Notas iniciais
"Este fevereiro azul como a chama da paixão nascido com a morte certa com prevista duração deflagra suas manhãs sobre as montanhas e o mar com o desatino de tudo que está para se acabar. A carne de fevereiro tem o sabor suicida de coisa que está vivendo vivendo mas já perdida." — trecho do poema "Verão" de Ferreira Guillar

Decidi não ir ao hospital hoje, por mais que sentisse dor. Não irei descrevê-la, não convém mais. Talvez se tivesse o papel um pouco antes, as páginas se preencheriam poeticamente de algo feio. Não é estranho ou ainda errado isso? Espremer um sentimento a fim de sentir o gosto doce das palavras que adicionamos ao amargo natural do sentir. Por que insistimos? Por que cruzamos o limite da leveza do ser? Um limite que desvanece conforme a imensidão do ínterim...

Acho que não suportamos tal abstração e usufruímos de qualquer coisa para estancar o constante vazio que transborda pelos olhares, pela rotina. Ah, nela encontro-me afogada. Sufocada. É provável que eu tenha confundido a dor física com a da alma, pois essa última não tem cura e nem conforto. É a condição ontológica que nos vêm ao nascer: ter uma alma carregada de frutos, os quais são como as auroras. Amanhecem unicamente para si, iluminam – com sorte – algum outro e se põem em um desespero irracional.

A temporalidade da vida, às vezes, é assustadora. Não apenas na sua duração, mas no seu cessar. O término da consciência; o que nos mantêm na permanência de viver... Mas e agora? O verão terminou. Permaneci de olhos fechados, sem conjugar verbo nenhum, quanto mais um futuro que soa tão feliz. Não, não; não vi essa felicidade. Vi coisas tristes, vomitei muitas partes de mim e dei descarga. Sem chance de voltar atrás.

Fragmentei-me também. O sufoco presente está nas ausências e nas colisões que elas me submetem. É um espelho, um antigo amigo, um passado fixo e imutável e o pior de todos, o que eu guardei para esse dia: a negação racional de um futuro. Eu deveria sentir medo, pois é fevereiro. Dia vinte e nove, o dia perfeito.

Falei que viria ver parentes. Deixei o hospital, despedi-me com o olhar. Não notaram, disso tenho certeza. Meus olhos são mudos e minhas emoções parecem ser intangíveis. Abandonei-os dessa maneira. Infeliz surpresa eles verão e já no outono, em que as folhas cairão e algumas pessoas também...

Eu vim à praia. Escutar o mar, ver o céu, ter o último contato com o desconhecido. Tentar renascer na areia. Ah, assim condenei-me a não ser outra vez. Já sinto a melancolia na minha escrita, que anda lenta. O silêncio destruiu-me por completo! Devastou planos, quebrou-me mais ainda, trancou a mim mesma nesse corpo doente.

Ao menos, tomei sorvete. De morango, por sinal, e eu não gosto de morango. Só que tinham umas crianças lambendo a massa gelada rosa, com os lábios sujos e os sorrisos mais lindos que eu poderia ver. Quis tentar e o gosto é sempre bem diferente da aparência, mas não nego que foi bom parecer como eles. Ter me sujado de cor-de-rosa.

Recolhi algumas conchinhas no mar, dei até uns mergulhinhos... O dia foi bom. Agora poderia voltar para casa – ou para o hospital, a essa altura não acho diferença alguma-, dormir e fingir que o dia acabou.

Mas o sol está se pondo... E são tão lindos os rastros que ele deixa no céu. Alguns rosa outros roxo, ainda que a predominância seja laranja, às vezes até com toques avermelhados. Ah, queria eu ter uma certeza: negar sem deixar dúvida e duvidar sem negar por completo o que deixei conciso em sonhos atrás... O meu problema está na essência, na poluição desse ar. Suporto a dor, a dificuldade de respirar, os vômitos de partes minhas, e, no entanto, queria não suportar.

Sou tola por achar que o dia iria acabar. No fim, eu sempre continuo; com essa oscilação de estado que eu me pergunto se algum dia verão.

Notas finais
Confesso que não sei o que dizer agora. Muito obrigada por terem lido até aqui, espero que acompanhem e que gostem bastante do que escreverei. Qualquer erro, por favor, me avisem! Irá ajudar muito. E se puderem comentar sobre suas impressões, será bastante legal =) O poema das notas iniciais completo,eu encontrei nesse site aqui: http://www.avozdapoesia.com.br/obras_ler.php?obra_id=11026É isso. Nos vemos em breve, por aí. Até!