve e espirituoso ao se afastar rapidamente.

— Não aja como se não tivesse me intimado a vir. — Ela riu confortavelmente, puxando-me pela cintura para junto dela logo em seguida. — Ei, deixe-me apresentá-lo... Esta aqui é Emily Fields. — Apresentou-me com um sorriso terno moldando seus lábios rosados enquanto me fitava.

— Como vai? — Ele estendeu a mão em minha direção e eu a aceitei mais que depressa, balançando-a fracamente. — Eu sou Pierre Ferrer, é um prazer conhecê-la, coisa adorável.

— Ele é o nosso anfitrião. — Sussurrou ao pé do meu ouvido, arrepiando-me instantaneamente com seu hálito quente batendo contra o meu pescoço.

— Muito prazer, Pierre. — Devolvi seu sorriso simpático à altura.

— Samara me falou bastante sobre você. — Contou enquanto me analisava com cuidado. — E, sinceramente, estou impressionado com tanta beleza. Parabéns, Sam, desta vez você soube escolher com maestria. — Ele fez um sinal de positivo, cruzando os braços delicadamente logo em seguida.

— Sim, ela é incrível. — Samara concordou, olhando para mim com um sorriso amável brincando em seus lábios.

— Obrigada. — Foi tudo o que saiu dentre milhões de pensamentos sobre como proceder num momento como este.

Não sabia mais o que dizer, eu me sentia extremamente envergonhada e o olhar fixo de ambos apenas aumentava ainda mais o meu desconforto. Resolvi, portanto, tomar a liberdade de observá-lo com mais atenção, reparando em seus cílios longos, em sua pele desprovida de pelos ou imperfeições, em seu cabelo pomposamente bem arrumado e nos olhos negros e profundos. Pierre vestia calça jeans escura e camisa social azul marinho, combinando perfeitamente com seus sapatos Tod’s na cor marrom. Sua postura era delicada e confiante, contrastando com seu rosto imperturbável.

Pierre acenou com a mão para um garçom, pedindo por alguma bebida. E quando um rapaz de uniforme vermelho e preto se aproximou com uma bandeja em sua mão, Samara pegou a minha taça vazia e me ofereceu outra cheia, que havia acabado de retirar da bandeja prateada.

— Então, coisa adorável, já pensou em ser modelo? — Ele sorriu de forma sugestiva, tocando meu braço suavemente, o que me fez corar ainda mais.

— Não, nunca. — Balancei a cabeça ligeiramente envergonhada, notando o sorriso de súbito interesse de Samara se ampliar.

— É uma pena. — Ele torceu os lábios, dando um breve gole em seu champanhe. — Você se daria muito bem como modelo fotográfica, não é, Sam?

— Eu creio que sim. — Respondeu depois de um riso fraco lhe escapar. — Na verdade, eu tenho certeza. Eu já vi Emily desfilar, e confesso que me apaixonei. — Ela praticamente sussurrou as últimas palavras, como se não quisesse ser ouvida.

Meu coração pulou uma batida e, após um momento de tanto ponderar suas palavras doces e quase surpreendentes, virei meu rosto para poder encará-la e, assim que ela retribuiu meu olhar, beijei seus lábios afavelmente, afastando-me logo em seguida com um meio sorriso.

— Não sabia que tinha sido assim. — Tentei me lembrar do dia do desfile em Rosewood, mas as memórias eram muito vagas. Eu havia bebido muito naquele dia...

Ela sacudiu a cabeça numa resposta muda de que também não sabia, selando nossos lábios outra vez. Em seguida, trocou algumas informações básicas com Pierre, que tentou me convencer a seguir carreira de modelo fotográfica quando eu me mudasse para Nova Iorque, alegando que eu possuía o corpo ideal para isso. Não podia negar que ele era muito galanteador e divertido, o que teria me incomodado se eu houvesse enxergado alguma malícia sequer nas entrelinhas de suas palavras — ou gestos.

Não demorou muito e Pierre se afastou de nós, indo cumprimentar os outros convidados que acabavam de adentrar a enorme e receptiva sala de visitas. Sempre com uma taça na mão, acompanhei Samara por todos os lugares do primeiro andar da cobertura, onde ela sempre encontrava alguém para me apresentar. Era inevitável formar uma opinião concreta sobre todo esse ambiente, mas, se eu pudesse escolher apenas uma palavra para tal feito, decerto seria superficial.

— Como estamos? — Samara sussurrou perto do meu ouvido quando percebeu que eu estava distraída. Aquele ato me desconcertou por um instante, mas logo me recuperei.

— Eu estou ótima. — Sorri com sinceridade. — E quanto a você? — Passei os dedos devagar pelo seu ombro, mordendo o lábio inferior apenas para provocá-la.

— Eu também, mas estou com muita saudade. — Ela serpenteou minha cintura com os braços, trazendo-me para mais perto dela. — Eu só preciso pegar alguns relatórios e assinar alguns papéis e, então, nós iremos para casa. Pode ser? — Assenti lentamente com a cabeça, sendo incapaz de evitar um sorriso lascivo e ansioso.

Samara pegou minha mão e me levou até uma sala extensa e pouco movimentada, aparentando ser uma espécie de exposição, onde as paredes eram repletas de desenhos e artes abstratas, assim como pinturas góticas e esculturas de todos os tipos, especialmente as gregas e romanas. A primeira imagem que consegui visualizar quando me recuperei de tamanha graciosidade cultural foi o provável brilho que irradiaria dos olhos de Aria ao ver tudo isso. Ela certamente choraria de emoção.

— Incrível! — Suspirei entredentes, enquanto Samara se concentrava em algumas escrituras e esperava por Pierre.

Aproveitei que um garçom passeava com uma bandeja de espumantes para lá e para cá e agarrei outra taça cheia no mesmo instante que ele se aproximou, colocando no lugar a vazia e bebericando o líquido com um leve ardor. Era impressionante como eu havia adquirido certa familiaridade com qualquer tipo de bebida alcoólica ao longo dos anos.

— Um tanto melancólico, não acha? — Soou uma voz grave, mas também suave e espirituosa, bem ao meu lado, enquanto eu analisava um dos inúmeros desenhos que pendiam graciosamente na parede de cor branca.

— Desculpe? — Virei o rosto para encarar a pessoa que se dirigia a mim, percebendo se tratar de um homem alto, cabelos loiros e pele extremamente pálida.

Apesar de ter uma aparência jovial e simpática, julguei que ele estivesse no auge de seus quarenta e sete anos. Os olhos encantadoramente acinzentados demonstravam bondade e delicadeza, como se fossem uma porta de fácil acesso a sua verdadeira natureza inofensiva. Olhei para trás e percebi que eu havia me distanciado de Samara a ponto de não poder mais vê-la por conta das inúmeras pilastras espalhadas pelo cômodo de aspecto moderno.

— As árvores. — Ele apontou para o desenho que eu observava antes de ser interrompida. — É como se implorassem por um sopro de vida; algum pingo de luz no meio de tanta escuridão. As flores parecem murchas e não possuem cor e as folhas estão secas. — Divagou lentamente, parecendo ligeiramente intrigado com as múltiplas formas do desenho em questão.

Olhei para o homem uma segunda vez, notando que ele vestia roupas sociais escuras e segurava uma taça de vinho tinto em sua mão direita, enquanto a esquerda estava enfiada no bolso de sua calça. Ele tinha um forte, porém agradável e intenso cheiro amadeirado, que me remetia imediatamente a Lorenzo e aos garotos que jogavam lacrosse em Rosewood Day.

— Acredito que as árvores são mais interessantes quando estão se desmantelando; elas são percebidas com muito mais emoção... É a natureza gritando por socorro. — Comentei espontaneamente, recebendo um olhar surpreso e interessado de sua parte no mesmo instante.

Engoli em seco e tomei um longo gole do meu espumante, sentindo uma quase imperceptível queimação prazerosa descer pela minha garganta e correr pelas minhas correntes sanguíneas quando voltei minha atenção ao desenho. O efeito da bebida estava começando a se destacar e eu só queria ir embora com Samara. Agora que já tínhamos tido a nossa primeira vez, seria difícil ficar muito tempo sem sentir a necessidade de tê-la em cima de mim.

— Aprecio o seu ponto de vista, Srta... — Ele pausou por um instante, despertando-me outra vez, enquanto me fitava com a testa franzida.

— Fields. — Sorri contidamente, estendendo a minha mão em sua direção. — Emily Fields.

— Tem um nome adorável, Srta. Fields. — Aceitou minha mão e a levou aos seus lábios, beijando-a suavemente e fazendo uma leve e respeitosa reverência a mim.

Diante disso, não pude deixar de reparar no seu carregado sotaque londrino, ou em suas maneiras extremamente agradáveis. Sua formalidade e delicadeza me fizeram lembrar um pouco de Samara, que, no mesmo instante, como que por pura telepatia, aproximou-se lentamente de onde nós estávamos.

— Pensei tê-la perdido de vista. — Ela disse nervosamente, fitando-me de maneira indizível e, então, colocando-se ao meu lado protetoramente.

— Desculpe, acho que acabei me distanciando um pouco de você. — Admiti com um sorriso alegre por vê-la, sentindo seus braços entornarem minha cintura inesperadamente.

— Sim, estou vendo. — Assentiu sem emoção em seu tom de voz ao alternar seu olhar entre a figura cordial a sua frente e a mim, ao seu lado.

— Não seja possessiva, estávamos apenas conversando. — O homem a nossa frente destacou assim que a inspecionou por breves segundos.

Não evitei a expressão de surpresa em meu rosto ao perceber que o seu tom de voz era repreensivo e, ao mesmo tempo, ofendido — quase magoado. Samara deixou uma risadinha fraca e irônica escapar dentre seus lábios, causando o meu desconforto. O que ela estava fazendo, afinal?

— Ora, por favor, não vamos dizer o que não sabemos. — Retrucou no mesmo tom, olhando ao redor discretamente. — Mas, falando em possessão, onde está a sua esposa? Odiaria ter de encontrá-la em algum momento.

— Samara, o que está acontecendo? — Encarei-a incrédula diante de sua postura impassível. Por que diabos ela estava agindo daquela forma?

— Srta. Fields, por favor, perdoe o comportamento ultrajado de minha filha. — Desculpou-se com certa firmeza, o que me fez olhá-lo de imediato, pega completamente de surpresa. — Pela sua expressão, suponho que não esteja acostumada com tais maneiras e, acredite, no momento é tudo sobre mim.

Ele se virou um pouco quando um homem vestido de terno impecavelmente preto e postura rígida se aproximou, sussurrando alguma coisa em seu ouvido, enquanto tudo o que eu fiz foi arregalar os meus olhos diante de tal descoberta. O tempo todo estava na minha cara: o homem a minha frente era o pai de Samara! Como eu não percebi?

— James! — Alguém irrompeu do corredor, impedindo-me de esboçar qualquer reação ao se aproximar ruidosamente. — Por Deus! Mal chegamos e você já se desprende de mim.

Era uma mulher; jovem e inescrupulosamente bonita. Pude constatar tal verdade assim que lancei minha atenção em sua direção, escutando o eco que seus sapatos de salto alto causavam ao se aproximar, como se estivesse desfilando em uma passarela.

— Ótimo! — Samara resmungou entredentes, virando o rosto para o meu lado quando a mulher se aproximou ainda mais, finalmente nos alcançando e arregalando levemente os olhos ao perceber que ele não estava sozinho.

— Querida, esta é Emily Fields. Eu acabei de conhecê-la e descobri que ela está com Samara. Adorável coincidência, não? — O pai de Samara se dirigiu a ela polidamente, sorrindo da forma mais amável e sincera que vi alguém sorrir desde que cheguei.

— Sam... — A mulher sibilou, parecendo ignorar tudo ao seu redor, até mesmo as boas maneiras. Percebendo o seu pequeno deslize, respirou fundo e logo tratou de se recompor. — Não esperava encontrá-la por aqui, é bom vê-la depois de tanto tempo. E, bem, ainda por cima... Acompanhada. — Seu olhar caiu sobre mim, finalmente percebendo a minha presença.

Encostei meu corpo ainda mais ao de Samara, sentindo-me intimidada pelo olhar penetrante e desdenhoso da desconhecida, o que não passou despercebido pelas duas. Encolhi-me ao redor do braço que meus dedos e unhas passaram a conhecer tão bem, recebendo um leve aperto de conforto e proteção no meu quadril.

— Eu me chamo Caroline Cook, aliás. — Ela fez questão de se apresentar, lançando um olhar significativo à Samara ao destacar seu sobrenome.

— Cook? — Virei o pescoço de repente, enrugando a testa quando meus olhos encontraram os azuis cobaltos e opacos de Samara.

— Ela é a esposa do meu pai. — Ela respondeu, mostrando-se visivelmente incapaz de esboçar qualquer emoção que fosse.

— Gostaria de tomar um drink comigo, Srta. Fields? — Sr. Cook me convidou, apontando em direção ao bar do outro lado do cômodo com simpatia.

— Claro. — Concordei depois de lançar um breve olhar incógnito a Samara, sentindo seu aperto quase doloroso se afrouxar em minha cintura. — Será um prazer. — Suspirei aliviada em poder me afastar daquele clima pesado, o qual o Sr. Cook estava perfeitamente à par.

A mudança brusca que a presença de ambos, principalmente a da Sra. Cook, causou em seu humor estava muito mais do que palpável, o que apenas aguçou a minha curiosidade. Eram da mesma família, do mesmo círculo social, mas se tratavam como verdadeiros estranhos.

— Vamos deixá-las sozinhas por algum tempo. — Sorriu quando nos aproximamos do balcão, fazendo um sinal para o barman nos trazer dois coquetéis.

A sala de visitas parecia especialmente reservada para reuniões como essas, visando conforto e elegância, assim como a praticidade. Os lustres no meio do cômodo se destacavam com maestria, as cortinas reluziam delicadeza e claridade por todo o ambiente, visto que ainda não se passavam das duas da tarde.

— Qual é o problema das duas, afinal? — Quis saber, escorando-me sobre o vidro do balcão.

Atrevi-me a olhar na direção delas, percebendo que Samara possuía um semblante vazio enquanto escutava o que sua madrasta lhe falava. Elas provavelmente compartilhavam da mesma idade, o que talvez acentuasse aquele possível desafeto entre ambas.

— Eu nunca soube. — Desprendi-me da cena a alguns metros de distância a tempo de ouvir o Sr. Cook dizer. — Samara e Caroline eram amigas, mas se distanciaram quando Car e eu nos apaixonamos. — Contou.

— Ciúmes? — Deixei um riso escapar, arrependo-me no segundo seguinte ao perceber que aquilo não era legal, não era engraçado.

O rapaz que preparava as nossas bebidas se colocou a nossa frente rapidamente, depositando os copos em cima do balcão com um sorriso amigável. Peguei o meu e o levei até a boca, bebericando longamente e sentindo o rum descer amargamente pela minha garganta.

— É possível que seja. — Ele respondeu depois de um instante. — Eu penso que, talvez, ela se sinta traída por ser justo a sua melhor amiga, eu não sei.

— É bem provável que seja isso. — Concordei instantaneamente, espiando-as por sobre o ombro outra vez.

— Receio que a senhorita esteja me julgando nesse momento. — Murmurou hesitante, ajeitando-se no banco ao meu lado. — Eu me casei com a melhor amiga da minha filha, vinte anos mais nova que eu, e é por minha culpa que Samara mal consegue olhá-la. — Lamentou visivelmente chateado, o que chamou a minha atenção.

— Acredite, eu não estou julgando, Sr. Cook. — Apressei-me em dizer. — Eu não faria isso, não mesmo. — Dei a minha palavra, tomando outro gole do meu coquetel.

— Por que não? — Ele me fitou com curiosidade.

— Bem, deixe-me ver: Samara é bem próxima de Mel, uma garota que eu fiquei antes de me interessar por ela; é chefe da minha melhor amiga e... Ah! É sete anos mais velha que eu. Vê? Eu não posso julgá-lo, nem se eu quisesse. — Sorri com simpatia, tentando confortá-lo de alguma forma.

— Vejo que minha filha soube escolher desta vez. — Retribuiu meu sorriso com cavalheirismo, repetindo o que Pierre havia dito mais cedo. — É notável que seja tão nova, mas também tão esperta. — Ele cruzou os braços, inspirando calmamente.

— Sinto-me honrada por pensar assim, Sr. Cook. — Ameacei reverenciá-lo, mas fui impedida com um toque suave em minha cintura.

— Eu vou pedir ao Vlad para nos chamar um táxi. Fique pronta para irmos. — Samara sussurrou em meu ouvido quando me virei para encará-la.

Mas antes que eu pudesse esboçar qualquer reação, ela ergueu seus olhos para o seu pai a minha frente. Suas feições finalmente haviam se suavizado, voltando às boas maneiras que eu estava acostumada desde que a conheci.

— Eu não estava esperando encontrá-lo aqui hoje. — Começou, soando um pouco agoniada. — Sei que tive uma reação negativa ao vê-lo, mas apenas porque deduzi que Caroline estaria com você. Eu a quero longe de mim. Diga isso a ela, por gentileza.

— Eu entendo. — Ele se levantou, tornando sua postura mais ereta enquanto ajeitava o paletó azul escuro com elegância. — Mas queria surpreendê-la, dá-la os meus parabéns pessoalmente. Soube que irá trabalhar com Pierre na Visionaire, e também que está se mudando para Nova Iorque. Além disso, tive um voo conturbado, não quis entrar em detalhes sobre a minha agenda em Manhattan. Caroline estava impaciente, queria ver Pierre e acabamos de chegar da França. Ela também não sabia que estaria aqui. Espero que também entenda.

— Obrigada, papai, pela parte que me comove. — Samara disse visivelmente impaciente. — Agora, se me der licença, tenho assuntos pendentes para serem resolvidos. — Samara pegou a minha mão, entrelaçando nossos dedos pela primeira vez desde que saímos de casa.

— Sr. Cook, foi um imenso prazer conhecê-lo. — Dei o meu melhor sorriso, tentando ignorar a forte tensão que se criou. Ele assentiu, arriscando um sorriso fraco em minha direção. — Com licença. — Pedi antes de me deixar ser levada por Samara até a sala principal, onde encontramos o mordomo Vlad auxiliando uma senhora de aproximadamente sessenta anos com sua taça de vinho.

— Vlad, poderia nos chamar um táxi, por gentileza? — Samara solicitou sem olhá-lo diretamente. Ela tirou seu celular do bolso do casaco e olhou para a tela, suspirando cansadamente. — Sim? — Atendeu bruscamente, puxando-me para o elevador da cobertura. Olhei para os lados e percebi que Vlad já não se encontrava mais perto de nós. Deus, o rapaz era rápido.

Mal terminei de formular a observação e ele vinha em nossa direção, trazendo consigo um sorriso amistoso ao me avisar que o táxi já nos esperava em frente ao saguão do prédio. Agradeci a sua gentileza e apartei os dedos de Samara entre os meus, chamando sua atenção para o elevador que havia acabado de ter as portas metálicas abertas.

Ela logo se despediu da pessoa e enfiou o celular no bolso outra vez, sustentando um olhar cansado, porém firme, em seu semblante quase impassível. Eu, definitivamente, nunca tinha a visto desse jeito e optei por não abrir a boca durante o tempo em que estivéssemos ao redor de outras pessoas. Não queria correr o risco de irritá-la.

— O que ele disse a você? — Ela questionou depois de um longo momento de silêncio. O elevador parecia irritantemente lento.

— O quê? — Fingi que eu não tinha a escutado, esperando ganhar tempo para respondê-la. Ela me olhou como se soubesse exatamente o que eu estava tentando fazer. — Ah! Bem, não muita coisa... Eu quis saber sobre o possível desentendimento entre você e sua madrasta, mas ele também não soube me responder.

Samara desviou os olhos de mim e encarou o teto pensativamente, suspirando após alguns instantes de silêncio. Abaixei a cabeça lentamente, olhando nossas mãos interligadas. Eu podia senti-la tensa e resisti ao súbito impulso de tentar confortá-la. Estava decidida a não enchê-la de perguntas, mesmo que minha cabeça estivesse borbulhando em função dos recentes acontecimentos.

***

Chegamos a sua casa em silêncio depois de nosso breve e confuso momento no elevador. Uma vez que alcançamos o quarto, Samara logo tratou de ligar o ar condicionado conforme tirava suas roupas, tentando conter o desespero que o ato parecia infligir. Quando estava apenas de roupas íntimas, pegou minha mão e me arrastou para o banheiro sem dizer nada.

Depois de tomarmos banho juntas sem que nada de grande proporção tivesse acontecido, Samara se jogou ao meu lado na cama enquanto eu terminava de escorregar minha camisola pelo corpo. Ela me observou por alguns severos instantes, mordendo o lábio inferior tentadoramente até eu deixar meu corpo cansado contra o colchão, sem ânimo para muita coisa.

Já passavam das seis da tarde quando decidi ligar a televisão e colocar em algum canal aleatório de filmes. Não deixei de notar quando Samara sorriu fracamente ao perceber Maryl Streep dividindo uma cena com Anne Hathaway, em O Diabo Veste Prada. Esse filme... Hanna dizia que era um verdadeiro clássico e, portanto, era o seu favorito.

— Amor, sua mãe! — Apontei para a tela automaticamente. Ela riu desvairadamente com a espontânea comparação, puxando-me pela cintura para mais perto dela.

— Ela certamente ficará feliz com a comparação. — Sussurrou enquanto me enchia de beijos delicados por todo o meu rosto e pescoço. — E, só para você saber, adorei a forma carinhosa que me chamou. — Admitiu com a voz rouca, colocando nossos lábios demoradamente em um beijo suave e molhado.

— Bom saber. — Sussurrei ainda entre beijos. — Eu posso me habituar a chamá-la assim sempre. — Afastei algumas mechas de cabelo do meu rosto, assistindo a seus olhos acinzentados passarem para um azul escuro e brilhante de perto.

— Acho que eu posso me acostumar a isso facilmente. — Ela sorriu amorosamente, acariciando meu rosto com a mesma intensidade de sentimento.

Deitei a minha cabeça em seu peito, sentindo seus braços me apertarem contra o seu corpo preguiçosamente. Suspirei em apreciação, aproveitando o silêncio em que ficamos conforme o filme continuava a rolar livremente. Samara, depois de longos minutos, passou a enrolar meu cabelo em seus dedos, enquanto eu acariciava seu braço com as unhas lentamente, causando-lhe diversos arrepios.

— Desculpe. — Murmurou quando eu estava quase sucumbindo ao sono. — Pelo comportamento asqueroso de mais cedo. — Esclareceu quando eu a fitei com ligeira confusão. — Peço que me perdoe pelo desconforto e embaraço que provavelmente lhe causei. Eu deveria tê-la poupado de tudo aquilo. — Sua voz soou um pouco deprimida e, quando eu a olhei mais uma vez, parecia cheia de culpa.

— Sam... — Comecei suspirosa, virando-me para ela. Tomei seu rosto entre minhas mãos, trazendo-o para perto do meu, e, agora que eu tinha sua atenção, não hesitei em continuar: — Não precisa se desculpar. Eu juro que não estou julgando você. — Assegurei com firmeza, fitando seus olhos extremamente azuis com fixação. Aquelas íris ainda me levariam à loucura...

— A culpa me sufoca. — Murmurou amargamente, colocando suas mãos sobre as minhas. — Eu sinto muito, Em. — Ela abaixou a cabeça e eu senti como se suas desculpas não fossem só pelo que houve hoje, mas afastei essa ideia dos meus pensamentos. Ela não tinha por que se desculpar por algo que eu desconhecia, certo?

— Quer me contar o que está acontecendo? — Perguntei receosa, apoiando minha cabeça em seu braço enrolado em meu ombro enquanto ela voltava a me fitar profundamente. Nossos dedos estavam agora entrelaçados e eu quase podia enxergar sua alma com a tamanha sinceridade que seus olhos transpassavam.

— Eu estou seriamente convencida de que estou me apaixonando por você. — Sussurrou calidamente; seu hálito quente batendo contra minha testa, seguido de seus lábios igualmente ardentes pressionando minha pele num beijo terno e promissor. — Acho que você me fisgou no momento em que eu a vi naquela passarela. — Confessou.

— Eu não esperava ouvir isso. — Consegui dizer, sentindo-me inegavelmente emocionada. E feliz.

— Eu sei que não. — Samara riu fraco, depositando um beijo suave na ponta do meu nariz.

— Eu me apaixonei desde a primeira vez em que reparei em você. — Soltei devagar. — Posso dizer que foi interesse instantâneo; assim que conversamos, eu me peguei observando cada detalhe em você. E, sinceramente, ainda não acredito que esteja comigo.

— Como assim? — Sobressaltou-se, chamando minha atenção para ela outra vez.

— Você parecia alguém completamente inalcançável, uma estrela distante, sabe? — Comecei, pausando para absorver as lembranças que me inundavam. — Por causa da minha idade pensei que nunca fosse me levar a sério. — Escutei seu risinho ecoar em meus ouvidos. Eu adorava aquela risada.

— Agora estamos juntas. — Ela encostou sua cabeça mais confortavelmente ao travesseiro, apertando-me com mais firmeza sob os lençóis. — Você é a minha garota, Em.

— E você é a minha mulher, Sam. — Sorri abertamente diante de tal conclusão: nós estamos mesmo juntas, afinal.

Notas finais
Bem, antes de qualquer coisa, eu quero pedir desculpas pela falta de atualização; sei que estou demorando para postar os capítulos, mas é como eu disse anteriormente: estou sem muito tempo para escrever e isso complica as coisas para todo mundo. Eu juro que faço o possível para postar os capítulos rápido, por isso peço que tenham paciência comigo. Agora, tenho uma notícia: a fanfic Estes Laços Que Unem está chegando ao fim. Mais alguns capítulos e acabou. :/ Enfim, é isso. Conversemos sobre isso nos próximos com mais calma. Até mais e se cuidem! :)