Estação de Frankfurt
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Estação de Frankfurt
Amanhecia em Frankfurt. Como esperado, o inverno chegara ainda mais rigoroso neste ano. A neve caía em grandes flocos que, delicadamente, pousavam ao chão. As chaminés das casas emanavam constante fumaça, já que suas lareiras eram a principal fonte de calor e aconchego.
Aconchego. Eis aí uma palavra escassa no dicionário da vida dos operários, lenhadores, carvoeiros, donas de casa e comerciantes. A classe rele da sociedade, que infinitas vezes passava despercebida aos olhos da burguesia.
– Ande, Clarisse! Anton não irá nos perdoar se atrasarmos mais uma vez! — Thomas a puxava pelo fino braço, na tentativa falha de acelerarem. Era difícil para uma garota miúda correr velozmente em meio a tanta neve. Seus pés pequenos tropeçavam vez ou outra em uma montanha de gelo.
Chegaram na Estação Ferroviária de Frankfurt. A situação era lastimável. Velhos de mãos calejadas, velhas com rugas profundas, crianças magras e pálidas e homens e mulheres maltratados pelo tempo se esmagavam na carvoaria. Em tambores improvisados eram postos os pedaços madeiras e, de maneira artesanal, colocava-se a brasa inicial, para que aquilo se tornasse carvão.
O oxigênio do ambiente era sobrecarregado. Mal se respirava, tamanha abafação. Anton e Rolf eram os guardas que ficavam do lado de fora, controlando o movimento.
Clarisse e Thomas estavam esbaforidos, porém conseguiram chegar em tempo. Receberam um olhar frio e severo de Anton, antes de serem empurrados de maneira brusca para dentro da carvoaria. Sabiam que o estoque de carvão estava no fim e que precisariam dobrar as horas de trabalho se quisessem suprir as necessidades.
Trabalhavam por obrigação, não por gosto. Seus pais se tornaram operariados nas fábricas e, escravos do poder militar. A Alemanha corria contra o mundo e parecia fazer isso de trem. Em plena Segunda Revolução Industrial, não havia menos para se esperar.
As notícias vinham de boca a boca. A Inglaterra se desenvolvia cada vez mais e a culpa sempre caía nos ombros frágeis dos mais pobres que "não se esforçavam o suficiente".
– Não podem aumentar o ritmo de produção? Desse jeito não teremos material suficiente para o próximo trem! — Rolf berrava, batendo com força o seu cassetete no chão. As crianças menores se assustavam, começando a chorar. Este era o barulho do avanço.
Clarisse temia ao colocar os pedaços de madeira nos tambores. Eles quase sempre estavam lotados até o topo e a chama que esvoaçava era muito alta. Tinha medo de se queimar em um movimento errado. Erapequena, seus braços quase não alcançavam o bocal.
Thomas era mais alto e a auxiliava. Os outros olhavam com desgosto, talvez com amargura. Ninguém podia conversar, muito menos se ajudar, mas eles não pareciam se importar muito com essa regra.
O tempo ali não passava. Remoíam seus pulmões com tanta fumaça e seguravam-se para não tossir o tempo todo. Aquilo poderia incomodar os guardas e sutilmente, isso seria péssimo.
Escutaram o barulho do trem. Era o primeiro do dia a partir e outro já estava à caminho. Apenas quatro tambores estavam cheios e precisavam entregar no mínimo dez.
Uma velhinha chorava. Seus braços pareciam pesados, não aguentava mais o movimento repetitivo e os pequenos pedaços de madeira pareciam arder em seus ferimentos abertos. Ela estava corcunda, seu corpo estava fragilizado. Suas pernas já não aguentavam a carcaça que tinham que sustentar.
Em um movimento de pura loucura, ela se jogou ao chão. Os olhos fechados e lacrimejantes em sinal de rendimento. Anton e Rolf apareceram para puxá-la. Tratavam de maneira desrespeitosa, chutando-lhe os ossos e batendo-lhe com o cassetete.
– Levante-se, velha! Ainda há muito serviço para cumprir! — E escutávamos os gemidos abafados da senhora, que já não aguentava mais. Eles a arrastaram para fora e, provavelmente, esse seria o último dia dela na Terra.
– Vocês, continuem o trabalho! Não há nada para olhar aqui! — Anton gritou enquanto ajudava o colega a tirar o corpo da velha do campo de visão dos outros.
Aquilo só serviu para desanimar ainda mais. De cabeça baixa, os que estavam ali faziam uma prece. Talvez alguém pudesse os salvar de tanto sofrimento. Enquanto isso não acontecia, precisavam continuar com o martírio.
Em menos de uma hora o outro trem chegaria. Com o reboliço, a única coisa que tinham eram quatro tambores cheios e uma esperança vazia. Em menos de sessenta minutos seria impossível produzir seis tambores.
– Vão nos estraçalhar se não concluirmos a produção. — Thomas sibilou baixinho, para que somente Clarisse escutasse.
– Eles já estão nos fazendo isso... — A menina suspirou de maneira árdua. Aquele era o destino dela, não era? Apanhar até quebrar-lhe um osso.
– Temos que fugir. — Ele respondeu, a fitando de maneira séria. Conseguiu uma feição de desespero em troca.
– Está louco? Se nos pegam, morreremos hoje mesmo! — Sussurrou de volta. Os outros carvoeiros já os olhavam com curiosidade. Era preciso parar.
Anton e Rolf voltaram. A velha já não estava mais com eles. Com sorte, ela estaria em um lugar bem melhor agora.
Conseguiram produzir apenas mais três tambores e ainda com madeira pequena. Quem quer que fosse o chefe daquilo tudo, não ficaria contente com o resultado.
Ao longe, escutaram o apito do segundo trem. Era só o tempo de ser descarregado e depois, quando viessem pegar o material e descobrissem que não haviam terminado, seriam todos enviados para a zona de tortura.
O apito condizia com as batidas do coração de todos ali. Em desespero, muitos já choravam. Não iriam suportar mais.
– Tenho uma ideia. — Thomas falou no ouvido de Clarisse.
Escolha era artigo de luxo naquela situação. A menina apenas assentiu e deixou-se ser levada pelo garoto.
Os militares já caminhavam em direção à carvoaria. Junto com eles, vinham os cassetetes, as cuspidas, os chutes e as palavras de baixo calão. Não queriam estar ali quando eles chegassem.
Thomas, em um movimento rápido, correu em direção a um tambor que exibia uma enorme chama e deu-lhe um chute. O tambor explodiu suas labaredas de fogo em cima das madeiras empilhadas, que logo se alastrou em um incêndio.
– FOGO! FOGO! — Um dos guardas se limitou a dizer. Os carvoeiros se movimentavam desconexamente e tentavam fazer algo para conter, mas as chamas vermelhas eram mais rápidas.
Em meio a tanta confusão, Thomas e Clarisse saíram ilesos daquele movimento. Ninguém iria reparar em duas crianças miúdas e raquíticas, quando se tinha o assoalho caindo sobre a própria cabeça.
Nem mesmo os guardas, os soldados ou os agentes da ferroviária perceberam. Em pouco tempo, eles já estavam próximos ao trem parado.
– O que vamos fazer agora? — Clarisse disse, sentindo seu coração pular no peito.
– Embarcar para Berlim. — Ele deu-lhe um sorriso confiante.
– Você está realmente louco! — Clarisse berrou. — São quatro horas de percurso! Além disso, o que vamos fazer lá?
– Não grite! Vão nos perceber! — Falou, tapando a boca da menina. — Vamos tentar uma vida nova. Sempre escuto falar que Berlim é a cidade do avanço! Poderemos ser adotados por uma família rica e depois, voltamos para salvar nossos pais! Vamos, Clarisse, de quê tem medo? Já não temos nada a perder! — Ele sorria sonhador. Thomas parecia não sentir temores por nada e passava uma confiança avassaladora.
– Pois bem, então vamos... — Na verdade, ela não estava segura daquilo, mas, como Thomas dissera, eles não tinham nada a perder. Nada mesmo.
Thomas tinha uma ideia de maluco, mas que no fundo, parecia ter sentido. Iriam se esconder em um dos vagões de carvão e quando o trem chegasse à Berlim, fugiriam. Da mesma forma que entraram, iriam sair. Era simples. Ao menos, na teoria.
Porém, devido à neve, os vagões eram fechados ecada um deles, era trancado com um cadeado. Thomas arrancou um grampo do cabelo desleixado da amiga e, como um expert, abriu o enigma.
O grande problema era abrir a tampa. Cada vagão tinha cerca de dois metros de altura e a tampa também deveria ter esse tamanho. Eram duas crianças, não tinham vigor suficiente para levantar aquela placa.
– Acabou. Não temos o que fazer. — Clarisse disse de maneira melancólica. Realmente, suas esperanças estavam no negativo.
Thomas, por sua vez, era insistente.
– Vou subir, pular e puxar a tampa comigo. Isso com certeza irá abri-la. — Disse confiante. Com um apoio de Clarisse, ele conseguiu chegar ao topo. A testa suada e suja de carvão logo denunciariam que não eram nem um pouco parte da burguesia.
– Eles vão chegar daqui a pouco! — Clarisse berrou, escutando um movimento se aproximando.
Nesse momento, Thomas pulou do vagão, dois metros abaixo, com a tampa abaixando. O barulho foi enorme, ótimo para chamar a atenção dos que já vinham.
– Entre, Clarisse! Rápido! — Ele disse, já fazendo "pezinho" para a amiga pular. Ela entrou e acabou caindo nos dois metros do vagão. Havia torcido uma das pernas e não conseguia levantar para ajudar o garoto.
– Venha, me ajude a subir! — Ele implorava do outro lado. Sabia que seria pego.
– Não consigo! — Clarisse respondeu, contendo sua dor e tentando levantar, apoiando na superfície do cubo.
– Ora, o que temos aqui? — Ouviu uma voz grossa dizendo. Deveria ser um dos guardas. — Estava tentando fugir, rapaz? — E uma gargalhada logo em seguida.
– Não senhor, eu só estava conferindo se o trem... — A voz do amigo soava fina. Pela primeira vez, viu Thomas ter medo de alguma coisa.
– Ah, sim, conferindo o trem! É claro! Pois bem, vamos ver se você vai gostar de conferir o que fazemos com espertinhos que fogem do trabalho! — Escutou a voz ao longe cortando a desculpa. Thomas já gritava por ajuda, mas em nenhum momento chamou por Clarisse.
Ele não a entregou.
– Avise ao chefe que o trem está vazio. Minta que aconteceu um acidente que acabou com todo o material, mas que os carvoeiros serão severamente punidos. — Escutou uma voz rouca dizer. Provavelmente conversava com o maquinista.
O trem apitou e logo em seguida, começou a andar. Clarisse estava partindo. Thomas havia arriscado tudo e agora, somente ela estava sendo salva.
A menina chorava compulsivamente no último vagão do trem. Aquilo não era justo! Thomas era o corajoso, ele lutou para conseguirem escapar e agora, ele seria morto! Sim, morto! Quando dedurassem que ele foi o grande causador do incêndio, não lhe restaria nem mesmo as esperanças.
O menino que sonhava em ser burguês em Berlim, acabou-se condenado em Frankfurt. O destino nunca fora bom com as pessoas, nunca dava dons de graça.
Ela, sozinha, jamais escaparia. Temerosa, aflita, seria a primeira a se entregar.
O som das rodas no trilho seria agora seu único companheiro. Sozinha no mundo, não havia nada a perder, não é?
Enxugou as lágrimas que insistiam em escorrer por seu rosto. Decidiu de uma vez por todas que engoliria todo o medo e lutaria.
Iria ser adotada por uma família burguesa em Berlim. Era bela, todos teriam dó daquela frágil e solitária menina. E mesmo que muitos anos se passassem, Clarisse Müller voltaria. Ela retornaria à Estação Ferroviária de Frankfurt e se vingaria do fiel amigo que, pelas mãos nojentas de um regime militar, entregara a vida por um sonho.
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