Estes Laços Que Unem
8 Quantos Segredos Você Consegue Guardar?
Notas iniciais
— Ei. — Cantarolou uma voz aguda, chamando a minha atenção quase de imediato. — Você não escutou nada do que eu acabei de dizer, não é? — Hanna estava parada bem à minha frente, com um tablet em suas mãos.
— Não mesmo. — Admiti sem jeito. — Peço desculpas pela minha evidente e desrespeitosa falta de atenção. — Era a terceira vez que eu me desculpava pelo mesmo descuido. Eu não estava conseguindo manter minha concentração por mais de cinco segundos e, num dia como este, trabalhar parecia uma tarefa dificílima.
— Você está muito dispersa, aconteceu alguma coisa? — Hanna perguntou depois de me analisar por completo. — É algo da empresa? Talvez eu possa ajudar.
— Não, não é. — Respondi. — É algo pessoal. — Encostei minhas costas na cadeira da mesa de Hanna e olhei ao redor, observando o movimento tranquilo de meio de semana à tarde.
— Defina o quanto. — Aparentemente, ela estava aberta a qualquer coisa que eu quisesse expor sobre a minha vida.
— Bem, eu estou saindo com uma pessoa. — Pausei, hesitante. — Nós temos muita empatia e entrosamento, mas...
— Ela é bonita? — Hanna me interrompeu, enrugando a testa e se ajeitando na mesa onde estava sentada de frente para mim.
— Como você sabe que é ela? — Arqueei as sobrancelhas, curiosa a respeito de sua notável percepção.
— Ora, por favor. — Ela revirou os olhos. — Minha melhor amiga já veio com essa de “estou saindo com uma pessoa” várias vezes. Eu já aprendi a reconhecer alguns territórios. — Deu de ombros, encarando suas unhas perfeitamente feitas. — Mas, por obséquio, prossiga. — Sorri com a forma que ela se expressou, era quase como se estivesse me imitando.
— Ela é deslumbrante, incrível e cheia de vivacidade! — Confessei de repente, não contendo outro sorriso com a lembrança de Emily e eu nos beijando calorosamente na sala de conferência da empresa. — Estamos nos envolvendo de forma intensa e irreversível.
— Então aproveite. — Hanna aconselhou. — Essa fase é a melhor, acredite.
— Eu não pensei que fosse querer isso tão cedo. — Pensei em voz baixa, desviando os olhos por um breve instante. — Portanto, ainda estou um pouco insegura quanto ao teor de seriedade que carrega nossa relação.
— Do que você tem medo? — Ela perguntou, trocando o peso de seu corpo. — Se for medo de se apaixonar, é melhor superar, porque não há nada melhor do que viver uma nova paixão. — Hanna sorriu, suspirando sonhadoramente.
— O que é isso? — Deixei uma risada confortável escapar, referindo-me a sua repentina agitação sobre o assunto.
— Eu estou vivendo uma nova paixão há quase um ano. — Ela contou, não dando muita importância ao fato, mas tentando encaixá-la em meu caso. — Mike e eu começamos a sair por causa de uma aposta estúpida e, depois disso, nem mesmo o medo da falha de tentar nos impediu de conquistar o que temos hoje. — Concluiu, por fim.
— Histórias felizes me influenciam. — Suspirei, fechando os olhos por meio segundo. — Eu ainda tenho esperanças de que tenha algum final feliz guardado no fundo de alguma gaveta mágica para mim. — Sorri fracamente, girando-me na cadeira devagar.
— Você é uma graça. — Hanna disse, rindo silenciosamente. — Não posso acreditar que falei mal de você quando a vi pela primeira vez. — Lamentou com sincero arrependimento, o que me fez arquear as sobrancelhas, surpresa demais para dizer algo no mesmo momento.
— Você falou mal de mim? — Consegui dizer depois de um breve instante, soando chocada.
— Eu pensei que você fosse igual a sua mãe. — Defendeu-se rapidamente. — Mas, agora, eu vejo que eu me enganei. Emily estava certa, eu deveria ter te conhecido melhor antes de julgá-la. — Concluiu, por fim.
— Ela disse isso? — Sorri com imenso júbilo diante da agradável surpresa.
— Aria também. — Acrescentou, depois de um leve aceno de cabeça. — Eu não tenho certeza se você chegou a conhecê-las, mas minhas amigas tiveram uma impressão positiva sobre você, principalmente Aria. — Hanna cruzou e descruzou as pernas, com um ar interativo. De uns dias para cá, ela parecia mais confortável e aprazível quando estava em minha presença e isso certamente facilitava muito as coisas.
— Bem, eu adoraria conhecê-las. — Afirmei com polidez. — Sinta-se à vontade para trazê-las quando quiser. — Deixei de fora o fato de eu ter uma relação especial com uma de suas melhores amigas, mas, no fundo, eu me perguntava se ela realmente não sabia sobre Emily e eu.
— Na verdade, — Hanna começou, erguendo o rosto devagar, como se estivesse pensando numa maneira adequada de prosseguir. — você não gostaria de almoçar comigo? As meninas e eu combinamos de nos encontrar num bistrô francês no King James. — Ela ofereceu de boa vontade, contendo uma leve ansiedade para que a minha resposta fosse positiva.
— Você tem certeza? — Chequei, um pouco receosa. — Eu realmente aprecio o convite, mas...
— Mas, nada. — Hanna me interrompeu. — Vamos lá, permita-se conhecer pessoas novas. Eu prometo que não somos tão ruins como dizem por aí. — Ela garantiu, olhando para as estagiárias do outro lado da sala, sentadas todas num semicírculo enquanto nos observavam com curiosidade quase gritante.
— Não se preocupe, eu tenho certeza disso. — Voltei minha atenção para ela, notando que ela ainda esperava a minha resposta. — Tudo bem, eu vou. — Concordei por fim, arqueando minhas mãos em rendição. Ela deu uma olhada no seu relógio de pulso e sorriu com contida animação.
— Certo. — Começou, pegando sua bolsa sobre a mesa e a pendurando em seu ombro. — Antes de irmos, só peço que não repare muito na Spencer. — Hanna disse, franzindo o cenho de maneira engraçada enquanto caminhávamos em direção ao elevador.
— Por quê?
— Ela tem uma maneira única de se expressar e, inicialmente, pode parecer um pouco difícil de lidar, mas ela é ótima. — Sua rápida descrição sobre algumas características marcantes de Spencer estavam de acordo com as que Emily também havia me fornecido alguns dias atrás.
— E quanto a Aria? — Perguntei casualmente, entrando no elevador quando as portas rapidamente se abriram.
— Aria é uma artista. — Hanna respondeu. — Ela é muito compreensiva, tem uma mente aberta sobre tudo e é o tipo de pessoa que você pode conversar sobre qualquer coisa sem receio de ser julgada. — Contou, escorando-se na parede metálica da cabine enquanto descíamos para o primeiro andar.
— Ela parece ser uma pessoa agradável. — Sorri contidamente, olhando para as suas botas de salto alto e imaginando Emily em toda sua desenvoltura de menina graciosa.
Decerto, eu não precisava que Hanna me situasse sobre ela, mas qualquer informação a mais a respeito de sua personalidade através de alguém que a conhecia tão bem seria muitíssimo bem-vinda. Além disso, Emily me instigava um interesse genuíno.
— Alguma coisa que eu precise saber sobre Emily? — Tornei incisiva. — Talvez algo que eu já não saiba. — Hanna logo pareceu se lembrar de alguma coisa, o que a fez me encarar por um segundo, com os olhos semicerrados enquanto permanecia pensativa.
— Vocês já se conhecem? — Ela perguntou. — Eu acho que vi vocês conversando outro dia, mas não tenho certeza. — Deu de ombros, ignorando qualquer resquício de importância que viesse a irromper em sua mente. — Mas, de qualquer forma, Emily não é de muita conversa. Suas maneiras são mais contidas e moldáveis. — Hanna sorriu assim que terminou, cruzando os braços sobre o peito.
O elevador parou no terceiro andar e três pessoas entraram, cumprimentando nós duas com acenos sutis de cabeça. O silêncio a partir daqui se instalou por completo até chegarmos à recepção do primeiro andar e seguirmos ao Shopping King James.
***
Uma vez que já estávamos muito bem acomodadas numa das mesas de canto do restaurante francês de aparência elegante e confortável, Hanna logo tratou de orientar um garçom, que há pouco havia se aproximado, a nos providenciar vinho enquanto esperávamos suas amigas chegarem. Aparentemente, ela era uma apreciadora da bebida.
— Esse é o único lugar que me oferece vinho sem que eu precise mostrar a minha identidade falsa. — Ela se inclinou em minha direção para compartilhar de seu segredo. — Não é incrível? — Um sorriso empolgado cresceu em seus lábios, o que me fez rir por um instante.
— Sem dúvidas. — Concordei automaticamente. — Você anda com uma identidade falsa o tempo inteiro? — Perguntei, lembrando-me do dia em que busquei Emily num bar de estrada, onde ela estava se embebedando com uísque e provavelmente havia usado uma identidade falsa também.
— Não o tempo inteiro. — Respondeu rapidamente. — Apenas quando eu sei que vou precisar dela. — Admitiu depois de um momento, dando de ombros logo em seguida.
— Parece bem plausível.
Antes que Hanna pudesse dizer qualquer coisa em resposta, as figuras de suas duas melhores amigas surgiram de repente, sentando-se bem à minha frente. Suas feições pareciam um pouco cansadas, porém aprazíveis. Pelas suas vestimentas, percebi que elas vieram direto do colégio.
— Desculpe o atraso, meninas, Spencer resolveu passar na Saks para comprar um vestido novo. — A garota que logo deduzi ser Aria Montgomery explicou, soando levemente repreensiva ao olhar para sua amiga.
— Nem demoramos tanto assim. — Spencer deu de ombros, cruzando os braços. Aria mal se importou com o tom defensivo e monótono que ela usou e, ao se dar conta de minha presença, a garota de olhos esverdeados foi a primeira a se manifestar:
— É muito bom vê-la novamente, Samara. — Exprimiu. — Ontem mesmo eu estava comentando com Hanna sobre o incrível teor do seu trabalho. Você escreveu artigos para uma revista francesa, não é? — Ela perguntou, comovendo-me ao se mostrar sinceramente interessada.
— Culpada. — Assenti devagar, sorrindo com confortável divertimento.
— É mesmo. — Hanna concordou rapidamente. — Emily me perguntou algo sobre isso, não sei por que pensei que tinha sido você. — Ela sussurrou para Aria ao seu lado, mas foi quase inevitável não escutar.
— Então, Samara, — Spencer irrompeu de repente, olhando para mim com desconfiança. — eu ouvi boas coisas sobre você. — Ela se aproximou um pouco, apoiando seus braços sobre a mesa. Era perfeitamente possível sentir a ambiguidade em seu comentário, que beirava ao sarcasmo.
— Nós ouvimos. — Aria a corrigiu antes de eu me manifestar a respeito. — Hanna disse que você é jornalista de moda, mas que entende sobre qualquer tipo de arte. Algo em especial? — Ela sorriu amplamente, mas desviou sua atenção por um segundo quando Hanna tomou a garrafa de vinho da mão do garçom.
— Eu fico com isso. — Sussurrou, piscando com galanteio para o rapaz que a olhava como se a garota à sua frente fosse o seu grande objeto de desejo e, talvez, ela realmente fosse. Hanna era incrivelmente bonita e elegante, qualquer um ficaria aos seus pés.
— Na verdade, sim. — Olhei para Aria depois de um momento, tomando um gole do meu vinho.
— Eu tenho que dizer que li um dos artigos sobre moda vanguardista que você escreveu para a revista Purple e eu honestamente adorei! — Exclamou, exprimindo todo o seu contentamento em um fôlego só. — Ficou tão poético e ilustrativo que me fez vibrar em pura alegria. A humanidade precisa de mais pessoas assim, que saibam apreciar uma boa arte e também uma boa literatura. — Aria ergueu sua taça de vinho levemente em minha direção, como se estivesse me brindando, o que me fez corar instantaneamente.
— Eu concordo com sua sábia observação, e digo que essa é a coisa mais bonita que eu já ouvi. — Afirmei com sinceridade, logo sendo surpreendida quando alguém se sentou ao meu lado, tomando toda a minha atenção.
— Ei... — Emily sorriu surpresa quando olhou para o lado e me viu.
— Ei, Em! — Aria a cumprimentou com o tom de voz moderado.
— Finalmente a Cinderela apareceu. — Hanna zombou, olhando seu reflexo em sua taça de vinho. — Já estávamos criando raízes aqui. — Ela olhou para Aria, que agora estava rindo junto de Spencer. Emily, por sua vez, não deu muita importância aos comentários que seu atraso gerou.
— O que eu estou perdendo? — Seus olhos escuros e brilhantes continuaram em mim por alguns segundos, então desviaram para as suas amigas.
— Elas estão conversando sobre coisas sem sentido. — Hanna respondeu, apontando para Aria e eu. Emily rapidamente procurou pela minha mão escondida sob a mesa, acariciando a palma assim que a encontrou.
— Nada disso, Han. — Aria discordou instantaneamente. — Estou tentando conhecê-la melhor, preciso de ideias para o Baile de Primavera. — Ela riu assim que terminou.
— Parece interessante. — Emily sorriu contidamente ao alternar seu olhar entre Aria e eu. — Falando em baile, algum sucesso com as garotas do comitê?
— Ainda não. — Aria bufou. — Eu não consigo me comunicar com elas, é como se aqueles malditos clones não falassem a minha língua. — Agora ela parecia ligeiramente irritada.
— O que quer dizer? — Emily riu.
— Elas falam a língua da Hanna. — Aria a acompanhou na risada, assim como Hanna.
— Onde você estava, Em? — Spencer perguntou, rompendo o seu momento de silêncio com certa bravura.
— Em casa. — Ela riu como se fosse óbvio. — Eu saí mais cedo hoje, estava com um pouco de dor de cabeça. — Desculpou-se.
— Aria disse que Enzo passou na sua casa hoje mais cedo, o que ele queria? — Spencer exigiu com postura firme.
— Só conversar. — Emily forçou um sorriso, fazendo o possível para esconder seu embaraço e desconforto o máximo que pôde. — O que estão bebendo? — Ela pegou a garrafa de vinho e a analisou por um instante.
Pude notar que sua respiração estava pesada, dando devido crédito ao fato de que seu peito subia e descia com certa rapidez. Seu próximo e calculado passo foi despejar um pouco de vinho em sua taça com cuidado, evitando qualquer contato visual com Spencer.
— Você parece um pouco nervosa. — Sussurrei em sua direção, apenas para que ela escutasse, quando percebi que suas amigas haviam entrado em algum assunto aleatório e, portanto, estavam dispersas quanto a Emily e eu.
— Não é por menos, você está aqui, ao meu lado, e estou a ponto de ficar completamente embriagada com o seu cheiro intoxicante. — Retrucou com bom humor, encarando os laços delicados que adornavam sua pulseira para não precisar me encarar.
— Eu posso dizer o mesmo. — Dessa vez foi a minha vez de procurar pela sua mão, entrelaçando nossos dedos devagar e com zelo. — Você está muito bonita, a propósito. — Sorri com candura, tendo agora seus olhos escuros e bonitos conectados fielmente aos meus.
— Está me cortejando? — Ela devolveu o sorriso.
— Estou apenas fazendo a minha parte. — Tomei um longo gole do meu vinho, enquanto tentava conter uma risada.
— Eu ainda não sei o que somos e nem como agir com você ao redor de outras pessoas. — Murmurou depois de um breve momento.
— Ao redor das suas amigas, você quer dizer? — Continuei com o mesmo tom de voz moderado, baixando os olhos rapidamente. No fundo, eu me sentia desapontada com essa possibilidade.
— Não, não é nada disso. — Ela tentou se justificar, mas acabou atraindo a atenção de Spencer para nós duas.
— Algum problema? — Agora, tínhamos o seu olhar desconfiado nos atravessando até a alma.
— Eu acho que preciso de uma dose de uísque. — Revirei os olhos e me levantei depressa, mas, ao invés de ir em direção ao bar do restaurante, eu fui para o banheiro.
— Você está brava? — Emily, usando um cardigã azul marinho e calça jeans colada às suas pernas, surgiu atrás de mim pouco tempo depois, enquanto eu passava um pouco de gloss nos meus lábios naturalmente rosados.
Através do espelho, eu pude analisá-la por inteiro: cada traço delicado do seu rosto, as curvas do seu corpo bonito e impecável que, por vezes, provocavam um crescente e ardente desejo dentro de mim. Ela era linda de todas as formas possíveis e a todo instante eu me perguntava até que ponto era real.
— É muito difícil eu ficar brava. — Informei com um sorriso completamente neutro depois do que foram alguns longos segundos.
— É uma pena. — Lamentou. — Eu acho que você ficaria tão sexy brava. — Contraí uma risada automaticamente, mas ela não.
Emily logo se aproximou devagar até encostar seu corpo no meu. Ela empurrou os meus cabelos para o lado, deixando a parte direita do meu pescoço livre para poder beijá-lo. Arrepios profundos percorreram por todo o meu corpo, em especial a minha nuca, onde ela também depositou beijos suaves e provocantes.
— Sam, olhe para mim. — Ela pediu com doçura, quase atraindo a minha atenção ao me chamar pelo meu apelido pela primeira vez.
— Não. Você está me desconcentrando. — Recusei, tentando soar firme e decidida.
— Talvez isso se dê ao fato de nós termos uma tensão sexual muito forte. — Sussurrou calidamente, pressionando seu corpo de maneira delicada contra o meu. — Você realmente mexe com a minha cabeça e, quando estamos muito perto uma da outra, eu só penso em beijá-la o tempo inteiro. Você se sente da mesma forma? — Ergui meu rosto para poder fitá-la através do espelho e fiquei surpresa com a serena seriedade que estava estampada em seu rosto.
— Você é uma tentação, não vou negar. — Sorri com veemência. — Mas eu tenho um perfeito autocontrole, portanto é difícil tirar o meu equilíbrio.
— Bem, nós vamos confirmar isso mais tarde. — Replicou, aproximando seus lábios do meu pescoço, o que provocou um ar quente por toda a região sensível.
— Certo. — Virei-me para sair de seu alcance, mas Emily não se afastou de mim quando tentei passar por ela. — O que está fazendo? Nós temos que voltar. — Ela balançou a cabeça automaticamente, se negando.
— Não seja apressada, ainda não acabamos... — Dito isso, ela puxou meu rosto para mais perto do seu e acabou com a pouca distância que ainda existia entre nossos lábios.
Por um momento, eu hesitei em beijá-la de volta, tudo porque minha intenção era tentar fazer um jogo duro com ela. No entanto, o toque dos seus lábios era tão suave e deleitoso que, aos poucos, nossas línguas se encontravam com perfeita sintonia em cada movimento que fazíamos. Enquanto suas mãos alternavam delicadamente entre as minhas costas e minha cintura, seu corpo bonito e convidativo continuava a me pressionar contra o mármore frio da pia e minha mão escorregava alguns centímetros abaixo do seu pescoço.
De repente, a porta que Emily havia fechado assim que entrou se abriu bruscamente, o que fez com que nos separássemos no mesmo instante, quase sem fôlego.
— Spencer! — Emily exclamou assim que viu a figura pálida e esguia de sua amiga que, por sua vez, possuía os olhos repousados em mim. — Você me assustou. — Suspirou com certo alívio, comovendo-me quando não ousou a se afastar nem um centímetro de mim.
— Você estava demorando, — Ela olhou para Emily e sorriu ironicamente. — mas, agora, eu vejo que a razão é uma granada loira.
— Estávamos resolvendo alguns assuntos. — Argumentei depressa, fazendo Emily rir de toda a situação.
— Eu estou vendo. — Spencer murmurou no mesmo instante, de forma quase inaudível.
— Espere, do que ela me chamou? — Olhei para Emily, só agora me dando conta do apelido no mínimo curioso, e ela logo inclinou a cabeça em minha direção para beijar meu pescoço suavemente.
— Não ligue para ela. — Sussurrou, movendo seus lábios até o meu ouvido.
— Deus, eu definitivamente não preciso ver isso. — Spencer resmungou. — Nós já estamos prontas para comer, por favor, não demorem. — Avisou antes de fechar a porta, nos deixando sozinhas novamente.
— Isso foi constrangedor. — Deslizei meus dedos entre meus cabelos, sentindo-me quente de repente. Tentei me afastar do calor que o corpo de Emily emitia, mas, mais uma vez, fui impedida pela própria.
— Está tudo bem, não estávamos fazendo nada de muito escandaloso... Ainda. — Ela sorriu, selando nossos lábios demoradamente antes de voltarmos para junto de suas amigas.
***
Algumas horas mais tarde, quando o céu já estava quase escurecendo, era na casa de Emily que eu me encontrava, subindo as escadas e percorrendo os corredores até finalmente chegarmos ao seu quarto. Havíamos, porém, passeado por todos os cômodos disponíveis antes que viéssemos para este em especial.
— Bem, este é o meu quarto! — Emily anunciou assim que entramos, sentando-se num banco aparentemente confortável, o qual ficava debaixo da janela.
— Você trouxe Melanie aqui também? — Deixei escapar, escutando sua risada estridente logo em seguida.
— Eu fiquei com ela só uma vez. — Emily respondeu. — Não deu tempo de trazê-la. — Choquei-me ao ouvir seu acréscimo, virando-me quase de imediato para encará-la.
— Você está brincando, certo? — Ela riu e veio ao meu encontro, tomando meu rosto em suas mãos delicadamente.
— É claro que estou. — Foi a sua resposta.
Seus lábios procuraram os meus quando eu virei meu rosto, na tentativa de conter a instabilidade repentina com que meu coração batia. No fundo, mesmo desejando poder evitar, eu me importava com o teor de seu passado amoroso, que parecia ser extenso e inacabado. No entanto, o que justo eu poderia dizer sobre isso? Não havia a menor das condições para exigir algo que nem mesmo eu poderia oferecê-la, se me requisitado. Para mim, de certo modo, era algo a se trabalhar junto dela.
— Acho que essa eu mereci. — Decidi depois de um momento, sentindo seus lábios finalmente capturarem os meus. Nos beijamos devagar, até perdermos completamente o ar. — Aquela é Hanna? — Apontei para o mural de fotos na sua parede assim que abri os olhos, quebrando o nosso beijo quase instantaneamente.
— A própria. — Emily confirmou ao virar o pescoço para trás, rindo do meu tom surpreso.
A foto em questão era de Hanna com uma aparência mais jovem e robusta. Sua mudança era tão notória quanto chocante, visto que ela parecia ser uma garota insegura e desajustada quando era mais nova.
Com cuidado, eu me afastei de Emily e passei a observar tudo de chamativo que compunha o seu quarto: das fotos de suas amigas a uma miniatura da Torre Eiffel junto de um globo de neve numa estante ao lado de sua escrivaninha. Não fiz nenhum movimento brusco sobre esse último; não peguei e não toquei, apenas observei com atenção enquanto Emily parecia ocupada com seu celular, de volta ao banco à janela.
Retrocedi alguns passos, parando perto de onde ela estava sentada, apenas para voltar a encarar as fotos no mural com um pouco mais de atenção. A que mais me chamou a atenção, no entanto, foi uma em que Emily está com suas quatro amigas, inclusive a que morreu. Havia também uma foto em que essa última estava com Spencer; ambas sorrindo para a câmera.
— Spencer parece menos ameaçadora quando era mais nova. — Brinquei, virando-me para olhar Emily com um sorriso fraco estampando seu rosto.
— Não é bem assim. Eu prometo que, quando você a conhecer melhor, vai perceber que ela não é como parece. — Ela riu, deixando seu celular de lado para retribuir o meu olhar. — Agora venha aqui. — Antes que eu pudesse responder, ela me puxou pela mão para que eu me sentasse junto dela.
— O que foi? — Inquiri suavemente ao perceber sua leve mudança de humor, que até pouco tempo atrás estava leve e agradável.
Ela tirou suas botas que iam até o joelho, ficando apenas de meias de cor branca. Emily rapidamente tratou de se aproximar de mim, colocando sua perna esquerda no meu colo enquanto a outra estava dobrada. Repousei minha mão delicadamente em seu joelho e ela sorriu com o contato. Seu rosto parou muito perto do meu, com a respiração beirando a instabilidade momentânea.
— Eu estava pensando em uma coisa. — Sussurrou, roçando seus lábios nos meus de forma breve e provocativa.
— E o que seria? — Retorqui incisiva.
— Nós não conversamos sobre isso ainda, mas em menos de dois meses eu vou embora e não tenho certeza de como estaremos até lá. — Sua voz foi sumindo aos poucos e seus olhos encaravam os meus com certa firmeza.
— Ei, não se preocupe com isso. — Tomei sua mão na minha. — E, de qualquer forma, não são exatamente dois meses. Você ainda terá suas férias de verão antes de ir para a faculdade. — Lembrei.
— Mas ainda temos de fazer nosso tempo valer cada segundo, não quero me arrepender do que poderíamos ter feito. — Insistiu.
— Algo em especial? — Perguntei com um meio sorriso.
Emily olhou para mim e retribuiu o sorriso, levando sua mão até o meu rosto, onde o acariciou antes de emaranhar seus dedos entre meus cabelos e me beijar calorosamente nos lábios. Ela me puxou para ainda mais perto, aprofundando o beijo o máximo que pôde. Aproveitei o embalo para me inclinar em sua direção, correspondendo ao seu beijo na mesma intensidade.
Nos separamos devagar, com o ar faltando em nossos pulmões e, quase imediatamente, Emily levantou-se e me puxou com ela até sua cama. Seu corpo ficou facilmente sob o meu, enquanto suas mãos percorriam todo o meu torso ao tempo em que voltávamos a nos beijar furiosamente. Entre pausas, nas recorrentes buscas de ar, ela descia seus lábios até o meu pescoço e clavícula, mordendo a pele — que ela mesma havia exposto ao tirar minha jaqueta — sem muita força.
— Emmy, o que está fazendo? — Sussurrei contra os seus lábios, parando tudo quando percebi aonde isso iria acabar.
— Estou estreitando nossos laços. — Ela disse, seguido de uma risada confortável ao me encarar com um brilho ocioso nos olhos escuros que tanto me encantavam.
Antes que eu pudesse reparar, um suspiro rouco e profundo me escapuliu. Suas mãos agora estavam em minha cintura enquanto as minhas alternavam entre seus cabelos e pescoço. Com uma leve inclinação, porém, toquei seus lábios novamente com os meus. Eram macios e eróticos, o que causou um rápido e ardente efeito sobre mim. Agora, eu a desejava com pura veemência e isso parecia ir contra a minha conduta.
— O que foi? — Emily questionou quando eu me afastei. — Você está rubra. — Ela rapidamente se reaproximou de mim, ficando de joelhos enquanto controlava sua respiração.
— Você está tentando me seduzir. — Sussurrei com vertigem.
— O quê? Não estou! — Ela riu culpadamente. — Bem, a não ser que esteja funcionando.
A extrema doçura com que sua voz soou me fez ficar de joelhos diante dela e a sua risada se transformou em um doce e ameno sorriso. Nossos olhos agora estavam na mesma altura, encarando-se com uma mistura harmoniosa de afeição e lascívia moderada.
— Eu não quero desapontá-la, mas existem alguns pontos em que eu sou antiquada. — Toquei seu rosto cuidadosamente, afastando alguns fios escuros de seu cabelo para trás.
— Eu sabia que você era. — Emily sorriu espontaneamente, desviando os olhos para o meu pescoço. — Afinal, é por isso que estou dando o meu melhor para conquistá-la. — Ela beijou meu queixo, deslizando seu lábio inferior devagar até chegar à minha boca.
— Você já fez isso, caso contrário, eu não estaria aqui com você. — Argumentei conscientemente, envolvendo sua cintura com meu braço esquerdo.
— Então por que você se faz de difícil? — Devolveu no mesmo tom.
— Eu não me faço, eu sou difícil.
— Espere. — Ela parou de repente, encarando-me com curiosidade. — Com “antiquada”, você quer dizer que só faremos sexo depois do casamento? — Não pude deixar de rir com o seu visível tom de preocupação.
— Não sou tão radical assim. — Respondi o mais depressa possível, evitando me aprofundar numa questão tão perigosa para as lembranças. — Em palavras mais simples, eu quis dizer que a nossa primeira vez precisa ser especial.
— Mesmo? — Emily parecia encantada. — Eu gosto dessa ideia.
— Eu também gosto. — Concordei timidamente. E, antes que eu pudesse pensar em acrescentar qualquer outra coisa, algo rapidamente irrompeu de minha mente: — Onde estão seus pais, afinal de contas?
Emily balançou a cabeça, saindo de perto de mim. Ela se jogou na cama, deixando suas costas caírem no colchão confortável. Tratei rapidamente de me recompor desse breve momento que tivemos, pondo-me ao seu lado.
— Eu não sei. — Deu de ombros. — Hoje é o aniversário de casamento deles, então devem ter saído para jantar ou algo assim.
— Muito justo. — Suspirei, pegando sua mão e entrelaçando nossos dedos devagar. Emily me fitou curiosa:
— Qual é o nome dos seus pais?
— Ora, você sabe. — Arrestei as palavras preguiçosamente.
— Não, eu não sei. — Foi a sua resposta.
— Está bem. — Desisti. — É James e Amanda.
Com isso, Emily pareceu precisar de um momento para absorver a informação, uma vez que seu silêncio rendeu alguns bons e longos segundos.
— É engraçado como ainda tem coisas que eu não sei sobre você. — Ela riu tristemente. — Não consigo lê-la da forma que eu preciso e, às vezes, isso me assusta.
— Como pode dizer isso? — Olhei para ela por um segundo. — Eu sou um livro aberto, mas com algumas páginas faltando.
— O que tem nessas páginas? — Ela logo retribuiu o meu olhar, lançando-se para cima de mim de repente.
— Eu não sei. — Sentei na cama depois de um momento, tocando seus braços delicadamente. Suas pernas, uma de cada lado do meu quadril, estavam dobradas na cama, enquanto sua mão agora repousava em meu pescoço.
— Como não sabe? — Emily semicerrou os olhos, rindo com descrença. — Quer saber? Não importa. — Balançando a cabeça devagar, ela se inclinou em minha direção e encostou seus lábios nos meus. — Eu entendo sobre segredos, e acho que você tem todo o direito de guardá-los, mas não deixe que eles a consumam.
— Quantos segredos você consegue guardar, Em? — Perguntei vagamente, inclinando minha cabeça para o lado apenas para poder fitá-la melhor.
— Você ficaria surpresa. — Sorriu preguiçosamente.
— Quem está sendo misteriosa agora? — Envolvi sua cintura com os meus braços, puxando-a para um beijo demorado e cheio de afeto.
Era sempre muito árduo manter a concentração e o autocontrole quando Emily e eu estávamos tão próximas, nos tocando com constância e certo desejo. Nossa relação ainda era indefinida, mas cheia de significado e veracidade. Eu podia sentir que estávamos começando a ter algo especial, intenso e crível. Estávamos, portanto, no meio de um começo.
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