Estatísticas

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Olá pessoas, tudo bem? Fiz essa one-shot a um tempo já, quando li um HQ com várias histórias. Não me lembro bem qual era agora, mas foi essa história que me deu a inspiração.
Espero que gostem, boa leitura.

A cada 40 segundos uma pessoa comete suicídio. 20 milhões de pessoas por ano tentam tirar sua vida, de acordo com a OMS. Ryan entende bem essa estatística. Sua profissão é baseada em tentar trazer alguma esperança a pessoas quebradas. Mas no final, ele só é mais alguém no meio de um mar de pessoas vazias.

-Aqui é a 101. Qual é a sua emergência?

A sala estava cheia. Os telefones não paravam de tocar, nem por um segundo. Todos estavam ocupados, orientando pessoas em perigo, falando códigos para cada situação. E para cada situação especial, existe um departamento diferente.

-Eu quero me suicidar.

-Qual é o seu nome, aonde se encontra, e endereço?

Existia um regulamento a ser seguido. Quem auxiliava as pessoas em perigo não podia demonstrar nenhum sinal de nervosismo ou raiva. Tudo precisava ser perfeito, se não as chances em porcentagem de catástrofes eram terrivelmente altas. E se você já teve algum tipo de contato com a pessoa, imediatamente era encarregado para outro auxiliador. Embora os números de catástrofes na emergência fossem altos, os de pessoas salvas também eram. Tudo se resumia a isso: números e porcentagem.

-Hazel Whealton, moro em Copperfield Street, Southwhark. Estou em casa agora, deitada em minha cama.

As palavras apareciam rápidas na tela do computador, criando vários códigos e preenchendo protocolos. Cada informação era necessária. Como a pessoa estava, rua, em que lugar se encontrava e o nome. Os sinais de nervosismo ou desespero nas vozes dos pacientes eram rapidamente percebidos por qualquer atendente.

-Você será transferida para o departamento de casos especiais.

Em exatos três segundos, a voz fina que desaparecera foi tomada por uma voz grossa. Ryan lia atentamente cada informação passada, e estava preparado para tentar acender uma luz no meio de toda aquela escuridão em que se encontrava a pessoa do outro lado da linha.

-Boa noite, Hazel. O que anda te incomodando?

Falava como se sempre lidasse com casos suicidas, o que de fato era verdade. De segunda a sábado e às vezes noites de domingo eram repletos de ligações sobre histórias tristes ou um passado sombrio. Sua função era tentar ao máximo fazer com que a pessoa não desistisse da sua vida, por pior que ela estivesse.

-São as minhas lembranças. É a minha memória que ficava repetindo aquele momento várias vezes, me torturando. Eu não aguento mais. Eu estou ficando louca, vendo coisas.

Estava claro na voz da garota o quanto ela estava cansada. Quase desistindo da vida. Por que quem pensa completamente em se suicidar, não pensa em ligar para emergência. Pessoas que vão para os casos especiais, ainda estão tentando achar esperança. E é por isso que são pessoas especiais.

-Que lembranças são essas? Por que elas te incomodam tanto?

Falava tudo com um extremo cuidado e atenção, como tudo ali, era algo extremamente necessário. Pessoas especiais eram muitos sensíveis, e podiam se assustar e quebrar facilmente. Essas eram a características delas.

-Há uma semana, eu o encontrei. Na verdade, ele me encontrou. Ele era tão estranho. Vivia me encarando quando saía de casa, mas eu não ligava. Ele parecia ser inofensivo. Na época, tinha descoberto que minha irmã havia morrido em um acidente de carro. Nós não tínhamos uma ligação boa, por isso não me importei muito. Ele me seguiu uma vez. Eu corri, mas ele me alcançou. Me levou para um beco e eu implorava para ele parar. Mas ele não parou.

Fungadas baixas e o familiar som do choro foram ouvidos durante a ligação. Gravou cada detalhe na sua mente, e suspirou. Cada telefonema era como uma facada no meio de suas costas, cada palavra de dor era como um soco no estômago. Era desgastante, como qualquer outro emprego. Talvez traumatizante demais.

-Você contou isso a mais alguém? Relatou isso a policia?

Sabia que tinham mais coisas a serem contadas. Sempre tinha. Era como um jogo, as perguntas certas levavam a respostas completas.

-Sim, eu informei para a polícia no mesmo dia. Dois dias depois eles o encontraram. Morto. Ele se suicidou, se jogando do quinto andar de um prédio, onde ficava a sua casa. Disseram que eu podia ficar bem, porque ele já tinha pagado pelo que fez comigo. Mas eu me perguntei se ele havia deixado uma carta, ou telefonado pra alguém. Queria saber se ele tinha se matado por culpa, ou por outra coisa. Então eu descobri.

Se ajeitou em sua cadeira, e começou a procurar dados na rede do departamento. Dados, era somente isso que precisava. Na sua mente sua memória trabalhava, forçando-o a se lembrar de algum detalhe, alguma conversa.

-O que você descobriu, Hazel?

Perguntou calmamente, enquanto seus olhos rolavam pela tela do computador. Tudo tinha ficado mais interessante.

-Eu descobri porque ele se matou.

A linha ficou muda por alguns segundos. Apenas a respiração dos dois era ouvida, até Hazel quebrar o silêncio.

-A namorada dele tinha morrido dias atrás, em um acidente. Eu vi uma foto dela, e ela... se parecia comigo. Eu acho que foi por isso que ele sempre me encarava.

Então tudo ficou claro. As respostas estavam ali na sua frente.

-Era a sua irmã na foto?

Então, a história estava quase completa. Apenas mais alguns minutos, e tudo estaria fechado. Mais um caso completo.

-Era. Ela sempre foi mais bonita, mais inteligente. Desde que nós éramos crianças, ela sempre se destacava. Os garotos só tinham olhos para ela, e até nossos próprios pais. Eu sempre a odiei. Não tive nenhum sentimento ao descobrir a morte dela. Acho que foi um jeito de Deus me castigar por ser tão má. E agora Ele está fazendo minha própria cabeça me torturar, a cada dia. E a única saída é a morte. É o único jeito de eu parar de me lembrar.

Ryan tomou mais um gole de sua garrafa d’água. Estava suando, e essa podia ser considerada a parte mais difícil. Descobrir a história sempre foi fácil. Alguns até falavam que não iriam contar, mas sempre acabavam contando. Esse era o objetivo do departamento. Ser psicólogos em situações extremas. O problema era convencer a pessoa de que ainda existe esperança. Algumas pessoas são casos perdidos. Mas ele sentia que Hazel não era um desses.

-Sabe, Hazel, não é Deus ou sua capacidade de memória que te tortura. É você. Parece um truque, um truque da mente. Ao invés de compreender, ela passa a condenar. No momento em que você vê algum fato, a mente passa a condená-la. Então nós esquecemos de compreender, e só passamos a condenar. Isso pode te deixar depressiva ou brava. Não há necessidade de condenar, e sim de compreender. Quando paramos de nos condenar, nós vemos a situação por completo, e vimos que não tinha razão para tal ato. Nós só precisamos olhar de outra maneira.Lembre-se, a mente faz isso com todos, não só com você. Você vê que a situação está errada e se sente culpada. Não é nada a ver com você, é assim que a mente funciona. A depressão nada mais é que um ciclo vicioso de tortura. Vamos olhar pro outro lado, ok? Você foi violada, e o motivo foi porque se parecia muito com a namorada morta do cara em questão. O motivo de se parecer tanto com ela é porque ela era a sua irmã. Acabou. Você levou isso para outro sentido quando começou a falar de sua infância, e de como sempre teve inveja dela. Não tem problema não sentir falta da sua irmã. Talvez ela nunca tenha te dado motivos para sentir falta, vocês nem eram tão próximas. O que você precisa agora é ir a um terapeuta. Deus não está te torturando, Deus não quer que você se mate. Seja mais esperta que a sua mente, Hazel. Pare de criar problemas que não existem. Não precisa sentir culpa, é desnecessário.

Tudo estava em completo silêncio. Não havia choro, nem fungos. Até as respirações fracas demais por parte dos dois passavam despercebidas. Depois de alguns minutos, Hazel desligou. Suas últimas palavras foram agradecimentos, dizendo que ele a tinha salvo. Mas Ryan discordava. Ele só tinha mostrado um caminho quando ela estava perdida.

A ligação estava encerrada.

Notas finais
Obrigada por lerem, e obrigada a sumida da Holly Robin pela betagem ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!