Estações de ser
4 Primavera
Notas iniciais
Costuma-se tratar a consciência como uma primavera, pois acham que reconhecer a morte é o estopim para o florescer da vida, mas isso é uma ilusão dolorida. Algo como: distraia-se e seja feliz; cuide de seu jardim como se não sentisse nada.
Assim que avistei a primeira flor em uma das árvores próxima de casa, eu resolvi cuidar de meu jardim. Tratei de ir à floricultura, dar um sorriso enorme e pedir algumas sementes. O dia estava azul e transmitia uma beleza encantadora. Era estranho amolecer-se com isso, mais estranho ainda era querer transformar a bosta que eu tinha me tornado em adubo.
Mas lá fui. Esqueci dores e mágoas, implorei que vingasse as sementes.; um broto, um começo de flor que seja precisava ver o sol! Acreditei nisso fielmente e todas as amanhãs, quando o amanhecer despertava-me, semelhante a uma fada madrinha, eu corria para o lado de fora. Respirava o ar fresco, espreguiçava-me e sentia-me igual à lua, refletindo o brilho da maior estrela do sistema solar e como era bom!
Talvez aquela efêmera felicidade que eu bebia junto com chocolate quente pela manhã é que fazia diferença, mas eu também conversava diariamente com Norma, a mulher da floricultura, e seu jeito doce e simples guiava-me por essa estação como minha mãe teria feito. Ela até se parecia com ela... Tinha olhos verdes e alma de arco-íris.
Quando contei à Norma sobre o pequeno verde que se erguia em meio a terra, ela alegrou-se tanto! Eu convidei-a para ir à minha casa no dia seguinte e embora eu achasse que ela não fosse, ela chegou no instante em que eu me espreguiçava, e deu um largo sorriso, admirada com o tamanho de meu quintal — dá para plantar de tudo aqui!
Ofereceu-me outras sementes, alegando que um jardim não poderia ser feito apenas de camélias e assim, passamos o resto da tarde preenchendo qualquer espaço com rosas. Só de imaginar como tudo ficaria, eu alegrei-me. O inverno ainda trazia resquícios de dias cinzentos, manhãs gélidas com alguma garoa, mas a primavera estocava-se do lado de fora e sustentava-se perante as variações climáticas.
Foi uma bela estação, embora eu soubesse que em breve não conseguiria mais acordar e apreciar todo nosso trabalho. Por isso, contei à Norma os meus problemas de saúde. Contei-lhe tudo na verdade, mesmo que ela não fosse uma boa ouvinte. Esquecia-se fácil do ruído de minha voz para cuidar de suas plantas e seus clientes também fragmentavam minha fala.
Ao término, no entanto, ela abraçou-me e pediu que eu ficasse. Afirmei que permaneceria até a loja fechar ou, se ela quisesse, eu poderia acompanhá-la até a casa dela. Sua cabeça balançou e um pequeno sorriso moldurou seus dentes.
— Não, filha, fique na Terra. – alma de arco-íris; a convivência com ela fez com que eu absorvesse sua energia. Terra é o mundo e o meu quintal. Todas as flores que cultivamos fazem parte disso. Norma faz parte disso e eu também.
Permaneci imersa, reconhecendo a morte nas folhas secas e nas dores, e sentindo a vida em todo o resto. Abria-me com Norma, ajudava-a em sua floricultura. No entanto, o tratamento alternativo transforma almas, mas não doenças. Em duas semanas, voltei ao hospital. Fiz exames, dei continuidade ao tratamento, fui furada diversas vezes, nada exatamente de novo na minha rotina, exceto que os médicos tinham parado de falar sobre primavera. Era apenas silêncio, remédios e sorrisos hospitalares.
Acabei voltando para casa. Norma mostrou-me como as flores tinham crescido e eu alegrei-me por perceber minha estação transcendida ao jardim. Eu era rosa e camélia, primavera, outono, inverno e verão. Senti que ficaria na Terra para sempre.
Fale com o autor