Estes Laços Que Unem

15 O Coração Traz Você De Volta.


Notas iniciais
Último capítulo, niggada! Espero que gostem e até as notas finais. :D

Ao abrir os olhos na manhã seguinte, acostumando-me aos poucos com a claridade indesejada, peguei meu celular sobre o criado mudo e vi que já passavam das dez horas. Virei a minha cabeça preguiçosamente para trás, encontrando Samara num sono tranquilo e com o corpo colado ao meu; seu braço envolvia minha cintura carinhosamente, enquanto sua respiração batia com suavidade em minha nuca, provocando profundos arrepios em minha espinha.

Tomei o cuidado para não fazer movimentos bruscos e acordá-la ao me virar por completo, ficando de frente para ela. Levei minha mão ao seu rosto, acariciando-o enquanto tirava algumas mechas teimosas de cabelo que cobriam seus olhos. Encostei meu nariz nas maçãs de seu rosto, deslizando-o por toda a extensão enquanto aspirava aquele odor delicioso com prazer; havia sentido muita falta daquele contato, daquela pele dourada e macia... Daquele cheiro de mulher!

— Em... — Sussurrou roucamente, ainda de olhos fechados. — Isso faz cócegas.

Parei com as leves carícias que meu nariz fazia em sua pele quase de imediato, sorrindo fraquinho enquanto Samara se aconchegava em meu corpo o máximo que podia. Estávamos com pouquíssimas roupas e o contato de nossas peles tornava qualquer tipo de carinho em potenciais estímulos — ainda mais depois de termos passado tantos dias sem nos tocarmos.

— Eu te acordei, não é? — Depositei um beijo casto em seus lábios. — Desculpe, não pude me controlar. — Afundei meu rosto em seu pescoço, aspirando seu cheiro deliciosamente natural outra vez.

— Eu não estava reclamando. — Ela disse, sorrindo. — Na verdade, estou longe disso. Se eu pudesse escolher, acordaria todos os dias desse jeito; com você nos meus braços e, de preferência, completamente nua. — Sussurrou sedutoramente, deslizando sua mão pelas minhas costas até os meus glúteos por cima da calcinha.

Deixei uma risadinha suave escapar, deleitando-me com seus toques ousados. Em seguida, arrastei meu rosto pelo seu e busquei sua boca lentamente, provocando-a da melhor maneira que pude. Depois de ontem, tudo parecia certo, resolvido. Eu a queria e estava mais do que claro que Samara também me queria. E apenas a mim.

Num ato de puro reflexo, não resisti aos meus desejos reprimidos, que durante esses dias em que ficamos afastadas me causou uma dolorosa abstinência, e tomei seus lábios nos meus num enlace cheio de saudade e reconhecimento. Estávamos, portanto, naquele momento de puro encantamento, onde nossas línguas tão docemente mantinham sempre a mesma harmonia e dedicação. Éramos uma só novamente.

— Srta. Fields, — Começou quando me afastei devagar, brincando com alguns fios de seu cabelo com um sorriso no rosto. — Permita-me dizer que você é a minha mais feliz coincidência. — Samara proferiu; tão polidamente e tão cheia de convicção em suas doces palavras!

— Sam... — Suspirei profundamente, desistindo de tentar dizer qualquer coisa sequer.

Aquele momento parecia real e precioso demais para ser arruinado com palavras despreparadas. Queria aproveitar o silêncio confortável entre nós duas, salvo apenas as nossas respirações calmas e profundas em decorrência do puro contentamento, como também queria me embriagar com o cheio de sua pele e me aconchegar ainda mais naquele corpo quente e delicado.

Embora muito envolvida para ter a mínima noção de qualquer coisa que não fosse Samara, meu celular sobre o criado mudo apitou fervorosamente. Precisei de alguns segundos para conseguir alcançá-lo sem me desgrudar dela, sendo atingida por um leve sobressalto ao perceber que já passavam das onze da manhã.

— Estamos atrasadas. — Tentei me desvencilhar de seu abraço um pouco a contragosto, sentindo-a me apertar ainda mais contra ela. — Ei, é sério. Eu tenho alguns compromissos hoje e aposto que você também.

Subitamente, seus olhos se abriram depressa. Podia ver sua resistência em afrouxar o aperto, fato esse que me amoleceu por completo antes mesmo de vê-la ceder. Alguns segundos em silêncio e senti a mão espalmada de Samara deslizar pela minha coxa lentamente, num gesto amável e cabisbaixo.

— Todos os meus compromissos hoje se resumem unicamente a ficar com você. — Sussurrou como quem contava um segredo, beijando a ponta do meu nariz afetuosamente. — Mas estou longe de querer exigir qualquer reciprocidade, principalmente porque não estou em posição para isso. — Seu semblante, de repente, ficou sério. — No entanto, gostaria muito que ficasse comigo hoje. Eu quero conversar com você sobre...

— Sam... — Toquei seu rosto suavemente, não a deixando terminar. — Eu tive um vestido destruído ontem por sua causa. — Lembrei, rindo daquela situação embaraçosa.

— Em, eu sinto tanto por isso! — Inesperadamente, Samara se ergueu depressa, sentando-se na cama e ficando de frente para mim. — Aquilo não deveria ter acontecido... Madison não podia ter descontado em você a raiva que ela sente por mim. Eu prometo tentar recompensá-la por isso! — Garantiu com o rosto lívido, tomando minha mão na sua delicadamente.

Por um instante inteiro, fiquei sem dizer nada, apenas observando seus cabelos despojados, suas bochechas coradas e seus olhos azuis arregalados. Olhei para as nossas mãos e as encarei por alguns segundos, tentando buscar em minha mente um dia em que eu tenha notado algo de diferente em seu comportamento. Ela nunca me dera motivos para desconfiar de sua aparente boa conduta.

— Você ficou ao meu lado ontem. — Murmurei quase inaudível. — Não esperava que fosse se manifestar... Que fosse me defender daquele jeito!

De repente, todas as ideias estavam frescas e resolutas em minha mente; lembrava-me, portanto, com clareza das vezes em que tive Samara tão perto a ponto de vê-la de aliança, se fosse realmente o caso. Mas nenhuma marca no dedo anelar a denunciava! Quanto tempo ficaram separadas, afinal? Essa foi a pergunta que tão furtivamente escapuliu dentre meus lábios antes mesmo que eu pudesse impedir que tal pensamento se formasse.

— As minhas intenções com você sempre foram puras e sinceras. — Começou delicadamente, aproximando-se. — Eu nunca quis enganá-la, ou mesmo esconder particularidades indesejáveis de meu passado... Antes de vir à Rosewood a pedido de minha mãe, estive em Londres por alguns dias; os motivos me envergonham e não faz jus à minha estimável conduta. Neguei você no começo, Em. Não acreditava que estivesse realmente atraída por mim. — Muito rapidamente; era assim que as palavras saíam de sua boca: confusas, não profusas.

— O que aconteceu em Londres? — Quis saber, sentindo meu coração apertar.

— Caroline. — Ela disse, puxando a minha mão com um pouco de força. — Preciso que entenda, Em, que o que estou para lhe contar é embaraçoso demais; receio profundamente que sinta repulsa de mim depois disso, mas tenho plena certeza de que não se sobressairá a minha própria. — Alertou-me, ajeitando-se na cama enquanto eu me sentava para poder encará-la.

Samara sorriu desencorajada, mas inspirou longamente e tomou meu silêncio hesitante como um incentivo indireto, prosseguindo com a voz relutante e magoada:

— Caroline e eu tivemos uma aventura antes de nos casarmos; éramos muito amigas e eu me apaixonei. Ela, no entanto, preferiu se estabelecer com meu pai quando completou dezenove anos. Sofri um bocado, admito, mas não tanto quanto minha mãe. Nunca fomos próximas, isso não mudou agora, porém era natural que meu coração consternasse um pouco diante do sofrimento que eu a via passar e nada dizia a respeito de Caroline trocar com constância a cama de meu pai pela minha. Ela sabia e nunca me disse nada. Sabia o tempo todo! — Pausou por alguns momentos, afetando-se com as prováveis reminiscências que o relato a infligia. — Tudo entre nós teve fim quando ela aceitou se casar com James Cook; fui embora de Londres três dias após a oficialização do noivado, enquanto minha mãe se estabelecia com Charlotte em Nova Iorque, fazendo visitas à Irlanda de vez em quando como forma de consolo. Havia terminado o colégio, então me foquei em obter uma boa formação na Austrália, que era longe o bastante de toda a minha família; estava, portanto, sozinha, até que conheci Melanie. Devo admitir que muito dos meus conhecimentos sobre arte e literatura provém de sua alegre disposição em compartilhar tudo o que sabe. — Outra breve pausa, seguida de um riso amargurado.

— Por que está me contando tudo isso? — Consegui perguntar, escutando a minha voz sair estrangulada.

— Errei uma vez em esconder meu casamento de você, agora que tenho a oportunidade, contarei tudo o que um dia me tirou a paz... Mesmo que isso signifique perdê-la de vez. — Estacou apenas para se recuperar da ideia, fixando seus olhos acinzentados, marcados pelo desespero conturbado.

— Vá em frente. — Assenti com a cabeça, prevendo que logo eu me arrependeria de querer saber tanto; embora possuir infinito apreço pela sua obstinação, mostrava que seu interesse por mim era, no final das contas, genuíno.

— Madison foi uma triste e lamentável coincidência. Nos conhecemos através de Pierre, num aprazível desfile de Alexander McQueen, o último de toda a sua curta vida; ficamos amigas desde aquele momento e, durante muito tempo, não tive a menor intenção de elevar aquela amizade a outro nível... Porém, tudo entre nós aconteceu muito rápido e só percebi o grau de compromisso que tínhamos quando Caroline surgiu em minha vida outra vez, alegando ter sentido a minha falta. Ela tentava me convencer de que me amava e que só se casou com meu pai por pura conveniência. Não acreditei em uma só palavra do que ela dizia e a expulsei de minha vida sem sentir meu coração pesar. — Revelou-me, vez ou outra deixando os olhos caírem para nossos dedos agora entrelaçados.

Mantive-me atenta e, ao mesmo tempo, receosa em todas as suas linguagens corporais. Tentava a todo custo impedir os nós que se formavam em minha garganta. Estava abalada demais para sequer me mover ou pedir para que ela parasse; não tinha certeza de quanto mais poderia ouvir de tudo o que ela tinha a me dizer, assim como também não sabia se queria realmente saber o que tanto a contorcia por dentro.

No entanto, ela prosseguiu e eu não a impedi:

— Casei-me com Madison meses depois; éramos felizes no começo, como deveríamos ser, mas então ela se transformou completamente quando Caroline veio atrás de mim, dizendo que se separaria de meu pai se isso significasse que ficaríamos juntas novamente, que estava disposta a jogar tudo o que conquistou para o alto por mim. Eu, logicamente, contei tudo a Madison e me certifiquei de deixar bem claro a minha resposta negativa àquela proposta absurda. Mas, ao invés de fortalecer a união dos nossos laços, tudo começou a ruir; começaram os frequentes ciúmes, as demonstrações de agressividade, as desconfianças...

Agora, uma pausa mais longa e cheia de minúcias sobre o conflito imensurável pelo que estava passando. Era tão óbvio, e admirável, que Samara estivesse se ferindo outra vez ao ousar trazer as memórias de volta em fatos narrados, abrindo-se sobre desagrados que poderiam ter abalado seriamente seu espírito firme e delicado. Mas que, mesmo assim, não o fez.

— Ela é modelo, sempre teve pessoas ao seu redor, paquerando-a, querendo-a, e estava constantemente jogando isso na minha cara, apontando diversos colegas de trabalho que a chamavam para sair e que, portanto, podia me deixar a qualquer momento. Ela mexia nas minhas coisas, procurando por indícios de traição, mentira ou qualquer coisa que viesse a ser uma prova contra a minha lealdade a ela. Estava tão cansada daquilo. Separei-me dela duas vezes, sem sucesso, porque, com insistência da parte dela e juras de que iria mudar seu comportamento obsessivo, nós voltávamos e ficávamos bem por alguns meses.

Coloquei minha mão em seu ombro, enchendo-a de todos os tipos de encorajamento e força enquanto ela falava. Estava perfeitamente ciente de que nada do que ela me contasse atenuaria meu profundo afeto por ela. Minha confiança nela esteve abalada, é verdade, mas eu não teria escrúpulos se não aceitasse suas mais enérgicas desculpas e explicações num ato tão desesperado e esperançoso de se redimir e, por consequência, ter-me de volta.

— No entanto, tudo começava de novo, fazíamos terapia e nada resolvia... Até que, depois de seu último surto, do último momento embaraçoso em que me colocou, resolvi largá-la sem aviso prévio na Irlanda. Voltei à Londres, instalei-me por poucos dias na mansão da família de Melanie e fiquei sabendo através dos mexericos das empregadas que Caroline estava hospedada num hotel próximo, de extremo luxo e requinte, aproveitando alguns dias longe do marido e seus negócios. — Suspirou, acariciando levemente a marca que os laços da pulseira que ela havia me dado fizeram em meu pulso, resultado de eu ter dormido sem tirá-la.

— Samara... — Tentei falar, mas ela me olhou com profundo ressentimento.

Atrevi-me a analisar outra vez sua tez dourada, seus cabelos que, agora, pareciam em perfeita ordem. Externamente, expressava calmaria e tenro pesar, mas, por dentro, eu podia garantir que ela estava num inferno pessoal e oscilante de emoções.

Samara abriu a boca, fechando-a algumas vezes com o que parecia um início de resignação. Ali, naquele momento, tive a mais resoluta certeza de que o que ela estava prestes a dizer seria a definição de tudo o que temia que eu soubesse.

— Eu fui atrás dela, Emily; bati em sua porta e deixei todos aqueles sentimentos antigos retornarem em brasa a partir do momento em que fui pessoalmente atendida por ela. Deixei que a mágoa por um casamento frustrado me guiasse naquele momento de tormento; dei vazão à paixão que fui obrigada a esmagar dentro de mim. — Pausou rapidamente, tomando um último gole de fôlego para, então, prosseguir de onde parou, energicamente: — Tivemos uma noite intensa e que se repetiu pela manhã, mas que, depois, fiz questão de apagar de minha mente. Era vergonhoso demais! Sentia-me tão desmoralizada e sem rumo, como se todos por quem eu passasse estivessem me olhando e me julgando, sabendo exatamente o meu pecado, a minha falha! Mas não enxergava, não entendia, que a minha dívida maior era comigo mesma, com a minha consciência; a que eu havia traído!

Ao final, tudo o que fui capaz de fazer foi abaixar a cabeça, sentindo-me muito entorpecida e estupefata para arriscar qualquer sentença desestruturada. Estava chocada demais, é verdade, mas, talvez por falta de determinados escrúpulos, via-me incapaz de condená-la; não era necessário, pois, quanto a minha afeição, nada mudara. Era, portanto, um pouco parecida comigo mesma.

— Acha mesmo que eu tenho o direito de sentir repulsa de você? — Consegui dizer calmamente, sem ousar erguer o olhar. — O que você fez... Nada do que fez se compara às coisas que eu fiz. Você sabe, não é? Tem ciência de muitas delas, porém não todas, e nunca apontou o dedo para mim ou para as minhas amigas; começou a ficar comigo e se aproximou de Hanna mesmo sabendo que, discretamente, não somos muito bem vistas na cidade.

Agora, muito serenamente, percorria com os olhos cada traço delicado de seu rosto; o bonito formato de seus lábios, as constantes expressões suaves abaixo de seus olhos, os cílios longos, a cútis levemente corada e de extrema simpatia genuína. Aquela cútis que, sempre tão naturalmente, brilhavam!

— Eu gosto de compreender antes de julgar. — Foi a sua tímida e sussurrada resposta. — Já passei da fase de me importar com a opinião de terceiros, principalmente ser influenciada por elas; tenho perfeito zelo pela minha boa qualidade de discernimento e jamais deixaria que me persuadissem. No entanto, sei muito bem que não é da condição humana procurar compreender antes de atirar a primeira pedra.

Assenti devagar, extasiada pelas suas bonitas palavras; aquela delicadeza de caráter se mostrava tão resoluta a cada instante que eu passava a conhecer melhor. Sua vida estava longe de ter sido um perfeito modelo de felicidade; querendo ou não, Samara também tivera seus dias de labuta e tribulação e a decisão, como todo o crédito, de torná-los motivos de firmeza e fortalecimento de caráter e espírito, podia dá-los somente a ela.

— Quanto a mim... — Tornou decidida, porém incapaz de prosseguir com o que estava prestes a dizer por conta da minha maneira abrupta de me lançar sobre ela.

Tomei seu rosto com as duas mãos e a beijei profundamente, passando meu braço direito em torno de seu pescoço devagar. Estávamos desperdiçando preciosos minutos nos ocupando com lamúrias de coisas que fizemos e que, por estarem no passado, não podemos voltar e mudá-los.

— Em... — Ela protestou, mas não hesitou em serpentear os dois braços ao redor da minha cintura, abraçando-me com firmeza. — Eu juro que não estou reclamando, mas...

— Mas nada. — Afastei meus lábios apenas para conseguir falar com clareza. — Eu não me importo com o que fez antes de me conhecer, só dou importância ao presente. Se quiser ficar comigo, fique apenas comigo e desapegue-se dessas memórias corruptivas. Elas são perigosíssimas para um relacionamento. — Orientei com a prudência que nunca pensei possuir.

Samara não disse mais nada, pareceu ligeiramente surpresa e deliciada com minha determinação e me beijou delicadamente, sussurrando palavras doces e promissoras a cada toque suave e cheio de encanto. Entre beijos, deitamo-nos na cama.

— Vamos apenas ficar juntas; aproveitar esse tempo que temos antes de eu ser obrigada a vê-la partir. — Sussurrei contra sua boca, mordendo-a levemente.

Afastei meu rosto um pouco, observando seus cabelos loiros espalhados pelo lençol de seda que contrastava tão bem com sua pele dourada e macia. Peguei suas mãos, impedindo-as de continuar vagando pelas minhas costas, e as coloquei no alto de sua cabeça; estava tão ansiosa por cada toque que não perdi tempo e logo tratei de tirar sua blusa às pressas.

A visão que tive de seus seios expostos me deleitou profundamente, fazendo-me inclinar sobre ela outra vez e beijá-la com voracidade. Suas mãos voltaram quase de imediato às minhas costas, apertando-me contra seu corpo. Então, num movimento ágil e decidido, reverteu a nossa posição, ficando por cima.

Com um sorriso que mostrava decência e gentileza, puxou o pano de minha camiseta pelos meus braços, retirando-a completamente do meu corpo num instante. Samara estendeu a mão para mim, fazendo sinal para que eu a aceitasse e, quando eu o fiz, ela me ajudou a ficar de frente para ela, e de joelhos.

— O que está fazendo? — Perguntei quando ela me envolveu com os seus braços, colando nossos corpos seminus devagar e com cuidado.

— Eu estou relembrando a nossa primeira vez. — Respondeu, depositando beijos suaves por toda a extensão do meu maxilar. — Vamos, relembre comigo, amor.

Sem dizer nada, escorreguei meus dedos pelas laterais de seu corpo, arrastando as unhas em sua pele enquanto descia com meus lábios pelo seu pescoço, colo, seio e abdômen... Deslizei minha língua mais abaixo de seu umbigo, afastando sua calcinha para um pouco mais de acesso a sua intimidade. Samara suspirou, acariciando meu braço devagar.

— Em... — Ela gemeu baixinho quando me aproximei ainda mais, agarrando o elástico de sua calcinha e deslizando pelas suas coxas.

— Sam... — Beijei a pele exposta vagarosamente, sentindo seus dedos enroscarem em meus cabelos.

Com apenas um movimento, ela terminou de tirar sua última peça e me puxou para si, fazendo o mesmo comigo. Logo, estávamos as duas completamente livres de qualquer empecilho, e o que eu mais queria naquele momento era senti-la outra vez. Puxei seu pescoço para mim, tomando seus lábios nos meus com certa urgência. Devagar, fiz com que ela deitasse na cama, ficando por cima, pressionando nossos corpos conforme o beijo ganhava forma e intensidade.

Não tardou e Samara logo inverteu nossas posições, distribuindo beijos e mordidas por todo meu corpo, até chegar onde eu tanto desejava; abriu as minhas pernas devagar, atiçando-me com sua língua quente e aventureira, sorrindo vez ou outra com todos os meus gemidos de súplica. Sentia-me extremamente úmida e necessitada... Precisava que ela me tomasse!

Sem conseguir se conter por mais meio segundo, ela não hesitou ao escorregar sua língua lentamente pelo meu sexo rígido e pulsante, forçando até a minha cavidade. O gemido rouco e deleitoso que lhe escapou não me passou despercebido, pois se seguiu ao meu. Apoiei-me nos cotovelos para poder observá-la, ficando ainda mais excitada com a visão de Samara sugando meu sexo e, vez ou outra, mordendo com cuidado para não me machucar.

Peguei sua mão ao lado da minha e a coloquei próximo ao meu estômago, enquanto movimentava meu quadril contra a sua língua quase involuntariamente. Rapidamente, senti as paredes de minha intimidade se fechar, fazendo-me arfar. Samara logo se apressou em afastar sua boca, escalando meu corpo de volta. Ela tomou as minhas mãos nas suas, ignorando meu protesto em forma de palavras mal articuladas, colocando-se entre minhas pernas com certo cuidado.

— Abre mais. — Pediu baixinho, e eu prontamente a obedeci.

Ela levou as nossas mãos entrelaçadas ao alto de minha cabeça, gemendo roucamente ao colar nossos corpos e pressioná-los com ardor. Sua excitação estava tão palpável, e tudo o que eu imaginava era em juntá-la à minha. Tentei movimentar minhas mãos, pensando em explorar cada pedaço de seu corpo macio, mas sem sucesso. Samara se ajeitou ainda mais entre minhas pernas, fazendo agora nossas intimidades entrarem naquele contato íntimo e tão esperado por mim; o gemido rouco que escapou de ambas as bocas foi inevitável!

Devagar, Samara foi se movimentando em cima de mim, pressionando nossas peles, nossos lábios e nossos sexos intumescidos. Os gemidos se misturavam num único som, assim como nossas crescentes umidades, pois, naquele momento, éramos uma só.

— Mais rápido... — Minha voz saía quase inaudível, abafada pela boca de Samara na minha.

Ela empurrava sua língua contra a minha, puxando, vez ou outra, meu lábio inferior com força entre os dentes. Podia sentir toda a sua excitação na maneira que me olhava, misturando lascívia e admiração, ou nos sons guturais que lhe escapavam e que tanto me serviam de estímulo. Seus movimentos, portanto, tomaram velocidade exorbitante conforme o barulho dos nossos corpos em constante atrito, assim como nossos sexos encharcados, mostrava-se cada vez mais sonoro.

Aos poucos, suas mãos foram escorregando das minhas, dando-nos a liberdade para que as deixássemos seguir seus cursos naturais e instintivos. Apertei minhas unhas em suas costas, descendo-as até suas coxas e as pressionando com força. Ela deixou um suspirou de prazer escapar, deslizando sua mão esquerda até o meu seio, enquanto sugava meu maxilar com veemência.

— Consegue sentir? — Gemeu próximo ao meu ouvido. — Estou tão perto...

Tomei seus lábios nos meus quase instintivamente, sentindo o efeito ardente de suas palavras... Naquele sotaque! Não precisei de muita agilidade para conseguir inverter nossas posições, desfazendo nosso contato tão íntimo e precioso.

Antes de dar a ela a chance de se recuperar para poder resmungar, comecei a distribuir beijos pelo seu colo, abocanhando seu seio logo em seguida. Usei toda a minha força de vontade para não prolongar as carícias ali, suspirando quando seu mamilo rosado enrijeceu com o contato suave de minha língua. Samara não ficou muito atrás, e eu logo desci com meus lábios pelo seu abdômen, sugando a pele avidamente até chegar à sua intimidade encharcada.

Fiz exatamente como ela havia feito comigo, deslizando minha língua calmamente pelo seu sexo inchado, ao passo em que provocava deliciosos gemidos de satisfação nela. Pude senti-la abrir um pouco mais as pernas conforme se apoiava sobre os cotovelos, ajudando-me com o ritmo ao balançar o quadril. Samara segurou meu cabelo cuidadosamente, enrolando-os entre os dedos.

— Em, minha menina... — Ela gemia, jogando a cabeça para trás. — Continue assim.

Sorri fracamente antes de deixar minha língua escorregar com facilidade em sua entrada, fazendo movimentos precisos e velozes enquanto apreciava o gosto de mulher que Samara possuía, e que também me fascinava. Gemi roucamente, acrescentando dois dos meus dedos a sua cavidade, movimentando-os num ritmo acelerado e certeiro.

Com isso, eu sabia que ela estava muito próxima de chegar ao ápice, gemendo alto e sem pudores, enquanto eu a levava a um caminho de sensações explosivas. Foi preciso, portanto, apenas mais algumas investidas bruscas, resultando nas intensas vibrações de seu corpo e no som gutural que saiu de seus lábios, alto e agudo. Retirei meus dedos devagar, mantendo a boca no mesmo lugar; o gosto de seu orgasmo tomando o controle do meu paladar.

— Emily... — Samara soltou o ar que parecia estar segurando; a respiração pesada e entrecortada a impediu de formular algo a mais.

Devagar, fiz o meu caminho de volta para ela, trilhando seu corpo com beijos molhados e ternos. Parei apenas por um instante, explorando o vale de seus seios com divertido interesse enquanto ela se acalmava. Por fim, dei uma mordiscada em seu mamilo, fazendo-a suspirar.

— Então... — Sussurrei, direcionando meus lábios até os seus, beijando-a calmamente. — Está orgulhosa da sua menina? — Ri baixinho, roçando nossos narizes num gesto afável; estava satisfeitíssima comigo mesma.

— Ah, você sabe, não foi nada mal. — Deu de ombros, apertando suas mãos espalmadas nas minhas costas. — Agora, venha aqui. — Ela se aproveitou da minha distração para nos girar, trocando nossas posições agilmente e ficando, portanto, em cima de mim.

— Você acabou de me desdenhar... — Tentei protestar, mas seus lábios se chocaram contra os meus, movendo-se determinadamente.

Samara segurou as minhas duas mãos, impedindo-me de tentar afastá-la ou qualquer coisa do gênero. Porém, quando ela relaxou os músculos, não tive dúvida quanto a envolver meus braços ao redor do seu pescoço, completamente entregue aos seus beijos e carinhos. Seus lábios tão macios roçavam contra os meus, mordendo-os de vez em quando. Era mais uma brincadeira deliciosa do que qualquer outra coisa.

— Perfeita! — Ela sussurrou, sorrindo durante nossos beijos ardentes. — Você foi perfeita.

Suspirei longamente quando seus lábios começaram a explorar meu pescoço, sugando-o com veemência. Enrolei os fios de seu cabelo entre meus dedos, puxando-os levemente conforme a força com que ela mordia e chupava minha pele aumentava gradativamente. Ao contrário de mim, Samara não estava satisfeita.

— Sam, eu estou seriamente precisando de um banho. — Avisei ao senti-la descer seus lábios com determinação pelo meu abdômen.

— Mas ainda não acabamos. — Ela se moveu devagar até chegar ao meu joelho, acariciando-o e o beijando delicadamente.

— Eu sei que não, mas um banho seria ideal agora. — Argumentei, sentindo a necessidade de tirar aquele suor de sexo matinal que percorria partes do meu corpo, assim como os vestígios de vinho que pareciam não ter saído de mim ontem.

Por fim, suas carícias foram cessando e ela se afastou, deitando-se ao meu lado muito a contragosto. Respirei fundo e virei minha cabeça para o lado, segurando seu queixo com firmeza e a beijando longamente antes de me levantar para correr em direção ao banheiro. Havia tido uma semana tão puxada e o cansaço estava começando a aparecer, mas claro que era apenas o começo, ainda precisava estudar para as minhas provas finais e não estar com ânimo para isso estava me matando.

Enquanto pensamentos aleatórios e de obrigações passavam por minha mente, a água quente e pesada batia contra as minhas costas deleitosamente quando fui surpreendida por Samara me abraçando por trás. Ela segurava a minha cintura com uma mão, ao passo em que a outra apertava meu seio esquerdo com vontade.

— Sam... — Suspirei aliviada, soltando o ar que estive segurando em meus pulmões sem perceber. — Eu tenho que admitir, sua tenacidade me surpreende. — Sorri de canto, colocando as minhas mãos sobre as suas.

— Eu não consegui resistir ao ímpeto de possuí-la debaixo do chuveiro. — Sussurrou com a voz enfraquecida pela provável excitação, pressionando os nossos corpos ardentemente. — As imagens que meu cérebro projetava do seu corpo molhado quase me enlouqueceram, Em.

Fechei os olhos subitamente, sentindo-me embriagada pelo desejo explícito em suas palavras. Era tão notório a nossa evolução como um casal; tão íntima e libertina! Mais algumas sílabas sussurradas contra a minha pele e eu já estava com as costas encostadas firmemente na parede de vidro do box, com Samara pressionando nossos corpos o tempo todo.

Sua boca sedenta sugava meu seio avidamente, apertando com força minhas coxas enquanto o jato de água quente caía sobre as suas costas, molhando nós duas. Num movimento rápido e brusco, ela abriu as minhas pernas e, sem aviso prévio, deslizou seus dedos em minha entrada com força. O gemido alto e agudo que escapou de minha garganta sem eu ao menos perceber foi abafado pela sua boca, movendo-se vorazmente contra a minha e, portanto, seguindo o ritmo alucinante em que investia seus dedos em mim.

— Tão gostosa... E apertada! — Gemeu; a voz rouca e arrastada, diminuindo a velocidade quando percebeu as paredes de minha intimidade se fechando. — Mais rápido, meu amor? — Ela provocou com um sorriso estonteante, baixando os olhos para os seus dedos, que entravam e saíam devagar de dentro de mim.

— Mais rápido... — Apoiei meus braços em seus ombros, segurando seus cabelos molhados entre os dedos. — Por favor! — Insisti ao perceber o delírio que os seus olhos escuros e brilhantes apontavam ao me torturar daquela maneira.

— Aguenta só mais um pouquinho.

Dito isso, ela se abaixou, ficando de joelhos para mim, e abriu ainda mais as minhas pernas, tocando-me com sua língua quente e faminta. Minhas pernas bambearam quando seus dedos começaram a fazer maior pressão em minha cavidade, fazendo-me gemer audivelmente enquanto arranhava seus ombros. A sincronia com que sua língua e seus dedos se moviam era perfeita.

Em instantes, eu estava mais próxima de atingir o orgasmo do que nunca; minhas pernas começaram a fraquejar e meu corpo convulsionou instantaneamente. Finquei minhas unhas na nuca de Samara, arrastando-as pelo seu pescoço enquanto sensações abrasadoras varriam cada centímetro do meu corpo.

Samara ergueu-se rapidamente quando meu equilíbrio falhou, segurando-me com firmeza em seus braços. Ela pressionou nossas peles o máximo que pôde, beijando-me nos lábios delicadamente no intento de me acalmar. Minha respiração, assim como a dela, continuava pesada e extremamente difícil. Permanecemos em silêncio por alguns instantes, apenas nos recuperando e deixando que a água, antes insuportavelmente quente, caísse sobre nossos corpos exaustos.

— Acho que agora nós podemos tomar banho. — Suspirou, sorrindo amplamente enquanto afastava alguns fios de cabelo grudados em minha testa.

Minhas pernas ainda estavam dormentes e meu coração batia fora de ritmo. Samara me puxou para junto dela, ajeitando-nos confortavelmente sob o jato de água morna que caí em nossas cabeças. Seus braços envolviam minha cintura com firmeza, enquanto sua boca vagava pelo meu pescoço, subindo até meu maxilar e buscando os meus lábios.

— Você não cansa de me beijar? — Perguntei, rindo fraquinho em meio ao nosso beijo demorado.

— Nunca. — Foi a sua terna e sincera resposta.

Assim que terminamos de tomar banho, me sequei e coloquei um dos pijamas confortáveis de Samara, enquanto ela vestiu uma de suas sedutoras camisolas de seda. Fomos para o andar debaixo fazer alguma coisa para comermos, mas todo o trabalho ficou para ela, visto que desisti de ajudá-la no momento em que me joguei no sofá branco de sua nova sala de visitas.

A nova e impecável mobília era uma mistura agradável de branco com cinza; o sofá parecia três vezes maior do que o antigo e também muito mais confortável, o que antes julgava ser impossível. As cortinas das janelas estavam escancaradas, permitindo que a luz adentrasse todo o cômodo e perturbasse meus adoráveis olhos negros. Uma vez deitada entre as inúmeras almofadas do sofá, seria de extrema dificuldade levantar apenas para fechá-las. Portanto, assim permaneci até Samara aparecer no batente da entrada quase uma hora depois, trazendo uma bandeja com nossos pratos nela.

Não havia percebido que estava tão faminta até que o cheiro de macarronada invadiu minhas narinas rapidamente. Ela se sentou ao meu lado, olhando com curiosidade para a sua novíssima televisão, que ocupava boa parte da parede.

— O que houve? Pensei que fosse assistir a alguma coisa enquanto eu estivesse na cozinha. — Ela disse, pegando um dos controles que descansavam ali perto. — Aqui. Coloque no canal que quiser. — Entregou-me com um sorriso no rosto, o qual eu aceitei sem dizer nada. Estava sonolenta demais.

Repousei meu prato em cima do meu colo, mudando os canais sem ao menos piscar. Não havia nada de interessante passando na televisão naquele horário, o que me fez optar por assistir alguma coisa em DVD. Ao ligá-lo, percebi que já havia um filme passando e, por conta das roupas e do tipo de linguagem, parecia ser bem antigo.

— Que filme é esse? — Perguntei quando Samara parou de comer para olhar para a televisão.

— Não é um filme. — Ela riu. — É uma série britânica, Downton Abbey. Nunca ouviu falar?

— Ah, sim! Já ouvi falar, mas nunca cheguei a ver uma cena. — Dei de ombros, prestando atenção nas roupas engraçadas que os personagens usavam e na forma como elas se portavam. — Não sabia que gostava disso. — Comentei vagamente, mas claro que não era nenhuma surpresa para mim.

Samara normalmente usava a maior parte daquelas palavras difíceis e quase ininteligíveis, assim como a maneira de exprimir seus sentimentos; com bastante decoro e profundidade. Sua postura era sempre tão formal e cuidadosa. Ela era uma perfeita dama, como os ingleses costumam dizer.

— É a minha série favorita, na verdade. — Ela sorriu contidamente, sem tirar os olhos da cena que se desenrolava enquanto comíamos. — As roupas são incríveis, não é? — Agora sua atenção estava voltada para mim; suas íris azuis repletas de admiração e contentamento e, por mais que eu não concordasse, não tive escrúpulos para dizer o contrário.

Com isso, comemos a deliciosa macarronada que ela havia feito em perfeito silêncio, apreciando um dos vinhos da coleção de Samara após o término do restante do episódio e, portanto, da refeição. Ela tentou me ensinar como diferenciar os vinhos de acordo com o sabor de cada um, mas receio ter falhado em todos os testes.

Passamos o restante da nossa tarde daquela forma; conversando sobre todos os assuntos possíveis, revezando os lugares em que fazíamos amor naquela casa grande e tirando leves cochilos entre todas as nossas atividades. Estávamos aproveitando cada minuto antes de Samara ter de partir e, infelizmente, esse dia não se demorou.

Hanna e eu a levamos ao aeroporto na manhã de segunda-feira, dia dois de junho. Ficamos sentadas uma do lado da outra no saguão de espera; as duas de óculos de sol para esconder as olheiras de uma noite mal dormida. Hanna lamentava com sincero pesar a falta que Samara e os seus sapatos fabulosos fariam a ela. Claro que eu não precisava comentar a imensa saudade que eu sentiria dela. Seria ridículo; havíamos concordado que ficaríamos juntas enquanto pudéssemos e resolveríamos o resto quando fosse o momento certo, isto é, quando estivéssemos as duas em Nova Iorque.

— Han, tome conta dela por mim. — Samara pediu à Hanna depois que se abraçaram, vindo em minha direção para me agarrar outra vez antes de partir.

— Você nem precisa pedir. — Hanna riu, abaixando a cabeça levemente enquanto Samara me abraçava uma última vez.

— Não demore. — Ela sussurrou no meu ouvido. — Eu estarei esperando por você. — E foi tudo o que ela disse antes de embarcar no avião que a levaria para outra cidade, a mais de duas horas de distância de mim.

No entanto, apesar de todas as tentativas de manter meus pensamentos positivos e longe de qualquer melancolia possível, era meio difícil de controlar as emoções que surgiam conforme os dias passavam; tristes e vazios, em sua grande maioria. Meu coração nunca deixou de consternar ao menos um pouquinho a cada vez que as memórias dos últimos dias que passamos juntas vinham à tona.

Samara esteve comigo o tempo todo; nunca deixou de estar em meus pensamentos diários enquanto me preparava para as minhas provas finais, ou no dia de minha formatura, onde eu encerrei um importante ciclo em minha vida. Nesse dia, ela havia estado ocupada com reuniões turbulentas, mas não deixara de me ligar quando teve a chance, dizendo o quanto sentia a minha falta e todas aquelas palavras repletas de ternura e amabilidade que lhe eram tão naturais.

As minhas férias também não haviam sido diferentes, apesar de não termos nos falado mais a partir daquele dia. Por algumas semanas, acreditei fielmente que ela não queria estragar a minha diversão com ligações ou coisas do gênero, mas depois me desprendi de qualquer console que me coubesse; a ideia de que talvez ela tenha encontrado alguém melhor e com uma maturidade compatível com a dela me assombrava todos os dias.

A verdade era que Samara era boa demais para mim, uma vez que, desde que Ali se fora, eu havia mudado bruscamente; meu caráter não era mais tão correto como costumava ser até antes de a verdadeira Alison DiLaurentis voltar e me devastar outra vez. Não tinha o que me lamentar, porém, visto que agora era uma questão de crescimento. Estava feliz e satisfeita com a malícia que adquiri com o correr dos anos e, no final, era realmente tudo o que importava.

Em Nova Iorque, Aria e eu tentávamos nos habituar com o ritmo frenético da cidade enquanto nos preparávamos de todas as formas para começar a nos adequar com nossa nova rotina na universidade. Hanna, por outro lado, parecia ter nascido para viver aqui, cercada por tendências e pessoas bonitas. A faculdade de FIT que ela cursava ficava a poucos quarteirões de distância do nosso campus, o que facilitava muito as coisas para nós três.

— Aquele cara ali não parou de olhar para você desde que chegamos. — Hanna comentou, apontando discretamente para um homem de roupa social que estava sentado numa mesa do outro lado da cafeteria.

Ele aparentava estar entre os seus trinta e dois ou trinte e três anos; cabelos negros como a noite, olhos igualmente escuros e um bonito e invejável porte atlético. Desde que cheguei à cidade, fazia questão de prestar atenção em cada indivíduo.

— Acho que ele está olhando para você. — Retorqui, dando de ombros logo em seguida. Não era realmente do meu interesse.

Encarei a tela do meu celular, checando as horas e constatando que Aria estava atrasada. Ontem, após conversamos nós três com Spencer pelo Skype, havíamos combinado de nos encontrar na cafeteria antes de irmos juntas para a universidade. Spencer já se encontrava muito bem instalada nos aposentos de Princeton e, aparentemente, não poderia estar mais feliz por finalmente se ver livre de sua família conturbada ao entrar na universidade que sempre cobiçou mais do que os namorados de Melissa.

— Agora vamos descobrir para quem aquele bonitão está olhando. — Hanna se aproximou, sussurrando com a voz cheia de malícia. Ela pegou suas coisas na cadeira livre ao seu lado e se levantou, ajeitando a saia plissada com cuidado. — Eu tenho que pegar algumas revistas na biblioteca antes da aula começar. Vejo você depois! — Ela se inclinou em minha direção, dando dois beijos no meu rosto, um de cada lado, e saiu porta afora.

Não demorou dez segundos e meu celular vibrou sobre a mesa, avisando que eu tinha uma mensagem de Hanna, dizendo um enérgico, “E aí?”. Soltei uma risadinha confortável, sentindo-me feliz por tê-la por perto. Havia acabado de respondê-la, pegando minhas coisas na cadeira vazia ao lado e me preparando para me levantar com meu café e meu celular na mão, quando, de repente, um corpo se chocou contra o meu.

Inicialmente, rezei com veemência para que Hanna não estivesse certa sobre aquele cara. Eu realmente não poderia lidar com um flerte no momento, nem que fosse o mais inocente de todos, o qual eu tinha certeza de que não seria. Por isso, abaixei-me para pegar alguns papéis da universidade que tinha caído no chão, sem ousar erguer o meu olhar para o causador daquilo.

— Ei, aqui, deixe-me ajudá-la. — Soou uma voz grossa e extremamente gentil, abaixando-se para pegar os meus horários junto dos seus. Ele também tinha deixado alguns de seus papeis caírem e pude ver que em alguns estava escrito Dr. Wentworth numa letra legível o bastante para que eu compreendesse rapidamente. — Desculpe, eu sou muito desastrado. Estava dando uma olhada nisso daqui e... — O mesmo cara que Hanna dizia estar me olhando tentou se justificar, mas desistiu. Ele parecia ser advogado.

Ergui-me do chão e o senhor descuidado fez o mesmo, entregando-me meus papeis de volta depois de me dar uma bela de uma geral, como a turma de Mike e Noel costumavam dizer em Rosewood Day, porém, com a descrição de um homem maduro e decidido.

— Não se preocupe, está tudo bem. — Ajeitei a alça de minha bolsa no ombro, pressionando a pasta que estava em minha mão contra o peito, nervosamente. — Agora, se me der licença... — Virei-me em direção à porta, dando alguns passos para fora da cafeteria, mas, antes que eu realmente a alcançasse, o tal Wentworth segurou meu braço delicadamente, impedindo-me de me afastar.

— Seu celular. — Ele me entregou antes que eu pudesse dizer qualquer coisa. — Você esqueceu.

Olhando de perto, aquele homem era realmente muito bonito e tinha uma excelente cútis, mas me limitei a agradecê-lo e logo tratei de seguir o meu caminho para alguma biblioteca próxima. Talvez eu encontrasse Hanna e lhe desse os parabéns por ser tão observadora.

Já do lado de fora da cafeteria, porém ainda na calçada, andei alguns passos e acendi a tela do meu celular para ver quanto tempo eu ainda tinha até a minha primeira aula começar, percebendo então que estava na agenda e um número novo havia sido salvo. Daniel Wentworth era o nome que estava escrito na identificação. Não contive um riso incrédulo com aquilo. No entanto, antes que minha risadinha pudesse cessar por completo, senti alguém puxar meu braço bruscamente.

— Escute aqui, qual é o seu pro... — Virei-me com visível irritação para colocar aquele Daniel no lugar dele, mas, ao invés de encontrar aqueles olhos negros e penetrantes, encontrei os olhos acinzentados e brilhantes, que me derreteram por completo.

— É assim que os homens de hoje em dia tentam chamar a atenção de uma mocinha? — Samara perguntou, franzindo o cenho delicadamente. — Nada cavalheiro, tenho que dizer. — Ela disse, sorrindo largamente depois do primeiro instante em que não consegui dizer nada.

No segundo, porém, agarrei seu pescoço com os dois braços, abraçando-a com força e saudade. Ela me correspondeu com a mesma intensidade, envolvendo a minha cintura. Eu não podia ver, mas eu tinha certeza de que ela estava sorrindo, assim como eu, pois o meu alívio e felicidade eram tantos que mal conseguia respirar direito. Queria prolongar aquele momento pelos dois meses em que ficamos separadas.

— Você está linda, Em. — Elogiou-me assim que nos afastamos.

— Você... Como... — Tentei formular, mas a instabilidade com que meus batimentos cardíacos batiam atrapalhava meu bom discernimento. — Como você me encontrou? — Perguntei de repente, olhando para ela.

— Eu estava esperando por você. — Respondeu, estendendo sua mão para que eu a pegasse. — Venha comigo, por favor. — Ela me levou de volta à cafeteria, e eu logo paralisei. Será que ela havia visto aquele homem conversando comigo?

Tive apenas alguns poucos segundos para me questionar sobre isso, visto que, ao invés de me conduzir ao interior da cafeteria, ela me fez entrar numa limusine estacionada em frente ao café que eu estava com Hanna antes. Estava surpresa demais para perguntar qualquer coisa a ela naquele momento, por isso deixei que ela me guiasse para onde quisesse questioná-la.

— Como foram suas férias? — Ela perguntou, descansando a mão sobre o meu colo.

— Um borrão. — Dei de ombros, olhando atentamente pela janela.

— Bebeu muito?

— Ah, você sabe... — Olhei para ela, sorrindo de canto. — Não há diversão sem bebida. — Pelo menos era o que Noel vivia dizendo, pensei em acrescentar, mas deixei passar.

— Eu não concordo. — Samara balançou a cabeça, aproximando-se ainda mais de mim. — Podemos nos divertir sem bebida. — Ela tocou meu queixo com o dedo indicador, beijando-me devagar logo em seguida.

Levei minha mão ao seu rosto, puxando-o para mim. Logo, o beijo que antes era calmo, agora se tornou rápido e urgente. Ela deixou seus dedos caírem até o meu pescoço, acariciando a pele com ternura, enquanto sua outra mão estava presa à minha. Quase havia me esquecido daquela sensação arrebatadora que Samara me causava com seus toques.

— Eu senti muito a sua falta. — Ela sussurrou entre beijos. — Se eu não estivesse tão ocupada nesses últimos meses, eu teria ido atrás de você. — Confessou; a respiração falhada e descompassada.

— Já está fazendo sucesso? — Perguntei, sorrindo interiormente diante do alívio que acabara de me proporcionar, mas que não o externaria. — Porque talvez eu possa perdoá-la se tiver sido esse o caso. Não me entenda mal, mas você passou as férias inteira sem me ligar uma vez. Deixei alguns recados com sua secretária, que sempre dizia que você estava em reunião, ou fora da cidade. Pensei que tivesse perdido o interesse e já estava quase me esquecendo de você, afinal, foram dois malditos meses! — Desabafei, sentindo meu rosto corar por soar tão ridícula e menininha. Aquilo apenas comprovava que ela estava certa quando me chamava de sua menina.

Ousei olhá-la nos olhos rapidamente, temendo o que encontraria se o fizesse por tempo demais, mas, ao invés disso, ela sorria calorosamente; suas íris estavam num tom profundo e amável de azul gelo, brilhantes e complacentes como nunca. Puxei uma generosa quantidade de ar, soltando aos poucos quando ela tocou meu rosto, transpirando admiração e ternura a cada curva que seus dedos faziam em meu rosto.

— Se você me prometer que nunca irá mudar, sendo sempre a mesma desde o dia em que a conheci, eu prometo que nunca perderei o interesse por você. Muito pelo contrário, meu afeto apenas ficará ainda maior a cada segundo. — Garantiu com a voz firme, porém tão suave quanto seda.

— Eu prometo que não me tornarei sua ex-mulher. — Brinquei, sorrindo de canto quando ela deixou uma risada agradável escapar. — Eu prometo, Samara, que nunca vou desrespeitá-la, invadir seu espaço, nem me tornar obsessiva por você.

— Prometo amá-la sem a desconfiança de um dia ter sido ferida. — Ela disse, plantando beijos suaves nos meus lábios a cada palavra proferida. — Agora, e quanto a você, Emily Fields? Promete me amar sem a lembrança de já ter sido devastada? — Engoli em seco com aquilo, arqueando levemente as sobrancelhas com a firmeza com que ela pronunciava cada sílaba.

Nunca havíamos usado essa palavra antes, mas parecia tão certo; não havia medo, desconfiança ou qualquer tipo de incerteza quando eu pensava na possibilidade de amar Samara. Alison sempre seria o meu primeiro e único grande amor, mas eu não podia me prender a isso. Não quando tudo o que eu acreditava havia se tornado fragmentos de indecisão pela simples presença de Samara. Não tinha como negar que, depois de tantos fracassos, ela tinha sido o meu primeiro acerto em muito tempo.

Agora, com Samara prometendo estar ao meu lado, jurando comprometimento, além, é claro, de um futuro promissor pela frente na Universidade de Nova Iorque, eu estava finalmente restaurada. Não havia o que temer. Estávamos juntas e nossos laços fundiam-se na carne, unindo-nos como uma só. Éramos, portanto, uma só.

— Eu prometo.

Notas finais
Então, o que acharam? Espero do fundo do meu coração que tenham gostado desse último capítulo, porque eu realmente adorei escrevê-lo e mal estou acreditando que é o último... É como se eu fosse escrever outro capítulo a qualquer momento. Mas, bem, é o fim. Quero agradecer a todas as pessoas que leram, comentaram e recomendaram essa fanfic; vocês foram uns amores! Em especial a minha nigga Yasmin (HeyJude), que sempre me ajuda, desde a fic passada, TMBL! Muito obrigada, de verdade! Amo todos vocês! E para quem shippa Emison: agora vou me preparar para escrever a continuação de TMBL, então me aguardem. Fiquem de bituca que a qualquer momento posso postá-la... :D That's all folks!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!