Estações
8 luta
Senti um vento frio invadir meus poros. O olhar de Autton, o menino com olhos de outono, estava mais seco que de costume e a auto confiança batia no teto. Eu sorri, eu também sentia-me confiante. Em pouco tempo eu havia desenvolvido-me, aprendido a usar o melhor das minhas habilidades, fugido da norma, virado ELLEN.
A tatuagem que havia aparecido sem nenhum motivo aparente determinava LEN as letras finais do meu verdadeiro nome. Ao ver a confirmação da minha origem senti o pulso de adrenalina que costumava percorrer em mim nos momentos de tensão e se eu movia-me por pulsos elétricos como todos os homens decidi que EL veneraria a eletricidade que possuía no meu corpo caminho livre.
O desafio era simples, enfrentar cada um dos elementares e provar que estava apta para andar só e escapar dos Nefilins. Olhei para Autton, ele seria o primeiro dos 4 que eu já conhecia, no entanto eu deveria conhecer os outros que 2 que estavam sendo treinados por Nimbus e Scarlet.
- Pronta? — Foi a primeira coisa que ele disse ao ver-me.
- Isso você poderá descobrir.
Autton riu revelando os olhos amarelados como folhas secas e o vento frio pareceu mais forte ao redor. Meus neurônios responderam ao perigo com o triplo da velocidade comum, meu corpo liberou adrenalina de forma surpreendente... Senti um flash percorrer a retina e preparei-me para vencer.
Novatos... — Ele balbuciou enquanto terminava de encaixar o lado amarelo do cubo
- Não me subestime.
- Não estou. — Ele falou quando terminou de encaixar todas as cores.
- Vai brincar de cubinho?
Autton colocou o cubo no bolso do sobretudo e olhou pra mim com o rosto repleto de tédio. Para variar a mania de olhar fixo para os olhos de outono resolvi pesquisar a fisionomia do garoto. Não era muito alto, isso não era novidade pra mim. Os cabelos castanhos e lisos eram repicados e jogados cuidadosamente sobre o rosto bem desenhado. A expressão de tédio profundo dava ao menino um ar de maturidade e o formato do rosto deixava-o extremamente jovem. Acabei distraindo-me com minha observação e não o vi movimentando-se.
O primeiro ataque durou segundos. Ele saltou extremamente alto e golpeou-me com o vento. A pressão que envolveu meu corpo era indescritível. Cruzei os braços para defender-me do ataque e segui em direção a Autton com uma agilidade sobre humana adquirida graças a afinidade entre as moléculas do meu corpo e as moléculas do meio. Uma combinação perfeita de ataque e defesa para alguém pouco organizado como eu.
Depois do primeiro vieram mais e mais golpes envolvendo a mesma habilidade do primeiro, desviei da mesma forma, mas fugir simplesmente não era o bastante, eu precisava pensar numa forma de combatê-lo e o vento que ele manipulava seria o meu condutor elétrico. Em uma das rajadas seguidas do golpe utilizei os próprios elétrons do ar para proteger-me. Criei um campo de repulsão entre o vento e eu permitindo que eu ultrapassasse toda a pressão exercida pelo golpe dele e golpeasse dominando-o. Aquela foi a primeira e única vez que pude comemorar uma vitória.
- Então, o que acha? — Provoquei-o.
- Está passada... — Ele riu, algo realmente surpreendente vindo dele.
- Parabéns, Ellen. — Heidh desejou.
- Você é bem espertinha... — Autton comentou brincando com o cubo.
- Obrigada. — Se aquilo era mesmo um elogio...
Eu ia perturba-lo por causa do cubo, mas um grande tremor de terra anulou meu equilíbrio. Olhei confusa pra Heidh e tive uma visão do que hoje eu chamaria de o mais próximo possível de um paraíso mortal. Autton e ele entreolharam-se com fervor isso fez meu coração disparar e liberar toda a adrenalina possível, o que estaria acontecendo? Eu não poderia responder ainda. Naquela hora eu só sabia que deveria ter bons motivos para querer correr. O chão trêmulo sumiu sob meus pés e antes que eu pudesse compreender algo Autton jogou-me no colo de Heidh.
Olhei para ele pedindo uma explicação qualquer com a expressão confusa, mas ele apenas abraçou-me forte e seguiu. Depois disso só lembro de ter corrido, corrido como nunca tinha feito antes, desesperada pela possibilidade de perder o verão de vista. Eu estava buscando vida, mesmo sem saber qual era o perigo.
Fale com o autor