Estações
5 A tarefa
Depois daquele dia eu não vi mais nem aquele garoto nem a menina. A vida era extrema, eu treinava todo dia e aprendia várias coisas que certamente não ensinaram-me na escola... Eu aprendia informações numa velocidade surpreendente. Meu cérebro armazenava muitas coisas e eu evolui muito em apenas duas semanas e 4 dias.
Eu conseguia 200 flexões e 300 abdominais seguidos, não caía mais das cordas nas provas de resistência e terminava as barras e escaladas sempre batendo o recorde anterior. Aprendi sobre bombas, armas, história, matemática, química e física.
- Você aprende rápido. — Ele comentou com a suavidade a qual eu já estava habituada. Eu não sabia contra o que eu estava lutando e o motivo de ser EU a preparada.
- Mas precisa aprender a infiltrar-se nos lugares mais interessantes e nos menos também.
- Hãm!? — Eu sempre ficava confusa com as maluquices que ele dizia e jamais arrependia-me em acreditar nos maiores absurdos que fossem quando ele dizia-os.
- Vou estar fora neste final de semana.
O rosto dele não tinha nenhuma expressão quando ele disse aquelas palavras, mas eu senti um certo receio do sentido delas combinadas. Era a primeira vez depois dele que eu estaria sem ele. O olhar de verão dele percorreu meu rosto e ficou extremamente próximo de mim. Percebi a curiosidade com que ele investigava meus olhos e o calor que ele emanava parecia prestes a cegar-me, no entanto meu próprio receio de que isso acontecesse fez meu cérebro responder ao verão ilusório, só podia ser minha mente... E o calor abrandou fazendo ele sorrir discretamente.
Antes que eu pudesse imaginar alguma reação ele virou-se para algum banco e jogou sobre mim um saco de filmes, olhei as capas por instinto, eram todos filmes de ação envolvendo conspirações e tramas de roubo ou atentados variados com infiltrações.
- O que...
- Seu dever de casa ou não é capaz?
- Assistir filme está longe de ser a tarefa mais maluca ou complicada que você me deu, então eu sou capaz de fazer isso.
- Boa sorte! — O que aquele cara tinha? Eu começava a acreditar que eu sofria de esquizofrenia assim como ele e estavamos sofrendo um delírio coletivo, não é realmente nenhum desafio conseguir assistir um bando de filme em apenas 2 dias. Nem eram tantos, dava tranquilamente no tempo.
Ele saiu sem que houvesse tempo de eu olhar ao menos para a cara dele. Desisti de tentar compreender a epidemia de doenças psiquiatras dentro daquela residência. Coloquei o primeiro filme com nome de xeque-mate no dvd e assisti, logo depois vi a senha swordfish e depois 11 homens e um segredo. Eu estava colocando o filme Sr e Srª Smith quando ouvi um barulho de janela quebrando-se. Deixei o filme passando e fui verificar a janela.
- Finalmente veio. — Era o garoto de olhos de outono observando-me com a mesma expressão entediada que eu o havia visto pela primeira vez. — Tive que quebrar a janela pra você perceber que eu estava aqui.
- Você é LOUCO!? — Ou eu estava...
- Você não tem uns filmes para assistir?
- Você entra na casa e quebra a janela... — Processo o qual meu cérebro insistia em reclamar que deveria ser inverso. — E ainda quer que eu assista filmes?
- Você mente muito.
- O quê? — Eu senti raiva o suficiente para querer dar um murro na cara dele, mas eu sabia que não seria capaz de ganhar em uma luta com ele, não ainda.
- Disse que iria ver os filmes sem problemas, então tem que assistir.
Então era isso? Ele ia me impedir de assistir os filmes e eu teria que assisti-los de qualquer maneira por ter dito ser capaz de assistir. Eu corri pra sala, mas antes que eu chegasse a porta la estava ele brincando com o cubo na passagem.
- Eu sou capaz de assistir aquelas porcarias de filme! — Senti muita raiva dele, meus musculos contraíram rápido e eu pude novamente sentir uma centena de sinapses enviando um pulso elétrico que correu pela minha medula e liberando adrenalina. Senti-me extremamente capaz de assistir aos filmes, eu não poderia ganhá-lo, mas poderia desviar e assistir aos filmes. Tinha que completar o que eu havia dito. Percebi que ele deixara o cubo desorganizado e estava olhando pra mim. Lembrei-me de nunca tê-lo visto largando o olhar do cubo incompleto, isso também não significava muito.
Pulei pela janela quebrada e escalei uma árvore que ficava logo a frente. Pensei em como gostaria de ser capaz de arrebentá-lo e de como eu estava saturada de tantas loucuras, mas eu ri. E destelhei onde eu acreditava ser a sala. Quando eu pulei no sofá o menino estava sentado sobre a tv brincando com o cubo.
- Sinta-se feliz por eu não ter quebrado o dvd.
Quem ia quebrá-lo era eu de tanto ódio assim que eu conseguisse assistir todos os filmes. Na tv os atores conversavam enquanto eu pensava em como tirá-lo dali. Um novo flash percorreu os olhos, os neurônios, a medula... Saltei até um vaso de plantas próximo a janela e peguei 3 pedrinhas que joguei no garoto. Os olhos dele reluziram o castanho outono e ele simplesmente saiu da frente da televisão deixando que as pedras a quebrassem. Ele riu e gabou-se do fim do jogo dando tempo o suficiente para eu pegar os filmes e o dvd e fugir.
Eu era capaz então...
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